Imperfectum
Para os
romanos, o imperfectum, é o que falta cumprir. Está imperfeito porque
falta acabar. Na gramática, o pretérito imperfeito do indicativo refere-se a um
fato ocorrido no passado, mas que não foi completamente terminado.
Nos últimos
três anos, tenho servido de agente do imperfeito, pois estou a terminar um
trabalho que não foi acabado. Ou terá sido interrompido cedo de mais. Daqui a
um par de horas, é dia 16 de Julho. O João faria 52 anos. No dia 13 de agosto o
meu Pai faria 82 anos. Há datas que são como nuvens. Aproximam-se, assombram e
evaporam-se.
Seremos sempre quatro. Vivemos naquela casa, onde o quarto do João e o meu serviam de pontos finais numa reta – de um corredor, onde valiam todas as ‘batalhas’ entre dois irmãos. Crescemos sempre os quatro juntos. Até sairmos os dois daquela casa, para mais tarde voltar. Eu, com um bebé de três meses no colo, instalo-me no 2º andar, nas águas-furtadas. «Vai ser provisório!» - foram 10 anos. Pela planta da minha casa, o Martim dormia por cima do quarto do João, o escritório estava em cima do meu quarto. De um anexo nas traseiras, o João começou a criar um espaço para pintar e trabalhar, e o meu Pai foi-se juntando. Apesar da demência, conseguiu pintar muito para além do que seria expectável, por insistência do João. Eram os dois devotos do trabalho um do outro e muito amigos.
Eu
passava por lá, tantas vezes, para ir conversar. Ouvia-se sempre música. As
gargalhadas eram constantes e o sentido de humor apurado. Algo muito subtil e
genuíno. Como até hoje não conheci igual. Após a partida do meu Pai, a doença
do João instalou-se logo depois. Subitamente o Atelier fechou-se e o
espaço ficou estagnado. Cheio de silêncio. As telas vazias. Os pincéis verticais.
Ficamos perplexos com a partida repentina do João. Atónitos, sem reação. O
Atelier encolheu-se, quase desapareceu.
Uns meses depois,
tomei a decisão consciente de fazer do meu luto uma exultação, uma celebração do
talento e da obra do meu Pai e do João. De tornar aquele espaço uma galeria,
uma sala de tertúlia, encontros de amigos e de conversa. Meses a limpar, a
ir buscar móveis, a organizar desenhos, telas, a mexer em ferramentas, os
pincéis ainda com tinta fresca, tubos abertos, caixinhas com mil
parafusos, a fita métrica, os lápis, os pastéis, os acrílicos. Mexi em tudo o que eles tinham
mexido. Arrumar aquela ‘tralha’, tocar nos papéis, nos estudos, abrir
gavetas, descobrir outros tantos desenhos, entre lixo e pó, transformou-se num
luto maravilhoso, num privilégio absoluto. Cada vez que lá entrava, e me entregava ao imperfeito, chorava e ria. Ouvia música e falava com cada um. Limpava o chão e as
lágrimas. Foi absolutamente redentor.
Terminei
esse trabalho. Não ficou perfeito. Nunca fomos uma família perfeita. Adoramos,
até, a parede tosca a descascar. Continuo a servir de agente da imperfeição,
porque a ideia não é fechar aquele espaço, mas que seja um lugar aberto, em construção, aos
amigos e a quem goste de arte, e da conversa com um copo de vinho, e um cigarro - coisa que o meu Pai mais adorava.
Sigo o
meu propósito. Celebrando a vida incrível dos que amei e amo, que me faltam
como duas pernas, mas que foram maiores que a vida. É o que me faz seguir, é o
que me falta cumprir, e viverei enquanto me faltar cumprir.

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