30.4.10

as saudades são farófias

Estavam certo dia numa montra de um restaurante em Campo de Ourique.

Bonitas, compostas e gritavam por mim!

Um dia, acho que vou sentir a falta disto...

27.4.10

"E conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará." - (João, 8:32)
Isto da verdade tem muito que se lhe diga... mas por vezes ela consegue esconder-se por trás da mentira que é 300 vezes mais pesada do que a verdade.
A verdade é leve, evaporada, transparente. A mentira é pesada, densa, opaca.
Daí que uma ofusque a outra, quase sempre.

A mentira instala-se, pesa nos ombros, adensa o espírito e pressiona as ideias. Toma conta delas e das coisas, toma conta de nós.
Quando a verdade se conhece esse peso liberta-se e daí sentimo-nos mais leves, mais justos.

Houve uma intervenção superior para que a verdade se alastrasse. Se não fosse isso, seria sempre a mentira a sobreviver.

São raros os momentos de verdade, mas quando existem são verdadeiramente libertadores.

19.4.10

um quadro novo


Era Primavera e havia um cheiro intenso a ar. Havia qualquer coisa de novo.
A casa era pequena, tinha duas janelas, apenas. O chão era velho e usado, tinha as marcas de outros pés que não eram os seus. Havia qualquer coisa de novo, de diferente.

Quando chegou, abriu as duas portadas e deixou que o sol iluminasse a sala ainda mais pequena do que a casa. Esquecera-se que na véspera tinha deixado maçãs e tangerinas em cima da mesa, ainda mais pequena do que a sala. Seria daí que lhe vinha aquele cheiro novo?
A tinta da sala era tão velha, que há muito deixara de ter cor e aquele quadro, da casa sempre igual, já tinha feito uma cama naquela parede gasta.
Aliás, estava a ficar sem cor... assim como a parede.

Sentou-se numa cadeira na cozinha e vasculhou a sua bolsa, à procura do caderno e dos lápis de cor. O que havia de novo ali? Intrigava-o aquela sensação.
As flores de plástico estavam iguais, não se lembrava de quando as tinha comprado.
Encontrou o caderno, abriu-o num gesto muito automático.
Depois ficou a olhar novamente para a sala.

O tampo da mesa estava gasto, num efeito mate que contrastava com o brilho do sol que se deitava em cima de si.
Agora tudo era luz.
Os tapetes velhos cobriam o fim da cor das paredes e punham o chão em paz da sua função. Mas havia um cheiro a novo.
O que seria?

Levantou-se e deu uma volta à mesa. Tocou com os lápis no tampo, a mesa pediu quadrados azuis e encarnados. Ele desenhou-os. Depois a parede falou que gostava de ter sido uma casa em Itália, na Toscania. Ele pintou-a. A mesa quis reflectir a cor do céu, e o chão a cor da terra.
E ele pintou.

Quando terminou, reparou que tinha feito um quadro. E era ali que estava o cheiro a novo - numa enorme jarra verde que saia da mesa e subia até ao tecto. Ele tinha de inclinar a cabeça para trás para ver o topo da jarra, e por isso desenhou-o na parede para não se esquecer do fim.
Fez uma moldura oval à volta do fim e sentou-se.

Afinal - pensou - tudo é novo, até mesmo o fim das coisas. Basta eu querer...

Aqueceu uma chávena de café com leite e bebeu-a de dedos sujos e calcados de tinta, deixando restos de cor na porcelana branca.

Nota: este quadro é da autoria do meu Pai!

15.4.10

A Primavera chegou nas mãos dele...






Quem alguma vez afirmou que uma mulher é um "ser" difícil de se agradar, não poderia estar a cometer tamanha mentira!



O difícil estará em saber COMO agradar.



Mais uma vez, é tudo uma questão de conhecer o que ela gosta e o que ela não gosta.



Se ela gosta de flores, dar flores. Mas se ela gosta de um tipo em particular - aqui estão as peonias - é procurar esse tipo.



Mas não é dar no dia de anos e assim, isso é o saber como,.... é num dia diferente, que não é de ninguém. Como o dia de ontem.



Aqui em Lisboa choveu a tarde toda - toda! Tudo cinzento, luzes acesas, muito escuro, triste, buscar camisolas ao baú da roupa de Inverno. E aí, quando o dia já acabava em restos de chuva ele entrou com a Primavera dentro da mão e aquele cheiro fresco e as cores suaves invadiram toda a casa!



