18.10.14

da cor do Niassa


 
 
Passei um mês de Setembro em seco. Vazio de palavras.
Porque talvez todas as dúvidas me tivessem levado a vontade de escrever. Ou afinal, não sou escritora coisa nenhuma, apenas me sirvo das palavras para aliviar a angústia - assim como um homem fuma o cigarro para travar a ansiedade.
Escrevo porque não tenho outra forma de me expurgar. Pudesse eu cantar, tocar um instrumento ou pintar um quadro. É precisamente a mesma coisa.
Nada tem de criativo.
Apenas de desabafo.
Que vem e que vai. Conforme as marés.
Conforme o mal d'afrique que me aflige, e me ataca sem aviso.
Hoje o mar, em Cascais, estava plúmbeo. A mesma cor do Lago Niassa há quatro anos, numa manhã de Inverno (Junho).
Há dias de chumbo, mas até nesses dias consigo ver um pedaço do que é mais intenso e cru - e é essa capacidade de regeneração que hoje me fez voltar aqui.
 
 
 
 


27.8.14

eu não sou deste tempo III


 
 
 
 
 
 
 
 

Perdoai a minha ausência. Entre férias com o bolinha, que de bolinha já pouco tem (conto depois), férias sem bolinha (ainda duram), ir e vir, fazer malas, lavar roupa, faxinar e todos os verbos na conjugação das limpezas, além de passar a ferro e varrer escadas - não tenho tido vagar para o meu bolo de arroz.
 
Mas hoje, depois de ter comido um bolo de arroz, e a seguir ter levado com um carro em plena Rua Castilho, que do nada resolve virar e bate-me em cheio na porta onde estava a cadeirinha do Martim, com ele lá sentado, claro - pensei, a caminho de casa, duas horas depois, de declaração amigável em punho e sem Martim, que entretanto voltou para o Pai: "Porra (foi mais outra palavra que eu disse)... convém ir lá escrever senão rebento." 
 
Assim, estas férias estive embebida em sítios e locais anteriores a mim.
E como eu adoro estes cenários...
 
Primeiro, os 70 anos do meu Pai.
O meu irmão desenhou os Rolls Royces, e eu irei escrever a história do meu bisavó: José Garcia Rugeroni.  
 
Segundo, a minha ida ao Turf, onde "menina não entra".
Adoro esta cena do clube exclusivamente machista, com salinhas de espera para as senhoras, cenas de 1882, coração do Chiado, coisas ultrapassadas mas bonitas e eternamente clássicas.
 
Terceiro, os meus dias em Azeitão com o pipoca em casa da minha querida prima.
Um lugar lindíssimo, cheio de charme, com um jardim gigante onde imagino conversas e detalhes de vestidos e senhores de casaca a fumar cigarros de engate.
 
Quarto, a festa em Coruche.
Uma casa do século passado que todos os anos, ao dia 15 de Agosto, abre as portas para os amigos - um género de festa queirosiana, com bebidas, gelo e velas a derreter. Gente bonita e velha, coisas velhas e bonitas.
 
Por fazer parte, ou pelo convite que me leva, sinto-me uma privilegiada em participar nestes momentos, cenários, ocasiões.
São lugares cheios de história e de passado, que eu muito aprecio.
E é por isso que eu não sou deste tempo!
 
 


11.8.14

3 7

Foi ontem, dia 10.
Houve uma super-lua e eu fiz 37 anos.
E mudei o Blog para aquela meia dúzia de fieis leitores que me seguem... porque se queremos ser a mudança que queremos ver, tem mesmo de ser.
Penso com o coração, e talvez pense demais...
Ficamos por aqui, está bem?
Eu vou continuar, mas agora é tipo em versão "privado".
E para celebrar a vida, nada como estar perto de quem é sangue do sangue... seja o que corre nas veias, seja o que, ao longe, faz bater o coração.
 

31.7.14

O triciclo


triciclo em material plástico
 
 
Quando recebeu a primeira bicicleta sem rodinhas, André chorou agarrado às pernas da Mãe.
Tinha 6 anos. Era tudo o que mais queria e tinha pedido. Não haveria razões para aquele choro.
Era uma "super" bicicleta: quadro azul metalizado, os raios das rodas em amarelo canário, os pneus grossos, um suporte para a garrafa de água, luzes à frente e atrás, autocolantes reflectores, buzina. Tudo.
Toda a rua iria querer dar uma volta na sua bicicleta. Todos os amigos iriam pedir uma bicicleta igual.
Como sempre, a Mãe tinha a regra do "não quero tralha cá em casa" e por cada coisa que entrava de "novo", uma "velha" tinha de sair. Dar brinquedos, roupas e tralhas aos meninos mais pobres, aos filhos mais novos dos amigos - tudo servia para evitar amontoar a "tralha" que a Mãe tanto detestava.
Mas o André adorava a "tralha" e muitas vezes escondia as coisas mais pequenas e que a Mãe já não teria cabeça para se lembrar; até ao dia em que se decretavam as "limpezas" e até a tralha "escondida" não tinha salvação possível.
A única excepção em vários anos da "fúria" da Mãe contra a tralha, foi com o triciclo.
O primeiro triciclo do André.
Em que mal sabia andar e já se sentava no triciclo, os pézinhos a marcar o ritmo para a frente e marcha atrás, no corredor da casa ou dentro do quarto, no parque ou no passeio.
O triciclo rapidamente deixou de lhe servir, mas André tinha-o sempre com ele, como se fosse um urso de peluche. Levava-o de férias, para a creche, para a praia, para a noite de Natal em casa da Avó, para as festas de anos.
Até à primeira bicicleta, com rodinhas, houve mais dois triciclos e tudo o que André pedia era que não lhe levassem o "primogénito". A Mãe lá negociava com o filho outras contrapartidas, de uma limpeza mais a fundo de tralhas, e André concordava.
Até que chegou o pior, e o melhor dia da sua vida. O dia em que recebeu a tão desejada bicicleta de crescido!
E André pensou, tão rapidamente quanto apreciou o aspecto futurista e espectacular da nova bicicleta, que tinha chegado o dia de se despedir do triciclo.
A Mãe perguntou se não teria gostado da bicicleta...
"Não é isso, Mãe. É o triciclo que se vai embora..."
 
