27.8.10

“No man is an Island” de John Donne




Esta é uma frase que utilizo muito frequentemente, repito-a dentro de mim, várias vezes ao dia, como se fossem copos de água, pois sinceramente acredito que é mesmo assim.

Ninguém é capaz de mais, senão tiver alguém ao seu lado. O homem sozinho não é dono da verdade, da razão, do saber ou de toda a inteligência do mundo. Nem sozinho, nem nesta terra, pois a natureza diz-nos que a verdade está no fim de cada coisa, seja esse fim quando for.
Quanto mais tenho conseguido na vida, por não estar soiznha, mais cresce o meu gosto por esta frase. Mas como, se eu gosto de escrever, e não há nada mais solitário do que a escrita?
Por que escrevo e há outras pessoas que lêem. E não há NADA que me dê mais prazer do que saber que há quem leia e goste dos meus “bolos”! Logo não estou sozinha, afinal…

Mas então, perguntam vocês, e os pintores que se fecham nos seus ateliers? A mesma coisa. Pintam por uma necessidade, um impulso incontrolável de comunicação, que na verdade é um vício.
Escrevo porque preciso de escrever – já li algures – este é o vício da comunicação, de estabelecer contacto. Se há contacto, então nenhum homem é uma ilha.

Anda no mar há cerca de 6 dias, e por lá vai ficar pelo menos mais 2 anos, uma rapariga holandesa de 14 anos que quer dar a volta ao mundo sozinha num veleiro. A aventura da Laura Dekker começou por um objectivo, o de bater um recorde do mundo. E mais? O que pode significar a solidão no mar durante 2 anos para uma adolescente? Supostamente numa idade em que devia andar na Escola, passear com as amigas, ter o primeiro namorado, sair à noite e comprar roupa na Zara com a mesada?
Eu acho que é a forma, um pouco original é verdade, que ela encontrou para comunicar, e que o faz muito bem pelo seu site, onde nos vai dando conta da sua aventura: http://www.lauradekker.nl/


Podemos pensar então, o que seria que nos “movia” há 500 anos quando nos metemos na Nau Catrineta a caminho da Índia ou do Brasil … era a solidão total do homem?
Era.
Mas era a busca de alguém do outro lado, a busca de um vício.
Por que a vida não faz sentido quando se está sozinho numa qualquer ponta do mundo.

24.8.10



Pequeno conto nº 2


Duas noites depois daquele sonho e do enterro da andorinha, quando de manhã abro a porta de casa, reparo que no chão do alpendre da casa do lado está uma faca. Está uma faca no chão, com a lâmina apontada para a nossa casa, para mim.


Pensei que pela hora do almoço, quando a vizinha voltasse a casa, desse conta daquela faca no meio do chão. Mas a verdade é que já é de noite e a faca continua lá.
O que faz uma faca no chão? Corta os passos das pessoas, divide o pó ao meio, tira a pele do vento?


Está apontada para a nossa porta, parece que me acusa. Quem pega nela? Eu não lhe quis pegar. Ela ainda lá está. A vizinha não vê a faca. A faca esconde-se da vizinha. Já cortou abóboras duras, cana-de-açúcar e maçaroca, talos de couves, rasgou a pele da cabra e talvez a sua própria pele (da vizinha). E por isso deitou-a fora! Chega de sangue nos dedos! Rua com a faca!


E a faca ficou no chão de cimento, virada para a minha porta. Pede-me então uma segunda oportunidade. Quer ser faca outra vez e não um bocado de lixo no chão. É uma faca envergonhada da ferrugem que tem, do parafuso que lhe falta, do estado miserável a que chegou… é uma faca que suplica cortar.


Só quer cortar e pede desculpa, mas quando sente a pele não lhe resiste. É-lhe mais forte do que o tétano que vive dentro de si. Quando sente aquela pele macia de quem lhe pega é-lhe irresistível. Tenta a todo o custo entrar lá dentro, introduzir-se dentro da pele e depois ver aquele líquido encarnado e intenso, que mancha tudo, que suja tudo, que mete a mete no lavatório, de lâmina untada de sangue e gritos: “Chega! Rua com a faca!”


