29.1.11

Desastres de Rita

É oficial, e reconheço-o como um defeito meu e que tanta angústia me tem dado.
Principalmente desde que viemos para Moçambique, para um sítio que nos põe demasiado a nu, expostos, em tudo o que temos de bom e de mau. E comigo aconteceu precisamente isso, naquilo que eu tenho de pior…

Sou desastrada. Desajeitada. Tenho duas mãos esquerdas. Bruta e pouco amiga da sensibilidade dos aparelhos tecnológicos, esses cada vem mais sensíveis, mais touch-high-tech-screen-view-pixel-etc…

O mais engraçado é que os adoro! Acho o ipad um espectáculo, aquilo é verdadeiramente lindo e apetece-me dar-lhe festinhas e trazê-lo para casa. O iphone a mesma coisa, os ipod, as máquinas fotográficas, e tudo mais o que torna os nossos sentidos tão apurados e quase únicos.
Mas a verdade é que eu deveria ter vivido na idade do bronze, ou quanto muito chegar ao tempo dos vikings; aliás quando li os “Pilares da Terra”, achei que 1200, por volta da Idade Média, seria muito bom. Tudo era feito à base de pedra, madeira, cordas e quanto muito tachos de barro, o que dava uma margem muito boa para as minhas mãos de bestinha e a minha cabeça aluada.
Sofro de uma espécie de esquizofrenia-tecnológica, gosto daquilo tudo, mas assim que me apanho com uma coisa dessas na mão, esqueço-me de quanto amor e estima eu sinto e de quanto aquilo contribui para a minha felicidade (sinceramente que contribui – basta dizer que para escrever todos os dias, como o faço hoje, preciso do computador como pão para a boca e mesmo assim…)

Mas afinal, do que se trata, pensam vocês, caros leitores?

Desde a minha chegada a Moçambique já vou na segunda vez que estrago do Auto-Focus da lente da máquina fotográfica e na segunda vez que estrago o meu computador – tudo por culpa desta minha cabeça de vento… esqueço-me do sítio onde guardo as coisas, deixo-as cair ao chão (é o que acontece a maioria das vezes), ponho as coisas nas malas dos carros e faço viagens de 120km de buracos e lombas, etc…

É uma vergonha e é uma coisa que me deixa profundamente triste. Gostava de deixar de o fazer, como se para isso houvesse uma daquelas clínicas “não fumo mais” mas antes seriam clínicas de ajuda aos desastrados incorrigíveis: “não estrago mais”, ou uns patchs ou umas pastilhas elásticas que nos dessem a destreza de evitar estes desastres que eu provoco, e que repito, tanta mágoa me dão.

A “vítima” que se segue foi a minha máquina fotográfica que eu deixei num sítio pendurada e que caiu ao chão passados 2 minutos. A lente não funciona. Sendo que isto já se tinha passado em Outubro. Há duas semanas foi o meu computador. Consegui arranjá-lo em Pemba, mas coitado, acho que nunca será o mesmo.

Vou assumir que nunca mais quero nada disto, não posso ter isto. O máximo em que eu deveria ter ficado, na evolução da tecnologia, era na máquina fotográfica cor-de-rosa e branca do “My Little Pony”, tudo o que fosse além disso deveria ser-me vedado.
Talvez uma daquelas digitais, pequeninas que cabe bem na mala… Já estou a delirar pois.
A questão mais parva é que eu adoro tirar fotografias, tal como adoro escrever e ir à internet. Mas eu devo ter uma espécie de repelente-de-aparelhos que os afasta de mim. Vou escrever à mão, arranjar uma máquina de escrever, vou tirar fotos com a memória e depois tento talvez escrevê-las.
É tudo o que eu posso dizer…
E como tomei este texto em jeito confissão e de remição dos meus “pecados”, parece que as coisas sempre se compõem dentro do Universo. Assim que comecei a escrevê-lo esta manhã, contei de seguida ao Xano o episódio da máquina que se tinha passado ontem, quando chegamos ao Ibo, mas eu não lhe quis contar logo para não o aborrecer. E como os meus leitores não podem saber das coisas primeiro do que ele, achei melhor aproveitar o meu sentimento de culpa e contar-lhe de seguida. Tanto que ele assim que me viu a escrever perguntou logo o que é que eu tinha, tal devia ser a minha cara de ovelha acabada de tosquiar.