Depois chegou o dia de ter uma bicicleta com mudanças, a seguir uma de BTT, antes de ter uma mota, ainda uma bicicleta de carbono, e depois outra mota e a carta de condução chegou aos 18 anos e o triciclo não saia da garagem.
André foi estudar para fora. Os Pais mudaram de casa.
Chegaram os homens das mudanças e começam a pegar em tudo o que apanhavam.
A Mãe mandou um email a perguntar o que fazer com as tralhas da garagem, e o triciclo.
Que desse tudo, incluindo o triciclo.
A Mãe assim fez.
Despachou todos os caixotes, mas o triciclo guardou-o para si.
Negociou consigo mesma permitir-se a ter aquela "tralha" - o pedaço de memória mais presente do seu filho que agora começava a pedalar para cada vez mais longe de si.
 


22.7.14

up!


Este fim de semana fui a um casamento. "Mas ainda há quem se case?!"
É o que todos perguntam.
Ainda há, e eu acho isso tão bom. Acredito no amor, e não na paixão, para sempre.
No final da festa, na praia, cada convidado recebeu um balão - dos mesmos que se usam no São João no Porto (que eu em Lisboa, nunca vi tal coisa).
Com o balão vinha um cartão, com uma mensagem personalizada dos noivos.
A ideia era haver um momento de partilha entre todos e lançar os balões ar acima.
E com eles o desejo de cada um.
Com a impaciência que me marca e a minha apressada vontade de terminar tarefas, rasgo o pacote do balão e ponho-me logo toda irritada - aquela coisa tão simples era  afinal um exercício de paciência.
Em primeiro lugar, não dá para lançar o balão sozinha. São precisas pelo menos três pessoas por balão. Depois de dado o lume à "acendalha" é preciso esperar que o balão (feito de papel fininho) se vá enchendo de ar quente e tome a iniciativa de querer voar.
Diz mesmo nas instruções: tenha paciência.
Mas eu quero é atirar com o balão céu acima, noite estrelada perfeita, lua bonita, brisa suave.
Depois do período de confusão inicial, todos nos fomos organizando.
Eu juntei-me a um grupo e com a ajuda do Zé, um empregado que era do Porto com um doutoramente em lançamento de balões, lançamos os nossos balões um a um.
O meu foi dos últimos. Eu já tinha aprendido a técnica, apurado os jeitos delicados das mãos a segurar o arame fininho.
Foi ficando cheio e cheio, gordo e ascendente. Com vontade de voar - "Este é capaz de ser o melhor balão da noite..." - disse o Zé.
Quando o larguei, foi tipo foguete - tal como a sua "dona", sempre apressado para tocar as estrelas, com o coração na boca, sem razão nenhuma, tudo uma mistura, umas guinadas à direita outras à esquerda, mas um bom balão, no fundo.
Segui-o até o perder de vista, viajou bem alto e para bem longe. Os meus olhos fixos numa pintinha de luz, outras tantas se juntando.
Com paciência, e a pouco e pouco, chegamos onde queremos.
Muitos balões tenho eu ainda de lançar...  

16.7.14

cada um é para o que nasce

 
Eu eu tenho a certeza que tu nasceste há 40 anos para isto, e para outras coisas como fazer uma excelente sopa de peixe!
Love you, mano.
Venham mais 40 sempre a ripar!

15.7.14

"it made us different..."


Um casal oriundo de Boston foi viver durante um ano para uma Ilha perto da Noruega, com uma população de 103 pessoas. (ler artigo aqui)
Ela, de raízes nórdicas, foi dar aulas na escola primária, ele, de raízes asiáticas, despediu-se do emprego como gestor numa empresa de software e dedicou-se à fotografia.
Os dois filhos, ainda em idade pré-escolar, frequentaram o jardim de infância.
Foram e voltaram.
E quando voltaram foram para a mesma casa, o mesmo Bairro, o mesmo circuito de amigos, e quando se viram naquela situação, tantas vezes comum, de estarem a ouvir as conversas entre amigos, em que um se queixa do trabalho, o outro dos filhos e mais outro da falta de dinheiro, têm um clique. Percebem que estão diferentes.
E para sempre vão ficar diferentes.
Eu identifiquei-me muito com esta história.
A diferença, para a minha experiência no Ibo, está na geografia da Ilha e nos filhos a cargo. Que logo tudo muda.
Mas as emoções são as mesmas.
O sentir-se diferente.
Não deixo de ser a mesma pessoa, mas também sou outra.
Por minha vontade, aceitei passar por esse processo.
A seguir a esse, veio outro, o da separação, sem a minha vontade.
E fiquei diferente.
Mais ainda.
E isto tudo não é mais do "a vida" a passar - que nos torna diferentes, quando tudo à volta vai ficando igual.
Estive estes dias pelo Porto, a propósito da Lifestories e de uma menção honrosa que os cadernos "it takes 2" receberam. Fui de comboio.
As viagens de comboio são muito literárias e interiores, são intensas. Ou durmo como um urso a hibernar, ou filosofo como um grego.
Fiz um pouco das duas - tendo sempre a sensação que à medida que o comboio avança pelos carris, avanço eu pelas minhas teorias.
E nessa viagem de comboio pensei precisamente no que nos faz ser diferentes; o que nos faz continuar a crescer, quando o corpo já estagnou.
E quando e como o Martim irá passar por isso. Por que implicando dor e algum sofrimento, não é o que nenhuma Mãe queira para o seu filho.
Mas a vida vai passar por ele, assim como passa por mim, assim como o comboio passa e rola pelos carris, assim como o tempo vai correndo pelos ponteiros.