E assim está a faca. No chão de cimento. Apontada para a minha porta, a pedir para ser faca.

Dois pequenos contos para os meus leitores!


Pequeno conto nº 1



Nessa noite sonhei com a morte. Sonhar com a morte significa um renascimento, corte, novo começo.


Acordo abalada com uma sensação estranha, pois. Abro a porta de casa e olho para o chão. Vejo um bicho enrolado, até pensando ser uma barata ou uma aranha, quando percebo que é um pássaro. Está vivo, mas de olhos fechados e com uma respiração irregular. Quando pego naquelas gramas de andorinha, ela não reage às minhas mãos. Trago-a para dentro de casa, tendo antes andando a ver pelo telhado da casa se haveria algum ninho. Parecia-me que ela fez o seu primeiro voo (ainda era uma cria) e caiu no vazio. Um susto horrível!
Pus água na tampa de um frasco de compota e fui-lhe molhando o bico. Reagiu, abrindo e fechando o bico!


Tentou abrir as asas e esticou-se toda. Abriu um olho. Era mesmo pequenina. Sabia que independentemente dos meus esforços, ela acabaria por morrer, pois nunca seria capaz de se alimentar. Ainda pensei que seria bem aceite pela comunidade de pardais que mora no telhado, mesmo por cima do nosso quarto, e que já devem ser umas dezenas dada a quantidade e o escarcéu que fazem todas as manhãs. (para mim é um divertimento ouvir aquela algazarra quando estou deitada na cama; ou estão todos zangados ou todos excitados, ou falta um que foi sair à noite, ou outro que se atrasou com o vento…)


Entretanto, fui mexendo nas asas da andorinha, abrindo e fechando, perscrutei-lhe o peito sarapintado e foi quando vi a sua ferida. Tinha uma saliência grande e avermelhada, pois provavelmente partiu qualquer osso quando caiu lá do alto.


Ela mantinha aquele olho aberto. E eu mantinha-me ao pé dela. As suas costas tinham uma penugem que com a luz do sol ficavam de um azulado brilhante. Começou a ficar muito agitada, irrequieta, mexia-se muito.


Os olhos voltaram a fechar-se. Tentei dar-lhe mais água, mas não era nada disso.
Aquela cor ténue de penas azuladas começou a ficar cinzenta e sem cor, percebi que o seu minúsculo corpo estaria a perder a sua minúscula vida. No seu último gesto, cruzou as asas nas costas, uma trespassando a outra, encolheu as patas mínimas e finalmente abriu os dois olhos tão brilhantes e negros quanto dois olhos minúsculos de andorinha podem ser.


Ficou imóvel – perpétua. Enrolei-a num guardanapo branco e lá fora, na terra encarnada das traseiras da casa, fiz uma covinha, tão pequenina quanto o seu corpo. Há aqui muitos corvos, enormes, pretos com o peito branco, que comem tudo o que se mexe… até quase nos atacam numa cena muito à Hitchcok. Por isso achei melhor escolher um sítio no fundo da terra para ela ficar. Assinalei a sua cova com um pau e duas pedras.

Voltei a casa, fechei a porta. Não sonho há vários dias.
Nota: nesta foto a andorinha ainda estava viva.

23.8.10

Meus caros leitores,

Este texto é para vós! São todos, em bom da verdade, mas este em especial, pois hoje me enche a alma saber que tenho 18 seguidores!

Além de seguidores, tenho outras tantas mensagens e comentários que me incitam a continuar a escrever, que apreciam as minhas descrições e principalmente, principalmente meus caros leitores, que se sentem ao pé de mim. Como se estivessem a viver o momento comigo.
Para mim o prazer da escrita está na partilha, como o prazer de tudo na minha vida, além da comunicação e da consequente empatia que criamos. Empatia, no seu verdadeiro significado, é a capacidade de nos pormos no lugar do outro.

