29.11.10



Os quatro dias que passamos no Ibo foram intensos!
Ainda não consigo abstrair-me de toda esta agitação e por isso gosto e preciso de partilhar todos estes sentimentos.


Fizemos como que a 1ªfase de mudança para a Ilha - para uma casa alugada, mantendo a casa em Pemba, enquanto não temos casa definitiva no Ibo e lá procuramos ainda o nosso "poiso".

O nosso projecto ainda está numa névoa, entre a miragem e a realidade, e para torná-lo verdadeiro seria fundamental esta nova mudança. Estar lá, viver na Ilha, senti-la.
E assim estamos a fazê-lo. Sendo que mudar de casa para uma Ilha que fica a duas horas e meia de carro da cidade, por uma estrada de terra batida, e depois ainda há uma travessia de barco de uma hora em que só podemos fazê-la quando a maré deixa, não é propriamente simples.


Mas faz-se! É aqui que eu peço licença à Sra. Natureza, por quem eu tenho um imenso respeito, e admiro a força do Homem. A vontade e a ambição (da boa, não é ganância) movem montanhas – neste caso barcos!


No nosso carro, seguiu uma bagagem pesada, que depois a braços foi toda posta dentro de um barco. E em hora e meia estávamos no Ibo e lá, novos braços carregaram tudo até casa. E tudo chegou, nem um copo de partiu.

Tudo se consegue – é preciso alguma organização e bom senso, mas tudo se consegue. Ainda conseguimos reparar um furo no pneu e trazer connosco o nosso amigo Gonçalo, que deixou a sua mota em Pemba, acompanhando-nos nesta viagem, neste dia zero como habitantes do Ibo.


Abrir uma casa que esteve fechada mais de um ano, numa Ilha, cheia de pó e de vento, junto ao mar, foi o desafio seguinte. Ligar uma bomba de água e um gerador, devolver a água aos canos, fazer a limpeza da casa, em cada divisão, duas e três vezes pois as camadas de pó eram espessas como cimento, recuperar móveis partidos e ainda fazer a nossa cama com lençóis lavados.


Em dois dias conseguimos, com a boa ajuda do nosso amigo Elder, um “anjo” que está no Ibo com um projecto de turismo fantástico, o Miti Miwiri, e os quatro trabalhadores que tivemos ao nosso lado. Duas mulheres, a Rabina e a Kari (que trazia a sua bebé no lenço às costas e enquanto varria dava de mamar ao mesmo tempo!) e dois homens, o Sahid e o seu companheiro, que trataram da limpeza do poço e do jardim, queimando todo o lixo e o capim.


E tudo começou a ganhar vida naquela casa. Ela foi respirando e até os seus anteriores “habitantes” tiveram de fazer as malas rapidamente e fugir – era a fuga das aranhas, das osgas, dos lagartos, das baratas e dos ratinhos do campo!

A tudo isto acrescentamos um calor abrasador e uma humidade muito alta. Foi exaustivo e cansativo, mas a casa lá ficou, a cheirar a limpo e pronta para nos receber e a quem nos quiser visitar.


Ainda conseguimos no último dia fazer um passeio de barco, uns mergulhos no Índico, no meio dos peixes hiper coloridos, ir ao banco de areia e conversar sob as estrelas. O céu no Ibo é tão estrelado que podia ser feito um papel de parede! E depois há os pássaros, os que se ouvem de noite e os do dia. E ainda houve um grilo que dormiu no nosso quarto durante estes dias – deve ter sido dos tais que não apanhou o chapa a tempo da fuga, com os outros!


Ao fim do último dia apanhamos o barco de regresso a Pemba, precisávamos de voltar pois ainda falta a arca frigorífica e algumas coisas para a casa. Tratar de alguns assuntos, e ver o Benfica ontem!


Todos estávamos cansados, tínhamos estado a trabalhar sob um imenso calor, apanhamos sol, andamos de barco, dormimos pouco, não havia café… a entrada para o barco era uma espécie de tréguas que a Ilha nos estava a dar. “Vão ao vosso descanso, mas voltem”.


Caminhamos lentamente, entre a água, com o sol já baixo e o calor mais manso. Ao nosso lado percebemos que também viriam outras pessoas no barco, locais da Ilha. Traziam um grande embrulho, com um ar muito cuidado. Era um bolo de noiva que seguia para a Quissanga, um bolo de noiva branco com três andares! Tinha sido feito pelo pasteleiro no Ibo e ele próprio (na foto é o da esquerda, chama-se Sahid) acompanhava a sua obra.


Nós os quatro e o Sahid regressamos a terra. O barco deslizava pela água cheia, o mar reflectia uma imensa calma, e um carreirinho de formigas viajava no barco, à volta de um bolo de noiva branco.


Partimos com um sonho, regressamos com a promessa do amor eterno.

24.11.10

estamos aqui!

chegamos!
conseguimos chegar com: fogao, gerador, bomda de agua, duas bilhas de gas, dois bidoes de agua, uma caixa gigante de comida, 4 caixotes de mudancas, 2 mochilas, baldes e esfregonas, 2 almofadas e 2 alguidares!
foi o primeiro passo - amanha vamos limpar a casa e por tudo a funcionar.
Ibo here we are!

Apertos do Coração

Hoje saimos de casa às 6 da manhã para ir deixar o Xano ao barco.
Tinhamos decidido que ele iria de barco com toda a carga até ao Ibo e eu seguiria de carro pelo caminho do costume - o encontro seria no Ibo. Eu primeiro, ele depois.
Disseram que a viagem iria demorar um dia, 12 horas.
O Xano iria no barco com o Gonçalo, o nosso amigo português da mota, que a deixava ficar em terra.
Carregamos o carro com tudo ontem à noite e hoje levantei-me para preparar um mata bicho bem forte para o meu "marinheiro". Combinamos no sítio onde fomos buscar a arca congeladora,
na Praia do Murrébue, perto do Pirata. O carro seguiu até à praia e o barco lá estava no mar.

