30.4.09

As cartas...


...de sobremesas.

Ora aqui está um ponto nevrálgico a debater. Não são as cartas de amor, que são ridículas, nem as do condomínio, mal escritas. São as cartas de sobremesas!

O marketing das sobremesas em Portugal é corriqueiro e pobre em estilo. Inventam-se nomes e versões repuxadas de coisas que se querem simples. Fica tudo ao critério da imaginação de uma criança de 10 anos, que deve ter sido quem pensou nestes nomes: vulcão de manga, delícia de semi frio, surpresa gelada... e a melhor - a baba de camelo! Traduzir isto era engraçado: "camel slaver..., it's very good" (?!)

As cartas de sobremesas são tratadas como um mal necessário. Parecem uma espécie de empecilho para o mundo da restauração em Portugal. A visão é a seguinte: têm as bebidas, tudo quanto há, muita sopa, salgados, muito bacalhau, arroz, bifes de vaca, perna de porco e muito café. As sobremesas é uma chatice! É coisas com açúcar. Um inferno. Não têm graça nenhuma. Então, toca de lhe dar nomes originais e fazer do leite creme, das natas e da bolacha Maria o "Doce da Casa". Facilita muito mais. Umas mousses, fruta e faz-se a festa.

Isto é cruel para quem, como eu, tudo terá de terminar tão bem como começou. Com uma excelente sobremesa. E as cartas de sobremesas são uma literatura essencial que muita falta (me) faz quando vou jantar ou almoçar fora.

Enuncio então os vários tipos de cartas de sobremesas :

- as cartas da "Olá!" ,"Menorquina" e tudo o que seja de uma marca de gelados, que lá no meio mete a Taça Whisky com o Doce da Avô. As fotografias normalmente são de má qualidade, têm todas não sei quantas cruzes à frente de cada sobremesa daquilo que há, não há, havia, houvesse, metem a fruta no meio, como se isso fosse um doce, enfim... uma desilusão.

- as cartas que estão incluídas no próprio Menu do Restaurante, mas que no fundo não são mais do que cartas da "Olá!" disfarçadas, porque têm lá tudo igual: a criatividade nula dos nomes e da produção doceira (Doce da Avó ou Doce da Casa, semi frio de natas, mousse e fechamos a loja)

- as cartas das empresas de sobremesas que fornecem os Restaurantes. Essa coisa da "Doce Tentação" ou o que é que se chama, que faz a mousse de caramelo em taças de pvc cor de caca com uma capinha plástica com a data de validade em cima, é coisa do demo! Parece que nos estão a servir comida de avião a saber a amendoim mole e bafiento.

- as cartas que não existem. Isto é, quando olham para a vitrina (também da "Olá!" ou da "Menorquina" - mas alguém come estes gelados?....) e dizem: "Temos o doce da casa, a tarte de natas, a mousse, o abacaxi e o melão". Tudo juntinho lá na arca. Maravilha.


Mas é tudo mau? - perguntam vocês. Não, não é tudo mau. Há excepções, claro.
O Bolo de Arroz reconhece esse esforço herculiano que alguns fazem em apresentar uma coisa simpática. Uma carta à parte, com sobremesas, fruta, cafés e digestivos. E uma escolha simples e criteriosa de sobremesas. A ideal não existe, mas eu posso sugerir uma?
Quanto menos adjectivos, palavras e letras tiver um doce, melhor. É como no amor - quando ficamos sem palavras é porque estamos mesmo apaixonados, certo?
Alguns exemplos: leite creme. arroz doce. mousse de chocolate. mousse de caramelo. tarte de maçã. gelado. merengue. farófias. trouxas de ovos.

O Bolo de Arroz é guloso, pois.

Para os que a seguir ao prato só bebem o café, e acham isto uma perca de tempo, digam lá se gostavam de comer o bacalhau com broa todo enroladinho numa caixa tipo BigMac com um autocolante em cima, a broa ser papo seco duro e o azeite ser óleo fula?
Não gostavam, pois não?
Então, pronto.
Quero uma mousse de caramelo, VERDADEIRA, se faz favor.


28.4.09

Contra peso

E assim, acontece.
Deve haver qualquer coisa de celestial que nos compensa pelo mau que passamos. Acredito que isso é possível.

