28.6.09

Manta de Retalhos - Maria Helena

Mais uma vez dedica-se o Bolo de Arroz aos velhos. Desta feita, a Maria Helena. Conheci-a num passeio de barco pelo Tejo. Estava toda contente, junto à proa, com as mãos a agarrarem um sorriso aberto e sincero. Vi-a e quis logo saber se talvez seria a primeira vez que andasse de barco.
"Não." - disse-me ela - "É que lembra-me quando ia para os Açores com os meus Pais..."
Maria Helena mora em Caselas, tem 80 e poucos anos e é toda enxuta e pequenina. Este dia era um dia feliz para ela. Lembrava-se do seu marido, já falecido há 40 anos.
"Eramos tão apaixonados."

O Pai era militar e a família de Maria Helena mudou-se para o Faial. Lá, ela conheceu o marido que tinha uma casa de cortes de fazenda. O Pai opôs-se ao namoro, porque ela era uma menina do Continente. Já ele era louco por ela, e na incerteza da bênção do sogro para aquela união, disse-lhe um dia: "Fugimos os dois e casamos. Vamos fugir, Maria Helena?!"

Não foi preciso fugir porque acabaram por casar cá em Lisboa. Tiveram filhos, mas esses estão fora da capital e Maria Helena mora sozinha num apartamento pequenino. Todos os dias tem uma combinação com a vizinha - se até às 9h30 ela não abrir o estore da janela do quarto, a vizinha pode e deve entrar em sua casa, para o caso de haver algum azar.

E o amor?

"Eramos loucos um pelo outro, ainda hoje nunca fui capaz de gostar tanto de alguém como dele."
Descemos do barco e com ela iam mais umas velhotas, amigas do Centro do Dia, com quem Maria Helena passa as horas devagar.
A viagem até aos Açores tinha sido curta, mas serviu para sentir a cor do mar azul que banhava os olhos da menina lisboeta que se iria apaixonar por um ilhéu.

Os últimos anos 20 anos da nossa vida servem para reforçar os primeiros 20. Tenho notado isso de uma maneira sistemática. Idos os filhos já criados, os anos de trabalho e de dificuldades, mudanças de casa e de emprego, fica aquilo que eramos antes de tudo existir.
Os hábitos genuínos, os medos, as angústias, as manias, os sentimentos - aquilo que nunca deixou de estar cá dentro, mas que durante uns anos andou adormecido.

Naturalmente, não podemos andar a avisar as pessoas que até aos 20 anos têm de notar bem aquilo que são, porque muito provavelmente é o que lhes irá revelar os últimos anos da sua vida.
O ciclo fecha-se assim, retomando o seu início.

É por isso que gosto de velhos. Da mesma maneira que gosto de coisas arrumadas e redondas, como um donut (pode ser o chocolate frosted da dunkin donuts...!).
Por que estão a completar-se e por isso a viver as "dores de crescimento".
Uma última vez.

Foto: Jardim Gulbenkian

24.6.09

Aviso!


Há bolo de arroz que se vende por aí sem qualquer tipo de camada, dita capa de açúcar! o que vêem branco na foto ao lado é o reflexo da luz da montra.
Ora, reparem bem neste aqui logo no canto inferior direito.
Nada, está nuinho!
Uma vergonha que tinha de denunciar aqui, no seu devido espaço público.

Isto é como atirarem com areia para os nossos olhos!
Como se no fundo do corneto não viesse aquele bocadinho de chocolate. Foi como ontem, 3ªfeira, não ter dado o episódio do Lost na FOX.
É quando chegamos ao Hotel e não há touca de duche, só gel de banho a cheirar a soflãn.

A vida é muitas vezes um bolo de arroz sem camada de açúcar.
Era suposto que... Mas não é.

Entra-se aqui num terreno complicado, pantanoso. Uma coisa que aprendi e de vez em quando me lembro e falo comigo.
São as verdade absolutas. Que é quem vive de verdades absolutas. Que o bolo de arroz tem camada de açúcar do princípio ao fim da vida. Que tudo é absoluto. Ou vivem uma vida inteira de vista turva ou a partir do dia em que salta a pergunta, tipo pipoca, cá dentro, é o princípio do fim. Do fim das verdades absolutas. Que não existem. Nunca.

Que todos os dias o sol se levante e se ponha, temos nós a certeza.

Até ao dia.

22.6.09

Viajantes

O Bolo de Arroz regressou de férias! Um sucesso!
Houve tempo para sopas (frias) e descanso e alguma meditação, também.
Do tema a inaugurar o Blog pós-banhos, havia vários, mas uma súbita ideia atingiu o Bolo de Arroz logo no último dia, já de regresso a casa.
Os viajantes. Os viajantes e essas megas cidades que são os Aeroportos.
Em condição de viajante, julgo ser o papel mais vulnerável e fragilizado em que o ser humano se encontra.