Confesso que estava de coração apertado, e mesmo antes de chegar ao sítio sentia um nó na garganta. Seria a primeira vez que nos iriamos separar ao fim de já muitos meses juntos, seria a primeira vez que iria fazer uma estrada de 120km em terra batida sozinha, no meio de África, e com um carro gigante em que mudar uma roda deve ser uma batalha dura, seria a primeira vez que ele iria fazer uma viagem de barco durante tantas horas pelo mar, de dia e de noite, longe da terra e com nenhum meio de comunicação comigo.

A viagem de barco parecia-me relativamente pacífica, mas não conseguia deixar de me sentir ansiosa por ele ir pelo mar fora até uma Ilha no meio do Pacífico. E por isso tudo dormi mal, acordei muito antes da hora e tive sonhos esquisitos.

Quando lá chegamos a tripulação dava tudo menos um ar credível, eram todos moçambicanos e começaram logo por pedir mais dinheiro, o dobro do que julgamos estar acordado. Aceitamos. Depois disseram que chegavam lá daqui a dois dias, e depois que talvez demorasse um.
Rapidamente todos sentimos um mau feeling naquela conversa, naquele ambiente em que eu queria tudo menos que o Xano embarcasse naquele barco.

Desistimos do plano, mas partimos hoje os três, daqui a pouco de carro, sendo que amanhã o Xano regressa a Pemba para vir buscar a arca congeladora. Mesmo assim irá fazer uma viagem sem mim, estaremos separados por algumas horas - o que continua a apertar-me o peito que fica sempre pequenino - mas tudo é melhor perante aquela viagem cinzenta.

Foi a primeira vez que senti todas estas coisas, pois nunca imaginamos o que tranquiliza quando temos ao pé de nós quem mais amamos e quando sabemos que à distância de um telefone chamamos um amigo ou um familiar para nos ajudar. E aqui não se passa bem assim...
É tudo uma questão de garantir a nossa protecção e de algum tacto. Fazer opções certas, saber interpretar os sinais tal como se fossemos zebras no meio da savana sempre em alerta aos predadores.

Estou mais tranquila, mas sei que amanhã, quando ele voltar sozinho a Pemba de carro vou ficar novamente com o coração pequenino...
Até lá.

Nota: como vamos para o Ibo as ligaçãos á internet são muito limitadas.

22.11.10

O Mundo todo por um Passeio...





















O passeio que fizemos até ao Rio Lúrio, a cerca de 150 km de Pemba, a partir de uma terra chamada Chiure, começou em Vilankulos, há mais ou menos 15 dias atrás.

Quando ficamos no Zombie Cucumber, na viagem de Maputo até Pemba, conhecemos o Gonçalo (já aqui falei no seu Blog) que viaja por África de mota, desde Angola a caminho de Lisboa. A sua passagem por Moçambique incluia uma viagem até Pemba, onde tinha um amigo português a trabalhar. Naturalmente conversámos sobre Pemba e sobre o Ibo e ficou a promessa de nos voltarmos a encontrar uns dias mais tarde.

Assim aconteceu.


Então conhecemos o André, que é geógrafo e trabalha aqui em Pemba, e depois dele conhecemos a Luz Maria e o Michael, a Marta, a Maria João, a Barbara e o Marcus, a Mariane, a Rebeca, a Romina... Peru, Suíça, Espanha, Portugal, Áustria, França, Paraguai...

A Luz Maria e o Michael são um casal tão exótico, que é difícil acompanhar a sua originalidade: ela é peruana, ele é suíço, conheceram-se no Chile onde estavam a filmar um documentário, ela como produtora ele como actor. Hoje ele trabalha numa ONG Suíça em Moçambique, moram no Chiure há 3 anos numa casa sem água canalizada, têm dois filhos e fazem anos no mesmo dia - que foi no sábado passado. A propósito dessa celebração convidaram todos estes amigos, incluindo o Gonçalo e o André, e nós fomos lá ter no Domingo para fazer o passeio até às Cascatas do Rio do Lúrio.

Assim que chegamos a casa da Luz e do Michael fomos logo recebidos com tanta amizade e um óptimo espírito, que logo sentimos estar a fazer novos amigos. Algo que até agora nunca tinha acontecido desde a nossa chegada em Julho - parecia que andávamos a viver dentro de uma autêntica bolha.
Partimos em caravana até à Aldeia do Lúrio tendo antes feito uma paragem para ver um artista, um homem com alma de espéctaculo de Circo, do mais puro que pode haver, que nos apresentou o seu número. José colecciona cobras, vive com elas em casa, tira-lhes o veneno que guarda em frascos, deixa-as à solta para irem caçar e diz que elas voltam ao final do dia.
"Mas por que fazes isso, José?!" - perguntamos nós.
"Porque quero ser um artista!" - responde o homem em frente a um grupo de brancos, com crianças incluídas, com toda a aldeia a assistir ao momento.

O José tem 48 cobras e pediu-nos para voltar na próxima semana, para fazer o número com as cobras todas. Agradecemos muito e achamos melhor não prometer nada... Seguimos caminho até às Cascatas e lá tivemos a maior recepção possível!
TODA a Aldeia do Lúrio veio receber os brancos - eram dezenas de pessoas, eu acho que eram umas 100. Homens, mulheres, crianças, bebés e até um macaco.
O próximo momento foi a descida, a caminhada até ao Rio para tomar um banho já muito apetecido. Fomos todos. Todos os do grupo multi-mix-branco e mais os da Aldeia, os que nos seguiam pelas pegadas, os que ficaram lá em cima a dizer adeus, os que iam e vinham, subiam e desciam três vezes enquanto nós, desajeitados, andavamos aos tropeções entre as rochas gigantes.

