30.3.10

O Largo


Há um Largo a caminho de um lugar,
numa Rua que desce,
onde não podemos parar.
Fica sempre a caminho de qualquer sítio,
numa Rua onde passam carros e poucos passos,
onde é difícil calhar.
Naquele dia, tinha assistido a um Baptizado e quando saí da Igreja, resolvi voltar a pé para casa.
Pensei que um Baptizado deve ser uma cerimónia reservada, com pouca gente, menos barulho que de costume. É uma conversa que a pessoa tem com Deus e para isso exige-se algum silêncio, alguma privacidade. Gosto da simbologia da água e da luz.
Naquela tarde, o final de dia estava Primaveril e já se sentia o cheiro do Jasmim.
Quando comecei a descer a Rua, a tal onde ninguém pára e todos passam, já sabia que ia passar por aquele Largo que sempre gostei.
Fiquei contente.
Fica em frente à Escola Superior de Dança e logo depois fica o Conservatório de Dança.
É cercado por música e por dança. E isso ainda me faz gostar mais deste Largo.
Há qualquer coisa que me atrai a este lugar. É sempre um bocadinho solitário, nunca está lá ninguém sentado naqueles bancos de jardim. Parece que guarda um resto de uma muralha da cidade e tem duas portas de cada lado da fonte, que me intrigam. Se entro por uma porta, onde vou parar? O que haverá lá para dentro? Corredores ou túneis, talvez.
E depois tem dois ciprestes de cada lado da fonte; mirros, mas estão lá!
Gosto destes lugares que me falam, que têm uma conversa comigo. Há lugares que nos falam, tal como Deus conversa connosco quando nos baptizamos, sendo crianças ou já em adultos. Estabelecemos uma ligação com Ele. Estabelecemos ligações com um lugar.
Este Largo seria um sítio bonito para um baptizado, pensei.
Nota: os versos são meus e sairam sem pensar, primeiro em prosa e depois fiz as estrofes.

20.3.10

Amêndoas tipo Milão

Sempre quis que este Blog fosse um espaço positivo (sim, Xico!).
Ou seja, nunca quis palavras de protesto, crítica e revolta. Por que acho que esse tom de escrita atraí palavras negativas, olhos negativos, mentes negativas.
Isto tudo, claro está, apoiado na teoria d' "O Segredo" essa grande obra mundial dos livros de auto ajuda, em quem eu um dia (também) caí.

Bom, teorias e segredos à parte, nunca quis que este fosse um Blog de escárnio e mal dizer. Mas o dia havia de chegar. E hoje é o dia.
Há coisas que me revoltam as entranhas, mais do que o cheiro de lulas estufadas numa tarde de Inverno húmida e a chover lá fora.

Uma delas é a petulância gratuita.
As pessoas são arrogantes porque sim. E oferecem essa arrogância no café, na fila do supermercado, na paragem do autocarro, na máquina dos bilhetes de metro... são arrogantes e eu sinto vergonha alheia. Sinto vergonha dessa pessoa, a quem, coitada, nunca ninguém lhe disse que assim não vai a lado nenhum. Mas ela acha que sim. E até, talvez, já tenha chegado a algum lado com isso. E, temo, chegou mesmo.
E, mais!

Neste País comezinho (ora, aqui está o início de um post negativo que atraí as palavras negativas - eu avisei!), tenho chegado à dolorosa conclusão que só se é alguém na vida se formos arrogantes. Se não, somos uns atrasadinhos. (mais uma)
Melhor do que isso, julga-se que quando se é petulante está-se a demonstrar uma elevada "personalidade" - eu adoro esta palavra, que não quer dizer nada, mas todos a usam com ignorância.
E lá vamos indo.
Neste País/ Canteiro de gente comezinha.

Quando à petulância em que se baptizam as gentes comuns, juntamos "o" poder ("o" poder = substantivo + verbo), o resultado é: o terror.
E é isso que anda a acontecer, meus caros leitores (soube há pouco tempo que já somos 5,5). Anda terror à solta neste País, no meu Bairro, na minha cidade, nas ruas, nos jardins, na auto estrada...

No meu Bairro anda um terror à solta que se chama: EMEL. A petulância é elevada ao extremo e o poder é total - eles mandam no meu Bairro, mas dizem que dão "prioridade às pessoas". Alguém quer vir buscar um familiar que mora num 4º andar de escadas, anda de muletas e sai de casa uma vez por mês: Não! não, entra. Outro vem para os copos, comprar ganza e partir garrafas de cerveja: Sim! sim, entra.
Multam os carros dos moradores, quando lugares para estacionar há no tecto dos prédios e deixam entrar camiões de betoneiras que despejam tonelas de cimento nos -54 pisos que furam no chão para estacionamento dos mega-prédios de luxo que estão a construir nesta zona, a 5.000€/ m2.