Contei-lhe, ele ficou calado e pediu para ver a máquina. Enquanto eu continuava a escrever este texto, ele andava com a máquina a ver o que se passava e poucos minutos depois entregou-me a máquina a dizer: “Já está boa”. Sendo que, apenas para informação, eu sou casada com o “deus” dos dedos delicados, das mãos de ouro, do “estraga-zero” – tanto que ele tem umas mãos lindas, e não acho que seja coincidência.

Mas a verdade é que apesar de adorar a minha máquina, eu não me senti melhor por ela estar boa, até fiquei mais envergonhada e com vontade de me penalizar ainda mais. Então disse-lhe que a partir de hoje a máquina é dele, e tudo o resto que nos rodeia e que envolva a electrónica facilitadora de vida.

Vou-me tornar numa eremita da tecnologia – o que numa ilha que não tem luz nem nada, não me parece ser má escolha. Vou-me dedicar ao patchwork (já vi aqui uma loja que vende tecido de capulana a metro), a fazer pão e bolos e a escrever cartas ao som da grafonola. Começar a pastar cabras está a um passo de distância, e eu até lhes acho tanta graça.

24.1.11

A minha Vida do Eu

Este texto vem em jeito de recado, e ao mesmo tempo de um outro tema que nada tem a ver com Moçambique ou com África. É bom também, este afastamento. Pois África nos consome e nada mais importa. São tantos os sinais que nos chamam, é tamanha a diferença entre este e o meu mundo, ocidental, europeu, que passo os dias, as horas e os minutos e absorver todos estes novos estímulos.

Se por um lado tenho uma imagem, tão presente, de estar a comer um éclair de baunilha na Versalhes com um Sumol de laranja (a conjugação perfeita!), ou a apanhar o metro entre a cidade, ou em casa sob a luz alaranjada a ver a chuva lá fora, na rua a passear o Flash, na auto-estrada até Cascais, nas Amoreiras a almoçar com amigas ou na Fnac a mergulhar nos livros e na música… por outro, vejo-me próxima das cabanas de matope (lama) e tecto de colmo, das crianças pequeninas com os garrafões de óleo de 5 litros na cabeça que agora servem para encher de água, dos vendedores de ovos cozidos, pacotes de bolachas, chamusas de batata e galinhas vivas, de mergulhar num mercado local, com as montanhas de bananas, ananás, manga e mandioca, do cheiro do peixe seco, da terra depois de uma chuvada tropical, da cor dessa terra, dos pássaros com que me perco no céu, da lua cheia (que nunca vi outra tão bonita), do por do sol (que não deve haver outro tão bonito) e da trovoada digna de uma Ópera de Wagner.

O meu recado é, meus caros leitores: eu tenho a sorte, a sorte de ter tido a opção de escolher. Sei o que é a “outra” vida e agora vivo esta “nova vida”. Escolhi, eu e a minha cara-metade estar agora por aqui. Escolhemos. Tenho estado a matutar neste assunto, o de ter o privilégio da escolha. Quando talvez a maioria acaba por se levar por um destino premeditado, acabando por não escolher muita coisa… indo pelos passos de um “Sistema”, de uma Sociedade. Sair desse “Sistema” é uma escolha arriscada, quase impensável. Mas nós tomamos esse passo. E agora sim, podemos dizer, que somos nós que comandamos a nossa vida, e escolhemos este momento. Nada, nem ninguém nos trouxe até aqui, senão apenas nós os dois. Mas isso, da forma mais pura como o estamos a viver, não pode deixar de nos causar alguma ansiedade, medo e até confusão. Há dias em que nos sentimos tão perdidos como uma minhoca dentro de uma casa com chão de cimento. Atarantados à procura de uma solução, de uma saída que alguém já a possa ter pensado – mas a solução afinal somos nós. A escolha foi nossa.