Caros leitores, é com muito prazer e orgulho que concluo que, entre “nós”, criamos empatia!
Estou de alma cheia! (não tão cheia se tivesse aqui um pão de ló para comer ao lanche, mas enfim…)

E sim, se calhar é preciso vir viver para África para nos apercebemos que é desta relação de dar-receber, de emoção-reacção, de ler-ouvir-sentir-viver, no fundo que é destes fluxos e destas energias que a vida nos vale a pena.

Do sofrimento nasce a aprendizagem, e já aqui tenho sofrido, não minto, mas o enriquecimento, livre de acessórios e de disfarces, tem sido intenso! E agora sabendo que cada um de vós me acompanha nestes passos, enche-me de força e coragem para a próxima paragem.

Do prazer das coisas simples, é aquilo que tenho aprendido. E tenho tido histórias e enredos incríveis, que crescem e nascem na minha cabeça. E como o exclusivo deve ser para os meus caros leitores, apresento-vos duas histórias de seguida.

Enjoy the cake!

Nota: as comunicações em Pemba são muito más, nem sempre temos net. Hoje há! amanhã...

18.8.10



Cá, também há bolo de arroz.


Mas cá, a vida não é igual ao bolo de arroz que eu sempre conheci. Têm o mesmo nome, mas fazem parte de um dicionário diferente.


Dia 9 de Agosto completámos o nosso 1º mês em Moçambique. Do turbilhão de sentimentos e sensações novas, experiências vividas e únicas, passamos para a instalação de uma rotina e de uma vida diária em que as referências que temos, de uma vida semelhante num outro continente, são os rituais como o pequeno-almoço, almoço e jantar, as nossas roupas, os cremes que vieram de Lisboa, a pasta dos dentes, o fio dental e os shampos, além do computador e do ipod...

No dia 10 de Agosto fiz 33 anos e fiz um bolo de chocolate. Utilizei os mesmos ingredientes, a receita da minha Mãe, os utensílios muito idênticos, mas em tudo aquele bolo de chocolate teve um sabor diferente.
O nome é igual, mas o significado não é o mesmo, não pode ser o mesmo. Todo o processo que me leva a um lugar, a uma coisa, a um bolo, é o que lhe dá um significado diferente.

O caminho que faço de casa até à Pastelaria Avenida, ou ao supermercado onde compro o chocolate, os ovos e a farinha, faz do produto final – o bolo – uma coisa diferente. Saímos de casa por uma estrada de terra batida, com altos e baixos, passamos por galinhas, galos, cabras, cães, fracas (galinhas pretas com pintinhas brancas) e chegamos ao alcatrão. Entretanto já passaram três mulheres com molhos de lenha na cabeça, crianças com a farda da escola e as mochilas a roçar o chão e um vendedor de alfaces e tomate.

Já no alcatrão percorremos uma enorme Avenida, a Avenida 25 de Setembro, que nos leva até ao centro da cidade. Há bombas de gasolina, a lixeira, um sítio a que eu chamo a “loja das casas”, porque vende tudo o que é preciso para construir uma casa: canas de bambu, macotim (folhas secas de palmeiras/ coqueiros), tiras de borracha (de pneus usados) e chapas de zinco; ao lado ainda há uma venda de cabras que passam o dia amarradas a um poste, e até chegar ao fim da avenida, que se desce ao sabor dos buracos no chão, passamos por um vale de barracas, uma espécie de favela.
Do lado direito do vale temos a vista sobre o mar, do lado esquerdo a enorme Baia de Pemba a que se acrescenta uma mistura de coqueiros, bananeiras, papaieiras, embondeiros prateados, telhados de chapa de zinco e macotim, o azul-turquesa do mar e o azul céu da Baia.

