30.7.11

Sol de Inverno































Aqui, o Inverno está cheio de sol.

Cidade do Cabo.

Uma frente fria varreu o País inteiro e nós, vindos de um norte moçambicano a 27º de máxima e 17º de mínima, vinhamos como que nus para estas temperaturas.

Poucos dias passaram até sentirmos o calor a aconchegar-nos, e logo percebi porque se diz "sol de Inverno".

É uma luz muito crua, fluída e sem cheiro. Traz apenas algum vento e aos poucos o sal do mar e com os pés na areia, e as ondas ao fundo, o Inverno é um Verão frio.

Toda a Cidade é rodeada de montanhas, as casas encaixam-se nas ranhuras de rocha e de terra, e foram os homens, que empurraram o mar para longe, construiram uma cidade que une dois oceanos.

Atlântico e Índico, negros e brancos, asiáticos e indianos, onze línguas oficiais, música nas ruas, ritmos diferentes, uma simpatia fora do comum, uma cidade de vida simples, estendida sobre as praias e sobre o mar.



(nota: a foto da estátua é do Bartolomeu Dias, esse português que aqui passou o Cabo...)










































29.7.11

Pedimos desculpa pela interrupção...

... A emissão segue dentro de momentos.


Ora, desde o minuto em que aterrei em Joanesburgo que percebi que entrava numa nova dimensão.
Daí a interrupção, relembrando a imagem que aparecia na televisão há uns 20 e tal anos atrás.
(gente da minha geração "rasca" recorda-se bem desta linda imagem; ainda está para vir alguém explicar qual a lógica daquele quadrado, aquelas cores, riscos, etc...).

Uma coisa é viver em Moçambique, que já longamente expliquei com bolos e bolos, fornadas e fornadas de relatos e imagens. Outra coisa é: fazer turismo em Moçambique.
Não querendo desaminar quem para lá vai na sua próxima lua-de-mel, ou viagem aventura de 12 dias e 3/4 de hora, mas Moçambique é duro. Não é duro, é duríssimo!
Os hóteis ou são super caros, ou são péssimos. O meio termo não há.

Ou por outra, explico: se paguei 62euros para dormir em Montepuez, foi porque ou tinha direito a um quarto limpo com casa de banho e duche de água quente (sem toalhas, claro!), mas mesmo assim era nas traseiras de uma casa, com a cozinha ao lado do quarto, e todo o odor dos fritos no ar, e uma bomba de água que funcionava de 3 em 3 segundos e fazia um barulho insuportável, ou então dormia com a tenda em cima da cama, pois era sempre melhor fecharmo-nos dentro de um ambiente hermeticamente acondicionado, com uma suposta casa de banho, sem lavatório, um quadrado de cimento para deitar uns baldes de água fria e com toda a fauna que abunda nestes espaços, que vai desde o sapo, à barata, ao mosquito multiplicado em milhares e toda a malária do mundo está dentro daqueles escassos metros quadrados (e que mesmo assim me custaria uns 10 euros).

Ficar a dormir num alojamento moçambicano é algo para mim que está entre viajar no comboio da selva na Feira Popular quando tinha 7 anos e uma nuvem de gafanhotos ao longe.
Entendei, meus caros leitores, que eu nunca me aprofundei este assunto porque estava cega, e não via. Achava que, pronto, era assim mesmo, já não nos baterem era um alívio e por isso ficava sossegadinha. O conceito de "turista" é coisa vaga para o geral do jeito Moçambicano de receber as gentes estrangeiras... (não falemos de Maputo, mas de todas as outras Províncias que já conheci, sendo que só me ficou a faltar Tete e em todas dormi em alojamentos ou hóteis).

Até que cheguei à África do Sul. Um País cheio de controvérsia, cheio de problemas, como a migração ilegal, SIDA, desemprego, e ainda uma profunda divisão entre negros e brancos.

Pensei que a coisa fosse melhor, mas nunca tão boa como tem sido...

Bom, logo à chegada ao Aeroporto, nos Serviços de Migração foi assim (em Inglês): - Bom dia. - Bom dia. - Vens de onde? - De Maputo. Toma lá o meu Passaporte. Tunga, toma lá um carimbo e um visto por 3 meses. - Quanto custa? - Nada, filha, é de borla! Diverte-te!
A malta assim que põe o pé em Moçambique dá logo 50 euros por um visto que dura 1 mês.
E para estender esse visto sofre como um cão vadio, lambe o pó das paredes, chora nos balcões do Serviço de Migração, pede para não ter nascido, roe as unhas dos pés e arranca as pestanas.
De peito cheio entramos na República de África do Sul directos em Joanesburgo. Obviamente que é uma cidade carregada de crime e de violência, mas optamos por ficar em casa de uns amigos que conhecemos no Ibo e já lá vivem há mais de 30 anos. Três dias foram ideais para conhecer um pouco a vida daquela cidade absolutamente gigante.