Sem querer levantar polémicas, nem alterar as vidas de cada um, que pela cidade e pelo mundo ocidental se quedam, experimentem então, nas pequenas coisas, usar a vossa opção de escolha. Sigam o caminho de um outro destino, que é sempre vosso.
Mas também tudo se consolida e acontece porque temos um outro factor do nosso lado, que é também ele precioso: o tempo.

Agora, e por falar em tempo, mas que não tem nada a ver com isto, e é a segunda parte deste texto, é a minha paixão assumida por cadernos e caderninhos (até no Malawi consegui comprar dois cadernos de notas) e pelas Agendas!

A minha primeira Agenda foi, naturalmente, e muitos da minha geração dos 33 sabem do que falo, “A Minha Agenda - 1987”. Tinha 10 anos e andava no 5ºano do Liceu. A partir daí foram agendas filo-fax, moleskines, e agora, mais recentemente, para 2011, a Agenda mais minimalista que alguma vez tive e que comprei em Nova Iorque (um outro texto a considerar, destes de aliviar a densa atmosfera africana que consome tudo). Mas também este ano há uma outra Agenda, a Agenda da “minha” Companhia do Eu, e que tem em todos os meses textos dos alunos e amigos da minha Escola da Vida, da Universidade das Letras do Pedro Sena-Lino e de todos os que a preenchem de criatividade e de toneladas de escrita partilhada. Este ano, eu escrevi um texto para o mês de Outubro. Apesar de estar a chegar ao fim o primeiro mês do ano, acho que ainda a podem encontrar à venda.

E para terminar, seguem estas linhas para quem as sabe.

Meus amigos, meus irmãos de escrita, minhas mãos que me faltam a cada semana – estou cheia de saudades vossas. Neste momento abro a porta da Companhia e entro na nossa sala. Trago amêndoas torradas, iogurtes, bolachas, o costume, vocês sabem, e sento-me no nosso círculo de palavras. Sei como é que cada um escreve, e vejo-o perfeitamente, a posição da caneta no papel, da cabeça e da mão, o barulho da criatividade entre as paredes. No final do elo está o Pedro, de casaco de malha, ou blazer, t-shirt por baixo, calças de ganga e ténis; quando ouve os nossos textos, tira os óculos com as duas mãos, dobra-os e baixa um pouco a cabeça, porque ele não precisa de ver as palavras, ele apanha-as no ar com a sua rede mágica e joga com elas, dá-lhes asas, enche-as de espírito e de um universo infinito, e devolve-as à sala, onde continuamos sentados no nosso circuito tão íntimo.

Que todas as Áfricas te paguem, meu mestre, o prazer que a escrita me dá, porque tu a fizeste parte de mim.

23.1.11

Viagens na minha Terra
















































































De 14 a 22 de Janeiro ...

Viagem ao Malawi, para ir à cidade de Blantyre obter o novo visto e no regresso a casa (Pemba) passar pela Ilha de Moçambique. Ou…