Na minha cidade há um terror que se chama: intolerância. É uma cidade com tolerância zero. As pessoas discutem às 9h00 mal saem da cama, dentro de um carro. Não têm tempo para nada, não sabem esperar, não querem ver, não querem saber, não esperam.
É um cambada de gente adormecida, que se mete nos carros, sai dos carros, entra na worten e compra um LCD, sai da worten e vai para casa fazer sopa. Não ouve uma história antiga, não lê um livro, não se interessa por nada, não vê outro objectivo na vida senão ter filhos, mudar de carro, mudar de casa, ganhar mais e gastar mais. Ouvir desgraças, rir-se dos outros, ter inveja, ver telenovelas e ir jantar ao Shopping no sábado. É uma mistura de intolerância com qualquer coisa de tão terrível, que só pode resultar do poder (do consumo) juntamente com a arrogância.

No meu País anda outro terror à solta que se chama: partidos políticos. É tudo uma invenção aristotélica. Na Grécia antiga faria mais sentido do que agora. É uma palhaçada pegada. Pior é quando eu sou "romântica" ao ponto de acreditar que sim. Sim, há pessoas a-políticas, livres de pensamento, cheias de interesse e de força! Mas não. O Fernando Nobre apresentar a candidatura à Presidência da República foi um prato que me serviram gelado. A política é uma espécie de pó que se entranha quanto mais velho e mais podre é o estado das coisas.


De onde veio isto, há mais, mas eu não quero que este seja um espaço de revolta. Daí o título, para aligeirar a coisa. Para mim são a quinta essência das amêndoas desta quadra. Como um pacote inteirinho, são perfeitas!

17.3.10

Andorinhas

Não sou eu, são elas que me pedem para escrever.

Andam aqui de roda de mim, estou a ouvi-las neste mesmo instante do outro lado do vidro. Ao mesmo tempo que ouço os canários das vizinhas, a conversa do vizinho, os sons dos quintais vizinhos quando a Primavera começa a despontar.
Mas deixemo-nos de Primavera, por que ela vai teimar, e falemos antes delas - das andorinhas que me levam a escrever.
A semana passada ouvi uma pela primeira vez, ontem novamente e hoje já em bandos!

Todos os anos quando ouço as andorinhas pela primeira vez penso sempre em escrever na agenda: "enviar recibo; ligar ao José; almoço com Joana; andorinhas chegaram; anos Luís; ..."
e por aí fora.
Ouvir as andorinhas pela primeira vez no ano é como se fosse uma data de nascimento/ baptizado/ casamento/ ... é uma efeméride, que para mim, tem um enorme peso.

Adoro o som das andorinhas - acho que me estou a viciar nisso, acho que o vou gravar para ouvir durante aqueles dias sinistros de Inverno que eu tanto ando a odiar.
É um som rápido, agitado, enérgico, cheio de vida. Trazem calor com elas, trazem rasgos de voos cortados que quase nos atingem, trazem vida nos ninhos que voltam a ocupar, trazem memórias que nos faltam nos dias sempre iguais.
Anunciam uma chegada, preparam um começo.

E lá ando eu a falar da natureza e dos ciclos, das coisas redondas que eu tanto gosto, como bolos e ciclos da vida, números e assuntos que começam e se fecham em si mesmos.
As andorinhas vêm repetir os ciclos, iniciar o que deixaram no fim, preencher os ninhos redondos com ovinhos redondos. Cumprir o seu papel.

As andorinhas são compactas e organizadas - tipo um filo-fax com asas.

Gosto de agendas e gosto de andorinhas.

15.3.10

Tabu

Agora também se escreve por aqui...

www.otabufoiquebrado.blogspot.com

9.3.10

Um desabafo - III

Quis o destino, o sol do dia, a chuva que se calou, o frio que voltou ou simplesmente quis o destino, que eu escrevesse assim.
Assim, como?

Assim, sobre coisas, que são no final de tudo e de mais o que o destino quis, "fofinhas" e talvez cor de rosa de mais. E aqui me confesso.

Eu escrevo sobre as casas, o cheiro das casas e as molduras de fotografias a preto e branco. Sobre casas de famílias, de gente que nasce e morre em casa, de papel de parede amarelado, de caixas cheias de cartas que guardam segredos. De chás ao final da tarde, de jogos de cartas à luz das velas, de cigarros longos e horas de corda.
Dos jardins dessas casas, de relva mole e árvores caídas, canteiros de flores soltas e um cão ou gato perdido.
Sobre ruas de pedras gastas, roupa à janela e miúdos que jogam à bola nos pátios vazios.
Sobre mulheres e sobre as mães e as irmãs. Sobre mulheres apaixonadas, sonhadoras e interessantes.