Há uma espécie de balança invisível que vai pesando os momentos da nossa vida - os que o destino e a sorte toma e aqueles que nos acontecem porque assim o fazemos para acontecer.
Creio que cada vez que essa balança se mostra demasiado desequilibrada, a mão, de uma justiça celestial, coloca o contra peso do outro lado. Procurando o equilíbrio.
Não é imediato, nem quando nós assim exigimos - pede-se tempo e paciência.

Ultimamente tenho observado mais de perto este fenómeno do contra peso. Talvez porque houve uma altura em que a minha vida era um foguete de fim de ano e houve um contra peso de toneladas para "compensar" o desalinho. Não é fácil, mas para me "consolar" acreditava que uma outra pessoa, num outro lugar do mundo, recebeu o meu excesso e eu tomei-lhe o defeito.

Passam uns tempos e começamos a pender mais para um lado escuro, mais triste, mais mau. Já reclamamos o contra peso! Aguardarmos, e ele acontece. Como um acto de fé. Acontece.
Hoje tive um contra peso no meu dia, que me compensou o desiquilibrio dos últimos tempos.
"Toma" - diz - "aqui tens."

A nossa balança é finalmente nivelada, mas sabemos bem que daqui a pouco virá do outro lado mais alguma coisa. E assim a ordem põe-se sobre as pessoas e sobre a terra. Porque ninguém tem tudo, nem ninguém tem nada. Todos somos tudo, o bom e o mau. Essa matéria circula entre nós, trocamo-la uns com os outros, dando, recebendo, levando, apoiando, suportando.

Se hoje, a balança de uns está em baixo, amanhã será a vez dos outros. Eu acredito que esta é a ordem da vida. Haverá sempre um contra peso. Mesmo depois da vida, ele nos irá compensar.

27.4.09

O vento

Pois estou exactamente com a mesma disposição.
O vento, dizia a Professora de Geografia, é "ar em movimento".
É coisa irrequieta, não perene. Coisa que dá comichão nos olhos, na cabeça.
E a pedido de alguns, e pelos comentários de outros, não há nada que nos inquiete mais do que o vento.
E começar a semana assim é um suplício.
Uma irritação.
Hoje o Bolo de Arroz está cheio de açúcar na cabeça, irrequieto e arreliado.
O vento move-nos e isso é desconcertante.
Melhores dias virão.
Saudações.

23.4.09

Dia Mundial do Livro

É. É hoje.
Tinha este bolo que sair da sua cintinha apertada e ir até uma Livraria prestar cumprimentos aos ditos livros.
Hoje estou a ver que não o consigo fazer, infelizmente.

Bom, bom era ir até à BN. Gosto de lá ir. Traz-me um silêncio forçado, que me obriga a pensar e a sonhar as palavras escritas. Os melros é que de vez em quando me trazem de volta.
Lá, os livros repousam aguardando que saia uma cota, quando eu faço "clic" no rato do computador.
Gostava de por lá andar naqueles corredores de silêncio, só a observá-los.
E depois descobrir um tesouro, porque os livros trazem sempre uma pista para qualquer coisa que procuramos e não encontramos.

Caminhais em direcção da solidão. Eu, não, eu tenho os livros.
MARGUERITE DURAS

22.4.09

Agora, sim...

Parece que chegou!
A Primavera, pois.
Ando eu e ele (cão) pela rua e ele faz-me sempre o mesmo reparo: " andamos aqui nesta vida desde Fevereiro, e eu nunca vi outro tempo..."
Eu respondo que não. Que agora as árvores estão cobertas de folhas verdes.
Mas é-lhe indiferente, o tempo é sempre o mesmo.
Às vezes é preciso que se sintam as estações lá fora e cá dentro de nós. Que do Verão passemos ao Outono e daí ao Inverno...
Nós também precisamos de uma metereologia, de ciclos e passagens.
O Borda d'Água é isso mesmo, feito manual de instruções das estações do ano. O que devemos plantar, colher e tratar. Os dias vividos e ainda por saborear.
Gosto de o ler porque assim sei que as estações existem, lá fora e cá dentro também.