Viagem ao centro da chuva e do verde; Viagem para conhecer um novo País Africano que apesar de estar tão perto de Moçambique é tão diferente; Viagem a uma terra com um mercado vibrante, bicicletas e plantações de chá, bananeiras e cana-de-açúcar, tabaco e tanta mais fruta quanto a quantidade de chuva e de verde que se vê por todo o lado; Viagem a uma abundância pouco comum, a uma terra onde se fala inglês e se bebe o chá das cinco com leite e onde a vida parece ser mais fácil…; Viagem ao frio, pois ficamos perto da cidade de Blantyre, na pequena e pacata vila de Mulange, a poucos quilómetros da fronteira, junto à Montanha com o mesmo nome e onde a humidade e o musgo são fortes e abundantes, com uma quantidade cómica de sapos pequenos que andam pela rua que quase tropeçamos neles quando entramos num lugar qualquer; Viagem para obter o visto de residência e tornar-me pela primeira vez numa expatriada; Viagem da chuva e dos buracos, tantos que saltou uma janela e partiu-se a fechadura da bagageira do carro, mas em 2.650km nunca tivemos um furo, nunca nos faltou o gasóleo e tudo em excelente condução pelo Xano; Viagem de regresso a Moçambique, com passagem pelo Gurué, regresso às crianças e à música na rua aos berros, às motas chinesas invasoras e aos preços mais caros; Viagem de passagem pela maravilhosa Ilha de Moçambique em que não poderíamos deixar de a comparar com a “nossa” Ilha do Ibo, é mais desenvolvida, tem electricidade, uma ponte que a une ao continente e já um turismo considerável; Viagem de não acreditar como seria possível que há mais de 500 anos atrás saíssem do Cais do Restelo as caravelas lideradas por Vasco da Gama, com o Camões a bordo, mais o escorbuto e meses a fio no mar até chegar a Moçambique e ainda construir uma fortaleza, igrejas e ter a ambição de chegar mais longe; Viagem de voltar a casa e ainda passar nas Praias de Fernão Veloso e comprar esteiras de bambu, caju, umas mangas para o caminho e dois ovos cozidos com um papelinho enrolado com sal.

Foi uma semana bem passada, em que nos soube bem o passeio, mas também já apetecia chegar a “casa”.
Já sentíamos falta do calor de Cabo Delgado, da nossa Província meio esquecida a tantos quilómetros de tudo…

13.1.11

A História do Ibo



A Ilha do Ibo, no meio das Quirimbas!






Estes dias que temos passado no Ibo, de alguma calmaria, pois tudo está em ritmo de férias de Natal e Fim de Ano, tenho aproveitado para conhecer melhor a História desta Ilha. E assim começar a fazer parte dela também.

Faz este ano 250 anos que o povoado da Ilha foi elevado à categoria de Vila, pela Coroa Portuguesa. E como tudo começou, foi através de nós – portugueses. Este povo tão, tão pequenino, tão microscopicamente presente no universo actual, mas que me faz sorrir e sentir-me orgulhosa cada vez que conheço e aprendo com os seus feitos extraordinários. Porque o que fizemos há 500 anos atrás foi tão extraordinário como será hoje a descoberta de uma nova galáxia, ou planeta, ou uma outra via láctea talvez...

Quando Vasco da Gama chegou à Ilha da Quirimba em 1498, sempre com o objectivo da Índia, pois era lá que estavam os maiores interesses do Império (Moçambique serviu como “escala” para as viagens ao Oriente), ele encontrou uma Ilha, no meio do Arquipélago das Quirimbas, carregada de árabes. A influência muçulmana é tão forte nesta costa africana, que é demasiado anterior a qualquer tentativa de colonialismo pelo mundo ocidental. A China, a Pérsia, a Índia – todo o Oriente estava enraizado em África.

A expedição de Vasco da Gama continuaria até à Índia, mas 25 anos depois, em 1523 ele quis voltar e veio para tomar de saque a Quirimba, destruindo barcos e casas, e eliminando o poderio muçulmano que estava presente na Ilha. Houve duras lutas entre os portugueses e os árabes de Oman e decide-se a transição da Capital para a Ilha do Ibo. Ora, dali para a Ilha do Ibo foi um pulo – literalmente naquela época como hoje, pois caminha-se a pé entre as duas Ilhas durante a maré baixa (duas horas e meia de caminho). No Ibo os portugueses encontraram água doce, e isso foi fundamental para que então implementassem o seu marco na Ilha.

Como ilha, estrategicamente colocada, entre África e a Ásia, serviu de escala de comércio e de porto de partida para a troca de escravos. Barcos vindos dos dois mundos, ocidental e oriental, chegavam ao Ibo carregados de telhas de Marselha, de loiça chinesa, especiarias e de lá voltavam com escravos e sisal, mica, madeira…
O mais curioso é que ainda hoje, ao caminhar na Praia, quer no Ibo quer na Quirimba eu encontro muitos pedaços de pratos com o desenho azul “cantão” e tenho andado a coleccionar bastantes pedaços que, apesar de não terem valor, contam essa história única destas Ilhas. As telhas de Marselha ainda hoje estão nos telhados (os poucos que restam de pé) nas casas da Ilha do Ibo.

