26.2.10

Livro de Reclamações

Nome: Flash
Data nascimento: 2 de Novembro de 2008
Raça: Labrador / preto / macho


Caros leitores deste Blog,

Era suposto eu vir cá uma vez por ano, do tipo falar bem dos meus donos e etc, mas isto chegou a um ponto que eu não aguento mais!!
O que é isto que se está a passar nesta casa??

De manhã, ainda andava eu a roçar-me nas paredes como de costume, a deixar o surro do meu pêlo pela casa toda, mesmo depois de ter saído o meu alfa, que se despede sempre de mim, dizia eu, estava a roçar-me quando chegaram 3 homens a cheirar a cartão canelado que começam a mexer nisto tudo!!

O meu alfa nem sequer aqui está a dar conta disto e meteram tudo dentro de caixas brancas com letras pretas. Tudo, senhores!! Deixaram o meu tapete e pouco mais.

Mas o que é isto???

Ainda meteram conversa comigo e deixaram-me roer um tubo de fita cola, mas mesmo assim, havia alguma necessidade disto que vejo? O corredor onde me esfrego na parede está tapado com caixas até ao tecto.

Sinto-me mal e injustiçado. Se soubesse que era assim, não tinha pedido à minha Mãe para vir para Lisboa, tinha ficado em Samora Correia que é muito melhor e não há homens a fazer desaparecer coisas e a cheirar a cartão canelado.

Os meus irmãos disseram logo que era má ideia, escolher um casal da cidade, mas eu quando os entrevistei vi fotos da casa e era lindíssima. Bonita e grande, onde eu podia escolher 3 quartos. Eu escolhi logo a suite com casa de banho e sofá.

Hoje venho a saber que afinal não é nada disto.

Vou apresentar a minha queixa à Associação Protectora dos Animais e à União Zoófila.

Agora vou dormir, estou cansado e estive todo o dia a ladrar, a dar conta de quem tocava a campaínha. Isto foi um entra e sai como vocês não imaginam!!
Além de que tive uma indisposição e a ração saiu-me toda pela boca, mesmo em frente a um dos senhores que estava a mexer nas coisas. Senti-me exposto e vulnerável.

Isto tudo, tudo com o meu alfa fora de casa.

Uma vergonha.
Um vexame.
Uma calúnia.

25.2.10

Casa


Sempre gostei de imaginar o sítio onde as pessoas estão quando apenas as conhecemos pelo telefone. Como se vestem, os traços que as distinguem.
Como também sempre gostei de imaginar o espaço onde alguém escreve. Como será? Escreve na cozinha? Numa mesa grande, ou com o computador ao colo?
Aqui está onde eu escrevo.
Os 95 textos deste Blog (quando chegar aos 100 fazemos uma super campanha de desconto em micas plásticas) foram escritos aqui, no meu escritório com janela para a rua e vista para a sala, em frente.
Eis-me aqui novamente a escrever pela última vez neste espaço físico; já o virtual continua, mas o bolo de arroz vai mudar de casa!
A ideia assusta-me, pois eu sou tipo bicho que quando chega cria o seu "ninho", marca o seu território e dali ninguém se mexe.
Mas quis a vida que nada assim fosse, e assim tornei-me num paleolítico superior. Já não sou tão primata... assumo que nada me pode prender e só interessa o que viaja cá dentro de mim.
E para um último texto vindo daqui, não podia deixar de me despedir da minha casa.
Foram só 5 anos, mas talvez tenham sido os mais "centrais" da minha vida.
Passei aqui para o 2º terço da minha vida (chegando eu até aos 90), descobri que afinal nada é como esperamos ser, que há quem nos faça mal, que há coisas que não nos são devidas só por que as merecemos, que a vida não é assim tão fácil.
Cresci aqui dentro, muito mais do que em qualquer outra casa.
Esta casa tem uma alma grande e sempre me recebeu bem.
Todos que cá vieram sentiram isso mesmo, é uma casa com bom espírito!
A sua energia foi essencial para me ajudar a passar por dias e por horas muito difíceis.
Assistiu ao meu desabalo, onde espero nunca mais conhecer-lhe a cor e o cheiro.
Trouxe-me de volta, deu-me a sua luz, a sua altivez, os seus traços longos.
Hoje escreve comigo estas linhas. Sabe receber quem vem de novo e aguarda ansiosamente por conhecer outros passos, outros ecos e outros cheiros.
A mim resta-me despedir e agradecer a sua companhia por estes anos.
Adeus casa.

