30.9.13

as famílias da minha vida




Cada vez mais chego à conclusão de que não existe organização mais complexa e dinâmica do que uma família.
Venham de lá multinacionais, ONG's, super grupos empresariais com cinco mil empregados que nada supera os intermeios e as profundezas dos laços que unem as pessoas umas às outras e as torna numa família.
Uns porque nascem no meio de uma, outros porque se acrescentam a ela, outros ainda que caem lá no meio sem saber porquê.
Os Pais, os Tios, os primos, os primos dos primos, as cunhadas do segundo casamento, os cunhados da prima que conhecem as irmãs do marido, o irmão que casou com uma amiga da prima mais nova da Avó, os novelos, o sangue que se mistura, as casas que se habitam, os nascimentos e as mortes, as zangas, as desculpas, as traições, as separações, os reencontros, as despedidas, os que se amam para sempre, os que se evitam e os que escolhem não aparecer nunca mais.
Quando conheço alguém, porque a minha ocupação me leva a isso, em quem este sistema é profundamente enraizado, activo e real, normalmente fico exausta na primeira entrevista.
Ao fim de duas horas sinto-me sem forças nas pernas.
Vivo tão intensamente o que a outra pessoa me está a contar, entro de tal maneira naquele universo, em que vejo a casa que era dos Avós e tinha uma empregada que fazia umas compotas, e a Mãe fazia renda e os vestidos de Domingo e depois apareceu o Manel, apaixonaram-se e no Verão as famílias eram vizinhas do toldo da praia, jogavam ao prego, havia bailes de Verão e dançavam, e a Mãe com um batôn sempre encarnado, e o irmão com quem se deixou de falar porque quando o Pai morreu  e zangaram-se, e hoje já nem se lembram porque estão zangados, e os casamentos que duram há 60 anos, a vida dos dois já é a vida só de um, as doenças, o cancro, sempre este maldito que aparece lá no meio, e os filhos, e os sustos, e os acidentes e as opções, as idas para colégios internos, as saídas dos colégios modernos a favor de freiras, as partidas e os regressos...
Fico de rastos!
Entrego-me de tal maneira ao meu trabalho de entrevista, pesquisa e de simplesmente ouvir, que quando volto para casa não consigo fazer mais nada.
À minha frente estão pessoas cujos universos já são milhões de segundos de uma vida que existiu antes de eu aparecer e que vai continuar depois de mim. Eu sou uma espécie de intervalo que aparece com um gravador, uma cassete, um caderno e um outro mundo dentro da cabeça. Tomo notas e volto para casa.
Mas eu não entro de qualquer maneira na vida das pessoas - sou convidada e ainda por cima contam-me coisas a mim, que talvez nunca tenham contado a mais ninguém.
Afinal sou mais do que um intervalo, sou uma espécie de balança onde as pessoas vão debitando memórias e passado, à espera de perceber se o saldo é positivo ou não.
Despejam tudo para cima da mesa e eu recolho com cuidado e afecto, porque afinal é da vida dos outros que se trata, tão rica e maravilhosa como a minha.
No fim, o saldo quase sempre é positivo, mas a vida não é uma recta.
Há imensos buracos e desvios no caminho, e esses buracos são por vezes cavernas autênticas e lá estou eu dentro da memória, no meio da caverna escura com a minha lanterna.
Chego á conclusão que faço muito mais do que escrever histórias de vida.
Acabo por ser parte delas quando lhes sirvo de espelho, de divã, de receptor, de ouvido e até de ombro.
A Lifestories é muito mais do que um "negócio" que "faz histórias de vida por encomenda", é uma filosofia de trabalho, é uma forma de estar, de saber esperar no silêncio do outro, de saber receber umas lágrimas genuínas e saber que todas as vidas são únicas e maravilhosamente bonitas.
Mais do que gostar daquilo que faço, gosto de reconhecer as famílias, respeito-as e entendo-as, desculpo-as nas suas birras de meninos pequeninos e entendo-as nas suas mágoas de quando se perde um irmão, um filho.
Na vida nada é para sempre e tudo passa, mas mais do que no sangue, é nas memórias do crescer que estão os segredos do que pode ser para sempre eterno.
 

eu disse que gostava do Outono, não disse que gostava de viver em Londres...