20.4.09

Árvores


A minha Mãe, que adora árvores, disse-me um dia que não haveria gesto mais bonito do que plantar uma árvore. Não pela realização da pessoa em si, mas pelo sinal de altruísmo que era plantar uma árvore. Quem planta uma árvore, escolhe os outros para a verem e contemplarem.
São precisos anos e anos para que uma árvore seja aquilo que ela é. Mas ela só é o que é hoje, porque alguém a plantou há muito tempo atrás.

Quando passo num eucalipto gigante e velho, nos jacarandás em flor ou num enorme cipreste, digo sempre, dentro de mim, "obrigado". Obrigado a quem plantou aquela árvore, que já se passaram anos e em algumas, séculos. Essa pessoa já cá não está, nem os filhos ou mesmo os netos. Mas a árvore ficou. De pé.

As árvores são torres de silêncio carregadas de vida. São firmes mistérios vincados no chão.
Gosto de todas, mas a minha árvore preferida é o cipreste. Os ciprestes do Van Gogh, gordos e corpulentos, carregados de luz e de cor. Os ciprestes dos cemitérios, misteriosos e ocultos. Os ciprestes no campo, estacas que marcam as terras e de noite levam o nosso olhar para o céu estrelado.

Obrigado, Mãe!

18.4.09

Dicionário da Paula

Sendo o português uma língua viva, há quem a considere ainda uma língua livre e com personalidade própria.
A Paula ensinou-me isso.
Quando ela chega e diz-me que "rebentou uma rotunda!" eu percebi que tinha havido uma ruptura de um cano no meio da rua e por isso o autocarro atrasou-se. Se pergunta "está a dormir ainda muito fundo", logo vemos que quer saber se dorme profundamente.

Glossário (em evolução, tal como a uma língua viva):
Lidl - "Lidu"
Bingo - "Bimbo"
Passe - "Passo"
Cubículo - "Cubicu"
(actualização em Setembro)
Virus - Viru
Nódulo - Nódu

17.4.09

Para ti.

Um busto. Uma expressão. Um olhar que nos prende. Uns minutos de silêncio. Uma paz contida dentro de um bloco de pedra branca. Um pensamento. Um amor eterno. Para ti.

16.4.09

Bolo de Anos - Pinky

No Bolo de Arroz há espaço às efemérides. Como os anos de nascimento de grandes escritores e actrizes, pessoas, amigos e desconhecidos, cães e outros bichos.
A inaugurar.
Pinky, cadela pastor alemão, nasceu em 2003, faz hoje 6 anos que na nossa idade correspondem a 40 anos! Fiel companheira e inteligente (íssima).
Parabéns, quarentona!

15.4.09

Manta de Retalhos - Ana

Há um tema que me assalta com frequência e personagens que me agitam cada vez mais.
São os velhos. Os idosos - que velhos são os trapos, diz o povo.
E quanto mais velhos, mais lá trazem dentro. Para mim são como "arquivadores" com duas pernas e dois braços. Têm dezenas de pastas (anos que passam), centenas de temas (dias), milhares de palavras e de sentimentos (horas e minutos).

Tenho conhecido muitos, aqui pela cidade. Uns fui a casa deles, outros vou conversando na rua, porque quando se tem um cão o mundo parece que fica cheio de gente com cães.
Há uma coisa que os velhos têm e nós não - TEMPO.
E eles oferecem-nos esse bem raro, mas nós não temos tempo para o tempo deles.
Não há tempo para os velhos.

Entrei na casa de uma senhora no centro, centro da cidade. Carros, gente, cartazes de publicidade lá fora - o tempo a correr. Lá dentro, estava o tempo todo empacotado em divisões vazias, fotografias muito antigas, quadros, soalho velho, uma cozinha decadente, uma secretária e uma máquina de escrever.
Essa senhora chama-se Ana e tem 91 anos. Vive sozinha. Vi fotografias da Ana com uns 50 anos. Fotografias daquelas do Natal, com todos vestidos de missa do galo, com os adultos lá atrás e os mais pequenos à frente, restos de papel de embrulho e fitas. Havia outra da Ana de vestido comprido e um homem ao seu lado de smoking, as cores já muito ténues mas dava para ver que ela tinha um vestido bonito.