Apenas em 1752 é que a Colónia de Moçambique deixa de ser administrada a partir das autoridades sediadas na Índia, e consolida-se a Aventura portuguesa na África Oriental e no Arquipélago das Quirimbas. A planta de urbanização da Ilha segue a influência das possessões portuguesas e criaram-se 3 fortificações: Forte de São José (1764), Fortaleza de São João Baptista (1789) e Forte Santo António (1818). Defenderam a população dos ataques frequentes dos Sakalaves (povo de Madagáscar) e até de uma tentativa de tomada da Ilha pelos Franceses. Felizmente, hoje as 3 fortificações estão em bom estado de conservação, tendo sido recentemente recuperadas.

Em 1885 é instalada a iluminação pública nas ruas do Ibo, chegando 100 lampiões da Índia e no final do século 19 o Ibo estava a florescer de gente, comércio e actividade económica; há registos que apontam para cerca de 10 mil habitantes na Ilha, tendo uma população de escravos de cerca de dois mil habitantes.
Quando em 1892 se fundou a Companhia do Niassa, todos os terrenos da Província de Cabo Delgado (da qual o Ibo era sua Capital) estavam sob a sua gerência, e o Ibo é incorporado pela Companhia e escolhido como sua Sede – o que significava a existência de Tribunal, Alfândega, Correios e Telégrafos, Igreja, Lojas e Armazéns, um Restaurante, uma Grande Mesquita, uma Fábrica de sabão e de óleos, …

A concessão dos terrenos terminou ao fim de 35 anos, e a Companhia do Niassa já nessa altura tinha transitado para Pemba (Porto Amélia), que pela sua enorme Baía permitia ter muito mais capacidade de receber grandes barcos, ao contrário do Ibo, que pela sua limitação das marés obrigava a uma “ginástica” muito maior.

Quando os terrenos foram retomados pelo Governo, também a capital do Distrito passa para Pemba, começando o seu lento abandono. Foi em 1929 que começou o declínio da Ilha, daquilo que hoje é um resquício desses tempos tão prósperos. Nos anos 60 a PIDE instala-se na Fortaleza de São João Baptista que passa a servir de presídio para os pro-nacionalistas, muitos deles ali massacrados até à morte. Depois veio a Guerra Civil em Moçambique, que ainda veio destruir mais o Património da Ilha, deixando as suas casas e Edifícios de arquitectura antiga com o aspecto de um raide aéreo feroz.

Até ao início dos anos 2000 o Ibo foi-se apagando para que muito lentamente se tenha começado a olhar para ele novamente. Parte dos seus Edifícios já foi classificados como monumentos históricos, sendo hoje um destino, quase paragem obrigatória, a quem visita o Arquipélago das Quirimbas.

Hoje, quando passeio pela Ilha, entre os dois Bairros que ainda hoje dividem as casas coloniais (Bairro Europeu) e aquilo que se chamava o Bairro dos Indígenas, as casas de telhado de colmo, com o som das dezenas de Mesquitas a chamar a oração, com a visão da Igreja que está a ser toda recuperada junto ao mar (estão já a por um telhado novo), com o cheiro do arroz de coco a cozer e o caril de peixe a fervilhar, com os postes de iluminação e telefones a decomporem-se, com a tentativa de imaginar a vida dentro daquelas casas senhoriais, com as crianças a brincar sempre descalças e de roupa rota, as cabras a pastar no meio da rua, os miúdos a jogar com a bola feita de sacos de plástico, as motas e as bicicletas a passar, os cantos muçulmanos de ritos de iniciação que terminam e as festas que se realizam em todos os pontos da Ilha, os turistas a fotografar o passado, as acácias, os embondeiros, as buganvílias e as casuarinas a dar som ao vento que varre aquele pedaço de terra – já não consigo eliminar uma memória de um tempo ido, de uma Ilha bonita e próspera que foi completamente esquecida e abandonada.
Agora não. Agora não é completamente esquecida, porque eu acho que é meu papel fazer o pouco que posso por este pedaço de História. Pelo menos tento que essa memória não se "afunde" no meio do Oceano, literalmente.