6.7.14

eu não sou deste tempo II

 
 
Aos 18 anos o que deve passar pela cabeça de uma pita, acabadinha de entrar na Faculdade? Tudo. Tudo menos as questões do António Damásio, e o "Erro de Descartes".
Ora aqui a vossa serva andava com essas preocupações - e como se não bastasse, anos mais tarde, ainda faz recortes de revista.
A linha sublime do raciocínio humano e o caminho da emoção ao sentimento.
Coisas para uma outra idade.
 


2.7.14

early gifts



 
Os Avós - a avó pinta a óleo e desenha razoavelmente bem; o avô pinta em acrílico, tem aulas de pintura e desenho, até fez um Atelier para pintar em casa.
O Tio - é o que se sabe, de todos é o que desenha / pinta melhor, autêntico profissional na matéria dá vinte a zero ao Bairro inteiro.
A Mãe - quando tenta desenhar um cão, um porco, um gato ou uma vaca, ficam todos com o mesmo aspecto. O desenho que lhe sai melhorzinho é o da casinha com duas janelas, portinha e chaminé com fuminho a sair!
Por isso tomei medidas, foi como a minha cena com a fruta - dou-lhe fruta a toda a hora e em todas as formas e feitios, pois não quero que o M. cresça com esta minha incapacidade de gostar de fruta.
Assim, fui comprar um bloco e lápis de cera, sentei-o à mesa e pûs a minha Mãe a vigiar os primeiros traços.
Agora a ver se me sais a fazer camelos em forma de saleiros.


1.7.14

quem procura, encontra!




 
Muitas vezes penso que  isto das memórias e histórias de família é como ir fazer análises: se procuramos, havemos de encontrar qualquer coisa!
Há sempre qualquer coisa "escondida" no meio de um todo que se julga muito arrumadinho.
Eu tenho um fraquinho por esses "mistérios", sempre tive.
Em pequenina gostava de conhecer outras casas, assim meio antigas e velhas, metidas no meio de uma serra ou no fundo de uma rua - eram tesouros escondidos. Ao contrário de ter medo, atraiam-me esses universos.
Agora, na minha busca pelos meus antepassados, do lado Rugeroni, fui até à Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva. E abri uma caixa cheia de cartas. 
Quase tinha a certeza que iria encontrar cartas da minha Avó, enviadas à sua prima direita, a Maria Helena Vieira da Silva.
A minha Avó Berenice e a letra dela, belíssima. Aliás, as minhas duas Avós tinham uma letra lindíssima.
E para tornar o momento ainda mais intenso, porque afinal eu gosto mesmo disto, juntei-lhe a aliança ao nome. Coincidência ou não, eu tenho a mesma medida de dedos da minha Avó, tendo ficado com os anéis dela, porque todos me cabem.
Anéis, dedos, escrita, letras, cartas... Um triunvirato de mulheres cheias de garra, artistas, independentes, inteligentes, decididas, mas sempre mulheres - sempre apaixonadas pelo romance.
Tenho imenso orgulho e sinto imenso respeito por este passado que faz parte de mim e que eu tanto prezo. 

30.6.14

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public
doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

W.H. Auden

A morte é tão cruel não pelo fim que representa, mas pela continuidade que a vida toma a seguir a ela.
O mundo não pára quando tudo o que uma Mãe pode sentir, no momento em que perde um filho, é que o mundo devia todo morrer com ele.
Nenhum filho deveria existir depois do nosso se ir.
Nenhuma estrela deveria brilhar, nem o sol ou a lua.
Só o tempo existe. E passa.

26.6.14

just did it!

 
Nunca digas nunca.
Sempre associei as tattoos a uma estética pouco convencional, pouco cuidada, quando um dia percebi que queria fazer parte dessa tribo.
As tattoos têm algo de tribal, algo de cicatriz na alma que começou a fazer sentido para mim.
Não sei como é que chegou, mas o dia chegou.
Decidi que queria fazer uma.
O signo do meu filho e do meu querido Avô; a minha relação com o mar e a natureza.
Aqui, nesta imagem, estava acabadinha de fazer - ainda a pele inchada e encarnada.
Mais do que o processo em si, gostei do João, que me fez a tattoo, em casa (dele), da nossa conversa acerca da liberdade (esse tema que me é sempre tão querido), da intolerância e do amor; mas do que eu mais gostei, foi o resultado desse momento.
Uma marca no meu pulso esquerdo, do lado do coração - do meu coração, que muito aguentou.
Digo-o no passado. Acredito que com estas dores, destes últimos tempos, aprendi a sofrer menos - muito menos. Só o sofrimento do meu peixinho será algum dia superior à minha própria pessoa - tudo o resto, vai ser a vida a passar.
Venham de lá essas ondas, estou ansiosa por mergulhar!

23.6.14

eu não sou deste tempo I




 
Há quem viva à frente do seu tempo, são os visionários, os génios, aqueles que até não se encaixam no momento em que vivem, porque efectivamente não aquele não é o tempo deles. E por isso sofrem. É certo que são fazedores de ideias e isso é espectacular, mas também vivem assim, como que fora do lugar - e isso deve ser mau.
Depois há as outras pessoas que vivem num outro tempo também, mas em séculos passados.
Confirma-se a minha teoria, tantas e tantas vezes, quando dou por mim a gostar de fazer, ler e ouvir coisas que não são deste tempo. Já foram. Já passou.
E eu afinal, gosto é disso.
Não traz nada de espectacular e só me sinto meia-totó.
A querer acompanhar as cenas, hoje e amanhã, indo lá atrás.
É péssimo - mas também está tudo identificado, não vos apoquentais.
Em "sede de concertação social", eu já tenho isto tudo discutido e organizado.
Agora.
Que género de coisas, perguntais?
Coisas como: ler o livro "Out of Africa", sublinhar frases e ainda fazer o download da banda sonora (que é qualquer coisa ao nível da perfeição absoluta).
E mais. Cheguei a ir lá. Ao Quénia. Ah pois, não faço nada por menos.
Qual Seychelles ou Bora-Bora? 
A minha lua-de-mel foi no Quénia, pois eu um dia fui uma Karen e não estando ainda convencida disso, houve um Denys.
notinha de rodapé: o filme é de 1985
 