No meio daquela procissão, qual Rossio em Sevilha, em que só faltavam mesmo os cavalos, começou a chover! Então foi aí que o meu coração acelerou... a lama que cobria as pedras começou a servir de manteiga debaixo dos pés e nós já descalços iamos fugindo da chuva, atrás dos nossos guias, abrigando-nos nas rochas. Escorreguei umas quantas vezes, uma nódoa negra e um arranhão no pé, o Xano caiu mesmo á minha frente, mas apenas tudo ligeiro.
O Gabriel - o nosso guia - diz que é assim mesmo: escorrega!
A meio da chuva houve alguma desistências, pois havia uma grávida e algumas crianças pequenas, a certa altura reparei que apenas 5 pessoas seguiam o caminho das pedras lamacentas - eram os portugueses! Vá lá, ao menos alguma prova de valentia dos tempos idos... que agora não se vê em lado nenhum.
Entre os que começaram e chegaram à Cascata já não sei quantos eram, mas o número era sempre grande, tendo em conta novos que apareciam, outros que pareciam vir de debaixo do chão. O grande grupo tomou um grande e merecido banho!
Chego à conclusão que onde há um Rio e uma Cascata há meninos e criança que brincam como se as pedras fossem feitas de algodão doce e a água uma enorme panela de chocolate derretido - atiram-se para dentro de água sem medo, saltam lá do alto de braços abertos. Os Pais deles não estão ali. Andam soltos como pardalitos. Até levam um quadradinho de sabão para lavarem a roupa e deixarem secar ao sol - são tão pequeninos e vê-los a lavar a sua roupa é qualquer coisa de ternurento... se é isso que se pode chamar.
Regressamos, subindo pela escarpa (por onde as crianças descem em 2 minutos) e tudo terminou bem! Novamente reunimos o grupo debaixo de uma mangueira e fizemos uma grande despedida da Aldeia.
Já de noite, regressamos a Pemba, e demos boleia a quatro amigos. A lua cheia foi iluminando todo o percurso até casa, e Portugal, Paraguai e França viajavam no mesmo carro, falando português, partilhando conversas.
Foi um banho de amizade profundo que nos soube muito bem.

















Diários - I

Pemba

Mesmo depois de já ter regressado a Moçambique há um mês, não consigo acordar um bocadinho mais tarde... eram 6 da manhã quando olhei para o despertador pela primeira vez. O calor começa a crescer a partir dessa hora e normalmente não consigo ficar na cama para além das 7. Hoje cometi a loucura de me levantar às 7h35!
Como por aqui é noite cerrada às 6 da tarde e às 9 e meia estou na cama de livro nos braços, acordar às 6 da manhã é como se fossem umas 10 em Portugal. Julgo eu. Às 4 e meia já há luz do nascer do dia, os galos cantam a meio da noite pelas 3 da manhã, e às 8 todas as lojas na cidade estão abertas.

Acordo sempre eu primeiro e fica o Xano a dormir, a quem eu todas as manhãs invejo essa capacidade de se abstrair dos galos, dos pássaros que moram no telhado por cima do nosso quarto, e que todas as manhã fazem autênticos concertos, dos empregados das casas ao lado que falam em macua uns com os outros, como se estivessem todos a discutir mas afinal estão p'raí a falar do tempo, das crianças que brincam e que também gritam, da música da vizinha do lado que mais parece um rádio partido com o volume no máximo e altamente estridente, do calor que penetra dentro das quarto paredes, da luz que invade tudo, de toda a vida que começa cedo demais para mim que sempre vivi num outro mundo.

Adiante.

Deixo o meu Príncipe no seu sono profundo e começo o meu dia que já tem um ritual muito próprio, só alterado ligeiramente quando falta a água e a luz.
Começo por aquecer a água para fazer chá e café, encho a panelinha e ligo o único bico do fogão eléctrico - só tenho um bico para cozinhar, e assim tem sido estes meses - e deixo o alguidar com a roupa suja, o OMO e as molas à porta de casa para o Yassine assim que chegar comece logo por lavar a roupa.
Depois venho para o computador, ligo a internet e todas as manhãs fico de olhos muito abertos a presenciar esse momento: "vamos ver se hoje há ou não...". Há. Muito bem. Vou ver emails, o blog, outros blogs e outras notícias.
Se tenho fotos que tenha tirado no dia anterior descarrego e organizo-as nas suas pastas. Hoje tenho, e muitas, mas a máquina ficou sem bateria e por isso tenho primeiro de a recarregar.
Passado um pouco não se aguenta o calor na sala e eu ligo a ventoinha - o Xano continua a dormir como um anjinho. Pouco tempo depois ele aparece - sempre muito ensonado e já a reclamar o barulho da ventoinha. Tomamos o pequeno almoço os dois.

Saimos ainda antes de almoço para ir beber um café e fazer algumas compras que faltem, sendo que eu de manhã já estive a pensar no almoço. Vamos ao Banco, ou tratar de alguma coisa mais urgente - hoje, por exemplo, temos de ir reclamar a nossa box da tv que avariou!
Regressamos a casa pelas 12h30 e preparamos o almoço. O Yassine vem à tarde limpar a casa, lavar a loiça e passar a ferro e nós voltamos a sair para mais algumas coisas com ir às Finanças ou ir à Praia. São dois universos muito próximos!
Pelas 17h00 fecha tudo, as pessoas recolhem-se tal como o sol e nós regressamos a casa.
Preparamos o jantar ou até vamos comer qualquer coisa fora e o dia termina.

