27.7.10



Ao fim da primeira semana em África, já na nossa casa, com o frigorífico e a despensa bem compostos, as rotinas mais ou menos instaladas, começo finalmente a adaptar-me a tudo isto.
Não é à falta do banho quente (estas casas não têm água quente), da internet que há 2 semanas está afundada no meio do Índico entre tartarugas e baleias e não dá sinais de vida, do Pingo Doce com os sacos de rúcula lavada e do pão integral ao pequeno almoço, do leite magro e do fiambre de frango…


Começo a adaptar-me a este tempo, que não é um tempo onde eu tenha nascido. O meu corpo está feito ao relógio de um despertador europeu a pilhas e faz “tic-tac” como o seu ritmo certo e compassado.
Os dias aqui começam tão cedo que há galos que cantam às 02h30 da manhã… e acabam tão cedo que às 19h00 não nos importamos de vestir o pijama e ir para a cama com um livro, até o sono vir. E ele vem. E dormimos.


E pela tarde, o sol anda alto, espreita pelo ar quente e pelas nuvens tão bem desenhadas e completamente diferentes de qualquer tipo de nuvem que alguma vez conheci (tal como há um guia de aves europeias, acho que, por exemplo, deveria haver um guia das nuvens africanas, elas são realmente muito próprias).


As horas esticam e penduram-se nos embondeiros e lá esperam que o dia passe. O despertador das pilhas pode andar sempre “tic-tac”, mas as horas estão a olhar para a Baía e a ver os barcos a chegar e a ir, os pescadores a recolher as redes na praia, as crianças a brincar descalças em cima do ferro velho…


E o meu ritmo não sabe o que é isso, de ver as horas penduradas num embondeiro… e então dou por mim a pensar que não difícil viver a correr, com as horas a passar de forma estupidamente rápida; o que é difícil é viver devagar.

Porque aqui, cada minuto são 60 segundos, e o nosso coração bate 57 vezes, e inspiramos oxigénio e o sangue corre-nos pelo corpo, e a aranha acrescenta uma linha à sua teia, o pássaro preenche o silêncio e o caju amadurece mais um bocadinho. Mais um minuto.
Nota: este cajueiro está em frente à nossa casa e a Micha é nossa vizinha...

24.7.10

Álbum de Fotos da Viagem Maputo - Pemba


13 de Julho de 2010 – 3ªfeira
1ªtirada Maputo- Inhambane total: 520km


14 de Julho de 2010 – 4ªfeira
2ªtirada Inhambane – Inhasorro total: 950 km




15 de Julho de 2010 – 5ªfeira
3ªtirada Inhasorro - Gorongosa total: 1.389 km


16 de Julho de 2010 – 6ªfeira (dia de anos do Mano João)
4ªtirada Gorongosa – Caia total: 1.707 km


17 de Julho de 2010 – Sábado
5ªtirada: Caia - Nampula total: 2.407 km

18 de Julho de 2010 – Domingo (dia de anos da Mãe)
6ª e última tirada: Nampula - Pemba total: 2.823 km





















23.7.10

Moçambique Acima - Diário de Bordo (sem fotos)

13 de Julho de 2010 – 3ªfeira

1ªtirada Maputo- Inhambane total: 520km

Saímos de Maputo pelas 8h00 depois de carregar a carrinha e deixar de lado os 2 pneus que substituímos, pois já não havia espaço para mais nada! Parecemos os noivos a comprar enxoval novo e que partem em lua-de-mel com o enxoval às costas.

Seguimos pela Estrada Nacional nº1. À saída de Maputo há milhares de pessoas na rua, em mercados improvisados a vender tudo: fruta, roupa, colchões, escapes…

O caminho até Xai-Xai é em estrada lisa, com bom piso. Cruzamo-nos com muitos “chapas” (aqui, o conceito de autocarro é uma carrinha Hiace que cobra 5 meticais e faz percursos entre cidades e vilas) carregados de pessoas e mercadorias.

Está frio em Maputo, é Inverno em Moçambique. As crianças saem da Escola pelas 12h00 e vêm embrulhadas em capulanas que fazem de xaile. Há vendas de tudo à beira da estrada: laranjas, couves, tomate, coco, sacos de caju torrado, montinhos de lenha e montinhos de carvão (mais tarde, vim a perceber que nada se compra ao quilo, é tudo ou à unidade ou ao montinho, exemplo: um montinho de tomate, de cebola, de carvão, de batata doce, etc....)