A Ana não sai de casa há 4 anos. Os filhos, ou deverão ser os netos, abandonaram-na. Disseram-me que era por ela ter mau feitio e por nunca ter gostado das noras. Quando a visitei não encontrei mau feitio nenhum. Separavam-nos 60 anos de vida. Agarrei as mãos dela e senti uns dedinhos de pele e osso muito frios e frágeis. Os olhos eram dois buracos águados muito fundos. E Ana só queria dar-me o seu tempo que lhe sobrava aos montes, preso ao roupão velho com que andava pela casa fria.

Vamos todos lá chegar um dia, ao tempo da Ana. E nunca queiram adivinhar que daqui a 60 anos a vossa vida está tal e qual o que é hoje. O que eu faço, agora, é aceitar o tempo dos velhos, resmungões ou calados. Recebo aquilo que eles têm a mais e dou-lhes o que tenho a menos.
Para eles foi um ano que passou, para nós foram poucos minutos.

Ana, dei-te mais um bocado do meu tempo, mesmo que não o saibas ele aqui ficou para que te custe menos a passar os dias.


Foto: Jardim da Gulbenkian, Nov. 2008

13.4.09

Bric à brac



Drogarias, lojas de ferragens... sei lá porquê, fascinam-me!
Cheiram a sabonete e a parafusos, lixas e limas das unhas. Têm de tudo, sempre a mais. Há sempre coisas penduradas no tecto, na porta da entrada, espalhadas pelo chão. Não estão arrumadas mas obedecem a uma ordem. Uma drogaria sem vassouras e jericans pendurados no tecto é uma tristeza; uma loja de ferragens tem de ter 98 maçanetas pregadas numa parede e 101 gavetas com o parafuso do lado de fora!

Normalmente quem está do outro lado veste bata, porque a diferença com uma farmácia é pouca. Qual é o problema? Coisas desde nódoas a motores de máquinas que se avariam.
Tento sempre arranjar um bom pretexto para ir à drogaria ou à loja de ferragens: uma escova especial em arame de aço, 1 saca de rolhas de cortiça, 1 alicate de pontas finas, massa de silicone castanha, 2 metros de plástico transparente...

Depois, ainda há um sub mundo que é o armazém destas lojas, onde ainda existem mais ferramentas e ácidos que limpam os canos em 2 segundos... e derretem-nos também. Mas também têm solução para o cano derretido!

São universos auto suficientes. Completam-se em si mesmos.

Mais do que comércio tradicional, estas lojas são inventários de vidas inteiras. Ouvem e tratam os nossos problemas e lá pelo meio, soltam-se as palavras e além da máquina de lavar a quem se partiu um suporte, lá vem um lamento, dos dias que se fazem curtos, do dinheiro que chega para pouco, da saúde que é de menos...

Para isso, não há uma chave sextavada nem soda cáustica que nos valha, mas para tudo o resto há um mundo de objectos, mais vasto do que a nossa imaginção.

Nota: A foto podia ser cá, mas não! É uma drogaria de Pienza (Toscana). O fascínio persegue-me, pois.

12.4.09

Renascer

v. intr. nascer de novo; reaparecer; renovar-se; (fig.) adquirir novo vigor, novo impulso; rejuvenescer.

Há quem renasça pela força das circunstâncias (num sentido muito lato) e há aqueles que incessantemente procuram a renovação.
Houve tempos em que renasci várias vezes, por achar que me gastava muito por dentro, enquanto a vida me passava. Porque me ouvia em demasia, sentindo o peso do meu corpo e da massa dos meus pensamentos que viviam dentro de mim.
Então todos os dias, quase todos os dias, renovava-me. Mastigava palavras surdas cá dentro. E então nascia outra vez.

Mas assim como uma coisa que nos aguarda no escuro, que nos sente e nós não a vemos, renasci pela força das circunstâncias. Pela dureza da vida. Que nos deixa de braços soltos e vazios, à espera de um consolo pelas dores que passamos. A consolação é a cadência dos dias e das horas. Temos cortes e dores profundas, sem sangue nem choro. Volta a nascer uma pessoa com 31, 57, 21 ou 65 anos. Corta-nos a respiração, suspendemos um suspiro. E estamos muito sós. Ninguém avisa quando renasce tal como ninguém nos visita quando renascemos.
Tudo o que passamos é tão só.

