29.5.13

a estrada

 
O bolo de arroz tem um síndrome de "retornado" que está a ficar cada vez mais evidente.
Se por um lado é todo ele um universo de puericultura, ora de amamentação, fraldas e suplemento, tamanho de roupa, tetinas, chuchas, babygrows, horas de mamar, horas de dormir sestas, acordar à noite de 3 em 3 horas, you name it, por outro, só se leva até Moçambique.
Ou por outra, só me lembro do quase excesso de liberdade em que vivia. Tudo o que é de mais enjoa, e acredite-se que aquilo era de mais.
Mas agora apetece-me voltar ao tema.
Ao tema das viagens de carro.
Eram sempre de vários dias, com muitos quilómetros, de sol a sol, das 5 da manhã às 5 da tarde, com muito pó cor de terra laranja, com muito calor, com muita paisagem, muitas barracas, cabras, bicicletas, crianças, camionetas, motas, montanhas, plantações, gente e mais gente, vida atrás de vida, ou deserto atrás de deserto.
Há uma frase do "Vendedor de Passados", do José Eduardo Agualusa, que diz "A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento."
Para mim, a memória podia ser uma paisagem contemplada pela janela do meu carro em África; a estrada é o caminho da alma, e quando a percorro, viajo dentro de mim e vejo tanta coisa que existe, tanta coisa real, mas que já não posso voltar a elas.
Talvez seja por isso que gosto de conduzir e não me importo nada de fazê-lo sozinha. Porque me deixo viajar pelo avançar da paisagem, indo ao meu interior silencioso e discreto.
Quando isso acontecia em Moçambique, e não era eu que conduzia, o efeito era mais autêntico e muito intenso. A força da memória numa estrada africana é brutal, a paisagem é tão rude e tão crua que se não temos cuidado, fazemos sessões de autêntica terapia enquanto viajamos.
E é por isso que andar na estrada africana é tão viciante, e é por isso que África vicia.  
 
 










 
 
 


24.5.13

Foi hoje!


Estou de acordo com os ministros...

22.5.13

começam (novamente) as despedidas...!

 
Queria ter o tempo para escrever, como se não tivesse tempo.
Mas entre apertar as molas dos babygrows  (acho que já apertei umas 382 vezes, e só vamos em 2 meses e meio) e ainda tentar ter uma vida social decente, sobra-me pouco para a escrita...
O que tenho são imagens que vou guardando na memória e aproveito o telemóvel para as imprimir mais a fundo. Como esta, do final de tarde, visto pela janela da minha sala.
Ao fundo vê-se a Basílica da Estrela e à volta voam centenas de andorinhas, que não se conseguem ouvir, mas que se podem imaginar.
Não sei quando regresso, e se algum dia irei regressar à "minha" Lisboa (tenho vários textos com a etiqueta ali do lado esquerdo), só sei da saudade, desta coisa estúpida tão portuguesa que é à partida já atribuir uma escala de "sentir a falta de".
Eu já sei que vou ter saudades disto tudo.
Das ruas tortas do meu Bairro, do elevador da Bica, do vizinho que passa o dia de pijama e vem assar duas sardinhas à porta do prédio, do cheiro do vento quando chega do Rio, das gaivotas e das andorinhas reviravoltadas no ar, do 28 a passar ao fundo da rua, do Camões e da Rua Garrett, do mini preço feio, pequeno e desconfortável, dos sinos da Igreja de Santa Catarina, e de todas as outras que oiço ao longo do dia, da vizinha que espreita da varanda ao lado da minha, e de lá atirou/ofereceu uma fralda ao M. quando ele nasceu, da Frutaria, do Talho da Flávia e dos indianos da esquina, da vida simples, de me misturar entre as pessoas na rua e no metro, de passar entre os turistas, de sentir-me parte desta cidade...
Vou sentir falta disto tudo e só isso.
Mas dizem que é só no primeiro dia, depois o tempo refaz as memórias e a pessoa adapta-se a tudo.
Ora, isto para quem já viveu numa Ilha no meio do Índico, não deve ser muito complicado pois não?
Assim o espero.