Estes foram mais ou menos os nossos dias por esta cidade, sendo que a partir desta semana tudo irá mudar um pouco. Devemos partir para o Ibo dentro de poucos dias, ainda não sabemos quando. Estamos a aguardar a vinda de um barco (dhow) que vem carregado com 10 mil molhos de macotim (folhas de palmeira que servem para fazer os telhados) e que no regresso a casa, em Pangane, leva-nos a nós e a mais uma arca congeladora, um gerador, um fogão, caixas de ferramentas, bidons de gasolina, bilhas de gás, caixotes de comida, loiça e roupa até ao Ibo - que fica a caminho.

Resolvemos fazer desta forma pois é mais prático e sempre mais aventureiro, uma vez que nós vamos no barco fazer essa viagem que dura 12 horas! É metade feita de dia e outra metade durante e noite- sempre à vela. Hoje está lua cheia e se partirmos nestes dias será uma viagem inesquecível - já falamos com várias pessoas que a fizeram e dizem que muitas vezes vê-se o fundo do mar com o luar e os golfinhos aproximam-se do barco (e na época das baleias também elas).

Assim, iremos estar entre o Ibo e Pemba a resolver todas as nossas coisas e a ver se finalmente começamos a nossa nova vida aqui. Primeiro há que organizar todas as coisas à nossa volta para depois, finalmente, a cabeça, o corpo e o espírito serenarem. E será nessa altura que o nosso sonho irá começar a tomar forma, movendo-nos na sua concretização.
São precisos muitos movimentos, fazer coisas, ir, buscar, levar, comprar, meter, pensar, falar, discutir, conversar e muita ginástica de ideias que no final irão tomar a forma de um projecto a dois.

Estes dias por Pemba também foram diferentes pois finalmente começamos a conhecer outras pessoas, da nossa idade, que vivem por aqui e trabalham em projectos com ONG's e outras Instituições. Portugueses, finlandeses, austríacos, suíços, espanhóis, sul americanos, alemães, californianos, franceses - uma mistura de gente e de culturas, num grupo muito original e peculiar!
Ontem fomos com um grupo assim, tipo "salada russa", fazer um passeio às Cascatas do Rio Lúrio (que fica próximo de Chiure a caminho de Nampula) e ainda fomos para o meio de uma aldeia conhecer o José, um homem que colecciona cobras, tira-lhes o veneno, guarda-as em casa e quer ser um artista.
Brevemente sai um Bolo "benenoso"!

19.11.10

Outras Áfricas

Há novos blogs a seguir, de pessoas que andam por aqui, falam português, entendem a nossa cultura e isso de certa forma é uma companhia que se ganha e uma força que se encontra.
Estão ali em baixo, onde diz: "Outros pasteleiros".

O do Gonçalo (África do meu coração), um português que anda de mota por África, com o destino de Portugal tendo saido de Angola. Conhecemo-lo em Vilanculos e está agora por Pemba, sendo que irá connosco ao Ibo.
E o da Rebecca (Bex in Moz), uma inglesa que mora há 9 anos em Pemba, com o marido, o Paulo, que é português, e mais 3 filhos! A Rebecca chegou a viver em Portugal com o Paulo, em Algés e hoje trabalha no Parque Nacional das Quirimbas e tem com o marido um negócio de castanha de caju.

Cada vez mais tenho a sensação de que África é de todos! É uma terra que aceita que cada um a reclame - não é de ninguém, mas no fundo é de todos.
Não nos deixa sentir a mais, nem a menos, recebe-nos de braços abertos, sabendo que ainda muito está para acontecer, do bom e do mau.
África é tão intensa que até a mota do Gonçalo se chama "África" - ela comanda, com vontade própria.

É uma terra boa, feita de natureza pura, onde julgo que nunca irá o homem se impor. Por isso não é fácil por aqui, às vezes é mais duro, mas com isso crescemos por dentro e por fora.

Por aqui, e agora que já vou conhecendo mais pessoas, longe das suas terras de origem, nunca ouvi a palavra "arrependimento". E até agora também nunca o senti.

Mudanças



Pela 4ªvez este ano vamos mudar de casa. A primeira mudança aconteceu em Fevereiro (saímos da Pascoal de Melo e fomos para Santa Catarina), a segunda em Junho (passamos do R/ch para o 3º andar, no mesmo prédio), a terceira em Julho (para a casa de Pemba) e agora a quarta para a casa no Ibo.

Eu que sempre fui avessa às mudanças, que sempre reclamei o meu direito ao meu canto, que detestei quando mudámos a primeira vez de casa (dos Olivais para a Pascoal de Melo) porque me senti completamente perdida, fora da minha zona de conforto, só este ano faço quatro mudanças.

Claro que vamos ganhando experiência, as listas de coisas são mais automáticas, os sacos são mais pequenos, andamos com menos coisas às costas, a tralha é reduzida ao essencial. A minha zona de conforto começa a instalar-se dentro de mim, tenho exigências mínimas de um bem-estar exterior, mas dentro de mim vou ficando cada vez mais inflexível. Só quero estar no meu melhor, nunca no mediano.

E o mais curioso é que desejo o mais simples deste mundo: ter uma família, numa casa. Não há dúvida que o tentei e fizemos tudo para que isso se proporcionasse, mas não quis o destino que assim fosse. “Por enquanto não, ainda terás outras coisas a fazer primeiro” – terá alguém ditado. Então fomos construindo casas à nossa volta, habitando-as, vivendo dentro delas, ocupando-as, elas recebem-nos e nós aconchegamo-nos lá dentro. Com os tais mínimos de bem-estar – sendo que agora pelo facto de não haver frio aqui, o calor é mais uma divisão que se ganha. O frio torna tudo mais vazio.

