31.12.12

Próxima paragem!

 
Não encontro melhor sítio para fazer o clássico "Balanço do Ano" (2012), do que estando sentada no Elevador da Bica, no cimo da calçada, a espreitar o Tejo lá em baixo.
Ora vamos lá ver como foi, tendo como base as "12 Passas" que eu escrevi no final do ano passado:
 
#1 - escrever a história/ biografia do meu bisavô Joseh Rugeroni.
A verdade é que o mais difícil está feito e a preguicite aguda atacou-me por completo quando em Abril comecei a dedicar-me à Lifestories. Desculpas, desculpas, mas o trabalho que está feito não se perde. É uma questão de método e rotina que eu não soube ou não consegui adoptar (e bem que o meu prof. José Vegar me avisou disto!).
Mas consegui chegar até à Lifestories, um projecto que conta as histórias de muitas mais pessoas, com ideias e iniciativas tão interessantes e que me preenchem imenso, foi uma enorme conquista!
 
#2 - ouvir mais boa música e ler mais bons livros.
CHECK! tudo em clássico, descobri Alberto Caeiro, Mia Couto, Mário Cláudio e reforcei Somerset Maugham.
 
#3 - conseguir de uma vez por todas fazer suspiros.
isto deve ser um síndrome qualquer, porque durante 1 ano nunca mais experimentei a receita... é stress pós-traumático.
 
#4 - escrever o meu segundo Romance.
isto nem em 2015... as perspectivas é que tenho demasiado assunto e pouca escola alemã dentro de mim, que me permita ajuizar-me nas rotinas e em métodos de escrita e de trabalho de investigação. Mas ainda fiz um curso de escrita de contos infantis, apresentei o meu conto em duas turmas no Colégio de São Tomás, participei nuns concursos de escrita e fiz a 2ªparte do curso de "Histórias de família".
 
#5 - ser Mãe.
SUPER CHECK!!! 8 anos depois, no dia 16 de Julho de 2012 tive finalmente a confirmação!
 
#6 - ir a Moscovo e ver o Bolshoi.
Continuo a querer ir lá e a não gastar as minhas 55 mil milhas da TAP acumuladas entre Lisboa-Maputo.
 
#7 - conseguir, de uma vez por todas, que o Flash seja um cão adulto.
CHECK, conforme post do dia 29.12!
 
#8 - não deixar de sonhar.
Agora com a gravidez tenho sonhos altamente psicadélicos, ao estilo de Stanley Kubrick. Casas fechadas, banheiras, carros no meio de furacões, personagens estranhos.
 
#9 - continuar a praticar "mente sã em corpo são".
Fiz ballet e contemporâneo na Escola Superior de Dança, duas vezes por semana, até Junho. Ainda intercalei com muitas corridas matinais à beira Tejo. Quando o M. se alojou cá dentro abrandei nisso tudo, mas não deixo de apanhar o 28 e ir à Baixa.
 
#10 - ir ver o Benfica, e o CR7, a jogar em Madrid.
Isto não deu, mas fui a Olhão, ao Estádio José de Arcanjo ver o Benfica contra o Olhanense. Perdemos e eu apareci na TV a assobiar, com os dedos na boca, contra o árbitro.
 
#11 - renovar os votos nos 12 anos de casamento.
O M. já cá andava e por isso calmamente celebramos os 12 anos de casamento com uns dias maravilhosos, de final de Verão, passados na Zambujeira do Mar na Herdade do Touril. Foi uma surpresa do meu Príncipe, em grande!
 
#12 - finalmente rumar ao sul.
A casa já existe, é uma ruína, é certo, mas existe e já é nossa e o projecto para aquela casa está todo pensado. A localização é na Zambujeira do Mar. Só falta completar a burocracia toda para a aquisição do terreno, que é colado à casa, mas que não estava contemplado na compra. As perspectivas apontam que o consigamos em Março, a partir daí começam as obras. Só nessa altura levanto a ponta do véu e vos mostro a casa, linda, no cimo da colina com vista para o mar, o nosso projecto de turismo, há mais de 8 anos, pensado e muito sonhado.
 
Foi um ano fantástico!
Apesar de não ter viajado grande coisa, fui a Roma e a Sevilha, fui mais uma vez orgulhosamente madrinha de uma menina amorosa (adoro ter só afilhadas, é muito girl power!), conheci óptimas pessoas, dediquei-me à escrita (apesar de tudo), tive a deliciosa confirmação do sentido da continuidade deste Blog, com o artigo publicado na Máxima e vi nascer, crescer e prosperar um projecto único em Portugal, a "Cozinha com Alma", do qual faço parte com muito orgulho, dando semanalmente o meu contributo para esta pioneira iniciativa.
Para tudo é preciso uma dose de sorte, mas muito do que aqui está foi pela força e perseverança, minha, mas em alguns casos também de uma outra pessoa (o meu marido), em que juntos criámos um sistema que nos puxou durante este ano e nos fez chegar a várias "estações".
Cheguei a 2013, mas a viagem continua, com imensas novidades e vontades.
até já!
 



29.12.12

uns restos do Natal...

