31.5.11

post-its, touros e sempre o Flash!



Caros leitores,


Gosto de me dirigir a vós, meu caro público!


É bom saber que há alguém desse lado, que no fundo há leitores.
Tenho andando em fraca produção, em termos de escrita e isso nota-se, pois.
Mas a minha cabecinha nunca pára, ando sempre em raciocínios e pensamentos, frases que me marcam e leitura vária.
Estou numa fase de andar a colar post-its na parede em frente à minha secretária com frases, ideias, opiniões. Coisas que ouço, frases, pensamentos, pareço uma exploradora de chapéu a caçar borboletas no ar (os post-its têm várias cores e então faz um efeito engraçado na parede branca - vejam pela foto).


Ando na fase da recolha, depois disso pode ser que venha de lá alguma coisa. Algum texto. Gostava de terminar os contos que escrevi em África e cá em Lisboa. Gostava de escrever umas histórias sobre crianças africanas. Gostava de escrever outras coisas neste espaço.
Às vezes tenho receio de estar a ser uma enfadonha... mas eu sei que tenho o meu público comigo, por isso me dirigi a vós!


Às vezes ainda penso que devia escrever sobre as cores do verniz das unhas, a última "it-bag" da estação, os sapatos lindos que vi numa montra, a falta de pontaria que ele tem para o cesto da roupa suja, os restaurantes da moda e as saídas com as amigas... mas isso cá me parece que é tão pouco "eu". Sim, eu também pinto as unhas e gosto de ir à Zara, e malas e sapatos e tal, e lojas, e cupcakes, e viagens a Nova Iorque e etc e tal.


Mas se eu não me dá para escrever sobre isso, por que insisto?
Porque, lá está, tenho medo de me estar a tornar numa enfadonha, intelectualóide-de-esquerda-urbano-depressiva, com a mania que é artista e tal.
O meu caro público gosta, não é?


Então, pronto!


Continuo nas minhas conversas convosco, agora ainda por território nacional (Lisboa), que me levam por tantos caminhos.
Conto-vos então duas coisas maravilhosas que aconteceram por estes dias:
Ontem vi um documentário sobre os touros, o touro de lide em Portugal e as Corridas. Uma reportagem feita entre Portugal e Espanha com imagens das várias Praças e com entrevistas a filósofos, historiadores, escritores, ganadeiros, campinos, etc. Sempre gostei de Corridas, sempre me fez arrepiar a pele estar numa arena, o cheiro do pó, a respiração do touro, a dança entre homem e besta.
A reportagem explicava que, na sua essência, o touro é criado exclusivamente para o fim de ser lidado. E o documentário termina com um bezerrinho que fugiu da manada e o campino foi buscá-lo a umas terras bem longe. Trouxe-o, desatou as patas e pô-lo junto à manada, de onde, em pouco mais de uns segundos, se destacou uma fêmea, com quem o bezerrito foi ter a correr. Desataram-me a correr as lágrimas pelos olhos. Um bicho com pouco mais de 48 horas reconhece a Mãe e ela sente a falta dele.
Maravilhoso.
E sim, continuo a gostar de ver Corridas de touros, e sim, adoro animais. Gosto mesmo muito deles.
Também ontem o Flash comeu um chourição inteiro que eu deixei em cima da bancada da cozinha, sem querer, ao seu alcance. Cheguei a casa muito depois disso acontecer, mas já sabia da "asneira".


Assim que entrei em casa ele veio todo contente falar-me e eu, já horas passadas sobre o episódio do chourição, disse-lhe apenas: "Sei bem a asneira que fizeste. O Flash é feio." Todo ele se reduziu a uma bolinha preta e encolheu-se como um bichinho de conta preto. Atira-me com uns olhos que pareciam duas bolas brilhantes castanhas com uma risca branca enorme, num imenso pedido de desculpa.
Maravilhoso.

27.5.11

Quando viajamos, e depois quando regressamos, acontece aquele momento do "antes-depois" em que nada volta a ser igual.
Já não olhamos para o mundo da mesma maneira, porque sabemos que existem outros tantos mundos diferentes.

As esplanadas e os cafés de Paris, as flores e o campo de vaquinhas perfeitas na Holanda, o metro, as pessoas, os prédios e as lojas maravilhosas em Nova Iorque, a savana e os animais selvagens em África, as praias, os coqueiros e a areia branca nas Caraíbas, a cor da terra e da vinha no Douro, os ciprestes, os campos de trigo duro e a foccacia na Toscânia.
Quando voltamos tudo o nosso Universo vem mais rico, e por isso se diz que viajar é tão bom.