A chegada a Inhambane foi já com o lusco-fusco das 5 da tarde. Queríamos ir dormir ao Tofinho (Praia), mas o sítio não tinha condições para deixar o carro tão carregado de malas e tralha durante a noite. Para lá chegar ficamos atulhados na areia e o carro só saiu com a ajuda dos miúdos a empurrar – eram dezenas deles!

Resolvemos ir dormir para fora da cidade, nuns lodges mesmo em frente à Praia (Coconut Bay), que apesar do nome à Miami Vice, é um sítio bem giro e simpático para ficar, não fosse o frio dessa noite (pusemos 3 cobertores na cama).

Nota: 1€ = 40 meticais


14 de Julho de 2010 – 4ªfeira

2ªtirada Inhambane – Inhasorro total: 950 km

Depois de visitarmos a Praia (que é absolutamente maravilhosa!) e do pequeno-almoço pelas 8h00, vimos uma baleia! Andava na praia, perto da margem, entretida, dentro e fora de água, com o seu repuxo fortíssimo como um géiser. Nunca tinha visto uma baleia assim. Na praia parece ser ainda mais bonita! Esta é a época das baleias, é por isso de se esperar ver mais por aí.
Nesta tirada conduzi uma parte do caminho, com volante à direita, o que não é nada fácil, mas vou-me habituando. Ao cruzar-me com as pessoas junto à estrada, tive a ideia de que as crianças crescem nas costas das Mães, e a seguir nas costas delas crescem outras, e assim sucessivamente.
Será isto o “eterno retorno”? Uma ideia de Nietzsche, de que tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez até ao infinito. (estou a ler “A insustentável leveza do ser”).
Conduzir nesta estrada é uma espécie de gincana, ou seja, há os outros carros e depois ainda há : pessoas, centenas de miúdos, galinhas, cães, cabras, bicicletas, cestos de fruta e de carvão e ainda os buracos. Não são buracos, são crateras!

Hoje passamos o Trópico de Capricórnio e sentimos a atmosfera mais quente.
Chegamos a Inhasorro pelas 16h00 tendo passado por um troço de estrada enorme que está a ser construído pela Mota Engil. Resultado: aquele pó encarnado ainda nos persegue passada uma semana!

Inhasorro é uma aldeia junto à Praia, simples mas simpática. A Praia é bonita e tem pescadores.
Encontramos a “Casa Luna” – uns lodges com tendinhas e casas em frente à praia e negociamos um bom preço para dormir uma noite.

Jantamos caril de camarão e caranguejo, que me soube muito bem. Amanhã é acordar cedo: saída às 7h30 e caminho até à Gorongosa.
Tenho tido algum frio …

15 de Julho de 2010 – 5ªfeira

3ªtirada Inhasorro - Gorongosa total: 1.389 km

Saída de Inhasorro em direcção à Gorongosa. No caminho há muitas vendas – neste troço é ananás, cajus e laranjas. Há bicicletas com galos pendurados nos guiadores, há muitos vendedores de galos e de galinhas pendurados de cabeça para baixo. São todos miúdos, há poucos velhos.
A estrada não é má de todo, com excepção dos últimos quilómetros a chegar ao Parque. Há um desvio de 11 km de estrada até ao portão do Parque e depois mais 18 km até chegar mesmo ao centro da aldeia de Chitengo.

A meio caminho, antes de chegar à Gorongosa compramos caju tostado – foi o nosso almoço. Chegamos pelas 16h00. Amanhã saímos às 6h30 para um safari de 3 horas pelo Parque.
A reserva da Gorongosa, após a guerra civil, ficou praticamente reduzida a zeros em tudo o que eram animais selvagens: elefantes, leões, leopardos, búfalos, rinocerontes, …. Era uma das maiores reservas de África e a maior de Moçambique. Tinha tudo aos milhares e centenas. Houve um americano, Greg Carr que enriqueceu com a venda da patente do voicemail e investiu milhões de dólares na recuperação da Gorongosa. Criou uma Fundação e vai levantado literalmente das cinzas o Parque Nacional da Gorongosa.

À hora do jantar passava um vídeo dos tempos áureos da Gorongosa, anos 60 e 70, com elefantes aos molhos, leões e búfalos. Aqui, o povo diz que foi a Renamo que matou os bichos… quando no fundo foram todos que os mataram, para não morrerem à fome, com as balas apontadas para o inimigo.