Imagino a vida como uma grande velha casa, com a sua família que sempre lá viveu, de geração após geração, que vão deixando pedaços de vida: livros, álbuns de fotografia, peças e quadros, molduras e retratos, roupas e sapatos. Acho que dificilmente se encontram essas casas hoje em dia, já todos abandonam o que quer que seja que os tenha acolhido, com o pensamento rápido do futuro prometido. Pois para mim, que pela força das circunstâncias ainda não consegui apegar-me a esse chão de quatro paredes com telhado e enche-lo de vida e de memórias, faço-o dentro de mim, movimentando-me entre casas. Mudando-me de vida.

Todos esses movimento têm um significado, tudo caminha num sentido – eu sei.

Eu aguardo.

18.11.10

Feliz Ano Novo!


Ontem, segundo o calendário muçulmano, e pela mudança da lua, foi o início do novo ano. Ontem de manhã estávamos no Ibo e vieram mulheres e crianças cantar à nossa porta, numa espécie de "janeiras". No final rezaram um pouco e apertaram as nossas mãos, desejando-nos um feliz ano novo.
É uma sensação tão boa - tudo aqui existe ao seu tempo, no seu momento próprio, tudo é novo todos os dias. Até ontem foi o primeiro dia do ano, para quem não saiba. Outras pessoas, vivem outro calendário e eu vivo nesse mesmo mundo, num outro tempo.
É confuso, mas eu gosto disso!
Então decidi que hoje foi o início do meu ano novo. Pois eu percebi que cada um de nós pode ter o seu ano novo, quando entende que ele merece ser celebrado pelo dia que o marcou. Porque muito provavelmente no dia 1 de Janeiro não se irá passar nada de especial, e porque hoje passou-se tanta coisa, que supera qualquer dia 1, 2 ou 3 de Janeiro, resolvi começar hoje o meu ano.
Confuso, mas eu permito-me a essa ousadia e desafio a que cada um o faça também.
Hoje confirmei que no mundo vivem pessoas de alma pequena (eu já devia ter aprendido a lição, mas ainda dou o benefício da dúvida), de mentalidade pobre e rasteira - tão rasteira que se assemelham a seres esquivos e fracos como os parasitas, que se agarram aos outros na busca da sua sobrevivência, sempre sob o olhar da inveja.
Hoje confirmei que não sou uma dessas pessoas, que há outras que me querem cravar as garras nas costas, sugando a minha alma e que a minha alma gémea é ainda maior do que alguém poderia julgar. Tão nobre e tão sereno, tão grande e tão justo.
O mundo está cheio de parasitas, e de outros tantos, talvez menos, animais "hospitaleiros" - e eu começo a saber sei quem é quem.
Aqui fica este texto que estava na casa de banho do nosso alojamento em Chimoio - o Pink Papaya. Isto é das tais outras pessoas, que são felizes verdadeiramente pelo que são e não pelo que têm, que dão graças pelos dias que correm, que riem sem vergonha, medo ou desconfiança, que aceitam a sua vida querendo fazer nela a diferença e quem sabe, fazê-la um bocadinho no resto do mundo, também.

Promise Yourself



Promise yourself to be so strong that nothing can disturb your peace of mind.

To talk health, happiness and prosperity to everyone you meet.

To make all your friends feel that there is something special in them.

To look at the sunny side of everything and make your optimism come true.

To think only the best, to work only for the best and expect only the best.

To be just as enthusiastic about the success of others as you are about your own.

To forget the mistakes of the past and press on to the greater achievements of the future.

To wear a cheerful countenance at all time and give every living creature you meet a smile.

To give so much time to the improvement of yourself the you have no time to criticize other.
To be too large for worry, too noble for anger, too strong for fear and too happy to permit the presence of trouble.

14.11.10

Uma das coisas que quase sempre me acontece quando vou de viagem e regresso a casa, é aquela sensação de que, afinal, nada mudou.
Ou por outra, mudou o meu pequenino mundo interior, pois fiz uma viagem de uma, duas ou três semanas, mas o que nos espera está na mesma.
Isso para mim, sempre foi um bocadinho frustrante.

Estivemos fora de Pemba por 1 mês e meio e quando regressamos a sensação foi diferente. Parece que afinal ainda há sítios na terra onde as coisas realmente mudam - além do nosso pequenino mundo.

Vamos aos sinais mais práticos: nas prateleiras do supermercado apareceu o leite magro e o sabonete nivea; abriu mais uma loja do chinês; já há à venda cozinhas, numa loja tipo Moviflor, com vários tipos de acabamentos e cores (um luxo!); estão a arranjar as estradas, ou antes, os buracos em forma de estrada da cidade e abriu uma nova bomba de gasolina!

Por outro lado, há também os sinais da natureza: o vento mudou, logo temos a sala a ferver todas as manhãs e o quarto fresquinho durante a noite; a praia está carregada de limos, ontem havia uma manifestação colectiva de alforrecas cor de caramelo que resolveram morrer na praia em vez de voltarem ao mar e o mar está a uma temperatura que não devo aqui referir, sob a pena de estar a provocar alguns amoques!

O povo anda mais animado, mais agitado. É Verão, à noite as pessoas juntam-se, convivem, saem de casa manhã cedo, vão todos para a rua. Há sempre coisas novas na televisão, mais chineses, mais auto-estradas, mais agricultura, mais produção, mais carros, mais bancos, mais barraquinhas a vender de tudo um pouco, mais telemóveis, blackberries e até iphones, mais computadores, mais impressoras e tinteiros.

Sabemos que ainda estamos muito longe de qualquer padrão europeu, e foi por isso mesmo que viemos para cá, mas pelo menos, isso tudo ajuda a tornar a nossa vida aqui mais fácil e confortável. Pois Pemba não tem nada a ver com Maputo - essa "Nova Iorque" para as pessoas do Norte de Moçambique.