 
 

22.6.14

Solstício de Verão




 
 
Primeiro dia de Verão. Começa o solstício com uma tromba de água gigante - em Cascais choveu como se estivessemos numa floresta tropical e evaporou-se uma humidade carregada pelo sol quente que veio a seguir.
Fez tanta chuva como calor.
Começou o dia a chover e assim também acabou.
Mas entre uma chuva e outra, fui até Sintra, onde desde pequena gosto de ir quando chove - a clorofila da atmosfera traz-se muitas recordações; e depois segui até ao Guincho.
Todas as minhas recordações do Verão estão sobre aquela areia - e muitas incluem a chuva. São dias de Guincho tranquilo, sem vento e o mar suave, que terminam com chuva.
Já o disse várias vezes, eu gosto tanto do Guincho porque não é uma praia perfeita - se o fosse, não teria tanto vento, nem a água tão fria.
Mas quando isso deixa de acontecer, e os astros se alinham para o ar ficar quieto e a água tornar-se morna, chove.
É o chão que os meus pés reconhecem e é o cheiro que inspira os meus pulmões - é bom quando sabemos os lugares onde nos encontramos, apesar de  não saber exactamente onde estou, nem para onde vou.  
Estou a caminho.

 



17.6.14

um dia

Acordou.
São seis da manhã.
Mais cedo, mas o costume: em modo "controlo remoto" vou até á cozinha, encho os 300ml, 10 colheres de pó, tetina, rosca, tampa, agitar, agitar.
Entro no quarto, ponho-lhe o biberão nas mãos e ele em menos de 5 minutos despacha a coisa, enquanto mudo a fralda.
Meto-o na cama.
Não quis adormecer.
Irrita-se, chama-me, chora.
São sete da manhã.
Não quer dormir.
Meto-o na minha cama, pode ser que resulte.
Nada disso. Queremos festa e estamos rabugentos.
Tomo banho com ele dentro da casa de banho, a olhar para mim, por baixo da cortina do duche. Sem querer espeto-lhe com o duche na cara, entre tentar lavar os pés e evitar escorregar nas embalagens de shampoo, amaciador e gel de banho que ele entretanto despejou para dentro da banheira.
Vou secá-lo e visto-o, de roupão e descalça.
Não sei o que visto, não sei que horas são. Meto-o no carrinho e vou até à creche.
Regresso a casa.
Começa a outra parte: passear o Flash e arrumar o caos da faixa de gaza num corredor com pouco mais de 8 metros de comprimento.
Feito.
Saio para Lisboa. Esqueço-me de metade das coisas, volto a subir as escadas.
Apanho o comboio. Apanho o metro.
A meio do metro, começo a chorar - o livro que estou a ler, para o book club, deixa-me completamente furiosa, revoltada, triste de uma tristeza profunda, "então matam-no?!?!?, mas como?!?!".
Entretanto recebo um telefonema da creche, o M. entrou!
Há meses que estou à espera desta notícia, tudo o que queria era passar um verão tranquila com o assunto, e consegui onde queria: ao lado de casa (para ir a pé), Santa Casa, óptimas referências.
Muito feliz afinal, mas ainda a pensar no outro que morreu.
Almoço e tarde de trabalho Lifestories com a minha sócia - telefonemas, fornecedores, designers, artes finais, e ainda uma proposta para um novo cliente.
Ligam da creche. Da outra, onde o M. está agora.
Acordou da sesta com febre.
Tenho de sair, apanhar metro e comboio.
A minha Mãe/Avó avança para o local.
Chego a casa, começa logo a chorar mal me vê e cola-se às minhas pernas.
Passamos o resto da tarde a desarrumar tudo o que tinha arrumado de manhã e ainda mais, incluindo escritório (ele já sabe abrir gavetas e usar blocos e post-its).
Preparo o jantar. Dou-lhe o jantar.
Há um cão no meio disto que precisa de ir à rua. (Há um Pai/Avô que me vale)
Há um frigorífico vazio, também.
Há a hora do banho.
A versão mais recente é atirar com tudo o que está dentro da banheira, ensopado portanto, para fora da banheira. No final, parece que estive a dar banho ao Flash.
Deito-o.
Ao M.
O Flash evita estes cenários, até para ele é muito.
Aproveito o M. estar a dormir e vou ao Jumbo. São nove da noite.
Volto a casa e janto.
Arrumo as compras.
Vejo um olho de televisão, guardo o outro para a leitura à hora da cama e antes disso ainda aqui venho escrever este dia que me pareceu o mais longo do ano.
Mas mesmo assim, no meio dos corredores do Jumbo, aquela hora, vejo uma outra Mãe a empurrar um carrinho de gémeos e penso: "Vá, não te queixes que podia ser bem pior... mas e o outro que morreu, raios."
 
 
 
 

11.6.14

Laurentina

 
Eu gosto de osgas, é verdade.
Tenho fobia/ medo de gafanhotos, mas osgas é comigo.
Vá-se lá perceber como.
No jardim dos meus Pais, todos os verões, apareciam duas osgas que baptizamos de "Tristão e Isolda" - era a perfeita história de um amor de verão, em que ao final do dia cada uma corria o muro do jardim para se esconder na sua floreira.
Depois, em Moçambique, aprendi a gostar ainda mais delas: como um dum-dum natural, sem cheiros, nem prejuízos para a camada do ozono. Tinha-as já distintas por divisão da casa, e ainda uma que vivia no duche, sem nunca ter deixado algum dia que eu deixasse de tomar banho!
Acho-as cómicas e atrevidas, e depois de ter lido o "Vendedor de Passados" do Agualusa, tenho a certeza que são personagens cheios carácter.
Por estes dias, apareceu aqui em casa, em Cascais, uma osga! 
Vive no topo das escadas e à noite põe-se junto à luz, qual caçadora paciente.
Chama-se Laurentina e tens primos em África.