Depois, ainda antes da Igreja que está sempre fechada, vem o campo de futebol do lado esquerdo, de terra vermelho sangue, onde todos os dias há correrias atrás da bola. Gosto de ver aquele quadrado cheio de vida e os miúdos que sobem às balizas e sentam-se lá no alto para ver o jogo.

Já na cidade, vejo um homem a vender patos, de patas amarradas, que entra nas lojas com os bichos virados de cabeça para baixo - leva dois na mão e deixa dois à porta, com um ar perfeitamente triste (eu não me canso que ver esta cena das galinhas, e agora dos patos, virados de cabeça para baixo e do seu ar infeliz).

Ainda antes de entrar na pastelaria ou no supermercado, há um pobre que vem pedir esmola, e eu penso 1001 vezes na minha vida, na dele e depois na minha, e depois na dele e penso naquela pobreza de alimento e depois na pobreza do espírito, daquele que acha que vai comer o mesmo bolo de arroz, se o comesse numa pastelaria em Lisboa.

Os nomes e os substantivos são iguais, mas aqui o significado é diferente. O nosso corpo reage de igual forma, e procura semelhanças, pontos de contacto, encaixes entre uma coisa e outra, mas o espírito "alimenta-se" de maneira diferente o que faz com que, depois do percurso feito, no final, tudo se torne diferente.

11.8.10

Capitão Campo - o lobo-gago do mar



A nossa aventura na Ilha do Matemo, no acampamento de cabanas na Praia de Muanacombo, é contada pelo Capitão Campo.
Ele é o responsável pelo barco do Parque Nacional das Quirimbas (PNQ), pois foi pelo Parque que fomos dormir a este acampamento. A pessoa tornou-se para mim um personagem único, por reunir tantas peculiaridades que nenhum “inquérito de personagem” me conseguiu alguma vez fornecer.

Capitão Campo, ou apenas Capitão, é um homem entre os 30 e os 40 anos, mora na Ilha do Ibo, nas Quirimbas e trabalha para o Parque, ao comando do barco que percorre as ilhas e as une ao continente. Ex-caçador furtivo de tartarugas e tubarões, Capitão chegava a caçar 8 tartarugas por dia quando mergulhava no canal. Conhece todos os peixes e diz que os barcos são as “bolachas” dos tubarões – já viu um a dar uma dentada num barco. Gosta de relógios e óculos de sol, fuma um maço de cigarros por dia e é completamente gago.

Nessa manhã foi buscar a Tandanhangue (o porto em terra mais próximo das Ilhas Matemo, Ibo e Quirimba) quatro brancos que iam ficar a dormir no Matemo, nas cabanas na Praia de Muanacombo. Ele também ficava lá a dormir, com o Ibraim, técnico do Parque e mais outro marinheiro – todos trabalhavam para o PNQ. A maré fê-lo atrasar-se em duas horas. Ninguém se convence que naquelas ilhas e naquele pedaço de mar, quem manda e dita o ritmo da vida é a maré. O barco saiu pelas 9h00 carregado de 4 brancos, colchões, bidões de água e de gasolina, mochilas, comida e lanternas.

Com a maré na força da enchente, chegaram a Muanacombo. Capitão Campo conhece todos os pescadores e fala na sua gaguez fortíssima com eles. Trazem-lhe uma garoupa e peixes que podiam assar para o almoço e para o jantar. Os brancos gostam e tiram fotografias. Chegando ao acampamento, montam-se as camas e os colchões em cada cabana e trazem-se os bidões de água doce para os brancos tomarem banho depois do banho no mar. Os brancos sentem o sal na pele, a pele do Capitão Campo já não tem sentir, nem os seus pés. Anda sempre descalço, não sente os ouriços, nem os corais partidos que se espetam na planta do pé. Os ouriços fogem dos seus pés. Os pés do Capitão são cascos.