Nestes últimos meses tenho vivido num estado de "antes-depois" mais intenso. Quase físico. Mesmo físico.
Porque eu não estive de férias, no verdadeiro sentido do estado de espírito. Os últimos 6 meses em Moçambique entraram por Lisboa adentro, pela minha casa, pela minha cabeça e pela minha pele.
Quando ainda hoje me perguntam: "Mas conta lá, como é?" Não consigo responder. Mas depois porque vejo qualquer coisa, porque me lembro de qualquer coisa, porque cheiro ou porque ouço, então lembro-me!

Um dia destes fomos à Caparica. E foi a primeira grande experiência "antes-depois" que eu tive.
A temperatura da água, os meus olhos a forçar a barbatana da baleia ao fundo, ou um golfinho pelo menos, o mergulho no mar, as ondas.
Confirmo. O Atlântico é o meu mar. Devolve vida quando se mergulha!
Depois vi os pescadores a chegar nums tractores para lançar as redes. No Ibo as redes são feitas de fios velhos, com restos de chinelos para servir de boias. Lançam-se ao mar à mão, num barco a remos e os homens ficam horas dentro de água, a ir apanhando a rede a ir contornando os cardumes. Aqui foi um barco a motor que as deixou ao longe e depois foi um mecanismo eléctrico que as puxou da praia.
Das redes vinham cavalas e carapaus todos mais ou menos do mesmo tamanho, nenhum peixe com mais de um quilo.
No Ibo chegam cardumes de atum pequeno, tubarões bebés, lagostas, garoupas com três e cinco quilos e até raias. Tudo a poucos metros da costa, com água pelo peito.
Ser pescador é duro, tanto lá como aqui. O que o mar lhes dá é que é tão diferente. Concluo que deve ser mais duro ser pescador cá.

Outras experiências engraçadas têm a ver com as idas aos supermercados, que agora me fascinam pelas luzes e as coisas tão arrumadas, com os transportes públicos onde me apetece tirar fotografias, com ficar intrigada por ninguém aproveitar a água da chuva(!), com andar descalça (mesmo em locais públicos tenho de me controlar), tratar toda a gente por tu, acreditar que as crianças de lá sofrem mas são felizes, coisas dessas e assim.
Acredito que no meu universo existe uma mina de outro, que estou rica!
Mas não consigo ainda, já, hoje, compreender, assimilar e digirir isso tudo.
Como sempre e como em quase tudo, é o tempo nos compõe.

16.5.11

Tempo e Memória

Chove em Lisboa.
O raio da chuva traz-me as palavras que afinal ficaram há dias afundadas em nuvens.
Andei dias à procura delas, andavam esquivas e fugidias.
Vêm devagarinho. Não é uma torrente de palavras é só assim um aguaceiro.
O que já não é nada mau.
Foi a chuva e antes disso tinham sido uns calções de ganga.
Passo a explicar.
Com este calor resolvi amputar umas calças de ganga, de tesoura na mão e a direito cortei-lhe as pernas. Vesti-as. Fiz duas dobras nas bainhas cortadas e fiquei a olhar para os meus calções de ganga.
E de repente, foram milésimos de segundos, tão poucos que nem há tempo para os contar, mas de repente, tinha 15 anos e estava de bicicleta a caminho do Guincho com a mochila às costas.
Tempo e Memória, é só o que é preciso para escrever.

2.5.11

A descoberta do (D)Ouro!

"Começa em Miranda a acaba na Foz, este calvário. Começa em pedra e cal, e acaba em pedra e água. Como nos pesadelos, não há nenhum intervalo para descansar. Entra-se e sai-se do transe em plena angústia.
No Portugal telúrico e fluvial não conheço outro drama assim, feito de carne e sangue.
(...)
Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos.
(...)
E é, no mapa da pequenez que nos coube, a única evidência incomensurável com que podemos assombrar o mundo."
Miguel Torga, Portugal (1ªedição 1950)

A primeira vez que conheci esta realidade assombrosa foi em Dezembro de 2003 e ninguém me preparou para o que iria conhecer. E o que acabou por acontecer foi que senti no corpo um diálogo intenso com esta região. Não existe, nem mesmo em África descobri, outro lugar onde o silêncio seja tão ensurdecedor. São contrastes de sensações, cores e texturas e sempre o sabor do líquido doce na boca.
O meu primeiro Romance (e único) foi escrito depois dessa primeira viagem, e comecei a respirar Douro por todos os poros. E quando se fica em casa de amigos, que nos recebem como uma família, numa casa carregada de histórias e de vidas intensas, torna-se tudo ainda melhor.
Que sorte tive eu, em conhecer assim o Douro!