6.6.14

o poder do gesto

 
 
Estive uns dias por Berlim.
Visitei um amigo, o meu mestre. O meu poeta.
Ele vive em Berlim há tempo suficiente para falar alemão e confundir-se entre os berlinenses. Eu apenas o segui durante quatro dias, deixando-o que me conduzisse numa dança muito descontraída e serena, sob uma cidade que ainda se me tornou mais fascinante.
É toda ela o resultado de imensas crises, batalhas, conflitos, guerras... Por isso não é uma cidade fácil. E por isso é, para quem a souber ouvir, uma cidade que desbloqueia tudo o que estiver bloqueado.
O Pedro avisou-me: vai pensando e falando alto, enquanto andas de bicicleta ou vais no metro. Conversa com ela.
Eu, que sou uma boca sem fecho e um coração mais aberto do que uma janela com corrente de ar, usei e abusei desse conselho.
Não só não tive um minuto de descanso, como ainda, nos meus silêncios, conversava com Berlim.
E tudo se confirmou e se me apresentou no último dia de passeio.
Fomos ao Memorial do Muro, construído no local por onde passava, e que por isso dividiu casas ao meio. O muro passava pela cozinha de uma casa, suponhamos.
Dividiu casas, famílias, casais, amantes, pais e filhos, irmãos, primos e amigos que tinham de tomar a opção: de que lado queriam ficar.
A imagem do muro, agora em jeito de uma linha sobre o chão, ou em estacas de ferro (como se vê), está sempre presente, atravessa estradas, passadeiras, passeios; desde que saí do metro, até chegar ao local, vou passando pelas linhas (1961-1989) que me dão noção de uma fronteira invisível, mas tão real e angustiante.
Houve casamentos de um lado, e os convidados do outro, nascimentos de bebés de um lado, e a família do outro, irmãos separados, festas de anos cortadas ao meio, Natal a metade, enterros incompletos.
O que o muro cortou, foi para mim numa metáfora tão evidente, muito mais do que uma cidade ou uma ideologia política. Cortou vidas ao meio. As pessoas viveram em metade.
E isso fez-me doer o coração.
E tudo se desfez em lágrimas quando me apercebi do poder que um gesto pode ter, quando já nada ou quase nada existe, quando tudo se separou, quando não há telefones, quando as cartas são interceptadas, quando não há forma de se comunicar com quem se ama: dizer adeus era tudo o que restava. Subir a um escadote e acenar.
No limite, era o que ainda lhes era permitido: passar pelo muro e dizer adeus.
Partilhar um gesto tão simples e tão cheio de significado.
Só pensei que hoje, com tantas ferramentas que temos e que nos facilitam a vida ao máximo para comunicar uns com os outros, sentados numa cadeira e para qualquer parte do mundo, muitos esquecem do poder de um gesto.
Que fazê-lo, nem que seja dizer adeus, vale 20 mil facebooks e 10 mil instagrans.
É por isso que cada vez mais acredito no poder do amor e de que nada nos é impedido - basta querer, ter vontade de subir ao escadote e não ter medo.



28.5.14

visita-te





 
Certo dia, véspera da Primavera, resolvi dar uma "fuga" de Lisboa.
Por três noites.
O objectivo era escrever e terminar os meus contos infantis - que entretanto acabei por não estar legível para participar no Concurso, pois já tenho contos publicados.
E agora, por estar a escrever este texto, sinto-me culpada por ter "dado à luz" personagens tão giros que ficaram literalmente fechados numa tabela de "ficha de personagens": uma tartaruga que está sempre a fazer xixi, um tubarão cheio de sono, um elefante jardineiro, os meninos que fazem pão, o caranguejo que está sempre mal disposto, um atum com a mania das doenças... Já tinham tiques e maneiras de falar, e a história estava mesmo a começar. E eu, irritada, frustrada e parva, meti-os na gaveta.
Bom, mas o objectivo deste post não era falar dos meus personagens infantis e imaginários.
Era para recordar a minha fuga, que agora, uns meses depois, preparo-me para outra, mas além fronteiras!
Nesse dia almocei com os meus Pais e fiz-me à estrada. Antes de chegar ao destino final quis revisitar o Palácio de Mafra. E que maravilhosa surpresa!
Devo lá ter ido em 1989, p'rai, e agora pareceu-me tudo muito diferente.
Logo na bilheteira a senhora alerta-me para o facto de isto de se visitar o Convento à "vontade do freguês", é uma novidade. Ou seja, antes só se podia entrar com visitas guiadas - nada de iniciativa privada. Mas eu, qual sortuda, já o podia fazer e por uns 4€ o colosso das 4.500 janelas e portas era todo meu.
Cruzei-me com centenas de estudantes em visitas de estudo, e lá andei eu a "brincar" aos reis e às rainhas, mas com um objectivo: visitar a biblioteca.
E quando lá cheguei, e fiquei especada a olhar para aquilo, repeti dentro de mim: "o silêncio dos livros".
É belíssimo.
E acho que devemos visitar aos 12 e depois aos 36,  e por aí fora - para confirmar que efectivamente nós mudamos, enquanto as coisas permanecem desde 1700.
Acabada a visita meti-me no carro e fui para junto do mar.
É verdade.
Tive a sorte de conseguir um preço obscenamente baixo (conheço a Directora de Vendas, vá), um quarto em frente ao mar e uma cama king size!
Foram três noites de vidinha minha, só eu comigo.
Porque também convém "visitar-nos" de vez em quando, perceber como estamos diferentes ou quanto queremos mudar.