Soube-me melhor que dois pacotes inteiros de wafers de chocolate (e isto é para mim um secreto deleite).



Encheu-me o coração de vida!









Simples, não?!



11.4.10

Novelos

Afinal, eu que não gostava de Domingos, até gostei do de hoje!

Por que gostei do "almoço do Domingo" que os dois fizemos. Aqui perto de nós, num Restaurante sem estrelas, comemos o bacalhau assado na brasa com batatas a murro e a meia dose de cozido com um jarro de vinho verde bem fresco. Comemos antes uma broa com manteiga e sentamos lado-a-lado, assim como os "verdadeiros", com a televisão a dar a bola e a ver quem entra e quem sai.

Fizemos um "almoço do domingo" com as quatro velhotas na mesa atrás de nós, que conversaram muito e beberam uma São Domingos no final, o casal que falava alto e discutia sobre nada, o Sr. Manel que almoçou ao balcão a meia dose do cozido e uma cerveja preta.

O Restaurante é do Bairro. Tem um balcão corrido com cadeiras que giram, em napa encarnada, e é decorado com espelhos e bocados de uma chapa castanha. Há sobremesas na vitrine - das a sério, sem ser do "Boca Doce", ou essas tretas pré-fabricadas, com as tacinhas de baba de camelo, arroz doce, doce da casa. Fuma-se lá dentro, toma-se o café do Domingo, depois do almoço em casa com a família, ouvem-se as histórias da semana que se segue.

Voltei a casa e o resto da tarde foi passado numa "maratona" de Lost, já da última série. Com a mudança de casa perdemos o fio à meada.
Agora digere-se o Domingo e eu imagino onde andam as velhotas, que cada uma que deve viver sozinha, numa casa de estendal na rua e um gato à janela, o Sr. Manel que aviava doses ao balcão sem abrir a boca, o casal que falava alto e discutia sobre nada, o rapazinho que entrou com a Mãe e pediu um gelado, enquanto ela bebia o café.

Durante aquela hora partilhamos um espaço, que cada um levou consigo até ao seu destino, como se partisssemos todo o mesmo novelo e cada um o levasse atrás de si, seguindo o seu rasto. Se pudessemos subir a um helicóptero, lá no alto, viamos os fios do novelo a esticar, esticar, esticar, até que começavam a cruzar-se todos uns nos outros. Por que todos nos iriamos cruzar mais tarde ou mais cedo, num café, no eléctrico ou no metro, na rua...

O Domingo de hoje relembrou-me esta minha mania de pensar que andamos todos com o fio atrás de nós que entrelaçamos uns nos outros, em momentos diferentes, em horas distintas, dias opostos, mas que cruzamos.
Por que não estamos assim tão sozinhos, numa cidade que nos parece tão grande.

9.4.10

Um gato no Blog


O meu bolo/blog fez 1 ano e passou-me essa data.

7 de Abril.

Aqui fica a comemoração com esta imagem. Na Rua Poço dos Negros, onde passo várias vezes, este cenário espanta-me...

Um gato deitado numa montra, como se fosse de peluche. Está lá todos os dias.
Em baixo um endereço de um blog: www.caosolteiro.blogspot.com
É tudo produção artística deste quarteirão da cidade!

6.4.10

Crónicas do Flash

Ora, amigos do Blog da Rita,

Olá!

Eis-me de regresso a estas escritas, mais recomposto desde a última vez em que quase sofri de uma apoplexia, vendo o meu mundo a ser violado por estranhos!


Pelos vistos, e tendo em conta a quantidade de cheiros familiares que tenho detectado, esta é a minha nova casa, que como podem verificar pela foto em cima, é um espaço muito agradável especialmente pela luz do sol que me aquece todas as tardes.


Tenho dormido bem, o quarto agora é mais pequeno, o que me agrada, por que assim estou mais próximo do meu Alfa, além de estar mais próximo da porta da rua para qualquer eventualidade ou situação em que o meu Alfa precise de mim a meio da noite, por exemplo.

Esta casa não tem escadas, por isso assim que se abre a porta é logo a rua, com cheiros muito agradáveis, especialmente a borracha dos pneus e as pedras do passeio.

Tenho tido alguma dificuldade em interagir com alguns vizinhos, pois eu sou sempre cordial e respeitador, mas eles sentiram uma enorme ameaça com a minha chegada. Na rua de baixo, por exemplo, há duas vizinhas muito simpáticas, que já me cumprimentaram várias vezes, tendo-me até convidado a ir dar um passeio.