E depois? Depois nada.
Somos maiores e mais inteiros? Não. Somos ainda mais pequenos, porque tomamos noção da nossa dimensão no universo. Sentimos o peso da massa do nosso corpo e apercebemo-nos que, afinal, somos feitos de carne e ossos. Afinal, só nos distingue o espírito que é matéria que vive fora do nosso corpo.
E os outros? Dos outros (que nunca renascem) temos medo.

Há palavras que carregam mais que outras, tal como há dias mais cinzentos.




11.4.09

Primavera que teima...

Peonias.
Na jarra, podiam ser feitas de suspiro...

Hoje meti as mãos na terra. Plantei flores e alfazema. Agora é uma surpresa todos os dias.
Mas a Primavera teima.

10.4.09

Sexta Feira da Paixão

Hoje, excepcionalmente, houve funerais. Foram cerca de 200.
Hoje, no dia da morte de Jesus, que celebramos no mundo novo, ainda há cerca de 28mil famílias sem casa e sem luz. Morreram cerca de 20 crianças.
Parece um cenário no 5ºmundo; mas é mesmo aqui ao lado, em Itália, na cidade de L'Aquila.
Sinto que posso fazer muito pouco por aquela gente que viu a vida desfeita em pó. Sente-se bem o cheiro daquelas casas antigas, carregadas de história, dos edifícios centenários e dos telhados toscos. São cidades com memória.
E hoje a minha memória dorme por lá esta noite. E numa Biblía de folhas fininhas e amareladas. Hoje a minha memória dorme numa cidade. Numa terra santa.
Tudo está cumprido.

9.4.09

Delicatessen

Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. (...)
Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo. (...)
- Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
É a 1ªedição - 1901. E é minha.
Um pão-de-ló não pode saber melhor!

8.4.09

A Geração do Meio


Esta aqui ao lado, no meio das flores do campo e das caixas da fruta, sou eu com pouco mais do que 5 anos.
Dizem que com essa idade já temos tudo preparadinho para construir a nossa personalidade. Eu estava a crescer.
Já fiz 30 há dois anos. E lá vou caminhando para os 35. A personalidade já toda construída, mas ainda a crescer.
Quando fiz 30 anos dei-me conta que eu, mais os outros que nasceram naqueles anos 70 pré e pós 25 de Abril, somos uma geração esquecida. Somos os irmãos do meio, que estão sempre a querer chamar a atenção do mais velho e ainda a querer brincar com o mais novo. Somos uma geração tipo sanduíche, bem encaixadinha no meio, indiferente se é manteiga ou queijo, o que importa é o pão por cima e por baixo.
Não nos lembramos do 25 de Abril, porque não estávamos na Escola, nem nos disseram para ir para casa sossegados. Não lemos "O Crime do Padre Amaro" às escondidas, nem escritores franceses intelectuais, não fumámos marijuana, não nascemos em Angola ou Moçambique, não nos filiámos em nenhum partido...
Mas brincámos na rua, ouvíamos gira-discos e usávamos cotoveleiras nos pull-overs sempre azuis escuros, verdes ou encarnados. Lembramos-nos de andar com os joelhos todos esfolados, jogar à mosca e saltar à corda. Sabemos que os carros eram quase todos feios, não tinham vidros eléctricos, a nossa roupa era normalmente coçada e do irmão ou da prima mais velha, as pastilhas elásticas custavam dois e quinhentos e havia o corneto de laranja.
Vivemos tudo aquilo que era o "antigamente"; as coisas eram como eram, pouca coisa e alguma alegria. Depois veio a Europa, a CEE. Que novidade. E depois veio a loucura dos anos 90, quando nasce precisamente a geração que agora se prepara para entrar na Faculdade. Aquela que sempre foi à Zara, comeu McDonalds sem guardar a primeira palhinha de recordação e acha o Eça de Queirós uma autêntica seca. E nunca, mas nunca, se irá lembrar de nada do que foi o 25 de Abril.
Nós aqui andamos. Perdidos.
Não nos juntamos a ninguém. Os mais velhos insistem em que muita coisa mudou e era diferente, antes do 25 de Abril. Que é preciso termos posições políticas, pensar sobre o papel do Estado, debater ideias e opiniões. A revolta.
Os mais novos esquecem-se de que existem. Acham que nunca vão ter de tratar de nada, porque alguém vai tratar disso por eles. Não pensam, não querem saber. É uma carência de existência brutal.
Nós, os do meio, sabemos que muita coisa mudou, porque no Natal recebíamos dois presentes e havia dois canais de tv. Sabemos que há falhas graves no Estado português, porque na nossa Escola levávamos reguadas da Professora e tínhamos medo das contínuas nos intervalos.
Mas sofremos. Os nossos Pais não compreendem o que é ser free lancer e passar recibos verdes. Comprar casa não é um luxo, nem mudar de carro. Não temos de ter sempre o mesmo emprego e somos despedidos enquanto o diabo esfrega o olho. Podemos não querer ter filhos. Podemos querer ir viver para o campo e ser agricultores.
Nós não queremos a revolta. Não queremos ser Ministros, nem procurar tachos.
Queremos existir, simplesmente. Construir o viver. Sentir as feridas e as dores. Pensar no esquecimento.
Mas o que é isso? Ou nos revoltamos porque sentimos o 25 de Abril ou aderimos às calças que roçam o chão, como coisas que vão sendo e durando sem qualquer fundamento.
Somos uma geração empacotada num rótulo sem nome. Nunca fomos "Geração Rasca" (se fomos, a de agora é o quê? Podre?). Somos uma geração tipo Porto vintage. Só de muitos em muitos anos é que lá calha uma colheita assim. Que saí das normas e dos parâmetros standard.
Mas que talvez por isso, seja única e muito especial.
Tomem atenção.