E pensando nisto, não consigo deixar de ficar angustiada, revoltada, triste. Esta terra é mais da natureza do que nossa – o homem destruiu tudo, a ele próprio e aos bichos magníficos e lindos que aqui viviam. Bichos selvagens, únicos e verdadeiramente donos desta terra.


16 de Julho de 2010 – 6ªfeira (dia de anos do Mano João)

4ªtirada Gorongosa – Caia total: 1.707 km

Manhã gelada na Gorongosa com saída para safari às 6h30. Vimos muitos antílopes e macacos, javalis, aves, crocodilos. Mas nada de elefantes nem leões. À chegada do safari, junto à nossa cabana havia um grupo de mulheres e homens numa dança muito primitiva, a cantar e a tocar batuque. Um ritmo intenso, oposto ao silêncio que se pôs na noite anterior às 6 da tarde.
O calor também começou a vir e num instante fica quente – o oposto da madrugada gelada. Tal como amanhece em 3 minutos e anoitece em dois. Opostos intensos.

Este pareceu-me ser o troço de estrada mais bonito, mais africano. Entramos na Província da Zambézia, com o seu magnífico Rio Zambeze!
Passamos por muitas queimadas – que eles chamam “queimadas frias” – algumas delas já incêndios, em que a terra se deixa consumir pelo fogo suavemente.

Muitos telhados de macotim (colmo), mulheres à beira da estrada de alguidares na cabeça com água, roupa ou farinha. Vendedores de mel – compramos 1,5lt. Vendedores de costeletas de cabrito já grelhado. Muitas crianças à beira da estrada. Aqui, tenho a sensação de que a N1, que une Moçambique de Norte a Sul, é como se fosse uma enorme veia que alimenta as populações. Os vendedores e as aldeias plantam-se à beira da estrada. Crescem bombas de gasolina por todo o lado. A estrada traz vida a tudo isto, os carros parecem ser sinal de esperança: algo que vem de lá.
Chegamos a Caia, a última cidade antes de atravessar o Rio Zambeze com a sua enorme ponte inaugurada…… Ficamos num lodge mesmo junto ao Rio, com uma vista muito bonita. Mosquitos, muitos. Vi mais uma bicicleta carregada de galinhas penduradas de cabeça para baixo, uma espécie de número de circo com equilibrismo galináceo.

Este pedaço de estrada, parte dele que contorna a Serra da Gorongosa, deixou-me a pensar que sofro com a ingenuidade deste povo, destas cabeças e cérebros que parece que pararam no tempo. E de que a ingenuidade desta gente é também um bocadinho a minha. Compreendo o raciocínio que eles fazem, acredito que “dá sempre”, que “não faz mal”, que “acontece, foi uma falha, desculpe” e encolho os ombros e olho para o chão.

Amanhã saímos cedo directos a Nampula – vai ser o troço mais difícil, mais longo.



17 de Julho de 2010 – Sábado

5ªtirada: Caia - Nampula total: 2.407 km

Começando pelo fim: a chegada a Nampula. A escuridão da noite a galopar mais depressa do que o nosso carro pela estrada fora, as centenas de bicicletas na berma da estrada, as fogueiras do entardecer, os formigueiros altíssimos, gigantes, as crianças a correr, as cabras e os cães. Não sabemos como chegamos ao Hotel sem atropelar uma cabra, um cão ou uma bicicleta.

A tirada foi muito forte – 10 horas de carro! Saímos de Caia às 8h10 e só paramos uma vez para almoçar e tomar um café. Foi um caminho duro com muito pó e buracos. Sem dúvida que a província da Zambézia é a mais bonita e expressiva desta viagem e de todo o percurso de norte a sul de Moçambique.
Mais vendedores de laranjas, tangerinas, carvão, arroz, feijão, farinha, mulheres carregadas de filhos às costas, bicicletas com cinco pessoas em cima.

A partir daqui até à chegada a Pemba começam a aparecer umas montanhas muito originais, os “inselbergs” – são pequenas montanhas que brotam no meio da planície, de granito vulcânico, com um aspecto completamente milenar e muitas com pinturas rupestres, que se podem visitar.
Pensamento: porque têm uns a sorte ou o azar de nascer onde nascem? Não podemos escolher o Continente onde nascemos. Acho que muita desta gente, miserável e com vidas pobres, se pudessem escolher, não quereriam ter nascido aqui.