Depois resolvemos apanhar um comboio até aqui, onde estamos, em Cape Town.
Informamo-nos que havia uma companhia que fazia diariamente este trajecto: 27 horas. Atravessar todo o País, 1.600 km de uma África fértil e próspera. Foi uma viagem absolutamente mágica, carregada de episódios que vão dar em fornadas, mas agora tenho urgência em partilhar esta outra questão.
A facilidade para a vidinha simples do turista que quer conhecer este País. Compramos os bilhetes na net (claro!) e reservamos um compartimento para 4 pessoas (os de 2 estavam já cheios), 32 euros cada bilhete.
Pelas 17h00 vieram fazer as caminhas com lençóis, almofadas e cobertores. 4 euros o kit a cada um. No Restaurante fomos logo de pé atrás, como bons tugas que somos, e sabemos que quando se apanha alguém num ambiente fechado em que não há hipótese de fugir, o tuga pede 50 euros por uma sandes de queijo. Isto é o que se passa no Aeroporto de Lisboa, nos Alfas para o Porto, etc... é tudo um horror, mas pronto, tinha de ser.
Qual não foi o nosso espanto quando pagamos 7 euros pelo almoço, com um cheese burguer, um frango com arroz e legumes e duas limonadas. Era tudo assim, até uma garrafa de vinho vinha por 5 euros.

É certo que passamos o maior frio das nossas vidas, com direito a traumas que se estenderam à compra desenfreada de meias e cachecóis, casacos e o que mais nos pareça com um cobertor! Mas tivemos o azar de apanhar um frente fria que varreu o País inteiro.
E em Cape Town? Perguntam os meus caros leitores!
Hotel por 55 euros a noite, no centro, centro, com pequeno almoço, wi-fi no quarto de borla, banho e toalhas, frasquinhos de shampoo e creme hidratante e tal. (com a falta de hábito vim de sabonete atrás...)
É certo que de hora a hora tenho de me relembrar de que estou em África, porque caso contrário rapidamente transito para Amesterdão ou Londres.

Só me pergunto se Moçambique não poderia um dia também ter um Campeonato do Mundo e ser um destino excelente de férias?
Óbvio que se pagar 500 usd por pessoa, durmo num luxo magnífico em Moçambique, mas isso não é exequivel, ou apenas o é para 3% da população mundial.
Só vejo chineses naquela terra a tirar-lhe tudo o que tem de único, e gostaria ver mais gente de todo o mundo a caminhar para lá, a tirar montes de fotografias e a contar como foram as suas férias magníficas, como eu estou a fazê-lo, neste exacto momento.


P.S - Fotos para breve. Ainda não fomos à Table Mountain, mas já compramos os bilhetes, na net, têm duração de 15 dias e posso devolvê-los perdendo 1 euro por cada um...



22.7.11

Últimas Imagens












































Cada vez mais me convenço de que tudo na vida não são do que sucessivos movimentos e opções que nos levam por caminhos que nunca poderiamos alguma vez ter a capacidade de controlar, prever, planear.
Quem diria que exactamente 1 ano e 1 dia depois de termos chegado a Pemba, estariamos de partida.
Não digo que seja para sempre, ou que nunca se diga nunca, mas iniciámos o movimento e por isso restam nesta sala duas mesas e quatro cadeiras, uma luz profundamente branca que invade o espaço (não temos cortinas nas janelas, transformamos todas as capulanas em capas de almofada, estilo souvenir!) e uma sensação estranha de que realmente não me estou a despedir de Moçambique e de África.
Como se agora fosse uma continuação, de longe.

Como se aqui ficasse um bocado de mim, porque nunca vivi num outro País, nunca tive uma outra casa e nunca nenhum outro lugar me marcou tanto como este.
África é uma espécie de conto de fadas, mas com fome e miséria, com pó e buracos no chão, com inveja e ganância e uma História mal contada.
Por muito estranho que possa parecer, foi isso que eu senti e é essa a sensação que levo daqui.
Qualquer pessoa pode vir a África, isto não é um mistério, o conto de fadas transformou-a numa ilusão, num sonho passado, numa espécie de barco afundado carregado de um tesouro, mas difícil e quase impossível de se alcançar.
Claro que tenho a vontade de um dia aqui voltar, fizemos amigos, criamos a nossa comunidade, passamos aqui o nosso primeiro Natal fora da família.
A minha grande aprendizagem, porque é essa a forma de vida desta gente, que tanta dor de cabeça dá a quem vem de um Ocidente habituado a outros ritmos, é a de que se hoje não dá, amanhã pode-se tentar na mesma. Não tem mal.