21.5.13


Acho que toda a gente tem um bocado a mania dos números.
Eu queria que o M. nascesse num dia de número redondo (nasceu dia 8, apesar de eu ter dado entrada dia 7...), eu nasci a 10, casei-me a 16, do ano 2000, e por aí fora.
Gosto de números redondos, sempre gostei.
Mas depois tenho uma estranha coexistência com o número 7.
Há imensa gente que adora o 7, já eu nunca lhe achei grande piada, mas ele tem vontade em fazer parte da minha vida de uma forma muito sistemática.
Tudo começa pelo ano em que nasci, 1977. Depois vou alternando entre números redondos e o sete.
E vai daí, os ciclos da minha vida são à volta do sete.
Demorei sete anos a resolver uma situação judicial com a empresa que me despediu em 2006 (número redondo, lá está); só este mês ficou tudo resolvido, pago, assinado, etc.
Em breve vou mudar de casa pela sétima vez! É verdade, já acumulo sete casas no bucho, eu que detesto mudanças sou uma autêntica mulher-caravana.
Já morei no 71, agora moro no 7 e vou mudar para o 14 (que é o dobro de sete, só para quem não tenha percebido).
Há jogadores de futebol com muito menos razões que estas, para exigir o número na camisola.
São 23:37 reparei agora...

 

10.5.13

diários de moçambique**#8



Diário de Moçambique. Volume 1. "do que te leva a ir"

(a partida)

6 de Junho de 2010 (Domingo)

Já entraram mais duas propostas além da primeira. Uma delas bastante interessante.
Ou seja, já nos apercebemos de que certamente iremos vender esta casa.
Agora assaltam-me outras questões, dúvidas, pensamentos que vêm soltos como: se isto não é mais do que uma "viagem terapêutica" para o X. e eu o que faço é acompanhá-lo.
De que isto é tudo sobre ele.
Ando aqui às voltas com muita coisa, muitas inquietações - que nada têm a ver com a minha capacidade de adaptação ao lugar, à vida em África, ao calor ou até à falta de bolacha...
Tem a ver comigo a encontrar o meu papel; qual irá ser o meu papel lá?
Que quando lá tinha estado já tinha sentido este dever de missão - de algo que devo cumprir. Mas qual o meu papel ao lado do X.?
E se isto se trata de uma fuga ou uma passagem para uma outra fase? qual fase?

22 de Junho de 2010 (3ªfeira)

O Verão começou ontem e Portugal ganhou 7 a 0 à Coreia do Norte, no Campeonato Mundial. Ontem tivemos a visita da Fátima e do Miguel, quem nos vai comprar a casa para alugar a turistas. Vieram tirar medidas e já compraram candeeiros e móveis. Correu bem a visita, em princípio dia 24, 5ªfeira, assinamos o contrato de promessa de compra e venda.
Hoje o X. falou com a Directora e teve toda a coragem de dar a novidade - a partir de dia 5 de Julho já não vai trabalhar! E que coragem - pelos vistas ela até lhe agradeceu por ter avisado com alguma antecedência. Quase que chorou... algumas lágrimas de crocodilo.
E nós temos dando aos poucos a notícia aos familiares e amigos - na 6ªfeira passada fomos jantar a casa do Avô e demos a notícia aos Tios e aos Primos. A reacção foi boa e positiva - e toda a gente admira o nosso acto de coragem e que sorte haver este "desprendimento" de poder "largar tudo" e ir...
Esta semana que passou fui à Biblioteca Municipal de São João da Madeira, Dr. Renato Araújo (meu bisavô), apresentar o livro dos Príncipes e Princesas. 
Gostei tanto e senti-me muito bem entre os miúdos com 8 e 9 anos. Não têm pudores, dizem efectivamente o que lhes vai na alma. A partir de quando é que isso deixa de acontecer? Esse filtro instala-se a propósito de quê e por que razão? 
Se hoje um adulto é assim, acusam-no de ser imaturo, criança, desmiolado... e depois, pelos vistos, gostamos de ouvir as crianças... imaturas!   
 
24 de Junho de 2010 (5ªfeira)
 
Dia de São João Baptista - o Santo do Ibo.
Dia em que assinamos o contrato de venda da casa e o dia em que o X. entregou a carta de despedimento no Banco.
Já não é um sonho - tornou-se realidade!
 