27.5.14

diários de moçambique** #10


Diário de Moçambique. volume 2. "as raízes do princípio"
 
 
14 de Março de 2011. (2ªfeira)
 
Começa a semana com chuva.
O que em Lisboa poderia ser mau começo, aqui é apenas a continuação do estado de espírito da natureza.
Há vários dias que não chovia, estava tudo a ficar demasiado seco, o calor estava a tomar conta de tudo. O chão estava a perder humidade e a terra a ficar em pó. E já muitas vozes se levantavam dizendo que não chovia mais - mas isso era e seria uma grande desgraça para as machambas desta gente toda que tem o milho a meio caminho.
Mas assim como a lua se ia tornando mais brilhante, e o céu ainda mais estrelado, como ontem à noite em que tudo se via, com um final de dia em tons pastel, e estrelas por todo o lado - às 5 da manhã começou a chover.
E até agora, 8h40, ainda não parou.
Ontem tivemos um dia preenchido por um grande passeio à volta do Ibo.
Fomos com o Jo à ponta Sul-este da Ilha - a que fica mais próxima da Quirimba.
Saímos de nossa casa directos à pista do "aeroporto" e atravessamos um deserto árido de bocados de rocha /coral, algumas árvores, vegetação rasteira, formigueiros gigantes. Calor e o sol bem de ponta - saimos às 11:00, que é a hora de mais calor, mas é também aquela que nos permite caminhar com a maré vazia.
No caminho, antes de virar completamente a Sul, cruzamo-nos com algumas mulheres que foram para aquele deserto buscar lenha. Lenha, pedaços de madeira, e de plástico que o mar leva até ali em alturas de grandes marés e depois, quando recua, ficam montes de lixo e madeira.
A lama, o matope, estava seco, tal tinha sido o calor dos últimos dias. Passamos por entre o mangal seco, como se fosse um enorme jardim com árvores e vegetação rasteira verde. No fim desse jardim, como se fosse o fim da terra, estava o mar vazio. Uma extensão de quilómetros de areia, com o mar ao fundo, a espuma branca da rebentação e barcos fantasmas que pareciam suspensos pelo ar quente do chão.
Havia pequenas crateras como se fossem aberturas vulcânicas num solo lunar, com restos de mar a temperaturas muito altas, com peixes lá dentro e seres diferentes.
Como sempre, havia pássaros a pescar a espetar o bico no matope misturado com a areia.
Contornamos esse lado para entrar no caminho, que já fiz para a Quirimba, mas desta vez no sentido oposto, a caminho do Ibo.
Fizemos o caminho de volta debaixo de algum calor, pelo canal muito vazio, em que a certa altura estreita à largura de uma pessoa.
Pisei uma rocha, pedaço de coral, que se partiu e sumiu-se o chão debaixo de mim.
Caí para o meu lado direito e apoiei a mão - fiquei com o dedo mindinho todo torcido e o anelar também. Isto porque do outro lado tinha a máquina, que mesmo assim, entrou totalmente dentro de água! Que susto, mas não se estragou... eu ganhei uns arranhões e um dedo todo inchado.
Chegamos ao Ibo são e salvos, quase 4 horas depois, com calor e suor de 12 km de caminhada.
Foi um dia bem passado.
 







 

23.5.14

Cascais Match

 

A revista Paris Match elegeu Cascais como os Hamptons de Portugal.
Uma espécie de refúgio chique dos citadinos e lugar cheio de gente bonita, paisagens, hoteis, cafés, lojas, praias e tudo o que se quer num destino de férias civilizado e pouco massificado.
Sim, porque isto, apesar de tudo, não é o Algarve.
Claro que como uma cascalense "regressada a casa", após 13 anos de vida lisboeta, fico muito contente com esta notícia e destaque.
 
Mas isto só vem dificultar ainda mais a minha vida, mais ainda do que quando era uma miúda e entrei para a Faculdade.
- És de onde?
- Cascais...
- Cascais?! Mas vocês lá precisam de estudar?! Cascais?! tens a certeza? a tua Mãe é uma "Tia"? o teu Pai joga golf, não!? E tens um irmão p'rai Lourenço.
 
De facto a minha Mãe pode-se considerar uma "Tia", o meu Pai realmente joga golf e tenho um irmão, mas é João. Vá.
Há quase 43 anos que os meus Pais vivem em Cascais e eu vivi com eles 23 anos.
Sempe estudei em escolas oficiais (do Estado), nunca andei em colégios. Com 10 anos passei para o Liceu para onde ia a pé, tinha as chaves de casa e no Inverno saia quando ainda era de noite.
Se chovia, azar. Voltava a casa de all-star a fazer "chlock! cholck!" ou apanhava a camioneta (autocarro era coisa de gente citadina).
As amigas da escola não eram Constanças, Madalenas ou Veras. Era a Ana Manuela, a Maria Rita, a Ana Sofia e a Ana Rita e fui apaixonada por um Ricardo Alexandre.
Faltava a luz muitas vezes e água também; havia cheias no Inverno e rapava-se um frio do catano no meu quarto. Havia a Macmoda onde iamos comprar calças de ganga e os brincos da Rua Direita. Havia efectivamente droga e sabia-se quem tinha e quem era; ainda há pouco tempo comentava com o meu irmão que os meus Pais não tiveram noção do meio onde nós andavamos, e nem eu nem ele nos drogámos, e hoje nem sequer fumamos...
Quando passei para a Faculadade, levanta-me às 6:30 todos os dias para apanhar o comboio até Alcântara e ouvir estas idiotices de quem  julga quem mora em Cascais.
Assim que pude, afundei-me em Lisboa. Talvez, de uma maneira ou de outra, Cascais fosse um meio "pequeno" para mim.
É verdade. As pessoas conheciam-se todas umas às outras, era um meio relativamente controlado. E eu queria cheirar outras coisas. E assim entreguei-me a Lisboa de alma e coração. Vivi nos Olivais, no Saldanha e em Santa Catarina, no Chiado.
Quase 13 anos depois regressei a Cascais, e precisamente à mesma morada - mas desta vez um andar acima do meu quarto.
E retiro todo o partido de viver nesta Vila, que é absolutamente lindíssima.
Mas ainda esta semana passei horas no Centro de Saúde para conseguir uma porcaria de uma receita -  que não consegui! Em Lisboa não tenho uma dúvida que conseguia.
Aqui levo multas de meia-noite porque estaciono o carro no passeio, quando não há meio de porem parqueamento com dístico na minha zona, e assim torna-se impossível estacionar durante as horas do dia. Em Lisboa, durante 13 anos, se levei 2 multas de estacionamento foi muito. Sempre tive dístico onde era conveniente ter.
Não tenho Fnac ou Bertrand sem ter de me meter no carro e ir a um Shopping (coisa que me deixa logo com vómitos), e muitas vezes a melhor coisa que tenho é meter-me no comboio e sair no Cais do Sodré, para inalar toda aquela cidade que me encanta.
Mas também tenho esta coisa de ir deixar o M. à creche, descer a rua (vou com o carrinho a pé), entrar no Paredão e por-me a caminho até ao Estoril. No regresso paro a meio para beber um café numa esplanada vazia.
Pego no Flash e estou no Guincho oito kms depois.
Ou pego em mim e tenho uma praia a 8 minutos de casa, a pé.
Tudo óptimo, sem dúvida.
Mas aqui moram pessoas normalinhas, que trabalham, têm questões sobre a vida, azares, problemas, inquietações, medos, atrasos, cenas lixadas para resolver e tudo o que existe no resto do mundo -  a única diferença é que têm vista de mar! :)
 