E não é que é mesmo verdade? Não tem mesmo mal.
O cajueiro vai lá estar amanhã, o sol há-de nascer, a maré vai voltar a subir.

Missão Niassa - Fotos

Parte I - De Pemba a Cuamba




























Parte II - Malawi e Lago Niassa




















































Parte III - O colossal Niassa
































































Parte IV - O caminho de volta ao Ibo






































































Missão Niassa - Parte IV

Sete dias.
2.500 km.
40 horas de condução.
Uma Toyota Hillux 4x4.
Um mapa e dois guia de viagem.
Uma mochila e um saco cama.
Um pneu furado.

O regresso a casa.

Porque não queríamos perder pitada, no dia em que saímos do Lugenda ainda fizemos um Safari logo pelas 6 da manhã! Depois de um pequeno-almoço à Obelix, saímos do acampamento em direcção a Montepuez. Seriam pouco mais de 200km, mas que previam umas 6 horas de viagem.

Naturalmente regressamos à estrada de terra batida, e percorremos toda a periferia do Parque até apanhar a saída mais a Este do Parque. Foram quase 3 horas, novamente sozinhos os dois, dentro do carro, apenas com algumas indicações, fotografias de um mapa e uma bússola. Não podíamos virar a Norte, desse por onde desse; seria um erro caro!
Atravessamos vários Rios, já de dimensão considerável, mas tudo seco, era só areia.
Primeira etapa cumprida - conseguimos chegar ao Posto Este e sair da Reserva (sem ter um encontro imediato com o leão que não largou o nosso acampamento, durante aquelas duas noites!!).

A partir desse ponto, seguiam-se mais cento e pouco kms até Montepuez, numa estrada ainda "mutilada" pela época das chuvas e principalmente pelos camiões que atravessam as florestas para o corte da madeira. Anualmente são infinitas toneladas que saem daquela zona de Moçambique, directamente para a China, em bruto, que é exactamente da forma como é proibida de ser exportada (a madeira moçambicana só pode ser exportada do País em corte, nunca em troncos inteiros).

A ultrapassar já os 2000 kms de viagem, é tempo de deixar uma palavra para o nosso carro. Um autêntico senhor da estrada de terra batida, do mato, dos rios secos, da areia e dos bancos de areia, do asfalto fuzilado, do que for que lhe apareça à frente - é uma trituradora de kms ambulante! Basta que se lhe ponha gasóleo, que se vá vendo os pneus, uma garrafinha de óleo e umas festinhas (que eu fazia, para ele não se ir abaixo naqueles caminhos do lusco-fusco). O resto fica com ele - venha quem vier.
A estrada até Montepuez foi um autêntico momento "máquina de lavar roupa a 1200 rotações". Acho que ainda hoje (mais de 1 semana depois), ainda me doem as costas por causa daquele caminho.
A chegada à cidade, trouxe a boa notícia de uma Pensão (Sleep House) com um quarto decente, casa de banho com lavatório, duche de água quente e até um plasma na parede!

O descanso foi quase difícil tal era o estado geral do trio: o condutor, a co-pilota e o carro. Na manhã seguinte, antes da saída para o Ibo, a roda da frente, do lado esquerdo, estava completamente em baixo. O primeiro e único furo do nosso tanque branquinho, permanentemente polvilhado a pó africano!
Facilmente encontramos uma Oficina que remendou o pneu - era um rasgão relativamente pequeno.

Faltavam os últimos 200 kms da nossa viagem ao Niassa - o tão esperado regresso ao Ibo, depois de 3 meses de ausência. Ainda houve tempo para passar por plantações de algodão, que resultaram num novo momento de excitação! Tivemos de parar o carro e sair. Tocar no algodão, mexer nas plantas, andar pelo meio das plantações, cheirar as flores, experimentar uma coisa nova!

O caminho para o Ibo já não foi uma novidade, apenas demos por nós a gozar todo o percurso, numa antecipada despedida. Em Tandanhangue apanhamos boleia de um barco a motor, que de uma forma mais rápida e confortável do que o barco chapa, nos levou até à Ilha. Nessa tarde havia um casamento, o primeiro, desde anos, a realizar-se na recém-restaurada Igreja do Ibo. Havia cerca de 70 convidados e toda a Ilha se sentia em festa. O Ibo é mais de 90% muçulmano, por isso imagine-se a raridade do momento.