O facto de termos agora televisão deu-nos também uma nova visão disto tudo - ao ver a televisão portuguesa, a primeira impressão vai para a malta toda de casacos e camisolas... "mas será possível estar assim tanto frio?" (pensamos nós) - e depois ao ver as notícias, ficamos com a certeza de que, afinal, lá nada mudou. Mesmo.

10.11.10
















Chegamos a Pemba! Estamos já em nossa casa! Arrumamos toda a tralha, limpámos os quilos de pó que vieram connosco no caminho, cozemos caranguejos deliciosos (já os comemos) e fomos comprar sofás!

Uma maravilha ter uma sala com sofás, uma mesinha e ... a televisão! Estamos tão emocionados, que quase me apetece tirar fotos da sala. Vamos ver o telejornal, filmes, séries e o sempre nosso Benfica!

Mas, antes.

Primeiro. "Ainda o Gurué?" Perguntam vocês. Sim. Ainda o Gurué.

Estas são as imagens da pequena cidade, do nascer do dia às 5h da manhã, da cascata, dos meninos do rio e das plantações de chá entre as acácias e as montanha. É bonito, não é? Eu acho lindo, e tudo isto é-nos oferecido a custo zero, pela natureza. Ela é tão generosa, mas tão cruel, também.

O passeio que fizemos, entre as plantações - teve de ser uma caminhada, pois não haveria outra hipótese de se conhecer o local, entrar com o carro só se pode com a autorização do director da plantação, e para se chegar à cascata tivemos de fazer um caminho longo - encheu-me a alma e o coração, como já o tinha partilhado. Fez-me ver que as coisinhas pequenas e mundanas da nossa vida valem muito pouco e que aquilo que realmente importa não tem preço, não é quantificável, calculado em tabelas de excell.

Há uma frase do Einstein que diz: "The true sign of intelligence is not knowledge but imagination."

Está tudo dentro de nós! Certo.


No final do nosso passeio ainda fomos visitar outro local especial do Gurué, a Casa dos Noivos, uma antiga Pousada, agora totalmente abandonada, no alto de uma montanha. No caminho, passamos ao lado de um pequeno santuário, com a Santinha. Estava todo ele composto, com flores e vegetação, no silêncio da montanha.


Quando saímos ontem, às 5h manhã do Gurué, peguei no meu PC morto, arrumei-o e pensei: "Logo se vê se isto funciona. Azar. Só o ligo amanhã."

Foram 900km intensos de estrada e calor: passagem por Nampula, revisitar os "meus" inselbergs magníficos, paisagens de bicicletas e mulheres de baldes na cabeça, litros e litros de água e alguns red bulls (deram-nos asas, sem dúvida!).

À chegada tomámos mais um daqueles banhos que tiram o surro aos cães da rua, jantámos e hoje acordámos para arrumar a casa e deixá-la toda pronta! Missão cumprida.
Foi quando peguei neste computador, liguei-o à corrente, fez um arranque diferente, para reparação do sistema, eu aceitei e 5 minutos depois estava vivo, ressuscitado como uma fénix. Impecável, como se nada tivesse acontecido.
Cá para mim a Santinha fez "milagre" e o Gurué é um lugar abençoado!






8.11.10

O Gurué e os Meninos do Rio

Meus caros leitores,

O texto que se segue é da minha inteira responsabilidade e é provavelmente o primeiro texto deste Blog que é em simultâneo uma lição de vida.

Uma lição de vida para os meus caros leitores e para mim, também.

Ontem, após 900km de viagem, cerca de 12horas de carro desde Chimoio, chegámos ao Gurué. Saímos de Chimoio, capital do distrito de Manica, cidade muito mais evoluída do que Pemba, cheia de artistas e de músicos, às 5 da manhã. Parámos uns poucos kms antes do Caia para um pic nic à beira da estrada, deviam ser umas 10h30. O calor começou a apertar logo pelas 9h30.
Quando parámos, parou o mundo. Não se passava nada na estrada. Só nós, umas sandes de queijo, um sumo, água, libelinhas que vinham curiosas espreitar o nosso carro, e águias que sobrevoavam aquele deserto de mato escaldante. Não passou um carro.

Atravessámos o Rio Zambeze pela segunda vez, desde que estamos em Moçambique, e seguimos viagem até Mocuba onde paramos mais uma vez para café, água e levantar dinheiro.
Na estrada sempre nos íamos cruzando com alguns chapas, camiões (muitos avariados à beira da estrada), vendedores de mel e miúdos com as galinhas viradas de pernas para o ar, e as pernas de cabrito (?) seco.

Depois de Mocuba, onde bebi um café Delta que me soube pela vida, seguimos até ao Gurué. Às montanhas.
Foram os últimos 195 km, onde já tivemos a verdadeira estrada africana - de terra batida, cor de laranja fogo, pó e mais pó.
A poucos kms da cidade começamos a ver tapetes e tapetes verdes - são as plantações de chá.
Descobrimos uma Pensão, não a Pensão Gurué que está demasiado decadente, mas a Pensão Januário que tem tv e AC. Um luxo africano!

Tomámos um banho carregado de sabonete, caindo os quilos de pó pelo ralo abaixo. Liguei o meu PC à ficha do quarto e capute. Nada. A mesma mensagem de há 1 ano atrás, quando ele se tinha ído à vida pelos picos de corrente na Zambujeira do Mar.
Boot Device Not Found: eram as 4 palavrinhas que eu menos queria ler nesta terra. Não há forma de o arranjar sem ser em Lisboa, julgo eu, se bem que ainda vou tentar com os Cd's de recuperação do sistema, que estão em Pemba. Caiu-me o mundo aos pés. É certo que fiz um backup de tudo antes de sair de Lisboa, e tenho o disco externo comigo, mas houve fotos que já as perdi, e este PC, o do Xano, não tem Word!