São tudo coisas "fofinhas", mas é sobre isto que eu gosto de escrever.

Sobre as famílias, cheiros e lugares. Sobre a sempre esperança do sonho e da aventura. A força da vida e do destino. Sobre tudo o que compõe uma família, os medos e as desilusões, as angústias e o sofrimento. Mas também os sonhos e a partilha.
Sobre o bom da partilha e da dádiva. A generosidade e os laços.

Gosto de escrever sobre os laços e nós que a vida vai tecendo, sempre à nossa margem e muitas vezes contra a nossa vontade. Atamos e desatamos laços. Cabe a cada um de nós saber onde estão esses laços e procurá-los no meio da corda.

Gosto de escrever sobre as famílias e sobre as casas. E sobre o interior de cada uma delas.
É "fofinho" e talvez seja um cliché, um lugar comum, mas é sobre isto que eu gosto de escrever.

Ou talvez já não seja nada disto e faço aqui a minha passagem para um outro lado.
Mas tinha de a escrever ainda deste lado.
Terá sido isto uma despedida?

8.3.10

A metáfora morta

Na última aula de escrita tivemos de escrever algo completamente diferente, sobre um tema que não gostamos, que não tenha nada a ver com o nosso estilo de escrita.
Estamos a estudar os clichés. Os lugares comuns.
O que é esta vida toda senão um enorme cliché?
A "arte" está em escrever o cliché, sem parecer que é um cliché.
Aqui vai.

A arma estava pesada sobre a testa de João, ele sentia o cano frio a fazer-lhe pressão, mas não se importava com isso.
Mais uma vez a sua memória tinha fugido para um outro lugar e ele estava novamente a uma bala de distância desse tempo.
Quem vive assim uma vida inteira, já não se lembra do que é viver - João não se lembrava, apenas vivia cada dia entre uma arma e uma bala.

O cheiro a humidade saia pelas paredes e escorria próximo do seu nariz. Tinha um telhado novo, mas com a chuva dos últimos dias nem a lusalite sustentava aquela camada fria e dura.
Tinha os sacos com as doses sempre no mesmo sítio - dentro dos rolos de papel higiénico, por baixo do lavatório.
O cão já nem se mexia quando ouvia a porta. Era sempre alguém - ou para pagar ou para matar. Ninguém lá ia para dar festas ao cão, ou ver o João. Ninguém conhece o João, ou o cão.

O João não quer conhecer ninguém.
Mas é o pó que o faz ser alguém. Alguém próximo de ser gente.
Sempre com uma arma, uma ameaça.

Têm é todos medo - pensava João.

Ele não tinha medo, nem o cão.

Só tinha medo de deixar de ter medo. No dia em que o medo entrasse nele, como o pó que o deita na cama, ele morreria.

5.3.10

Limpezas de Chuva

As mudanças já aconteceram e do dia para a noite dormimos numa casa diferente, num quarto com cheiro a nada.
Como já tinha feito a minha confissão, eu tenho aversão a mudanças pois parece que fico com a vida toda fechada em caixotes. Além disso, as casas precisam de dias, semanas e meses para ficarem com ar de casa. Ao início são depósitos de coisas. E tantas coisas.

O horror de tudo isto tem sido a quantidade de coisas que tenho dado e deitado fora, roupa que tenho posto de parte para dar e lixo, lixo, lixo. A quantidade de lixo e de coisas que uma pessoa acumula numa casa é inversamente proporcional ao espaço que deixam livre. Parecem que têm vida, as coisas, e então ocupam-se de todos os espacinhos que encontram. Até o pó ganha a forma das coisas e antes de uma casa ser nossa, ela é das coisas e do lixo que anda atrás de nós.

Serviram estas mudanças para me aperceber da tralha, da quantidade de tralha que faz parte do meu espólio. Ao fim de 10 anos de casamento ainda tenho mais tralha e o curioso é que 75% disso eu não utilizo. Para quê ter 6 frigideiras se o forno só tem 4 bicos, ou ter 4 formas de bolos se só faço um de cada vez.

Serviram estas mudanças para me aperceber que quando uma pessoa morre deixa aos outros quilos de tralha, lixo e coisas. Então, penso naquilo que são realmente os nossos objectos, aquilo que nos pode distinguir e que podemos deixar para trás com sendo parte de nós.

São poucas essas coisas, se calhar cabem todas num só caixote. Mas nós insistimos em encher caixas de coisas, talvez porque assim a nossa vida pareça mais interessante, mais digna, mais preenchida.

Feliz daquele que arruma a vida toda dentro de um caixote.