Então, vejamos:
Estar fora de casa, de terra, de tudo.
A vida toda dentro de uma mala - samsonite, roncato, caprisa, seja lá ela o que for, vai tudo dar ao mesmo.
Presos aos paineis de informação do Aeroporto.
Dispostos a pagar 37€ por uma sandes de fiambre seco, uma saca com 25gr de batatas e uma coca cola.
A andar descalço, sem cinto e com a vida toda radio-xizada.

Já no avião:
Confinados a uma cadeira e a um cinto de segurança.
A comida que recebemos como água no deserto.
A dores de ouvidos insuportáveis, a revistas sonolentas e a má luz para ler.

Sim, há a diferença entre o turista e o viajante. Verdade. Sendo o verdadeiro viajante aquele que dispensa o avião e aventura-se pelo mundo. Mas esqueçam lá isso.
Todo o mortal vai ao Terminal XPTO que se lixa e embarca. Como se aquilo fosse um barco.

Os Aeroportos são zonas francas. São um género de zona neutra, onde todos não são ninguém. Mesmo os que têm malas em fibra de carbono com rodinhas em todos os cantos, que frequentam os "lounges" VIP, que viajam com a pastinha debaixo do braço e i-phone...
Todos, todos se resumem ao mesmo.
São mundos destacados de um País, são globos terrestes em versão de carrinhos de malas, são portos de chegada e de partida. São poços de beijos e de saudades, de abraços e de lágrimas. Kilómetros de pessoas que estão em trânsito, nunca para ficar.

Já conheci alguns Aeroportos e pelas diferenças que existem entre eles, há sempre uma mesma sensação que lhes é comum. Que quando lá entro, há um fio que me desliga à tomada. Quando regresso, volto a ligá-lo.

11.6.09

O bolo vai de férias....

O bolo vai de férias uma semana.
Apenas para deixar o aviso aos 3,5 leitores que me seguem com alguma regularidade... espero trazer novidades pasteleiras de outras terras, ou não.
Vamos ter de pôr protector, pois o sol lá aperta.
Vou voltar com a marca da cinta do "fabrico próprio"!
até lá

8.6.09

Pontos fracos. #1 Sapatos que me sirvam


Se há coisa que eu gosto é de listas.
Ajudam a arrumar as coisas cá dentro, são mapas da nossa cabeça, coordenadas que resolvem assuntos e itens.
Então, resolvi fazer uma Lista dos meus 10 pontos fracos, tipo auto-análise SWOT!
Podem-se também chamar fraquezas, conforme a opção da tradução.

O nº1 não é por ser o mais fraco dos fracos. É só um bocadinho...
Sapatos que me sirvam, remete-me para o facto de que calço um número grande (40/41), logo tenho um pé grande. Além de grande é gordo. Isto é, papudo. Tipo sapo. Mais ainda, tenho o peito do pé alto.
Ou seja, tenho um pé maravilhoso de se calçar. Logo criei uma paranóia. A privação levou-me à obsessão e como não fui com eles (com os pés) para a psicanálise, eles não sabem que se devem aceitar como são e que deve ser a realidade a adaptar-se a eles e não eles à realidade.

Resultado: se apanho um par de sapatos que me sirvam é uma campanhia que dispara aqui dentro. Começo logo a salivar tipo cão do Pavlov. A cabeça perde o sentido, e se precisava de uns sapatos pretos e friamente os procurava, terei de comprar aqueles que me servem e que são... encarnados. Amarelos. Cor de Rosa. Não interessa. Servem!
Eles, ali ao fundo das pernas, com os dedinhos a dar a dar olham para mim todos contentes: ai que bom! uns sapatinhos a cheirar a novo! e não magoam. e têm um salto bom, e fazem as pernas altas.
As pernas, essas começam a gritar ao mesmo tempo que o rabo, e dizem: estamos mais altas e o rabo mais pequeno.
E depois começam todos a gritar ao mesmo tempo: compra! compra! compra!
E eu, de mão trémula alcanço a carteira e o cartão multibanco, enquanto o meu lado esquerdo do cérebro pede-me raciocinio, frieza e diz-me claramente: "tu não precisas destes sapatos, só os estás as comprar porque te servem."
Já não nada a fazer Sr. Lado Esquerdo, eu vou comprá-los. Obrigado por existir na mesma.

E sim, já levei o Sr. Lado Esquerdo à Bergdorf Goodman em Nova Iorque; pensamos os dois nuns Jimmy Choo pretos. 350 dólares. Vamos nessa Sr. Lado Esquerdo, para mim é uma vez na vida e para o Senhor? Não cabiam. O 41. Saí de lá a chorar agarrada ao saco da Loja (outro ponto fraco) cheio de papel de seda e dois cremes lá dentro.

Pronto. E esta é a experiência mais ou menos dantesca que eu vivo cada vez que uma sapataria se cruza no meu caminho. Eu não as procuro, são elas que me perseguem.

Sim, meu Principe, agora já compreendes não é? Já não te zangas com os meus sapatos pois não? São lindos... my preciousssss...