Nós, à mesma hora da cerimónia, estávamos a abrir as portas e as janelas de uma casa fechada há 3 meses. Felizmente não havia vestígios de ratos, só baratas e pó e as já residentes aranhas e osgas que se vão deslocando como se fossem donas das paredes.
Em poucas horas enchemos o depósito de água e retomamos os rituais do final de tarde: o banho (frio), compras e pão nas barracas e visitar os amigos!
Todos nos esperavam, todos nos abriram os braços, com uma amizade profunda, como se de lá nunca tivéssemos saído.

21.7.11

Missão Niassa - Parte III

Sete dias.
2.500 km.
40 horas de condução.
Uma Toyota Hillux 4x4.
Um mapa e dois guia de viagem.
Uma mochila e um saco cama.
Um pneu furado.

O Colossal Niassa.

De regresso a Lichinga. Um ponto de paragem útil e agradável para quem se prepara para subir até à Reserva do Niassa. Tomámos o bom café Delta e seguimos viagem até Marrupa, a cidade mais a sul da Reserva onde a partir da qual seguem 114 km de terra batida que entram pelo Niassa adentro. Por uma Reserva que é quase metade do tamanho de Portugal!

Até lá chegar, foram cerca de 355km desde Lichinga, com uma já potente amostra do que nos esperava. Estavamos no centro da Província do Niassa, a mais "abandonada" terra de Moçambique, com a densidade populacional mais baixa do País (inversamente proporcional à vida selvagem e à flora natural). É um colosso vazio, chegamos a fazer tiradas de mais de 100 km sem nos cruzarmos com nenhum carro, nem uma única aldeia. Só um imenso tapete verde, numa planície que se estendia à esquerda e à direita seguindo nós pelo centro, numa estrada de alcatrão, num admirável bom estado de conservação.

Em Marrupa, voltamos a ponderar a mesma questão que nos era evidente desde o início da viagem: alojamento no Niassa. Não tinhamos tenda, dormir ao relento é morrer congelado ou de susto com um elefante, dentro da Reserva (no centro da mancha), há alojamentos apenas para escuteiros e rangers, na periferia há acampamentos de luxo para turistas e caçadores desportivos a preços super-ocidentais!
Amigos nossos já tinham feito esta viagem e ficaram nos acampamentos "top" com um desconto de 50% por ser no momento e sem reserva: aparecer e ficar. Nós tinhamos essa ideia também!
As indicações são inexistentes, pois quem ocupa esses alojamentos chega de avião (há dezenas de pistas de aterragem na Reserva). Assim tinhamos algumas pistas como: o Rio Lugenda, a aldeia, duas mangueiras e uma casa branca, a ponte, um caminho estreito e entre o mato,...

O último troço desta viagem, até chegarmos ao primeiro acampamento (são 3 alojamentos com 20 km entre si) foram cerca de 60 km sempre no mato, com espaço apenas para passar o carro (muita estalada levou o retrovisor do meu lado) e com a luz do dia já a terminar. Atravessamos uns quantos riachos, já secos (na época das chuvas todos estes alojamentos estão fechados), e andávamos, andávamos sempre numa corrida contra o tempo, contra a noite que se impunha.
Já dentro da Reserva, por onde passamos um posto de controle (pedem a matrícula e identificação do condutor), disseram-nos que para o primeiro acampamento só faltavam mais 20 km e depois era uma curva à esquerda e outra à direita (!).
E nós no máximo das nossas forças, exigindo o máximo de atenção lá seguimos viagem.

Finalmente começa a escurecer e vemos que temos um farol fundido. Num lusco-fusco de adrenalina, começamos a ver bichos, antílopes, deitados em zonas mais amplas, a olhar para nós. Foi aí que eu tomei consciência que andavamos há quase 1 hora a percorrer uma zona selvagem com o nosso carro, e que não olhavamos a meios para chegar ao acampamento e que efectivamente podiamos ver um elefante ou atropelar um impala a qualquer minuto.

Não sei como, mas apareceu uma curva à direia e outra à esquerda e vimos luzes! Era o primeiro acampamento: Lugenda Camp. Um sonho, que só em lua de mel nos seria permitido. Mas vá, 11 anos de casamento merecem bem duas noites numa tenda de luxo, com banheira e cama king size! Conseguimos os 50% de desconto (tarifa walk in) e por dois dias mergulhamos naqueles mimos selvagens.
Fizemos quatro safaris, um deles de noite cerrada. Vimos dezenas de elefantes, um leopardo, hipopótamos, antílopes, macacos e pássaros belíssimos. Subimos aos inselbergs, fizemos um pic-nic no meio da savana e uma fogueira junto ao Rio, bebemos um aperitivo com a lua cheia e percorremos kms e kms de mato cerrado, numa paisagem muito própria e diferente do Safari na Savana - tudo era mato, como um jogo em que tinhamos de nos desviar das árvores, do capim e ainda não acertar num elefante!