No passeio pela praia, os brancos contam que viram o crânio de uma tartaruga – o Capitão Campo perdeu a conta a quantas caçou. Sabe tão bem onde elas andam, quase que as cheira. Mas tiraram-lhe esse prazer, como quem priva um viciado da sua droga. Ele vê as tartarugas como nuvens debaixo do mar, dá uma última golfada de ar, mergulha com a arma e entra dentro do mar. Passa uma barracuda, um peixe-leão, um cardume de raias, mas os seus olhos só fintam aquela casca dura e pesada. Elas nadam bem, mas a arma do Capitão é certeira. Por ter morto tanto animal debaixo de água, a pior sentença que lhe deram foi este trabalho no PNQ. Agora denuncia os outros que conhecia, encontra as suas armadilhas, as suas armas... É uma espécie de judas traidor do mar, mas um judas gago.

Os pés do Capitão em tudo parecem duas barbatanas, os dedos têm unhas invisíveis e são largos, tão largos como a força que fazia quando nadava para o fundo do canal. São 35 metros que se afundam, marcando a fronteira entre a barreira de coral e o mar alto. É aí que as baleias se passeiam e nessa tarde viram-se muitas ao longe, com o seu repuxo enorme, a sua brincadeira dentro e fora de água. Esta é a época de acasalamento e elas vão para ali, naquele ritual de amor cetáceo.

Ao chegar a tarde, uma cobra atravessa o acampamento, os brancos assustam-se. É um instante enquanto se faz noite, acendem-se as lanternas, deixando um rasto de cheiro a petróleo que vem carregado de nostalgia. De noites de verão sem luz, do sabor do sal na pele e de crianças com os pés carregados de grãos de areia. Na praia, as pegadas de pés pequeninos vão-se perdendo com as ondas que agora se enchem totalmente com a maré.



Prepara-se a noite com o vento que abana toda a praia, a aldeia desaparece na escuridão e o mundo recolhe-se como as velas de um barco.


Às 5h35 da manhã, Capitão Campo sonhava com uma tartaruga que o esmagava. O seu peso era tão grande que ele não conseguia respirar; deitado na esteira, na areia fria da cabana, remexe-se na tentativa de tirar aquele peso de cima de si. Lá fora o sol rompe as nuvens e aquece a praia, os pescadores vão saindo com o resto de maré que começa agora a vazar. Capitão Campo acorda atordoado e gagueja qualquer coisa – ele diz que fala com os peixes e as tartarugas e que eles o entendem, devia estar a pedir para a tartaruga sair de cima dele.


As garças brancas e pretas sobrevoam a praia e vão-se misturando em voos suaves e plenos, com o púrpura do céu fresco do novo dia.

A maré começa agora a esvaziar e a areia da praia vai crescendo. Com isso vêem-se vultos ao fundo, no horizonte. Andam a pescar marisco, conchas e polvos. As rochas baixas, ao nível da maré completamente vazia, enchem-se de todas as formas de vida. Os ouriços enterram-se no resto de água, numa tentativa desesperada de esconder os seus bicos agudos e negros, as estrelas-do-mar já partiram deixando a marca dos seus braços na areia molhada e as crianças vêm brincar junto das poças de água.



Capitão Campo - que até deve dormir de impermeável azul-escuro vestido, pois nunca o vemos com outra roupa, senão isso e o fato de banho - observa as mulheres a chegarem com os baldes e as panelas de metal na cabeça. Trazem polvos, muitos. Elas pescam-nos com ferros. Falam em mani, os brancos não entendem nada.

Prepara-se o barco para a saída de regresso a Tandanhangue com a maré que lhe é devida e Capitão Campo vai ao comando do motor de 15 cavalos que empurra o barco de madeira do parque. O barco onde o “prenderam”.

A viagem de quase duas horas faz-se entre cardumes de peixes voadores e o mangal carregado de cegonhas. Os brancos apanham sol no convés improvisado e há uma mulher que mete um creme branco no corpo. Capitão Campo não entende para que serve aquilo, quando a sua pele é tão negra e grossa de brilhante.



