29.6.11

mental note...



Terminal: Partidas

Li em algum sítio uma frase que dizia mais ou menos o seguinte: viajar é levar connosco tudo aquilo que não se pode transportar, fazendo da nossa memória o nosso saco-cama.
Cada vez mais, o sentido da viagem é, para mim, muito mais do que fazer as malas e partir. Chegar a destino.
Porque isso é o mais fácil.
O caminho que se atravessa, o percurso que se estende à nossa frente e aquilo que significa é uma viagem muito maior.
A memória prepara-se para o momento, abrimo-la, enchemos de imagens, de cheiros e de sensações.
Depois, faz-se a troca entre aquilo que levamos connosco e o que vamos juntado no caminho.
Longo ou curto.
Por fora ou cá dentro.
Viajamos fora e dentro de nós, sempre. (até nos resorts da pulseirinha "tudo incluído")
Nunca fui tão viajante como sou hoje e aqui neste mundo. O que levo é indiferente, porque tudo se substitui, são coisas: dinheiro, um par de calças, um bikini, a escova de dentes, o shampôo, etc... A bagagem não tem peso, não tem forma.
É assim que o viajante faz do caminho a sua missão e não o destino.

20.6.11

Errar.
O que é o erro? É qualquer coisa que à partida está mal. Se está mal é por que "alguém" disse o que está certo. E o que está certo?
O que é errar? Falhar?
Se falhou é por que havia umas regras no início do jogo. No mikado tinhamos de apanhar os pauzinhos da mesma cor sem deixar os outros mexer. Se se mexessem perdiamos. Regras.
E na vida? Onde estão as regras do mikado, que dizem que falhamos e por isso perdemos?
Quem fez as regras? Onde estão escritas, existe algum site onde possa haver um "pdf" com as regras da vida?
E agora vem a melhor parte.
E aquela que toda a gente sabe.
Não existem. As regras não existem e não estão escritas em lado nenhum. Com execpção de matar e roubar, (mesmo assim questiono a razão por que alguém o fara) onde está escrito que é errado fazer isto e fazer aquilo?
Quando se rouba para comer, para sobreviver, é errado?
Quando se ferem os sentimentos de alguém? Quando se entra na esfera dos outros e alteramos as suas vidas? Quando se põe em causa a nossa saúde?
Onde está o limite do erro? Devia de existir uma régua, ou um medidor de erros, para que assim a "punição" fosse justa e de acordo com o grau do erro. E havia uma regra absoluta, como o grau de alcóol do vinho, nem mais, nem menos, é 14,5º. Ponto. A partir daí, é erro. E depois havia uma escala: grande erro, pequeno erro...
Para isso existe a Justiça, que mede na sua balança os vários graus. Mas para aquilo que a Justiça não serve (e acredite-se que já me servi dela, para exactamente colocar um autocolante de "ERRADO" na testa de alguns senhores), para aquilo que o Direito não julga, nem existem advogados, como fazê-lo?
Para as escolhas da vida. Para as nossas opções. Para aquela "carruagem" onde escolho entrar, para aquele "metro" que apanho e tudo o que isso implica, quem julga? Quem condena?
Nada, nem ninguém. Só nós próprios. Rita, a Juiza, Rita, a advogada, Rita, a Ré, Rita, a Autora.
Pois é, preciso de expurgar o meu "erro" e então venho para aqui escrever coisas.
É verdade, será mesmo que eu errei?

16.6.11

Letra A

Agora voltamos do Sul.
Fomos até ao Algarve, até Lagos.
"Légos". Terra de boa conquilha, ventinho e casaquinho ao final da tarde e ao cair da noite. Praia cheia de conchas, água transparente carregada de peixes, cores maravilhosas. Bocados de rochas no meio do mar, falésias daquelas que caem em cima das pessoas e depois vem na televisão - mas eu confirmei, há lá cartazes e sinais "danger", triângulos amarelos e desenhos de bocados de pedras a cair, mas mesmo assim o povo insiste em pôr-se lá debaixo, é-lhe irresistível o desafio da parede em risco de queda e morte imediata, vá-se lá entender esta gente!
É o nosso pedacinho de África, sem dúvida. Na viagem de carro pela A2 não deixo de me comparar dentro do carro a caminho do Malawi ou a caminho da Ilha de Moçambique. Mas aqui o alcatrão é suave e rolante, há duas faixas para cada lado, bombas de gasolina tão bem arrumadas, traços bem pintados no chão, separadores. Tudo impecável.
O calor é igualmente penetrante pelo pára-brisas do carro. E os bocados de uma paisagem amarelada e seca. Houve um pedaço de estrada que fizemos em Moçambique, mesmo a chegar ao Rio Zambeze, a caminho de Pemba, que era mato, mato, mato. Seco, seco e seco. Parámos para um "farnel" e fomos invadidos por calor, secura, libelinhas e aves de rapina que rondavam o nosso carro na berma da estrada.
Já para não falar dos troços de estrada com incêndios, bocados de mato que pegavam fogo a si mesmo, tal era o calor e a secura que se fazia sentir. A época das chuvas estava longe, e a humidade era de facto muito baixa. Acordavamos às quatro e meia da manhã para começar a viagem pelas cinco, para evitar ao máximo as altas horas de calor. E o que fizemos foi nada, comparado com tantos viajantes com que nos cruzamos que vinham de África do Sul (muitos da Cidade do Cabo) por ali acima.
Desta vez, indo nós rumo ao nosso Sul, a escassos 300km de casa, a paisagem cor de ouro estava carregada de rolos e rolos de palha e feno seco, vacas e ovelhas esbatidas pelo calor, ruinas, bocados de casas e milhafres. Milhafres que chegavam a pousar na estrada, levando um ratinho ou uma lagartixa no bico. E depois as cegonhas, autênticos condomínios de alta tensão, a família toda lá dentro do ninho, Pai, Mãe, e duas crias.
O Alentejo e depois o Algarve. Uma extensão da savana, do mato em África.