 
(apesar de ir para lá daqui a uns dias... how nice!)

28.9.13

bom dia, mais uma vez!!



 
 
Gosto muito da minha sala casa!

bom dia!!



 
Quando ontem lhe vestia o pijama, passou-me várias vezes pela cabeça porque raio a H&M não faz uma versão para adulto...
We love Snoopy!

27.9.13

Hoje, à saída da escola, depois de ter entregue o M. no colo da Teresa, a auxiliar da sala dele, passei por uma Mãe toda encolhida à porta... não percebi se queria entrar se sair, fiquei a dançar com ela durante uns segundos até que me diz: "É que ela ficou a chorar, estou aqui a ouvir..."
A minha tapadinha nas costas seguiu-se de um: "Ah... isso é normal, já passa!"
 
Uma amiga educadora disse-me que eles precisam de 15 dias para se adaptarem (os bebés de 6 meses, os mais velhos não sei!) depois disso é uma rotina espectacular.
E eu assim o espero, porque o bolinha está melhor cada dia que passa e na próxima semana já vai o dia todo, à homem crescido!  

26.9.13

mudanças no barraco

de vez em quando tem de ser.
é género rentrée do Blog!

ps. e agora pode-se comentar à vontade, já não é aquela coisa idiota em que temos de provar que não somos uma máquina!

25.9.13

frutas e hortaliças

Agora vou-me impor a esta rotina de ir deixar o M. à Escola e descer directamente para a Praça. Às quartas-feiras.
É óptimo chegar cedo, comprar os legumes bem frescos, e bem mais baratos, a fruta cheirosa (para o M., porque para mim não entra aqui coisa nenhuma desde 1993), o agrião para a sopa do bolinha, pão de forma integral e fatiado, a carne, outra vez para a sopa do bolinha (que já tem duas prateleiras do frigorífico só para ele : ))  e até comprar uma rifa por 1 euro para nos sair uma vitela.
Questão: se me sair a vitela, onde é que eu enfio uma vitela?
Acabei por não comprar a rifa, mas aprendi a escolher meloas. (não para mim, já se sabe)


24.9.13

Phils-osophy

 
Já que andamos numa de televisão, a série Modern Family é para mim a melhor de sempre (passa na Foxlife), e o Phil o melhor personagem que alguma vez existiu.
É tão estupidamente ingénuo, infantil, imaturo, emocional e tudo o que poderiamos não gostar num homem, mas depois adoramo-lo. O melhor é quando ele se pica com o filho de 11 anos. Tudo aquilo faz sentido.
 

Ontem fui buscar o M. e trouxe-o com a mesma roupa com que o deixei.
Acho que isto é sinal de progresso.
(mas ainda só vai manhãs, para a semana já é a tropa completa!)

23.9.13


Não via uma novela portuguesa na televisão desde "Ninguém como tu", em 2005, em que a pergunta era "quem matou o António?"
Não vejo novelas, nem as da Globo que acredito serem óptimas.
Mas estava desde o início do Verão à espera desta, "Belmonte", que começou ontem na TVI.
Logo à partida o cenário, alentejo profundo, é o meu universo ideal mas há a seguir outra coisa que me mata, a mim e a muita rapariga de bom gosto que anda por aí, sei eu, que é ter o Filipe Duarte em papel principal.
O "nosso" António Bernardo n' "A Ferreirinha", o "nosso" Luís Bernardo no "Equador".
Suspiros. Vários.
João Belmonte, é o filho mais velho, gere a Herdade da família (agrícola e caça) e ainda lê Shakespeare. Há uma frase dita por um dos seus irmãos, que o resume em 3 segundos: "Ele é o intelectual da família".
Além de ser lindo de morrer.
E porque é que nós, mulheres, ficamos logo de queixo no chão pelo intelectual da família que lê Shakespeare e já o contrário é uma grande estupada?
As mulheres-intelectuais-da-família são uma seca e estão em declínio.
Acendem-se todas as campainhas com o homem maduro, economicamente viável e intelectualmente evoluido, mas já isso numa mulher é o equivalente a uma personagem secundária numa novela, porquê?
A continuar a ver, todas as noites após o telejornal.