Deixa os brancos em terra, recolhe o motor e põe a vela ao alto. Volta ao Ibo em silêncio, ele e o outro marinheiro com a camisa do “007”. Os dois em silêncio, eles e o resto do mar que de tanto bater no barco já não o ouvem, nem o sentem.

7.8.10

E agora, um bocadinho de Lost…




Sou assumidamente uma fã do Lost, apesar do amargo de boca com que fiquei com o final da série, muito, muito fraquinho… Tinha uma lista infindável de questões que esperava ver resolvidas e muitas ficaram no ar. O leitor, neste caso, o espectador, não é parvo. E os produtores fizeram-me de parva. Tanto foi, que pouco depois de ter aterrado para esta aventura africana soube que, afinal, vai haver uma 7ª e última série. Para “emendar” aquele fim tão forçado, tão pouco Lost


Hoje acordei com o som do episódio em que o Charlie morre, que vinha da vizinha do lado. É aquela cena absolutamente fabulosa da mão do Charlie: “Not Penny’s Boat”…

Daqui a pouco parto para uma aventura, que, queria eu parecer-me com um episódio do Lost, logo daqueles da primeira série. Vamos sair às 4h00 para fazer 150km de carro, que demoramos 3 horas de viagem pois a estrada é má. Depois apanhamos um barco que nos leva até uma Ilha das Quirimbas chamada Matemo. Levamos água, comida, rede mosquiteira, mantas e lanternas. Existem umas cabanas em frente à praia e é nelas que vamos dormir. No dia seguinte o barco vai-nos buscar de regresso a casa.



Passamos sensivelmente 24 horas numa Praia, numa Ilha.


São 24 horas um bocadinho à Lost e eu gosto disso!


até já...

4.8.10

...e Zanzibar!














































"clazy" Dar es Salaam





















Pili Pili, baunilha e cravinho.

28 Julho – 4ªfeira

E mais uma vez estamos em viagem. Desta vez a caminho da Tanzânia – Dar Es Salaam (DES), para também passar uns dias em Zanzibar. O Zé a Paula têm o visto a caducar e por isso é necessário ir a uma Embaixada/ Consulado fora de Moçambique.

Para nós é também um bom pretexto para passear e conhecer mais um País africano. Ao fim de uma semana na nova casa, ela já é um bocadinho o nosso canto. As pinturas, os móveis e o “enxoval” ajudaram a compô-la um pouco mais. Agora só faltam uns sofás…
Já cozinhei sopa, uma quiche, camarão em barda e saladas. Sinto falta do banho quente de manhã e de um bom supermercado – em Pemba é tudo muito limitado, caro e de qualidade baixa. No mercado, onde abastecemos os frescos, dá-me a sensação que é tudo biológico – os legumes e a fruta duram pouco tempo no frigorífico, mas em compensação têm um sabor delicioso!

A cebola e alho são muito fortes! Esta é a época do tomate, então há tomate por todo o lado – depois deve desaparecer. Aqui come-se aquilo que vai havendo. O Yassine, o nosso empregado, está há 3 dias em casa doente. O Janeiro, empregado do Zé e da Paula, diz que ele tem malária. Ontem à noite choveu e tem estado muito vento – ainda não dei um mergulho na praia.
Ao fim de 2 semanas a internet e as comunicações voltaram a Pemba e pela primeira vez falamos no Skype! Fez-me confusão ser noite tão cerrada aqui e tanto dia lá, quando a diferença é de apenas 1 hora a mais…

Aterramos em Dar pelas 13h30 com um calor bem diferente de Pemba. Fomos directos à Embaixada de Moçambique, que afinal não nos serviu de nada, pois o tempo de espera do visto é de pelo menos 1 semana. Já não existe taxa de urgência e não nos compensa estar uma semana à espera. Além de que há assuntos que nos “aguardam” em Pemba, com alguma urgência.
Decidimos ficar até Domingo, quando temos voo de regresso. Até lá vamos até Zanzibar, partimos amanhã de ferry.