O que eu mais gostei? Muita coisa, a saber: tomar banho de imersão foi um absurdo que me soube pela vida, com direito a sais de banho e toneladas de gel de banho para fazer bolhinhas; o safari de noite foi carregado de adrenalina, vimos um leopardo e ainda um fogo que muito suavemente ia consumindo o mato (ver um fogo, assim de noite, é hipnotizante); ouvir os leões a rugir durante a noite e os hipopótamos no Rio; subir a um inselberg e do topo ter uma vista 360º sobre toda a paisagem e finalmente, ter às 5h30 da manhã, um elefante a 5 metros da porta da nossa tenda a comer as folhas de uma árvore (ele nas calmas, nós os dois pareciamos dois miúdos a tremer de excitação!)
Foi absolutamente único e espero que não levem mais 11 anos a repetir uma coisa igual!!

Aprendemos que "África arde": vimos muitos fogos, muitos deles postos, porque é suposto que o mato arda, o fogo faz parte deste sistema ele é fonte de vida também (não deixa de ser tão peculiar esta contradição). Aprendi a observar as árvores mais preciosas do mundo: ébano, mogno, pau preto, wengué. Aprendemos que os elefantes são matreiros e fazem imensas asneiras - o elefante que nos apareceu à porta da tenda é o Ben, que praticamente foi adoptado pelo acampamento e farta-se de fazer estragos no jardim! Aprendi que a caça furtiva existe, e o marfim é ainda (e estupidamente há pessoas que apoiam isso) motivo para que morram por ano cerca de 300 elefantes; e que a caça desportiva é, por outro lado, aquela que sustenta a Reserva.

Chegam a morrer 1400 animais por ano no Niassa, vítimas de caçadores furtivos que buscam marfim, peles, carne, cornos, etc... Há dezenas de rangers que vivem dentro, no centro-centro da Reserva, no rasto dessas bestas estúpidas que matam seres vivos magníficos.
A gerente do nosso acampamento é casada com um ranger, ela nunca sabe por onde ele anda e quando chega a casa. A mim só me vem sempre a mesma conclusão, de que esta terra, África, pertence à natureza e aos bichos, o Homem aqui não faz nada, só destrói.

À saída do acampamento, já de regresso a casa, passamos a fronteira da Reserva para entrar numa zona "pública" - o cenário era desolador. Florestas inteiras a serem destruídas por chineses (na sua maioria) que levam toneladas e toneladas de madeira para a China. Além disso, sabemos hoje, há o petróleo que já encontraram a Norte (Pangane), ao largo da costa, e o carvão, na zona de Tete, de onde se espera que seja a primeira reserva do mundo de minério pronto a ser extraído pelos brasileiros nos próximos anos, à quantidade de cerca de 1 milhão de toneladas por dia.

É até acabarem com isto. O Homem, é até não encontrar mais por onde sugar. Os animais e a natureza apenas aguardam, sem forma alguma de se defenderem sem nunca rejeitar nada, apenas dando e dando, numa estúpida generosidade que me revolta sempre e cada vez mais.

(Continua)

20.7.11

Missão Niassa - Parte II

Sete dias.
2.500 km.
40 horas de condução.
Uma Toyota Hillux 4x4.
Um mapa e dois guia de viagem.
Uma mochila e um saco cama.
Um pneu furado.



Malawi e Lago Niassa.

De Cuamba seguimos até à fronteira com o Malawi, Entre-Lagos. Não era a primeira vez que atravessávamos a fronteira com este País, por isso já sabíamos como iria funcionar. Do que não estavamos à espera era do ar rudimentar de fronteira que esta tinha.
Existem uma dúzia de fronteiras entre Moçambique e o Malawi, e pelos vistos, umas são mais "evoluídas" do que outras.
No caso de Entre-Lagos (saída de Moçambique) e de Nayuchi (entrada no Malawi), parecia que estava a viver um filme de cowboys! O cenário são duas aldeias muito rurais, com uma linha de comboio que as percorre e uma paisagem a perder de vista - parecia que estavamos de volta à Savana no Quénia!
Primeiro, no Posto de fronteira é só locais a carimbar folhas de papel que vão atravessar a fronteira a pé ou de bicicleta, filhos nas costas, trouxas na cabeça, cabras, sacas de carvão - o reboliço do costume. Depois tivemos de (nas duas fronteiras) ir chamar o Senhor da Alfândega a casa, que ainda estava a dormir, para tratar dos papéis do carro (paga-se um imposto de importação temporária). E finalmente, para fazer o seguro do carro (que é obrigatório no Malawi), nem sequer havia uma seguradora por perto, só em cidades maiores e mais longe!
E nós os dois branquinhos, lá no meio, insistindo eles que eu era Sul Africana e o Xano um mustafá argelino!
Where are you from? - Portugal (respondemos os dois ao mesmo tempo).
Whati? - Portugal (voltamos a responder)
Hum... (silêncio entre todos)