A ilha do Ibo é parte de Portugal, também e por isso, é parte de todos nós!
Uma orgulhosa portuguesa, apesar das notícias que me chegam desse cantinho...

4.1.11

Ano, Lua e Vida Nova

Hoje é dia de Lua Nova e hoje matou-se uma galinha no nosso Jardim. O Imistério (nome da ex estrela de Futebol do Ibo) trouxe a bicha, fez-lhe uma covinha debaixo do pescoço, e com a mesma calma com que cortamos uma manga macia e suculenta, cortou-lhe o pescoço, que continuou a emitir sons, o corpo que se remexia preso nos seus pés e a cabeça solta, ao lado, de olhos fechados deram-me uma imagem inédita em toda a minha vida. Sim, eu nunca tinha visto matar uma galinha.

A última noite de 2010, também foi passada no nosso Jardim, em grande animação de roda do forno de lenha, a fazer Pizzas. Foi também qualquer coisa de inédito na Ilha, comer Pizzas! Tínhamos todos os ingredientes, a massa feita pelo nosso amigo Joel (Suíço) e a luz das velas a iluminar todo o cenário. Amigos estrangeiros, moçambicanos, crianças e até um bebé – todos a partilhar um bom momento, preenchido de calor e de estrelas no céu.

No dia 1 tomamos banho no mar, e demos o primeiro mergulho do ano, literalmente. A praia estava cheia de pessoas da Ilha e toda a gente passou o dia dentro de água. Para nós foi também inédito estar no primeiro dia do ano de chinelos, de pé na areia, a ver as cegonhas a passar.
Nesse dia emprestamos, como um novo costume que instituímos, a bola de futebol para as crianças jogarem, e devolverem ao final do dia (elas jogam com bolas feitas de trapos e tiras de borracha de pneu). Mas houve um episódio curioso com a bola – ela foi indevidamente “alugada” e com isso, a Polícia apreendeu a bola, e nós fomos buscá-la à Esquadra no dia seguinte. Estava um bocado em baixo, a bola, escavacada e suja, mas já está cá em casa e os miúdos nunca mais cá apareceram... Entrar na Esquadra do Ibo para ir buscar uma bola de futebol é um momento tão solene e especial, como o do Senhor que ontem recolhia a bandeira da Escola Secundária às cinco da tarde, como se tivesse numa parada militar com milhares de pessoas a assistir.

No dia 1 também fizemos pequenas mudanças em casa. Eu ganhei um “escritório” dentro de casa, porque escrever no Alpendre só é possível depois das 15h00 e às 17h00 já é escuro. Assim, em vez de derreter viva lá fora, encontramos esta divisão e colocamos a mesa e uma cadeira, o computador e a impressora – parece um escritório de um convento, pois é tão espartano com um grande pé direito, o chão em cimento afagado e as paredes brancas. Todos os dias ligamos um pouco o gerador e carregamos o PC. Hoje, em 2011, considero que acender um interruptor e haver luz, e abrir a torneira e sair água, só porque sim, é um luxo do mundo ocidental!

Tudo em 2011 me parece diferente, pois tudo se torna muito relativo…. Vivendo um dia de cada vez não será má ideia, neste mundo onde o pó é mais forte do que o Homem, onde a natureza é sempre superior (já vimos tanto bicho e insecto do mais raro ao mais bizarro), onde os nossos padrões não se encaixam em lado nenhum, onde até a língua é uma barreira, mas que estranhamente se entranha no nosso corpo e nos cria uma dependência que sabemos que quando um dia voltarmos ao mundo do interruptor da luz, vamos sentir o apelo desta Terra tão misteriosa.