29 Julho – 5ªfeira
Acordamos às 6h30 da manhã para sair logo cedo em busca de informação dos painéis solares e outros materiais. Além disso queríamos ir ao mercado principal – Kariaku.
Ontem à noite fomos jantar no centro da cidade, num restaurante local com grelhados e comida indiana muito saborosa. Tudo à base de galinha (nem carne de vaca – pelo lado indiano, nem porco – pelo lado muçulmano) e vegetais.

Agora, como explicar a cidade, Dar Es Salaam, o Hotel e o Restaurante? As ruas, as pessoas, a mistura explosiva que por aqui se dá entre o Médio Oriente, a Ásia e África… mulheres de véu, o imã que enche as ruas à hora da reza, os vendedores de laranjas, de cana-de-açúcar em cubos (é delicioso!) e de amendoim e cigarros (compram-se cigarros à unidade) que seguram as moedas na mão e chocalham-nas, fazendo um barulho muito típico para chamar a atenção. Depois ainda há os vendedores de águas e coca-colas em cestos postos em cima da cabeça, os carros às centenas, os tuc-tuc, os carrinhos de mão, as buzinas, os autocarros e muito, muito trânsito! Ainda as lojas e mais lojas, comércio na rua, nas portas dos prédios, nos passeios… Agora juntamos ritmo, muito ritmo. Poderia ser um videoclip indiano, daqueles com muitos cenários e danças.

Os prédios da cidade são feios, com janelas cheias de grades, as ruas sujas, as paredes descascadas, lixo e restos de coisas… ratos e baratas. Os meus olhos, esponjas a absorver tudo isto. Quando eu era pequena e viajava, sempre me diziam os meus Pais: “abre bem os olhos!”, mas isso era porque eu vivia num “caganito” de um Pais e indo eu para qualquer outro local da Europa tinha era de ver a “evolução “ do outro mundo. Aqui o conselho para “abrir os olhos” serviria para eu tentar encontrar uma referência que fosse do meu mundo ocidental. Qualquer coisinha… nada. Tudo tão diferente, tão outro mundo, que os meus olhos, o meu nariz e a minha boca levaram um dia inteiro a “mudar o filtro” (o “filitro” como se diz em Pemba). E quando a “lente” se habituou aquilo tudo, gostou.

Gostou, porque no meio daquele caos, existe uma certa ordem – o caos é organizado e a cidade avança. Há aviões a levantar e a aterrar a todo o instante, a maioria dos produtos são produzidos no Pais (chá, manteiga, café, bolachas, compotas, especiarias, …) Aqui em Moçambique 95% dos códigos de barra são de África do Sul ou de Portugal. Não se compra nada feito cá, aqui não se produz quase nada. Ao contrário, na Tanzânia, sente-se a força do comércio e da economia a crescer…

Hoje, às 4h30 da manhã acordei com o imã, era muito bonito, parecia uma canção de embalar e eu deixei-me adormecer. O nosso Hotel em DES, qualquer coisa de inexplicável, mas memorável, tem uma escada de cimento forrada com uma alcatifa escura aberta para o exterior, por onde entram 794 melgas por minuto. O elevador está avariado e há um guichet por piso com uma senhora lá dentro, que eu não sei o que lá faz. A casa de banho do quarto era totalmente lavável, ou seja, o duche fazia parte de tudo. Quando tomamos banho lavamo-nos não só a nós como à casa de banho; o ralo era num canto, o chão inclinado e havia uma saída do duche quase em cima do lavatório.