 
 
 



21.5.14

da liberdade de espírito

 
Vejo pouquíssima ou nenhuma televisão.
Para mim a televisão e certos canais, é tipo MacDonald's.
Acho que gosto daquilo tudo, mas evito porque sei que não é do mais saudável.
Mas quando me entrego à causa, faço-o até ao fim. Como as batatas com molho, bebo litros de coca-cola e besunto os dedos de cheiro a hamburguer.
Depois de me encher do "lixo" todo, dou uns tempos de intervalo, até à próxima visita.
Com a televisão é o mesmo. No caso, com os nossos canais. 
Eu nunca vejo TVI, mas quando vejo é para me colar ao "Big Brother" ou à "Casa dos Segredos" - a coisa mais desprovida de movimento cerebral. É só abrir e fechar olhinhos.
Calha que, assim como o MacDonald's nos apresenta macarrons de framboesa, também a TVI certo dia me deu uma surpresa inesperada.  
Apanhei a reportagem a meio. Depois do Jornal da Noite, no ReporterTvi - uma peça bem escrita e profunda, tão urgente para os dias de hoje. E foi por isso que me chamou tanta atenção. Encontrar macarrons na Versailles é de se esperar, mas no Mac Donald's é que não.
Afinal, então, sobre o que era a reportagem?
Liberdade de Espírito.
tout court.
A liberdade de espírito nas suas versões: política, espiritual, intelectual, social...
Interessante também pelo jornalista ter abordado pessoas tão distintas como deputados, monges, filósofos, antropólogos...
A liberdade é, afinal, um engano.
Sempre tive esta teoria e assim a pude comprovar. Nunca uma pessoa se assume tão solitária, quanto mais livre é - de espírito.
Para mim, o ser livre é tão agonizante quanto ser escravo. (num sentido figurado, obviamente).
A liberdade de espírito é um estado, um sentir apaziguador com o mundo que dá simplicidade e tranquilidade. É absolutamente maravilhoso, como penoso. Porque quando se o atinge, existe uma solidão insular.
Comecei a pensar nesta teoria quando estava no Ibo - havia tempo e matéria para desenvolver o assunto. Vivia numa ilha, no meio do nada, em que teria tudo para ser totalmente livre, ou seja, era dependente de absolutamente nada.
E existia um homem que personificava a minha teoria - o Dimitri. Não teria 40 anos, francês, filho de Pais "bem estabelecidos", culto, interessante, vivia sozinho numa casa em frente ao mar, carregada de livros, de tinta comida pelo sol da tarde, de portadas românticas, de cães perdidos, de um jardim tropical e de um mistério intrigante. De vez em quando pegava no barco e desaparecia velejando até Pemba, ou até onde lhe desse na cabeça. Outras vezes ficava ausente por mais tempo e ía até França, Malawi, ou Tanzânia, tratar dos vistos. 
O Dimitri era totalmente livre. E totalmente sozinho. 
Do espírito livre, disse um monge da Ordem da Cartuxa (o fenómeno mais medieval do nosso tempo, cujo voto absoluto de silêncio me causa fascínio e curiosidade, pois sempre fui, e serei, um extremo de mim mesma), à reportagem da TVI: "ser livre é ser igual a si próprio e hoje somos todos cada vez mais iguais uns aos outros."
Logo aqui, "morrem" 99% dos que se acham diferentes, porque achar-se diferente é logo ser igual a todos os outros. 
Eu sofro pela consciente agonia de que sou precisamente igual a todos, nem mais, nem menos e por isso sempre me disfarcei pelo desapego. Pois também a liberdade de espírito casa com desapego. E mais uma vez, passar meses num lugar vazio de coisas, deu-me o culto do desapego. Deu-me o prazer de uma vida simples, tal como um eremita, um Dimitri, um monge da Cartuxa.
E quanto mais experimentava a vida simples, mais a compreendia e dela necessitava. 
Mas sempre, sempre me questionei por uma coisa: então e o amor?
Onde fica no meio disto tudo, o amor.
O amor pela natureza, aceito. Mas eu não me convenço dessa ideia de que o espírito se alimenta do incorpóreo, e que a natureza nos dá tudo o que precisamos.
Eu preciso de um outro, do apego das sensações, cheiros, sons, contemplações, sabores e até sonhos. 
A liberdade, como desapego, retira-nos esses sentidos. O monge garante que não precisamos de nada mais, o Dimitri também dizia que não precisava de nada mais a não ser a casa, o barco e os livros.
Mas é tudo uma mentira. É tudo um engano.
Há a carência do outro. E quem se diz livre, cala essa fome.
Como quem faz dieta, mas habitua-se a ter fome. 
A liberdade suprema traz isolamento e solidão.
Um espírito inteiramente livre é um lugar sozinho. Conquista-se um apaziguar tão certo entre o corpo e o universo, mas há uma carência absurda de com quem construir uma obra de amor. 
Porque eu não entendo como o ser livre pode viver sem amor.
Porque eu gosto do MacDonald's e da Versailles, dos hamburgueres e dos macarrons, mas o que alimenta o meu espírito é o absoluto amor.
Do que sinto pelo meu filho, que, sem perceber como, cresce todos os dias, quase a todos os minutos; e do que preciso de sentir por um outro. Livre também.
 