21.9.13

summer report @Cascais








 


 



 
E assim se passou um Verão na minha terra. Na minha terra, pois.
Lisboa é namoro recente, Cascais é o berço.
Como sabeis eu não adoro o Verão e já ando a ganir pelo início do Outono.
Que está a chegar, pois está!
 
Mas Setembro ainda corre, e é mágico por aqui; o Guincho parece que faz as pazes com o mundo e debita uns finais de tarde fílmicos, o mar suaviza-se, mas está todo ele cheio de marés vivas por dentro.

Não se passou um fim de semana em que não houvesse qualquer animação, desde clássicos, luzes, concertos, feiras, festivais, arraiais, you name it!
E para terminar em beleza este derradeiro fim de semana do solstício, fui rezar um terço vivo na Praia do Peixe, na Baía de Cascais, ontem à noite. Nunca tinha rezado um terço. Há uma primeira vez para tudo, e esta foi bem especial.
Estava um ambiente de arrepiar: silencioso, tranquilo e muito bonito, a lua estava cheia como um balão e o mar rezava também.

Foi um Verão bem bom, apesar de tudo. E é uma terrinha bem boa para o meu bolinha crescer cheio de boas cores e de ares do mar.
Lisboa que nos aguarde. 

20.9.13

relatório da escola





 
A ida do meu bolinha para a creche também foi um período de adaptação para mim. Ao final do dia ficava exausta e pronta para me deitar às 21h30 da noite.
O M. chorou todos os dias à hora do almoço, pois acha que é uma boa altura do dia para se fazer mostrar a sua irritação. As educadoras estavam impressionadas com os pulmões do rapaz... é verdade, ele nasceu a chorar e a guinchar de uma maneira que os médicos dos blocos de partos do lado, enfermeiras e assim, vieram todos ver o que se estava a passar.
Pois se é para chorar, que seja.
O contrário também se aplica. Se é para rir e ser bem disposto, então sejamos.
O M. ri-se para um tupperware se for preciso. Adora conversar com quem lhe dê um segundo de atenção, e mal chegou à creche, no primeiro dia, no primeiro minuto, deu logo uma gargalhada para as auxiliares! Além de que o entusiasmo com brinquedos novos foi tanto que deu logo uma carolada numa menina...
Fui buscá-lo sempre com uma roupa diferente com a que tinha ido de manhã, sujava-se todo (só para não utilizar aqui uma linguagem mais sugestiva) entre o choro de não querer comer a sopa, que acabava por bolçar toda cara abaixo e a diarreia com que esteve porque lhe estão a nascer os dois dentes de baixo, o estado de sítio em que vieram as roupas para lavar em casa, foi qualquer coisa.
Hoje é dia de "folga". À sexta-feira não há Escola.
No meio disto tudo, o que é certo é que começou a dormir a noite toda entre as 00:00 e as 06:00 da manhã! Não há cá 3:45 da amanhã, acordado na cama, porque se virou ou quer água, ou quer conversa.
Acabou-se.
O certo é que agora às 7:30/8:00 está pronto para a vida. Durante a semana é tudo bonito, ao fim de semana é que vai ser duro.
Cá estou eu a planear umas saídas ao Parque ainda o orvalho não derreteu, ou enfiá-lo na minha cama com uns 10 brinquedos, ou ligar a televisão e eu durmo no sofá...
o que é que se faz com um bebé às 8h00 de Sábado? ainda ninguém pensou nesse negócio?
Pensem e depois contem-me coisas. 

16.9.13

true love


Só venho aqui dizer que amanhã o meu bolinha vai para a creche eu estou com uma bola no estômago.
Como é que elas vão saber que ele gosta de dormir um bocadinho antes do almoço e que só adormece com a fralda junto à cara, e que adora ouvir música e temos que o ajudar a fazer cócó, gosta de beber água e detesta os babetes.
É o meu menino, como ele não há nenhum. E pronto, lá se vai ele para a creche.
Eu sei que é o que faz todo o sentido, mas custa horrores.
Hoje tenho o coração do tamanho de uma azeitona preta, amanhã nem o caroço me sobra.
Depois conto coisas.

