30.6.14

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public
doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

W.H. Auden

A morte é tão cruel não pelo fim que representa, mas pela continuidade que a vida toma a seguir a ela.
O mundo não pára quando tudo o que uma Mãe pode sentir, no momento em que perde um filho, é que o mundo devia todo morrer com ele.
Nenhum filho deveria existir depois do nosso se ir.
Nenhuma estrela deveria brilhar, nem o sol ou a lua.
Só o tempo existe. E passa.

26.6.14

just did it!

 
Nunca digas nunca.
Sempre associei as tattoos a uma estética pouco convencional, pouco cuidada, quando um dia percebi que queria fazer parte dessa tribo.
As tattoos têm algo de tribal, algo de cicatriz na alma que começou a fazer sentido para mim.
Não sei como é que chegou, mas o dia chegou.
Decidi que queria fazer uma.
O signo do meu filho e do meu querido Avô; a minha relação com o mar e a natureza.
Aqui, nesta imagem, estava acabadinha de fazer - ainda a pele inchada e encarnada.
Mais do que o processo em si, gostei do João, que me fez a tattoo, em casa (dele), da nossa conversa acerca da liberdade (esse tema que me é sempre tão querido), da intolerância e do amor; mas do que eu mais gostei, foi o resultado desse momento.
Uma marca no meu pulso esquerdo, do lado do coração - do meu coração, que muito aguentou.
Digo-o no passado. Acredito que com estas dores, destes últimos tempos, aprendi a sofrer menos - muito menos. Só o sofrimento do meu peixinho será algum dia superior à minha própria pessoa - tudo o resto, vai ser a vida a passar.
Venham de lá essas ondas, estou ansiosa por mergulhar!

23.6.14

eu não sou deste tempo I




 
Há quem viva à frente do seu tempo, são os visionários, os génios, aqueles que até não se encaixam no momento em que vivem, porque efectivamente não aquele não é o tempo deles. E por isso sofrem. É certo que são fazedores de ideias e isso é espectacular, mas também vivem assim, como que fora do lugar - e isso deve ser mau.
Depois há as outras pessoas que vivem num outro tempo também, mas em séculos passados.
Confirma-se a minha teoria, tantas e tantas vezes, quando dou por mim a gostar de fazer, ler e ouvir coisas que não são deste tempo. Já foram. Já passou.
E eu afinal, gosto é disso.
Não traz nada de espectacular e só me sinto meia-totó.
A querer acompanhar as cenas, hoje e amanhã, indo lá atrás.
É péssimo - mas também está tudo identificado, não vos apoquentais.
Em "sede de concertação social", eu já tenho isto tudo discutido e organizado.
Agora.
Que género de coisas, perguntais?
Coisas como: ler o livro "Out of Africa", sublinhar frases e ainda fazer o download da banda sonora (que é qualquer coisa ao nível da perfeição absoluta).
E mais. Cheguei a ir lá. Ao Quénia. Ah pois, não faço nada por menos.
Qual Seychelles ou Bora-Bora? 
A minha lua-de-mel foi no Quénia, pois eu um dia fui uma Karen e não estando ainda convencida disso, houve um Denys.
notinha de rodapé: o filme é de 1985
 
 
 

22.6.14

Solstício de Verão




 
 
Primeiro dia de Verão. Começa o solstício com uma tromba de água gigante - em Cascais choveu como se estivessemos numa floresta tropical e evaporou-se uma humidade carregada pelo sol quente que veio a seguir.
Fez tanta chuva como calor.
Começou o dia a chover e assim também acabou.
Mas entre uma chuva e outra, fui até Sintra, onde desde pequena gosto de ir quando chove - a clorofila da atmosfera traz-se muitas recordações; e depois segui até ao Guincho.
Todas as minhas recordações do Verão estão sobre aquela areia - e muitas incluem a chuva. São dias de Guincho tranquilo, sem vento e o mar suave, que terminam com chuva.
Já o disse várias vezes, eu gosto tanto do Guincho porque não é uma praia perfeita - se o fosse, não teria tanto vento, nem a água tão fria.
Mas quando isso deixa de acontecer, e os astros se alinham para o ar ficar quieto e a água tornar-se morna, chove.
É o chão que os meus pés reconhecem e é o cheiro que inspira os meus pulmões - é bom quando sabemos os lugares onde nos encontramos, apesar de  não saber exactamente onde estou, nem para onde vou.  
Estou a caminho.