 
("A Lebre de Olhos de Âmbar", Edmund de Waal)


17.5.14

Até às 18h...

Em Cascais 
No centro convívio Bairro do Rosário 
Baú das Mães - venda artigos em 2a mão 
Entrada 1€ - a favor da Associação MIMAR 

13.5.14

Estados e Traços

 
Sempre tive a teoria, tantas e tantas vezes confirmada pela prática dos dias, de que somos sempre "compensados", de alguma maneira, mais cedo ou mais tarde, pelo mal que podemos passar.
Este último ano foi talvez dos mais duros e difíceis que passei. E estas últimas semanas também não têm sido nada fáceis.
Até quem me lê, e conhece, comenta, entre dentes: "tenho lido o bolo-de-arroz, as coisas não vão lá muito bem, pois não?"
Pois não.
Eu nunca soube, nem consegui, guardar as coisas cá dentro. Despejo tudo. Viro o caixote do avesso. Esvazio-me em palavras, em textos, em estados de alma melancólicos. E ando para aí a plantar tristeza em saquetas.
Mas são estados, momentos que chegam e vão. Passam.
Não são traços de mim.
São dias em que estendo os meus sentimentos ao vento, ponho-os todos tortos, presos por molas meias partidas, tudo uma confusão.
E quem me conhece já sabe, sou uma baralhada de refilar, de amar e odiar tudo ao mesmo tempo, de dar tanto amor, como estoirar uma panela de pressão de fúria- mas isto já é um traço meu.
E então percebo: foi um ciclo, um ano que terminou.
E eu, que somatizo tudo, estive num estado que reflecte a equação final deste somatório de dias menos bons, menos fáceis, menos suaves, menos tudo.
E é aqui que a minha teoria se aplica - porque, os meus traços, aqueles que me definem e me contornam, como aqueles desenhos em que temos de unir os números e vai surgindo uma figura, esses traços nunca os perdi. Estão aqui.
Sempre foram e sempre vão ser meus.
E hoje foi dia de os confirmar, de os alinhar e de os ver tão nitidamente reflectidos na minha alma.
O meu "cheque" está a chegar :)
 
 

12.5.14

prenda-a-mim

 
Ultimamente, tenho dado por mim nestas situações.
Numa Loja.
Estou para pagar e perguntam:
- É para oferecer?
- Não...., quer dizer. Sim, sim é para oferecer a mim...
(sorriso parvinho)
 
Adoro surpreender-me a mim própria com um bonito embrulho.
Mas também o faço com um molho de flores, atadas com um pedaço de guita.
 
Certo dia, a querer variar de cheiro, dei com este pedaço de céu perfumado em forma de vaporizador.
Jo Malone. É um vício. Ponho várias vezes aos dia. E vou lá voltar e trazer mais, de outros cheiros, e responder à pergunta com os sorrisinhos parvos.


9.5.14

Surto Mensal de Malária - Amanhecer e Anoitecer


IBO

 
CASCAIS
 
Por mais anos que viva, e mais de repente morra, há dois momentos do dia que, por todos os dias, me levam até África.
O amanhecer e o anoitecer.
Calha mais vezes assistir ao anoitecer, naturalmente, pois não tenho por hábito levantar-se às 6 da mnhã, mas se um dia calha acordar cedo, e ainda apanhar aquele ar fresco e solto - lá estou, em África.
Ao final do dia, e por esta altura do ano em que os céus cor de rosa começam a acontecer, é sempre o mesmo movimento.
Agora, da janela do meu escritório em Cascais, vejo o mesmo, exactamente o mesmo que via da janela do meu quarto em miúda - em que o sol se põe e entorna uma tinta dourada pelas minhas paredes.
Eu, miúda, pequena, lembro-me de ir de propósito para o quarto e assistir a esse momento - deitava-me na minha cama e ficava a fazer companhia ao sol, enquanto ele se deitava também.
Tantos anos depois, e um andar acima, tenho a mesma visão.
O mesmo sol. E deixo-me ficar.
É momento de fim. Sem ser um fim.
Há sempre um afinal, um dia seguinte.
Talvez por isso goste dos princípios e finais do dia, são minutos de ponderação, o que se passou, o que vai acontecer, o que se segue, o que se espera, o que se sente e deixou de sentir.
Em África acordava sempre muito cedo. E se por um lado fiquei viciada em assistir ao nascer do dia, que acontecia em curtos minutos, depois durante o dia, atravessava o martírio do calor esticado sem sombras, ansiosa pelo seu final.
Pelo meu final de tarde. Era o momento do banho. Banho frio, com sabonete, sem esponjas ou gel de banho. Um sabonete e água fria - era tudo o que pedia.
E uma toalha bem seca, que o sol não dava tréguas a qualquer traço de humidade no algodão.
E vestir roupa lavada.
E deixar a noite chegar.
A noite que tudo acalmava, tudo fazia passar.
A manhã chega.
Vai chegar. E são os pássaros que a dão ao mundo.
Sempre os pássaros.
Sempre as saudades de África.