P.S- fizemos uma sessão com a SPOIL! só assim fica o registo deste bebé mais fofinho com os cotovelos que só me apetece trincar, as pestanas infinitas e o sinalinho mais lindo, com que nasceu do lado direito da cabeça!

15.9.13

se só se puder fazer uma coisa este Domingo depois de escurecer...


é ir ao LUMINA!
...e o mais bonito é perceber que durante o dia é tão diferente!
A noite, escura, é quem dá à luz um protagonismo maravilhoso. Assim sendo, penso que, mesmo no negro, há sempre qualquer coisa de bonito e de belo, é só uma questão de encontrar a luz.

13.9.13

 
Melhor do que encontrar um cipreste é conduzir por uma estrada de ciprestes.
Coisa por mim nunca vista no nosso Portugal, senti-me na Toscânia e estava mesmo perto de Tomar, na localidade de Pegões.
Que maravilha!
 

12.9.13

A máquina de escrever

 
 
 
Máquina de escrever com fita
2,5 Kgs
Teclas verde escuras
 
 
Não são as mãos que fazem acontecer as frases, são as notas de música que saem pelo gira discos de tampa acrílica que empurram as teclas da máquina de escrever.
Quando ela escrevia, primeiro punha um disco, depois fechava os olhos e deixava-se levar pela melodia, assim como se deixasse levar por um desconhecido numa dança a dois. Sempre seria a música a fazer palavras.
Foi assim que escreveu toda a sua vida numa máquina de escrever. As teclas ficaram sem letras, já as conhecia de cor, o abecedário tinha sido engolido pela sua pele, pela ponta dos seus dedos sempre impecavelmente longos e elegantes.
Escreveu o que a memória lhe deu até á exaustão, até ao fim de si.
Só a máquina ficou, opaca, mate, ferrugenta, empoeirada.
Dizem que ainda se sente o barulho das teclas, quando se ouve música clássica.
Mais concretamente o concerto nº 1 de Chopin para piano em E menor, op.11.
 

10.9.13

afinal, ser mãe


Se há um assunto sobre o qual posso escrever e descortinar as conclusões mais variadas é esta coisa de ser Mãe.
1. Porque esperei 8 anos para o conseguir
2. Porque durante esse tempo imenso tive mais tempo ainda para pensar no assunto
3. Porque sou Mãe há 6 meses e acho a coisa mais natural do mundo não aguentar mais estar em casa com o meu filho e querer ir pô-lo numa creche.
 
Eu trabalho em casa, sou uma tipa que se manda livremente ao trabalho, e por isso o meu escritório é um quarto e o meu "metro" é um corredor. Estar aqui com o M. era bom até ao dia em que se tornou um frete. E eu percebi: estares com o teu filho e ser um frete não deve ser bom.
Vai daí decidimos (o Pai do M. e eu) que era altura dele experimentar o mundo e na próxima semana já vai ter o seu primeiro dia de "escola".
Adoro o meu filho, esperei mais por esta criança do que 90% das mulheres que conheço, esfolo a minha pele por ele, corto o pescoço a quem lhe fizer mal, mas estar com ele todo o dia não é bom. Atenção! Não é bom, para mim.
Venham daí essas Mães maravilhosas que ficam com os filhos até irem, aos 3 anos, para a Escola, admiro-as profundamente, assim como as educadoras, que pela primeira vez percebi a essência do trabalho herculiano que optaram ter na sua vida. Porque elas além dos bebés dos outros, têm os dela. São mulheres com capacidades superiores e abençoadas sejam todas, porque o que seria do mundo sem berçários e creches!
 
Benditos equipamentos de apoio à educação das crianças.
 
Ser Mãe é bestial, é para lá de bom, é uma dimensão de nós que se completa e se preenche, mas não é tudo.
Não, não.
O nosso coração tem divisões desconhecidas e profundas, que a maternidade vem ocupar, mas há outras tantas por completar e que precisam de ser igualmente preenchidas, pois o equilíbrio de tudo vem da boa e saudável relação entre elas; além do bom conhecimento de nós próprias e daquilo que fará mais sentido para cada uma de nós.
Para mim, a concretização profissional é imensamente importante e neste momento espreitam óptimas oportunidades que me fazem querer estar apta e disponível para trabalhar. A realização pessoal também, e depois ainda a amorosa, mas por agora há que serenar o espírito e perceber que lá por ter estado tantos anos a penar por me realizar enquanto Mãe, não significa que tenha de sugar o meu filho a todo dia e a toda hora.
 