7.4.09

O Primeiro Dia

Hoje é dia 7 de Abril. Diz-me o meu Borda de Água que é Dia de São João Baptista de la Salle e Dia Mundial da Saúde. É o primeiro dia do meu primeiro Blogue.
Amanhã é o segundo, pois.
No Primeiro Dia de aulas não me lembro de nada, mas lembro-me que fiz logo uma amiga que se chamava Verónica. No Primeiro Dia do meu primeiro emprego vesti-me como se tivesse 45 anos e não sabia nada. No Primeiro Dia da minha vida a dois dobrei as boxers dele enquanto reparava na minha aliança que reluzia.
No Primeiro Dia do meu Blogue comi um bolo, escrevi, fui à minha Junta de Freguesia, cujo staff facilmente faria parte de num guião do Woody Allen e fui ao Banco que estava em "off".
Agora, vou passear o cão. Isso faço todos os dias!

Tudo começa pelo princípio...


A Receita do Bolo de Arroz
O Bolo de Arroz tem várias receitas e, imagina-se, sem qualquer tipo de arroz!
O Bolo de Arroz é um mito urbano, porque não leva arroz, mas chama-se Bolo de Arroz.É como deixar escorrer a água um bocadinho no cano antes de encher o copo, não vão vir bactérias que co-habitam às saídas dos canos.
São mitos, pois.
Então, este Blog é sobre mitos urbanos? Não, não é.
Este Blog é sobre as coisas mais simples da vida, como um bolo de arroz que encontramos em qualquer pastelaria, mas que de tão simples, são complicadas de se descrever.
Experimentem lá descrever um bolo de arroz. Chama-se bolo de arroz mas não leva arroz, tem uma cinta à volta, uma capinha por baixo, tem uma camada de açúcar, mas só em cima, uns são de açúcar em pó outros mais crocantes... complicado, hein?
Coisas como ter +30 anos, cozinhar um gelado de praliné, ir à drogaria, estar apaixonado...
Então, este Blog é sobre receitas de cozinha, mas disfarçado de coisa intelectual? Não, também não.
Eu adoro escrever e adoro bolos. Adoro material de escritório - se fosse rica comprava já a Papelaria Fernandes - e adoro rapas e tabuleiros de ir ao forno.
Então, este Blog é sobre o quê?
É sobre isso mesmo. Aquilo para que ele irá servir.
Espero que o utilizem; tal como damos uso aos lápis e às canetas, às colheres de pau e às saladeiras.