Finalmente no Malawi, e na expectativa de visitar o Lago, seguimos junto ao Parque Natural de Liwonde, onde aproveitamos para ficar uma noite.
Com o nosso carro, o nosso fiel amigo, fomos nós próprios para dentro do Parque, e respeitando as estradas e o mapa, fizemos o Safari pelas nossas mãos! Foi divertido e alucinante, pois o encontro imediato com um elefante era muito possível.
Não aconteceu porque a temperatura tinha descido muito nos últimos dias (à noite estava um frio de rachar!) e por isso os elefantes tinham-se deslocado para junto da montanha, onde seria mais quente.
Não foi grande Safari, vimos os do costume (antílopes e macacos e ainda, ao longe, uns hipopótamos) mas valeu a pena por termos conhecido o guarda do Parque. Um local, sopinha de massa, falava inglês com uma pronúncia africana cerrada, todo fardadinho e profundo defensor do "seu" Parque! Tinha no seu guichet uma rã branca, que dormia profundamente enquanto tratavamos das entradas, e que segundo o guarda, andava cheia de frio nestes dias e resolveu entrar num modo de hibernação.
Eu, que adoro sapos e rãs, tirei logo uma foto e ela abriu meio olho!
Acabou por ser um belo passeio pela natureza, com a vantagem de ter sido ao pôr-do-sol.

No dia seguinte estava planeado seguir de Liwonde até Monkey Bay, mais a norte, junto ao Lago Malawi. Depois de horas e horas de viagem em terra batida, finalmente avistamos alcatrão!
A distância seria de cento e poucos quilómetros, mas tínhamos de abastecer e aí começou o problema. Ao que parece, naquela região do País, não havia gasóleo, estava esgotado!
Subimos mais um pouco até ao limite de pode voltar atrás, e na mesma gasóleo esgotado. Resolvemos arriscar e atravessar novamente a fronteira para Moçambique, desta vez em Mandimba; certamente que lá haveria combustível.
Já não iríamos ver o Lago Malawi, mas sim o Niassa e é sempre uma boa sensação de "voltar a casa", quando se entra em Moçambique. E isso soube-nos bem, depois de alguns encontros com polícias do Malawi muito mal formados e brutos e de uma multa pelo seguro que acabamos por não conseguir fazer - e tudo isto em pouco mais de 100 km!

De novo em Moçambique, abastecemos e seguimos até Lichinga! Que maravilha e bela surpresa: tomar uma bica e comer pasteis de nata e tostas mistas na Pastelaria Maria, almoçar uma sopa de feijão e ainda ir à internet ver as últimas novidades do Benfica!
É sentir-se em casa, ou não é?
Pelas 16horas saímos da gelada Lichinga e rumamos até Metangula com o objectivo de visitar o Lago. O tão famoso Lago, que nos diziam que tinha ondas!

Depois de uma estrada estreita a lembrar caminhos por entre a Serra de Sintra, chegamos ao topo de uma montanha e avistamos o Lago lá em baixo com o pôr-do-sol! Foi o primeiro grande momento mágico desta viagem. Ficamos os dois sem fala a ver um autêntico mar que se estendia à nossa frente, a perder de vista. Toda uma massa de água doce, entre dois Países no meio de um Continente.
Ficamos a dormir na Praia de Chwanga, a 8 kms de Metangula, numas cabanas em cima da areia. O vento e as ondas eram fortes, não conseguimos tomar banho, estava frio, mas isso não fez diminuir a nossa admiração por aquele lugar. Provar aquela água doce e sentir um enorme mar à nossa frente foi magnífico!
E mais uma vez, como nos cowboys, aqueceram-me uma panela de água e eu tomei banho de púcaro com água quente que me soube pela vidinha.
Jantamos o peixe do Rio - Chambu - com arroz e não dormimos grande coisa com a barulheira que eram as ondas do Lago. Acordámos pelas 6 da manhã com toda aquela vida de roda da água: mulheres a lavar loiça e a transportar água, crianças a tomar banho, cães - a algazarra do costume!
Agora sim, depois da água e da magia do Lago, partíamos para aquilo que nos tinha trazido aqui. Para o profundo e misterioso Niassa.

(Continua)

18.7.11

Missão Niassa - Parte I

Sete dias.
2.500 km.
40 horas de condução.
Uma Toyota Hillux 4x4.
Um mapa e dois guia de viagem.
Uma mochila e um saco cama.
Um pneu furado.