6 de Julho de 2010 (3ªfeira)
 
São 14:45 e já temos a casa toda empacotada!
Já anda a grua para cima e para baixo a pôr os caixotes lá em cima. Ontem fechamos mais um negócio de um pequeno apartamento aqui na Rua Poço dos Negros, para remodelar quando voltarmos em Março.
Hoje, às 19h00 vamos ter com o Nuno M. S. para nos dar umas dicas de Moçambique.
Este fim de semana que passou foram almoços e jantares com amigos - uma roda viva de afazeres! Estamos cansados, exaustos, estoirados mas felizes. Ontem, quando fomos pôr as alianças num fio de corda, a rapariga da loja perguntou se iamos para alguma guerra!
Hoje está um calor impossível, o mesmo de ontem e do fim de semana - tem estado um calor abrasador.
As próximas escritas são no avião, ... talvez mais lenta e fresca, de raciocínio e de atmosfera.
Africa, here we go! It's time for Africa!

**excertos do meu Diário Pessoal escrito durante a minha estadia em Moçambique, entre Julho de 2010 e Agosto de 2011

9.5.13

pois é...

...sofrer é como respirar, se estivermos sempre a pensar nisso parece que não há mais nada, mas se nos esquecermos a vida segue sem darmos por ela...
 
Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro
(Obrigada Macaca!)

o trevo



 
 
Caminhamos os dois em passos maternos. Eu feita canguru, ele a dormir com a cabeça junto ao meu pescoço.
A meio do caminho reparo num pormenor tão subtil, cravado no chão pelas pedras da calçada (lá ando eu de olhos no chão...). Confundido entre as pedras brancas, está um trevo de quarto folhas; cada pedra feita coração.
Tentei perceber se havia mais; talvez fosse um padrão/ desenho. Mas não.
É um trevo único em que o calceteiro resolveu ali, e só ali, pousar as pedras em jeito de uma promessa de amor.
Provavelmente fê-lo à revelia do "encarregado" e fez disto o seu momento de criação, entre a arte de encaixar as pedras umas nas outras.
Quem passa, pode pisar e seguir, ou, como eu, parar e sorrir por dentro.
É um sinal feito de pedra, fria e inerte, mas não deixa de ser um sinal cheio de significado e esperança.
Sorte e Amor - é mesmo tudo o que preciso!



7.5.13

o que fica e que vai

 
Foi esta a primeira drogaria em que entrei na minha vida.
Naturalmente foi pela mão da minha Mãe, uma fã sénior de drogarias, que logo me passou o fascínio pelo mundo das vassouras, desentupidores, lacas e sabonetes, soda cáustica, pregos e parafusos.
Um destes dias passei por lá e quis confirmar: está igual. O mesmo prédio no centro de Cascais quase a cair de velho, a mesma porta estreita e, pelos vistos, o mesmo Senhor ao balcão. E o mesmo cheiro.
Lentamente regresso à minha terra, Cascais. Nasci em Lisboa, mas em três dias estava lá outra vez. Onde fiquei até me casar. E para onde regresso, brevemente.
Há coisas na vida que não mudam, como a drogaria e o meu gosto por estes espaços tão preenchidos de memórias.
Mas outras há. E nós mudamos, e o mundo muda e tudo passa.
O lugar de menina é agora o meu refúgio de Mãe. E é um conforto que isto, pelo menos, ainda não mudou.
 
"Mudar não significa tornar-se outro, mas fazer uma experiência mais autêntica de si, nem que seja apenas de um maior confronto."
(José Tolentino Mendonça)
 
 

5.5.13

M Ã E

Agora já sei, Mãe.
O que é sonhar acordada.
O que é derreter-me por um sorriso.
O que é cansar os olhos de tanto os abrir, só para o ver melhor.
O que é cheirá-lo e beijá-lo como se fosse uma leoa.
O que é pousar a minha mão no peito dele, só para o sentir melhor.
 
O que é não dormir, mas não importa.
O que é andar toda desfraldada e suja de leite, mas não importa.
O que é não ter tempo para secar o cabelo, ou pintar as unhas, mas não importa.
O que é não ter tempo para comer, ler uma página seguida de um livro ou ver televisão, mas não importa.
 
O que é ter alguém que é mais eu do que eu própria.
O que é ter alguém para quem o meu tempo é mais dele do que meu.
O que é dar, com toda a certeza, a minha vida por ele.

4.5.13

o meu peixinho...!

Finalmente encontrei um peixinho para andar sempre pendurado em mim - assim como o M. (peixes de seu signo)
Uma solução de 4€, bem gira, numa Feirinha em Cascais.
Um presente à medida do petiz para amanhã : )