Já no mercado do Kariaku misturam-se os sons com os sabores e temos gengibre aos montes, leguminosas de todas as cores, pimentas e açafrão. Chás e cafés, cheiro a baunilha e a canela
Saímos para Zanzibar num ferry às 16h00 e chegamos quase 2 horas depois – já no lusco-fusco. Não tínhamos conseguido marcar nada, estando no início de Agosto que é a época alta… depois de umas voltas pela “Stone Town”, encontramos um Hotel de um canadiano (The Asmani Palace) muito bem localizado, com o banho quente que tanto nos conforta e uma cama indiana lindíssima!
Saímos logo para jantar, numa praça / jardim junto ao porto com cozinheiros a preparar a comida mesmo à nossa frente. Não sei o que rapidamente me atraiu mais nesta cidade, e nesta terra. Mas logo, desde o primeiro minuto adorei Zanzibar! As ruas estreitas com as bicicletas e as motas, as lojas e o comércio. À noite, em vez do sol quente, havia uma penumbra que eu gostei e fez-me logo imaginar um sultão, um escravo e uma princesa com um véu. E o cheiro das especiarias, da baunilha e do cravinho.
A mistura de muçulmanos com indianos e negros é intensa. Grande parte da cidade foi construída no séc. 19, quando era um ponto muito importante de comércio do Oceano Índico, controlando os barcos que vinham com comerciantes muçulmanos para o Continente, com grandes mercados de especiarias, marfim e escravos. Em 1498 lá estiveram os portugueses (Vasco da Gama), mas depois foi com os árabes, que expulsaram os portugueses, e mais tarde com os ingleses que Zanzibar mais se desenvolveu, mas sempre em clima de revolta e exploração dos negros. Teve vários sultões, um deles que mandou construir um Palácio em ferro, que por ser tão quente, nunca conseguiu lá viver!
Em 1873, graças ao inglês David Livingstone, aboliu-se com a escravatura, num dos maiores mercados de escravos (slave market) que chegava a exportar 60 mil escravos por ano para o Continente. Em 1964 houve um massacre de 12 mil indianos e árabes, pelas populações negras revoltosas, deixando Zanzibar com apenas 1% de residentes não-africanos. Hoje é uma República, conveniente...
Dizem que a conturbada vida política desta Ilha se deve em parte à sua situação geográfica. Como se já não fosse complicado não se puder escolher o sítio onde se nasce…

30 de Julho 2010 – 6ªfeira

Acordamos em Zanzibar, com a nossa varanda sobre os telhados da cidade. Passamos todo o dia a percorrer a Stone Town e fomos até ao mercado central. Compramos malaguetas, vagens de baunilha, canela e sabão natural – feito na ilha.
Visitamos o antigo “slave market”, entrei numa Igreja e dei as minhas graças e enquanto ouvíamos o imã, houve um muçulmano que convidou o Xano a entrar na mesquita para rezar.
Imagino mil e uma histórias e enredos neste sítio.
Jantamos num último andar, descalços a ver o por do sol. E dou graças. Dou graças pelo que sou e pelo que tenho a sorte de ter – saúde, uma família que me acolhe e gosta de mim, bons amigos e um homem ao meu lado, que aqui tornou-se mais nítido do que nunca, que é a pessoa mais importante na minha vida.

31 de Julho de 2010 – Sábado

Hoje fizemos um passeio até à Ilha do Prisioneiro, onde fizemos uma praia. São 30 minutos de barco desde o porto de Zanzibar até uma pequena ilha com uma praia.
Vimos tartarugas gigantes e demos uns bons mergulhos.

De regresso à cidade, depois de um almoço tardio, o sol esconde-se a correr. No meio das minhas fotografias, que não consigo parar de disparar, houve um grupo de 4 senhoras muçulmanas que quiseram tirar uma foto comigo. As quatro de véu e eu de vestido de praia e havainas no meio delas. Perguntei se aquilo estaria correcto, ao que elas me responderam que estava lindamente!
Esta será a nossa última noite em Zanzibar.
Amanhã apanhamos o ferry pelas 9h00 até DES, para depois apanhar o voo de regresso a Pemba.
E penso que é bom voltar a casa, seja lá onde isso for…