Partida: Domingo, 10 de Julho.

Saímos de Pemba às 5 da manhã.
Assim que me meti no carro senti logo que já tinha saudades de fazer viagens de carro, de sair pela estrada africana e de ver o nascer do dia.
É a melhor hora para se ver a vida das pessoas por aqui. Às 5 e meia da manhã é completamente dia, e há uma agitação fervente na rua. Gente e mais gente, sempre na berma da estrada, a carregar tudo na cabeça: cestas de fruta, tomate ou pepinos, sacas de arroz, farinha da mandioca ou feijão, baldes de água, lenha, troncos, enxadas, tudo serve para se levar no topo.
As mulheres sempre de bebés colados nas costas, a dormir ferrados de barretes enfiados na cabeça (está muito mais fresco por esta altura do ano, é Inverno!).

Gosto de viajar por estas estradas de vida. Mercados e barracas que vendem tudo, roupa usada, motas, bicicletas, mandioca, tomate, feijão e piri-piri. Cabras, cães e galinhas, crianças e mais crianças. Fogueiras e queimadas. Vida e mais vida.

Aproveitando o facto de estarmos na época seca, não quisemos desperdiçar a oportunidade de conhecer o tão misterioso Niassa.
Misterioso porquê? Perguntam vocês, meus caros leitores sempre atentos.
Porque o Niassa é a segunda maior reserva natural africana, com 42 mil km2, e só há pouco mais de 20 anos é que se começou a levar o assunto mais a sério. Criado nos anos 60, para a conservação e defesa de elefantes e rinocerontes, o Niassa sempre foi um filho perdido de Moçambique, vítima de caça furtiva, na incompreensivel busca de marfim e de um isolamento atroz - as estradas até lá são más, algumas quase impraticáveis, os acessos sem qualquer indicação e as comunicações praticamente inexistentes.
Neste momento alberga cerca de 12 mil elefantes, 9 mil antílopes e uns tantos búfalos, zebras e hipopótamos, além de leopardos e aves.

Quando nos arriscamos a conhecer o Niassa, sabiamos que não seria fácil. Principalmente porque adoptamos a opção de ir de carro, há dezenas de pistas de aterragem dentro da reserva, mas uma viagem de avião pode custar até 1000 usd por pessoa.
Seria uma viagem feita em várias etapas, naturalmente e por isso estavamos preparados para talvez ter de dormir no carro ou repensar todo o percurso.

Além da Reserva, também queriamos conhecer o Lago Malawi/Niassa, mas pensamos em ir conhecer do lado do Malawi (porque o alojamento é muito mais barato), daí neste primeiro troço iriamos seguir até junto à fronteira para depois passá-la.

Esta primeira etapa da viagem trazia também uma boa notícia para mim: iria voltar a admirar os fabulosos inselbergs! As montanhas de rocha compacta, feita de granito vulcânico, com milhares de anos. Adoro estas montanhas tão diferentes e únicas entre si, e muitas estão cravadas de pinturas rupestres! Para mim são montanhas muito especiais e é nesta região do Norte- interior que há em maior número.

De Pemba seguimos até Nampula, e daí para Cuamba. De Nampula a Cuamba há uma linha de comboio que dai segue para o Malawi. É uma linha activa e cheia de passageiros que andam entre o interior e a cidade de Nampula, trazendo para o País muitos legumes e fruta, já influência do verdejante Malawi.
Todos os dias sai um comboio dos dois extremos às 5 da manhã e demora 12 hora a chegar ao destino. Era engraçado passar pela linha, quando as pessoas sabiam que o comboio já tinha passado e ver a vida por ali fora. Crianças a brincar, feijão a secar, cana de açúcar estendida, cabras a pastar, homens a caminhar pelos carris. Chegamos a passar por uma Estação datada de 1939.
Eu gosto muito de comboios e das viagens de comboio! Acompanhar esta linha foi uma dupla viagem, de carro e ao longo dos carris.


Cuamba é uma cidade cheia de agitação, tem uma Universidade e uma Estação de Comboios movimentada. Após 11 horas de viagem, chegamos ao pôr do sol e depois de um jantar de galinha do campo (dura como um pneu) fizemos umas boas horas de sono.


Amanhã seria um novo dia de viagem!


(Continua)



Nota: As fotos da viagem serão publicadas num post à parte. Estou no Ibo e a internet é do tempo dos inselbergs...

9.7.11

Foi há um ano...