Mas a Rita não deixou.

Aliás, a Rita está aqui a dizer que o meu tom (a escrever) está chato e enfadonho (é assim que se escreve?), que pareço um cão com 10 anos a falar, que no fundo eu não passo de um insolente que só faz xixi em todo o lado, inclusivamente em cima dos pilaretes da EMEL e que estou sempre a puxar para ir cheirar tudo e todos.


Continuando...


Julgo que estou a chegar à minha fase de adulto, maduro, seguro de si e perfeitamente em sintonia com o meu Alfa. Sei qual o meu papel nesta casa - defendê-la dos miliantes e dos intrusos. E foi por isso que mudámos para aqui, de forma a eu cumprir esse papel da melhor forma possível.


(Meus amigos, isto sou eu, Rita, a falar e digo o seguinte: desde o homem da EDP, o da Telepizza, os senhores do Continente, o que vem entregar a roupa da engomadoria, o carteiro, o que vem deixar a ração - é tudo estranhos a quem o Flash trata como se fossem os melhores amigos, vai sempre buscar brinquedos quando tocam à porta e quer é brincar com eles. Ele não defende coisa nenhuma, ele anda iludido com as cadelas e julga-se o maior da Rua.)


Contudo, existem pessoas muito simpáticas que tocam à nossa porta. No outro dia veio um senhor todo de encarnado, com uma moto com uns pneus óptimos, deixar umas caixas que cheiravam lindamente, com uma espécie de pão com sabor - eles nunca me dão nada, por isso eu suponho que seja uma coisa assim. Deve ser óptimo!


Bom, mas há sempre desafios para este vosso amigo. E este é o meu próximo desafio, para o qual o meu Alfa me solicita, pois os dois somos uma dupla imbatível.
Eles chamam-lhe "GATO" e anda a vir cá todos os dias, ainda não sei como se chama, mas sei que pretende conquistar o meu território. Logo, é uma ameaça! Darei mais notícias em breve, uma patada bem forte nessas costas e fiquem bem.

Qualquer assunto, defesa de território ou dos miliantes, é só chamar.


Flash - o cão (que se julga) securitas

4.4.10

Passagem

Sexta Feira Santa.
À porta de nossa casa passou a procissão do Bairro de Sta Catarina. Houve vizinhos que penduraram colchas nos estendais, deitaram pétalas de flores aos andores, havia banda e fanfarra (a quem o Flash ladrou desalmadamente, coitado, nunca tinha visto um trombone e um tambor), rezando-se ao longo do percurso silencioso e iluminado pelas velas.
Gostei de ver a procissão e rezei também.

Não teria mais do que 9 ou 10 anos quando fui passar uma Páscoa a Arouca, a casa da minha prima Teresa. Nunca me esqueci dessa Casa, como nunca me esqueci dessa Páscoa.


Havia muitos doces e bolos, havia muito açúcar! O pão de ló de Arouca e os melindres são absolutamente divinais - tanto eu, como a minha prima, comemos um pacotinho inteiro assim como quem bebe um copo de água.

Depois havia camélias, muitas camélias. Havia pétalas grossas espalhadas pelo chão, cor de rosa e brancas, perfeitamente ovais e fibrosas. As cameleiras eram (e continuam a ser) enormes, tão grandes como um imponente castanheiro. Ora, eu não sei muito de horticultura, mas uma cameleira demora dezenas de anos, se não séculos, para ficar uma árvore de grande porte.
Naqueles dias das férias da Páscoa, forramos os degraus da escadaria com pétalas de camélias, como se fosse um tapete de flores, por que o Padre de Arouca ia fazer uma visita à Casa.

E havia ainda um espírito muito vivo naquela casa. Um dos Tios da minha prima é Padre e estava lá nesses dias, sendo hoje uma figura com bastante referência. Gostei muito das histórias que ele nos contava, muitas delas daquela Casa.
Como se houvesse alguma entidade divina que por ali andasse ao nosso lado.

Nunca mais me esqueci daquela Páscoa e de Arouca guardo recordações profundas. De uma água muito fria que enchia um riacho de salamandras pintalgadas, do calor de Agosto e do cheiro do jardim carregado de flores, e das histórias que sempre marcaram a amizade entre duas primas.



Gosto de pensar que para mim a Páscoa será aquela Casa, carregada de açúcar, camélias em flor e um espírito bom.






Páscoa significa passagem.
Mais uma Passagem na minha vida.