João, escrevo-te uma segunda vez : )

 



Quase passou um ano desde a última vez que escrevi no Blog. E já passa mais um ano desde a tua partida.
Apesar de não te ter escrito, falo-te todos os dias. Várias vezes ao dia.

Este segundo ano foi bastante pior do que o primeiro. Talvez amenize. Ou talvez não. Tal como diz o Nick Cave, if we love, we grieve. É o pacto que temos nesta vida. O luto é uma recordação terrível da profundidade do nosso amor, e tal como o amor, não é negociável; estão interligados.

Podemos admitir que há uns lutos mais ‘fáceis’ de negociar do que outros? O Pai estava fragilizado, alheado, doente. Tu não. Na nossa última noite juntos, já no Hospital, falamos de coisas banais, e rimos. Mas tu e eu sabíamos que o que se estava a passar contigo era muito grave.

Daqui a pouco mais de 1 mês, vai fazer dois anos que partiste. O tempo passa numa reta unidirecional, é uma cassete que segue sem pausas, nem rewind. Houve uma pergunta que nunca te fiz. Tratamos e falamos sobre tudo. Nunca te perguntei se estavas com medo. Parecias calmo, sereno. Achei por bem deixar o senhor Medo do lado de fora.

Há quase dois anos que continuo a fazer essa pergunta. Imagino-te nesses últimos segundos; o que será que sentiste? Como é? O que se vê? Tiveste medo? Pergunta a Rita pequenina, que se senta na cama no teu quarto, enquanto estás de candeeiro aceso a desenhar. Nunca desenhavas de dia, sempre à noite.

Até que a resposta chegou esta semana.



A Inês surpreendeu-me! O filme Blade Runner ia passar no cinema ao ar livre, nos Terraços do Carmo, no Chiado. Estava uma noite perfeita, sem vento, amena. Ela conseguiu dois bilhetes, a sessão estava esgotada. Antes fomos procurar um lugar para jantar; seguimos por um fio invisível até entrar num asiático. Não tinham Pho, mas comemos Ramen e noodles. O início perfeito, à la Deckard. Quando começou o filme, realizei que já não o via há muito tempo. Sempre fez parte da nossa vida. Ou porque se ouvia a banda sonora, ou as falas icónicas, entre ti e o Vasco, ou estavas tu a ver uma cassete pela 26ª vez. Na última noite, quando depois de estarmos juntos voltei para casa, ouvi a banda sonora, do princípio ao fim, antes de me deitar.  



Mas nesta noite, com a Inês, ‘sorvi’ o filme com se fosse a primeira vez, cada fala e cada imagem. E foi então que tive uma epifania! Que foi, aliás, dupla.

A cena final do Roy, o robot super perfeito, mas finito. Ciente do seu fim e da sua condição:

“I’ve seen things you people wouldn’t believe…
Attack ships on fire off the shoulder of Orion.
I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate.
All those moments will be lost in time, like tears in rain.
Time to die.”

E depois, quando o Gaff aparece e diz a frase (sobre a Rachel) que tu e o Vasco repetiam dezenas de vezes, um para o outro:

“It’s too bad she won’t live. But then again, who does?”

O meu coração deu um salto.
Tu disseste-a para ti!

Terá sido assim?

Talvez seja meio infantil da minha parte pensar que terias forças para te imaginares como o Deckard, o Roy ou o Gaff, e que naqueles últimos segundos serias uma personagem do teu filme preferido. Mas, porque não? Sabes de cor cada frame, tu amavas aquela atmosfera, a música, a fotografia. Até a comida.

O Pai muito desconsolado: ‘Oh João, mas como é que tu gostas deste filme onde é sempre de noite e está sempre a chover?!’

A mim parece-me uma boa maneira de teres partido, a subir pelos prédios acima, a comer os teus noodles, sem medo.

Desta vez não me custou tanto escrever-te.

Beijos. 
Ly

Ps -Tenho imensas saudades. É uma anormalidade a falta que nos fazes.

Ps1 - Há uma lista de pessoas, várias, de repente, que poderiam ter morrido e sofrido tanto, e que estão vivas há dois anos. Mas não vamos entrar nessa cena da raiva e do rancor, do ódio, etc. pronto.

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