Faz hoje um ano que pûs os meus pézinhos em Moçambique, trazendo na bagagem a crença e a certeza de que iriamos "mudar de vida".
Largar tudo, vender tudo e ir para uma ilha deserta no meio do Oceano Índico.
Fizemos. E hoje, um ano depois, estamos no mesmo sítio a preparar o regresso a casa. Afinal já sei onde fica a minha casa, afinal já sei onde pertenço, afinal precisei de uma distância de 9.000 kms para ver aquilo que sempre esteve ao meu lado.
Eu mudei literalmente de vida. Em todos os sentidos. E agora vou voltar ao que era.
Não vou voltar completamente, porque eu não sou, nem posso ser, a mesma pessoa que aqui chegou há 1 ano.
Tudo é colocado agora em perspectiva, tudo se tornou muito relativo para mim.
O que realmente faz falta? A água. Pode-se viver sem luz e sem comunicações, mas sem água é muito complicado. Quando aqui ficamos sem água é sempre o pior; a luz, acendemos umas velas, o telemóvel e a net, espera-se, não há nada a fazer.
A chuva é a maior benção da terra, e os animais são os seus verdadeiros e legítimos habitantes.
Moçambique e África é um autêntico mistério, um encanto e quase um feitiço para quem se deixa levar por este pó cor de sangue, este vento cru, por embondeiros jurássicos cor de prata e um mar rico em seres únicos, como baleias, tartarugas e raias gigantes.
Neste momento, pouco longe daqui, em Mocimboa da Praia, está a terceira maior concentração de furos de petróleo no mar. Descobriram o suficiente para se ficarem por aqui nos próximos 25 anos a extrair o ouro negro.
Pois o futuro é fácil de imaginar. Quem quer conhecer esta terra maravilhosa é altura certa de o fazer.
África é um encanto, qualquer coisa que a quem por cá passa, marca. Por dentro.
Nunca me esquecerei de uma senhora que me disse: "África não se gosta, aprende-se a gostar."
E digo ainda que para mudar de vida não é preciso viver numa ilha deserta. Descobri que existem várias, dentro de nós. É só uma questão de optarmos por visitá-las.

6.7.11

Somos Lixo!

Somos lixo.
Somos um País complicado. Tudo é sempre muito complicado em Portugal.
Temos polícias sem carta que andam a multar condutores sem carta, temos idosos a receber 1€ por mês de subsídio e a morrer em apartamentos sem ninguém dar por eles, temos sacos azuis, apitos dourados, furacões e quantos mais esquemas de corrupção activa e seriamente grave, temos as crianças mais obesas da Europa e somos o povo mais sedentário do Planeta!
Temos os ventos do Atlântico todos os dias a dar na "mona", e estamos virados de costas para os vizinhos da Europa.
Somos meio apanhados do "clima". Somos.

É por isso gosto tanto do meu País. Não venho para aqui relembrar aquilo que já imensa gente fala: que inventámos a via verde, que temos investigadores a descobrir coisas mundialmente impactantes para o Homem (vacina da malária), que somos dos produtos nº1 de energia eólica no mundo, que temos software tuga na NASA, que demos novos mundos ao mundo, etc, etc, blá, blá, blá...
Só gosta quem quer. E quem gosta, gosta sempre.
E até mesmo agora, que Portugal é lixo, que deram-nos uma classificação tão baixa de VVT7 (o que é aquilo do Baa2?), que políticos e economistas puxam os cabelos e gritam, aqui, a vossa amiga, vai regressar a casa. Ou seja, vai voltar ao seu País. Vai para dentro do lixo.
Porque desse lixo pode ser que venha de lá qualquer coisa mais limpinha.
Porque percebeu que o seu sangue é feito de matéria densa e viva, e que viver longe de casa é um sofrimento que um tuga não aguenta!
Eu não desisto de Portugal.
Eu já arregacei as minhas mangas e vou chafurdar na lama, e vocês?

1.7.11

Trocas

Muda o botão.
Desliga o "modo ocidente" e liga o "modo africano".
Faço click e num instante adapto-me a este mundo, como se daqui nunca tivesse saído.
Mudo de Hemisfério Sul para o Norte, do Verão para o Inverno, de um País envelhecido, cansado, gasto e em crise, para um País novo, a fervilhar de vida e em expansão.
Mudo de Continente velho para outro que nunca irá passar de uma criança ingénua.
Mudo da manteiga para a margarina e do fiambre para o camarão.
Mudo do mosquito para a malária, da mosca para a barata e do aranhiço para um escorpião.
Mudo do metro e do autocarro para uma pickup 4x4, tipo tanque de guerra.
Mudo da calçada para a terra cor de terra.
Mudo de uma cidade de velhos para uma cidade carregada de meninos e meninas.
Mudo da mala para um saco de marca indiferente.
Mudo de um dia para o outro, em 24 horas, para um outro lado de mim.

Afinal, alguma coisa mudou? Nada.
Mas o que mudou? Fui eu.