23.2.10

Bicicletas

Cheguei.
Não consigo escrever mais nada.

Das fotografias que tenho podia escolher tantas outras, mas prefiro esta.
As camaras de ar das bicicletas servem de brinquedos. Os pézinhos descalços marcam a areia na estrada e os sorrisos são sempre verdadeiros.

Daqui a nada parto para outra viagem.
Mudo de casa.
Mais um passo para se chegar a um novo caminho, o "desvio" começou.
A despedida de uma casa é também uma coisa que nos mexe por dentro.

Muita coisa mexe aqui dentro. E quando isso acontece, não consigo escrever mais que umas linhas.
Não consigo escrever, logo agora que queria dizer tanta coisa.

11.2.10

Observatório urbano

O que eu vejo por aí, todos os dias, a todos os minutos, dá-me vontade de ter um botãozinho que passa tudo para o Blog, do género tradutor simultâneo da voz mental para os dedos das mãos.

Há gente que pára o carro, com o semáforo verde, no meio do Saldanha às 9 da manhã, para receber o Jornal Metro, a seguir estica o braço para o Global Notícias e por fim mais à frente o Destak. Está tudo maluquinho?

Hoje de manhã ia batendo numa tipa que parou o carro de repente, no meio da Fontes Pereira de Melo, para receber o Metro. Apeteceu-me sair do carro e fazer-lhe uma entrevista, à Mário Crespo, com calma e voz suave, sobre a relação proporcional entre ler o Jornal "Metro" e o preenchimento de uma declaração amigável no meio do trânsito da cidade às 9 da manhã.

É por essas e por outras que faço agora um intervalo.
O Bolo de Arroz vai apanhar um bocadinho de sol e muita humidade na camada de açucar.
Até ao meu regresso!

8.2.10

O Douro

É um lugar que tem o nome de um Rio.

É um Rio que nasce do fundo da terra e se mostra no céu.

Tem uma cor por cada dia, por cada temperatura e cada hora. É castanho quando o Inverno está triste e verde quando o Verão são 40ºC à sombra.

É muito mais além dele.

É um silêncio líquido e suave. É uma personagem, é um observador. É alguém que me espera.

Ontem voltei ao Douro.

Gostava de voltar a conhecer o Douro pela primeira vez. É bom de mais!

5.2.10

Dou graças.

Hoje dou graças.

Dou graças pelo sonho que tive, já ao amanhecer, que voava. Voava com o vento, como as gaivotas se deixam empurrar pelo ar e ajeitam as asas para o aproveitar.

Dou graças pelo meu corpo e pela minha saúde, que hoje me permitiu correr 6 kms, transpirando o pensamentos cinzentos para fora do corpo.

Dou graças pelo sol que hoje encheu a cidade de uma luz que há muito não se via.

Dou graças por ter uma alma gémea, a quem conto os meus pensamentos, os meus medos, os meus sentimentos e a quem vejo uns olhos verdes tão límpidos e suaves quanto o seu espírito que me aquece.

Dou graças pelo riso da minha sobrinha, que me enche de esperança.

Dou graças pelos meus Pais, que são o meu chão e o meu tecto - eles são a minha casa.

Dou graças por te ter ao meu lado, agora e sempre.

Hoje dou graças.

1.2.10

sopram os ventos

Há muitos anos, quando estudei Camões e "Os Lusíadas" havia uma estrofe que falava dos "ventos alísios" e dos "ventos de mudança".

Nunca mais me esqueci dos ventos alísios porque eram bons ventos, era o tipo de vento que nos levaria a qualquer coisa de diferente e de bom.

E durante todo este tempo, quase 20 anos, sempre cheirei o vento a ver se seria do "tipo alisio". Sempre tive a convicção que seria merecedora desses ventos, tal como os nossos marinheiros a caminho do Oriente.
Sempre esperei pelos ventos de mudança, porque sempre acreditei neles. Não há nada na natureza que não tenha o seu devido lugar, tal como não há nenhum vento que não tenha uma determinada função.
A ausência de vento é a ausência de rumo. Ficamos estagnados no meio das águas a olhar para o céu à espera de qualquer coisa. Quando sentimos uma refrega é como se desse um impulso dentro de nós que nos faz aproveitar ao máximo a bolina, de velas cheias e mão justa no leme.


Ontem, tal como hoje, e nestes últimos dias chega-me um cheiro a vento diferente.
Vou encher as velas e pôr a mão ao leme.

Será que chegaram os meus ventos alisios?