11.6.11

Somos Bairristas

Já fomos.
Às sardinhas e aos caracóis, à cerveja e à sangria.
Cheira a sardinha assada o dia todo e a fumarada faz a roupa ir directamente para o cesto da roupa suja.
O Largo do Adamastor, a poucos passos da nossa casa, encheu-se de barraquinhas da Sagres e da Super Bock, de pizza à fatia, caldo verde, cachorros e bifanas. Há manjericos no Largo Camões, música na rua, arraial na Bica, até o 28 anda aos saltos nos carris, cheio de turistas e fadistas, Calçada do Combro acima, Calçada do Combro abaixo.
"Somos Bairristas" - é a Pub. da Sagres que enche as janelas dos vizinhos.
E eu, nestes dias de festa, gosto ainda mais do meu Bairro. Gosto ainda mais da minha cidade.
Lisboa é liiiiiinda!

7.6.11

Textos Africanos #1 (para aliviar a zanga..)

Será possível eu gostar de duas coisas ao mesmo tempo?
De duas flores, de duas castanhas, de duas fronhas, de dois cestos, de duas laranjas, de dois pés… será possível?
Da cidade de do campo? Do mar e da terra? Do elefante e do cão?
Acho que sim.

Hoje vi a cidade de Paris pela televisão – magnífica e única. As filmagens eram aéreas e a cidade estava carregada de verde, com o Verão inteiro nos edifícios desenhados só com amor. Só com amor se desenha uma cidade assim.
Depois, nessa mesma tarde, tinha o oceano à minha frente – magnífico e único. Carregado de baleias, golfinhos, peixes e água azul turquesa.

O mesmo sol que naquele instante iluminava a cidade de Paris, reflectia-se naquele mar à minha frente, naquela Praia, no pedaço de terra em frente. Só com amor a natureza pode ter feito aquele mar e aquela terra assim.
O amor dos homens e a obra do homem, o amor da terra e a obra da natureza – em opostos. São opostos intensos.
Não me abandona a ideia de que o mesmo sol que ilumina a cidade mais bonita que eu já conheci – e julgo ser a mais bonita no mundo – iluminava a minha tarde em frente ao mar, a milhares de quilómetros de distância.

Os nossos olhos estão mortos – já não vemos nada. Nem a cidade, nem a natureza… Corremos o risco de passar uma vida inteira assim e isso é morrer lentamente. Dos que vêem alguma coisa, somos capazes de os menosprezar, ridicularizar. E assim vamos caindo mais fundo, mais a caminho dessa morte lenta.

Pedia que todos os olhos vissem a cidade e o mar, com o mesmo sol e pensem. Percam um minuto a pensar no seu corpo, na sua pele, na sua respiração e que sintam que fazem eles parte do mesmo mundo, que o sol também os ilumina.
O futuro não é a evolução da espécie, o futuro é a alienação da espécie. O homem está a alienar-se de si próprio – um processo que deve ter uns 50/60 anos… tem-se vindo a intensificar neste últimos 20 anos, e julgo que esta década de 2010 a 2020 será um descalabro total de alienação.
A atenção desvia-se para o dinheiro, o petróleo, o consumo, a inveja, a cobiça. Não há volta a dar. Uns tomam consciência disso e escrevem numa folha em branco, para que alguém um dia venha ler, outros preferem nascer e morrer sem nunca ler essa folha.


Pemba, 25 de Julho de 2010 - domingo
"A Rita nunca se zanga?"
"A Rita nunca dá murros na mesa?"

Zanga, zanga. PUM! (um murro na mesa).
Porque para uns é tão fácil e para outros tão difícil?
Não somos todos feitos do mesmo?! O sol afinal não nasce para todos?!
NÃO.
E é esta dureza e esta realidade demasiado crua que (às vezes) me remoí as entranhas.