4.6.09

O mestre pasteleiro!



Porque o humor será sempre uma filosofia de vida...
o maior filósofo de todos!

3.6.09

A inadaptada



No dia 1 de Junho de 1926 nascia em LA, Norma Jean Baker.
Mais uma vez, e são estas as coisas que nos fazem ser quem somos, eu tenho um certo fascínio por esta actriz - Marilyn Monroe.
Infelizmente não conheço assim tão bem os filmes dela e ainda não vi aquele que dizem ser a "obra-prima": Os Inadaptados.

Mas o que sei é que gosto dela. Porque teve uma vida inversamente proporcional à beleza e ao talento que a caracterizava. Porque viveu numa época em que não havia nenhum "star system", era tudo genuíno e bom, estava tudo a começar do zero.
Porque se hoje alguém se apelida de "actriz mais sexy do mundo" é porque existiu uma Marilyn Monroe - ela mostrou o que é ser sexy. A palavra "glamour" é feita do seu nome. Ela era inteiramante genuína.

Nasceu filha de pai incógnito e mãe internada num hospital psiquiátrico; viveu até se casar, com 16 anos, em casas e famílias de acolhimento. Ninguém a queria. Foi um fotógrafo que a descobriu quando ela trabalhava numa fábrica de munições.

Era extremamente frágil, sensível, cheia de problemas e traumas. Chegava atrasada às gravações, tinha ataques de mau feitio... mas era simplesmente adorável, além de actriz notável.
Casou-se três vezes, sempre com homens mais velhos. Sabe-se que tentava engravidar mas tinha imensos problemas de saúde e não conseguia.

Era adorada pelos homens e pelas mulheres, não havia qualquer hipótese de se ser indiferente a ela. Tudo isto, ela não procurava. Só queria ser ingenuamente feliz. Mas estava criado um "monstro" e ela foi "vítima" de si própria. Desiquilibrada, tal como a sua Mãe e incompreendida por todos. Nunca se fez saber a sua vontade própria.

A vida de uma criança que cresceu num ambiente totalmente "anormal" e cuja a única família que conhece a abandona porque não tem condições para a sustentar, fazendo-a optar pelo casamento precoce em deterimento do regresso a um "orfanato", só poderia ser complicada.
E se juntarmos a isso a sua beleza inédita naquela era dourada do cinema americano, então só poderia ser extrememente complicado.

Morreu em Agosto de 1962, com 36 anos. Não se sabe como exactamente nem porquê. Nasceu o mito e ficou uma vida por contar.

1.6.09

Os sonhos

Hoje começa um novo mês. É o começo do Verão, da praia, é dia da Criança. Mas o Bolo veste-se um pouco de cinzento. Quero escrever sobre os nossos sonhos e irei fazê-lo, mas mostro o outro lado. Que é o lado de lá da vida.

Os sonhos (também podem pensar nos de abóbora e batata doce!) são o meio de transporte da esperança. Tipo bicicleta daquelas com vários assentos e pedais, todos juntos. Sentam-se os sonhos ao volante da esperança e voam com ela. A esperança leva-os para onde nós a conduzirmos - sim, somos nós que vamos à frente no guiador, sabiam?

Os sonhos são como se fossem missões na nossa vida. Objectivos.
E seguimos vida acima, vida abaixo, enchendo os lugares, vagando, deixando uns sonhos à espera na paragem, outros ficam pelo caminho.

Diz-se: "não percas a esperança", talvez seja também, não deixes de sonhar. O poder de um sonho faz-nos correr os pedais de forma vigorosa e determinada, conduzimos a nossa bicicleta cheios de força. Chegamos a um destino. O sonho torna-se real.

Noto sempre quando isso acontece, principalmente nos outros. A força que os leva, a esperança que lhes dá uma velocidade única de alcançar um destino - a realização de um sonho. Noto que quando alguém verbaliza dentro de si e para os outros o seu sonho, ele surge no seu caminho. Essa pessoa conduziu a sua bicicleta de maneira a cumprir a sua missão. A sorte também acontece, mas ela precisa de se alimentar de alento e de vontade.

Tenho sonhos nos meus assentos, que correm atrás de mim, outros que me perseguem, tendo já eu os deixado na berma, e ainda há aqueles que quero apanhar.
O combustível somos nós próprios - é uma bicicleta, pois. Requer alguma capacidade "física" e mental, mas está ao alcance de todos.

Todos, quando nascemos, temos uma bicicleta à disposição - a vida é sempre esperança.

E quando acaba a vida? Acabam os sonhos? Não! Andam à solta por aí. Quem os sonhou largou-os no ar, deixou-os para nós, para que sonhemos por quem perdeu a bicicleta.
Para que tenhamos sempre uma missão na vida.

Para quem ainda sonha, força na pedalada!
Para quem hoje deixou os sonhos a vaguear pelo oceano... iremos resgatá-los, com amor e com a nossa memória.