 



17.6.14

um dia

Acordou.
São seis da manhã.
Mais cedo, mas o costume: em modo "controlo remoto" vou até á cozinha, encho os 300ml, 10 colheres de pó, tetina, rosca, tampa, agitar, agitar.
Entro no quarto, ponho-lhe o biberão nas mãos e ele em menos de 5 minutos despacha a coisa, enquanto mudo a fralda.
Meto-o na cama.
Não quis adormecer.
Irrita-se, chama-me, chora.
São sete da manhã.
Não quer dormir.
Meto-o na minha cama, pode ser que resulte.
Nada disso. Queremos festa e estamos rabugentos.
Tomo banho com ele dentro da casa de banho, a olhar para mim, por baixo da cortina do duche. Sem querer espeto-lhe com o duche na cara, entre tentar lavar os pés e evitar escorregar nas embalagens de shampoo, amaciador e gel de banho que ele entretanto despejou para dentro da banheira.
Vou secá-lo e visto-o, de roupão e descalça.
Não sei o que visto, não sei que horas são. Meto-o no carrinho e vou até à creche.
Regresso a casa.
Começa a outra parte: passear o Flash e arrumar o caos da faixa de gaza num corredor com pouco mais de 8 metros de comprimento.
Feito.
Saio para Lisboa. Esqueço-me de metade das coisas, volto a subir as escadas.
Apanho o comboio. Apanho o metro.
A meio do metro, começo a chorar - o livro que estou a ler, para o book club, deixa-me completamente furiosa, revoltada, triste de uma tristeza profunda, "então matam-no?!?!?, mas como?!?!".
Entretanto recebo um telefonema da creche, o M. entrou!
Há meses que estou à espera desta notícia, tudo o que queria era passar um verão tranquila com o assunto, e consegui onde queria: ao lado de casa (para ir a pé), Santa Casa, óptimas referências.
Muito feliz afinal, mas ainda a pensar no outro que morreu.
Almoço e tarde de trabalho Lifestories com a minha sócia - telefonemas, fornecedores, designers, artes finais, e ainda uma proposta para um novo cliente.
Ligam da creche. Da outra, onde o M. está agora.
Acordou da sesta com febre.
Tenho de sair, apanhar metro e comboio.
A minha Mãe/Avó avança para o local.
Chego a casa, começa logo a chorar mal me vê e cola-se às minhas pernas.
Passamos o resto da tarde a desarrumar tudo o que tinha arrumado de manhã e ainda mais, incluindo escritório (ele já sabe abrir gavetas e usar blocos e post-its).
Preparo o jantar. Dou-lhe o jantar.
Há um cão no meio disto que precisa de ir à rua. (Há um Pai/Avô que me vale)
Há um frigorífico vazio, também.
Há a hora do banho.
A versão mais recente é atirar com tudo o que está dentro da banheira, ensopado portanto, para fora da banheira. No final, parece que estive a dar banho ao Flash.
Deito-o.
Ao M.
O Flash evita estes cenários, até para ele é muito.
Aproveito o M. estar a dormir e vou ao Jumbo. São nove da noite.
Volto a casa e janto.
Arrumo as compras.
Vejo um olho de televisão, guardo o outro para a leitura à hora da cama e antes disso ainda aqui venho escrever este dia que me pareceu o mais longo do ano.
Mas mesmo assim, no meio dos corredores do Jumbo, aquela hora, vejo uma outra Mãe a empurrar um carrinho de gémeos e penso: "Vá, não te queixes que podia ser bem pior... mas e o outro que morreu, raios."
 