18 de Julho de 2010 – Domingo (dia de anos da Mãe)

6ª e última tirada: Nampula - Pemba total: 2.823 km

Começo também pelo fim: chegar a Pemba. Obviamente que o cansaço ao fim de 5 dias de uma viagem de carro, com horas e horas de estrada, estava a dar sinais. Eu estava exausta. Foram quilómetros de pó e de buracos, muita falta de café, algumas dores de cabeça, já a última noite mal dormida com dores de barriga, pouco espaço dentro do carro, roupa encardida (a água da minha roupa interior, quando a lavei, era da cor do pó).

E quando chegamos a Pemba, a nossa casa parecia um cenário na faixa de Gaza: as paredes sujas, um colchão velho no chão, pó em todo o lado, a casa de banho nojenta com um espelho partido, coutos de velas no chão, a cama partida com o colchão a rebentar de molas ferrugentas, a cozinha com loiça suja, aranhas e baratas mortas no chão…

Houve então a explosão máxima, uma pressão horrível, o sentir-se perdido, exposto, exausto e derreado. Mas… é nas situações mais difíceis que devemos ter mais força. E a união faz a força. Dormimos num Hotel por duas noites e em 3 dias arranjamos a casa: fomos comprar tinta branca e rolos para pintar as paredes, compramos cortinas novas (feitas com capulanas que eu cosi!), uma cama e uma cómoda e arranjamos o Yassin (é o nosso empregado cá, aqui não há empregadas mulheres), que nos esfregou e limpou a casa toda e lavou-nos a roupa à mão.

Hoje, à 3ªnoite nesta casa, já dormimos bem e já cozinhei o almoço e o jantar. Este já é finalmente um cantinho nosso!

11.7.10

"When we can't dream any longer, we die."

Emma Goldman



Hoje, em Maputo, quando tirei o pacote de acucar para por no cafe saiu-me esta frase.

Aqui, os pacotes de acucar deixam-nos a pensar...

6.7.10






Eu sei.


Eu sei que tu não sabes o que é "ir" e depois "voltar". Eu sei que tu não percebes a distância do tempo, o caminho pelo espaço, a terceira dimensão.


Eu sei que tu não achas que te abandonei, porque tu és um cão.


Eu sei que tu és um cão, sei que tu não lês, nem escreves, nem falas.


Eu sei que tu és um cão, fazes xixi nas rodas dos carros, chafurdas nas poças, corres atrás dos pombos, puxas muito quando vais com a trela, arrancas a relva do jardim, comes até a relva, sujas tudo quando bebes água, cheiras tudo e até os rabos das pessoas.




Mas eu sei que tu gostas e que tu sentes. Sentes medo, sentes alegria e às vezes andas triste. Tu falas muito, pelos teus olhos, eu sei bem o que eles dizem. Tu roças-te em mim e no Alexandre, nas nossas pernas e lambes a nossa cara, porque tu gostas de nós.


Tu sonhas alto e dás amor em troca de quase nada. As pessoas acham que como tu és um cão, os cães não dão coisa nenhuma. Mas eu sei que tu dás amor, gratidão e amizade. Incondicionalmente. É por isso que, para mim, tu és o melhor cão do mundo!
Sabes, as pessoas devem achar que eu sou muito parva por te estar a escrever, mas eu quero lá saber.


Gosto muito de ti, sim?




Adeus e até já...




2.7.10

É Natal no Verão

Nesta minha última semana, antes da partida para Moçambique, tenho tido o Natal no Verão.
O encontro com a família, à volta da mesa, pais, irmãos, primos e os Tios, comer bacalhau e arroz doce.
Porque afinal o Natal é mesmo quando o homem quiser. E eu tive uma semana inteirinha dele.
Além disso estive com os amigos, em jeito de balanço de final de ano, como se uma partida fosse uma mudança de calendário. Como se começasse tudo de novo.
Acordo lentamente de um estado de transe, como se andasse meia anestesiada, pois só assim iria aguentar a carga de assuntos/ coisas a tratar.
Já me dei conta de algumas coisas, mas também já pensei: não puxes muito por isso... não interessa.
Fazer o Natal no Verão é ser outra coisa que não é suposto e quando somos assim, sentimo-nos mais longe.
E fazer o Natal no Verão, é perguntar: porque não?