Ou seja, caiu-me tudo aos pés, porque achei que tinha perdido a minha ferramenta de trabalho, e tudo o que me alimenta que é a escrita e a partilha.
Achei o mundo demasiado injusto e fiz uma birra, como se tivesse 10 anos. É claro que chorei baba e ranho. Era como se tivesse perdido um melhor amigo.

Mas.

Mas, quando se acorda às 7 da manhã, faz-se um caminho de 1 hora a pé entre plantações de chá, acácias, magnólias e bambu gigante e se chega a uma cascata de água que me espera como se sempre estivesse ali, há centenas de anos à minha espera, eu olho para o meu PC "morto" e penso: "como é possível eu achar o mundo injusto?!"

Como não há aqui grande margem de manobras para incluir fotos, eu tiro uma para os meus leitores e assim "mostro-vos" o Gurué. O Gurué é uma cidade no sopé de um conjunto de montanhas, uma delas com 2.492mts de altura, todas com um aspecto altamente jurássico. Qualquer coisa de muito anterior, muito primitiva. A forrar o pé das montanhas e crescendo até um pouco acima, há cerca de 12 plantações de chá, o que equivale a 12 fábricas geridas por chineses e indianos, o que equivale a trabalhadores que todos os dias carregam cestos de vime com 45 quilos de folhinhas verdes (só se tiram as 3 folhinhas do topo do arbusto). São centenas de hectares de chá a crescer no coração de Moçambique.

Entre as plantações há acácias e bambu, muito dele com mais de 15 metros de altura, e ainda há umas pedras gigantes que mais parecem do tempo do paleolítico. Há o silêncio do chá, pássaros e borboletas de todas as cores. E a nossa volta só se vêem montanhas, só se sente o vento suave, não há nada agressivo é tudo natureza pura.

1 hora e pouco depois de começar a caminhada chegamos à Cascata. Não há palavras para descrever o som da água, o nosso banho na base da Cascata, com a água a bater nas nossas costas, as libelinhas a brincar com as gotas de água que voavam a metros de distância, o verde que nascia nas paredes e escorria com a espuma branca.

Depois fizemos mais 1 hora de caminho e fomos tomar banho ao Rio Licungo. Piscinas de água autêntica que se formavam entre as pedras, e nós e o nosso guia, o Avelino que nos pediu cerca de 4 euros para fazer este passeio connosco (!) demos mais um mergulho naquelas montanhas. Havia um miudo que pescava, e tinha pescado um peixe que se chamava "peixe triste". Ele assobiava uma espécie de chamamento enquanto lançava a cana.

Quando estavamos a terminar o banho, chegaram uns 15 meninos, vindos debaixo do chão e começaram a mergulhar para as piscinas, a dar saltos, a rir às gargalhadas com as fotografias que tiravamos. E passamos a tarde com os meninos do Rio.

E eu voltei a mim. Dou Graças pela oportunidade que tive, pelo passeio que fiz, pelos meninos tão pobres (nem português falam) que sorriam como se aquele fosse o melhor momento das suas vidas, pelo meu corpo que tem a saúde que precisa para fazer aquela caminha tão forte (foram quase 4 horas a caminhar), debaixo do calor e a transpirar como uma torneira, pelos caminhos de pedras que fiz para chegar à Cascata, pelos trilhos do bambu para chegar ao Rio. Dou Graças por tê-lo feito com o meu marido, ao meu lado, por ter visto que algum Deus - Grande Arquitecto deve ter existido na terra por ter feito no meio de África uma paisagem daquelas, por a natureza ser-me sempre tão generosa e por estar aqui hoje a escrever isto para vocês.

Foi uma dia maravilhoso, nunca o esquecerei.

O que realmente importa na vida está dentro de nós.
Essa é a minha lição!

7.11.10

fiquei sem computador

fiquei sem PC. a culpa foi minha que não utilizei a ficha que o protege dos picos de energia e com estas terras com tão fraca rede de energia, os picos são constantes. e com isso o disco rígido foi à vida.
estou desolada.
estou no Gurué, talvez amanhã consiga dizer mais qualquer coisa.
até já

4.11.10

















Primeira etapa da nossa viagem concluída. Maputo – Vilanculos 715 km.

Saída de Maputo às 5 da manhã em ponto. Despedimo-nos do Johnny e partimos, deixando para trás a “cidade das acácias” que já se enchia de vida, com chapas, camiões, pessoas, cabras e crianças a circular para dentro e fora dos arredores.
Só paramos em Xai-Xai para o pequeno-almoço, na Pousada Pontinha mesmo à beira da estrada, depois da Ponte sobre o Rio Limpopo. Sandes de queijo, uma bifana, coca cola e sumo de pêssego. Dois cafés.






O caminho a seguir, cerca de 90 km, tinha sido bem doloroso há 4 meses atrás. A estrada estava carregada de buracos, havia constantes desvios à esquerda e à direita, camiões e chapas, mais as bicicletas e o movimento do costume. Hoje tivemos uma agradável surpresa, com um “tapete” de alcatrão novo, impecável!






Passamos Inhambane e a estrada até Vilanculos seria um outro martírio, que em Julho sabíamos que um dia mais tarde havia de acabar, pois as máquinas da Mota Engil trabalhavam em pleno. Mais uma óptima surpresa quando vimos que afinal a estrada estava praticamente pronta - mais 70 km de viagem sem “crateras”!