 
 
 

11.6.14

Laurentina

 
Eu gosto de osgas, é verdade.
Tenho fobia/ medo de gafanhotos, mas osgas é comigo.
Vá-se lá perceber como.
No jardim dos meus Pais, todos os verões, apareciam duas osgas que baptizamos de "Tristão e Isolda" - era a perfeita história de um amor de verão, em que ao final do dia cada uma corria o muro do jardim para se esconder na sua floreira.
Depois, em Moçambique, aprendi a gostar ainda mais delas: como um dum-dum natural, sem cheiros, nem prejuízos para a camada do ozono. Tinha-as já distintas por divisão da casa, e ainda uma que vivia no duche, sem nunca ter deixado algum dia que eu deixasse de tomar banho!
Acho-as cómicas e atrevidas, e depois de ter lido o "Vendedor de Passados" do Agualusa, tenho a certeza que são personagens cheios carácter.
Por estes dias, apareceu aqui em casa, em Cascais, uma osga! 
Vive no topo das escadas e à noite põe-se junto à luz, qual caçadora paciente.
Chama-se Laurentina e tens primos em África.

6.6.14

o poder do gesto

 
 
Estive uns dias por Berlim.
Visitei um amigo, o meu mestre. O meu poeta.
Ele vive em Berlim há tempo suficiente para falar alemão e confundir-se entre os berlinenses. Eu apenas o segui durante quatro dias, deixando-o que me conduzisse numa dança muito descontraída e serena, sob uma cidade que ainda se me tornou mais fascinante.
É toda ela o resultado de imensas crises, batalhas, conflitos, guerras... Por isso não é uma cidade fácil. E por isso é, para quem a souber ouvir, uma cidade que desbloqueia tudo o que estiver bloqueado.
O Pedro avisou-me: vai pensando e falando alto, enquanto andas de bicicleta ou vais no metro. Conversa com ela.
Eu, que sou uma boca sem fecho e um coração mais aberto do que uma janela com corrente de ar, usei e abusei desse conselho.
Não só não tive um minuto de descanso, como ainda, nos meus silêncios, conversava com Berlim.
E tudo se confirmou e se me apresentou no último dia de passeio.
Fomos ao Memorial do Muro, construído no local por onde passava, e que por isso dividiu casas ao meio. O muro passava pela cozinha de uma casa, suponhamos.
Dividiu casas, famílias, casais, amantes, pais e filhos, irmãos, primos e amigos que tinham de tomar a opção: de que lado queriam ficar.
A imagem do muro, agora em jeito de uma linha sobre o chão, ou em estacas de ferro (como se vê), está sempre presente, atravessa estradas, passadeiras, passeios; desde que saí do metro, até chegar ao local, vou passando pelas linhas (1961-1989) que me dão noção de uma fronteira invisível, mas tão real e angustiante.
Houve casamentos de um lado, e os convidados do outro, nascimentos de bebés de um lado, e a família do outro, irmãos separados, festas de anos cortadas ao meio, Natal a metade, enterros incompletos.
O que o muro cortou, foi para mim numa metáfora tão evidente, muito mais do que uma cidade ou uma ideologia política. Cortou vidas ao meio. As pessoas viveram em metade.
E isso fez-me doer o coração.
E tudo se desfez em lágrimas quando me apercebi do poder que um gesto pode ter, quando já nada ou quase nada existe, quando tudo se separou, quando não há telefones, quando as cartas são interceptadas, quando não há forma de se comunicar com quem se ama: dizer adeus era tudo o que restava. Subir a um escadote e acenar.
No limite, era o que ainda lhes era permitido: passar pelo muro e dizer adeus.
Partilhar um gesto tão simples e tão cheio de significado.
Só pensei que hoje, com tantas ferramentas que temos e que nos facilitam a vida ao máximo para comunicar uns com os outros, sentados numa cadeira e para qualquer parte do mundo, muitos esquecem do poder de um gesto.
Que fazê-lo, nem que seja dizer adeus, vale 20 mil facebooks e 10 mil instagrans.
É por isso que cada vez mais acredito no poder do amor e de que nada nos é impedido - basta querer, ter vontade de subir ao escadote e não ter medo.