Tenho a certeza que nenhuma relação sobrevive a um contacto diário, 24 horas/dia, a única excepção seria feita na relação de uma Mãe com um filho, mas mesmo assim, o bom senso terá de existir.
Estou muito satisfeita com a decisão e prometo em breve dar as novidades aqui no estaminé.


9.9.13

Eu e o 7....

 
No fim-de-semana do casamento não foi excepção.
Reservei um quarto pelo Bookings numa Estalagem, por sinal num lugar maravilhoso, onde apareci às 5h30 da manhã.
Estava já um cartãozinho feito com o meu nome e uma chave.
Qual era então o número do quarto?


8.9.13

a não-tradição






 
Este fim de semana tive o casamento de dois amigos que ficaram em Pemba quando saí de Moçambique, o André alfacinha e a Yumi sul-coreana.
Logo à partida a mistura explosiva diz tudo, e o casamento não podia ter sido mais bonito, sincero, descontraído e simpático.
Eu que nunca chorei em casamento algum, e já conto com várias dezenas no reportório, lavei-me em lágrimas com a entrada da noiva, com os Pais de olhos em bico e sorriso estampado, com os discursos e as músicas em coreano, com o amor genuíno que juntou estes dois na Malásia e que transbordava pelos brindes que fizemos!
Havia "dancing shoes", os chinelos moçambicanos  que um dia ambicionam ser "havaianas" e assim se baptizam "havanisanas", os noivos alugaram os fatos, qual quê, gastar uma pipa de massa e ainda por cima ter de levar o vestido de volta para Moçambique ou mesmo para a Coreia?!, não vale a pena, nas mesas pediam-se conselhos aos convidados acerca da vida a dois, segredos do amor, nomes de bebés e lugares para viajar nos próximos tempos, os talheres apresentaram-se como se fossem pauzinhos do mikado e no fim levamos chá coreano e rebuçados de ginseng que dizem fazer saltar as unhas dos pés!
Foi um dia lindíssimo, cheio de significado e carregado de sentimento.
Adorei, e já agora espreitem o Blog do noivo aqui.



2.9.13

as primeiras crostas


 

Assim como dois amantes que se separam sem um último olhar, deixei eu Lisboa e este Miradouro que diariamente marcava os meus passos e as minhas horas.
No dia em que vim (re) morar para Cascais, desci as escadas do meu prédio, fechei o porta bagagens, entrei no carro e fugi como uma criminosa.
Não era suportável ter de me obrigar a uma despedida solene - a última ida à frutaria, a última saída com o Flash, o último bilhete de metro, a última descida ao Chiado, o último 28, a última passagem pelo Adamastor...
Sorte a minha que na altura em que fechei a porta de casa pela última vez, o Miradouro estava em obras, feio e desconjuntado.
Mas agora não.
E eu, tal como uma dependente em recuperação, não resisti a uma visita, achava eu que estava a "ter uma recaída". Fui vê-lo, fui à "minha" Lisboa visita-lo, cheia de saudades e curiosidade em saber como tinha passado, como quem visita um parente que vive longe.
Fui sozinha. Pois estas coisas do passado são para ser feitas apenas com o nosso interior a conversar.
E gostei tanto.
Claro que é um local turístico, cheio de gente, concorrido, mas não deixou de ser o "meu" miradouro, onde por muitas e muitas manhãs o Flash farejava a relva e eu, absolutamente sozinha, o tinha só para mim.
Prometi não ficar tanto tempo sem o voltar a ver e quase pedi desculpa pela minha saída apressada há uns meses atrás. Mas não havia outra forma - o coração que não vê é aquele que não sente, e naquele momento o meu já não suportava muito mais sentir.
Agora, com este "teste", a medo, percebi que afinal já as coisas estão mais serenas para os meus lados e o "ver" já não faz tanto "sentir".
O tempo é mesmo o melhor remédio, para estas coisas do coração e para os lugares que se ocupam dele. 
As cicatrizes, finalmente, começaram a formar-se, percebi eu, e a visita que fiz foi a prova disso.