Muita polícia a patrulhar a estrada (fomos parados 3 vezes para mostrar documentos), muita estrada nova e o movimento de camiões do costume, com transporte de sacas de cimento, ferros, tractores e sempre, sempre a cabrinha lá no alto atada pela corda. Quem leva 30 toneladas de carga bem pode levar uma cabra ou duas.






A dormida em Vilanculos é no Zombie Cucumber, que é um Lodge de Backpackers em frente á praia! Ficamos a dormir na casinha cor de rosa (na ponta à esquerda), sendo que o nosso vizinho, da casinha azul, um sul africano, é um investigador de cobras e aranhas, eu repito, ele tem um jipe todo “kitado” e cheio de autocolantes que diz: “Spider and Snakes Research Unit”.






Vamos dormir bem, de certeza!






Amanhã vamos passar aqui o dia e só voltamos à estrada no sábado.

3.11.10

Maputo Connection



É daqui que fazemos a ponte até Pemba. Parámos, abastecemos e agora partimos.

Amanhã, às 5 da manhã cumprimos a 1ª etapa até Vilankulos, a 750km daqui. Depois só voltamos ao asfalto, já com algum pó e buracos, no sábado. Tomamos um dia de descanso e continuamos até Chimoio. Se em Vilankulos ficamos a dormir num sítio chamado Zombie Cucumber, já em Chimoio escolhemos um Pink Papaya. Na próxima paragem teremos um Mango Jambo?!

Por estes dias que aqui passámos, Maputo fervilha. Já temos o carro, e com a ajuda preciosa de bons amigos, conseguimos fazer praticamente todas as compras. O momento alto desta semana alucinante deu-se quando dei por mim a emocionar-me por estar a comprar uma serra profissional no Mica (o Aki cá da terra). Emocionei-me porque é assim que supostamente tudo começa. Pelo princípio. E é daqui que temos o princípio.

Partimos com uma bagagem de: rebarbadora, tico-tico, serra circular, berbequim, ferros galvanizados, tubo anelado, fios de electricidade, alicates, chaves de fendas, serrotes, martelos de 1 quilo, porcas, extensões, uma antena parabólica, uma box (tipo tv cabo) e uma televisão, conjunto de formão, dijuntores, 1 tenda e saco cama, 1 colchão de encher, 2 malas e 2 mochilas, 1 cd de música africana, ….

Partimos Moçambique acima. Estamos numa pequena pensão em Maputo ("The Base"), a casa do Johnny. O Johnny que no dia em que fez trovoada tremia de medo. Continua a não tomar banho e anda mais mal disposto. Talvez mais desconfiado.
Fomos ao Museu de História Natural – um edifício antigo conservado a naftalina. Os animais e todo o levantamento de insectos é absolutamente irreal para os padrões desta civilização, e todo esse trabalho foi feito nos anos 60 e 70. Pagamos 1 euro cada pela entrada e sozinhos percorremos salas e salas de bichos embalsamados.

Nas traseiras do Museu estava a acontecer uma festa de casamento, então estávamos os dois numa sala enorme cheia de elefantes, girafas, búfalos, leões e impalas, a ouvir rap que vinha pelas paredes do edifício. Uma mistura explosiva – Maputo é uma mistura explosiva.
Alguém me disse: "Moçambique não se gosta, aprende-se a gostar. "
Ps. Obrigada à MJ, Z. e B., os três "agentes secretos" mais espectaculares de Maputo City. Mil beijos daqui até aí.

2.11.10

Hoje o nosso Flash faz 2 anos!

Já há algum tempo que ele não anda por aqui, ao pé de mim,... e sinto muito a falta dele.
Ficou em Cascais, com os meus Pais, que da melhor maneira possível o receberam, numa espécie de acolhimento temporário, até conseguirmos trazê-lo connosco.
Não sei o que dirá ele um dia disto tudo - deste mundo tão diferente daquele a que está habituado. Ao nosso lado, ou ao lado de quem goste dele e o trate bem, ele será sempre um cão feliz.

A última coisa que fizemos com ele, antes de regressar a Moçambique, foi levá-lo ao Guincho e soltá-lo. Era uma 5ªfeira e estava um final de dia maravilhoso. Entramos os três no carro e seguimos pela estrada do Guincho - o Flash foi lá poucas vezes, mas pelos vistos foram as suficientes para não se esquecer do caminho e daquilo que significava! No banco de trás começou a ficar irrequieto e excitado, como uma criança que sabe que vai ao jardim andar de baloiços.

Há muito tempo que não via o Guincho assim: sem uma pinga de vento, o mar com ondas perfeitas e a praia quase vazia. Estava um cenário muito especial e eu achei que tinhamos sido uns privilegiados em ter aquela tarde por nossa conta.
Descalcei-me, soltei-o. Ele correu até ao mar, eu respirei o ar morno de Outono. Enchi bem os pulmões, enquanto o Flash entrava pela água dentro!
Para mim a Liberdade será sempre aquela praia - e os dois sentimo-la plenamente, cada um à sua maneira.
A diferença é que eu sabia que só daí a algum tempo voltariamos a ter aquele momento, que no dia seguinte voltava para Lisboa e depois regressava a Maputo e por isso sentia um aperto no coração.
Para o Flash, tudo estava naquele momento, ele só precisou de o gozar, nunca imaginando que no dia seguinte não nos voltariamos a ver.
Voltamos a casa, dei-lhe um banho de água doce e ainda brincou com o seu Alfa, até adormecer aos nossos pés. A vida de um cão feliz, julgo eu.
Vejo claramente os olhos dele e assim sempre nos comunicamos, talvez ele em sonhos e eu em pensamentos.

Que hoje, tão longe dele, o meu presente seja uma tarde assim, carregada de liberdade e de partilha e de um imenso amor que eu sinto pelo meu cão. Muito mais do que por tanta outra gente.