 
Ainda aqui ficam uns restinhos do Natal, pois eu ainda não tive vagar para vos dar conta destes dias de Festas. Os cadernos da Lifestories têm-nos retirado muito tempo e agora ainda mais, depois do artigo no Suplemento P3 do Público (o artigo pode ser lido AQUI).
Além disso o computador também resolveu ter uma espécie de bloqueio nervoso de final de ano e mostra-me um ecrã profundo e preto, e é tudo.
Fechei-o e desisti de tentar, pelo menos até ter cabeça para me dedicar a essa causa.
 
Mas dizia eu, ainda tenho uns restinhos do Natal, como falar-vos da fantástica performance do Flash durante os dias 24 e 25 de Dezembro. O Flash durante dois dias foi um cão de 40 quilos dentro de duas casas lotadas de gente, crianças, adultos, velhinhos, bebés e grávidas. Além de queijos, tostas, arroz, bacalhau, batatas fritas, pão, manteiga, leitão, perú recheado, batatas assadas, presunto, mousse de chocolate, farófias, arroz doce, bolos, pudins e tartes.
Portou-se tão bem o meu Flashinho!
 
É já um cão com 4 anos, convenhamos, e nós tinhamos a secreta esperança de que um dia havia de ser, o bicho havia de se acalmar e ser um real cão de companhia. Apesar de ter roubado uns bonecos da árvore de Natal, mais uns brinquedos das minhas sobrinhas e de ter literalmente comido uma casa do jogo do monopólio, o Flash tem de receber uma boa nota pela prestação natalícia.
O meu Pai diz que ele está "um Senhor!".
Meu cão lindo.
 
Estou cheia de saudades, pois desde o dia de Natal que ficou em Cascais, com os meus Pais, e eu e o Alfa sentimos a casa muito vazia. Dia 1 já o vamos buscar para ao pé da gente. Até a minha Paula reclamou logo assim que chegou a casa e não o viu...
Apesar de não falar, nem de se ouvir, o Flash é (cada vez) uma excelente companhia.
São precisos é 4 anos para se começar a falar assim... e o melhor é ainda não deitar os foguetes todos!
 
 


26.12.12

mais cadernos a caminho...


Aqui não se brinca.
Depois das couves, do bacalhau, do perú recheado e das farófias, voltamos ao trabalho.
Aqui por casa tudo bem, foi um Natal normal e tranquilo.
O Flash está "clinicamente morto", na véspera foram 22 pessoas, no dia, ao almoço, foram 26 sendo que 7 eram crianças, ele deu conta de tudo e de todos mas o estado vegetativo de hoje é notório. Nem veio para Lisboa, ficou em Cascais a dormir e nestes próximos dias está em recuperação, evitamos que assim tenha de descer escadas e cansar-se mais a cheirar os imensos presentes que o M. recebeu.
Bom.
Amanhã chega mais uma fornada de cadernos "Um dia" e temos de nos despachar a fazer envios!
E que tal os vossos Natais?


25.12.12

diários de moçambique ** #5



Diário de Moçambique. Volume 1. "do que te leva a ir..."
 
26 de Dezembro de 2010. (Domingo)
 
Ontem foi dia de Natal.
O primeiro em 33 anos que não passo em Lisboa ou em Torres Novas, com a família.
Em que não visto uns collants, ou uma camisola quente, em que não como bacalhau ou perú.
E por estranho que me possa parecer, não senti falta disso. Por muito que eu busque cá dentro, que eu remexa as minhas entranhas e os meus sentimentos - não me fez assim tanta confusão. Não chorei, não fiquei triste - claro que pensei muito. Falei com os meus Pais, com o meu irmão e a Inês. E pronto. Não precisei de falar com mais ninguém.
Veio de Pemba o André, a Yumi e a Maria João, que estão agora cá em casa. Cozemos 10 quilos de carangueijo, fiz gelado de manga (que foi um sucesso, pois as mangas são delicisosas!) e o arroz doce da minha sogra.
 
A nossa ceia de Natal assim foi, ainda com uma carne feita pela Lucie, vinho, aperitivos e café. Ficamos todos juntos até à meia-noite, em casa da Lucie e depois voltamos para casa. Não houve presentes nem decorações, só as estrelas. Estava uma noite muito quente, muito húmida. Ainda desejamos as Boas Festas com quem nos cruzamos e vimos as luzes coloridas da pastelaria da Ana. Oferecemos um pacote de arroz ao Sahid e à Rabina.
 
Mas aqui nada cheirava a Natal - o Natal esteve dentro de mim.
 
Ontem, dia 25, fomos até à Ilha do Matemo para tomar o pequeno almoço no Resort do Rani, mas já saímos muito tarde e quando lá chegamos não havia pequeno-almoço!
O Xano e o Jo ficaram numa outra ponta da ilha a pescar e nós voltamos com uma coca-cola na barriga... Passamos o dia no barco e ainda me assustei um pouco à procura do Xano, que finalmente apareceu do meio do Oceano!
Voltamos ao Ibo e ainda fomos comer um jantar de Natal, feito de restos deliciosos, em casa da Lucie.
De vez em quando olhava para o relógio e imaginava aquela hora do dia o que se estaria a passar em casa do Avô, ou se já estariam a almoçar, ou de volta a Cascais.
Porque todos os anos era sempre igual - e eu não posso sentir falta de uma coisa que é sempre igual.
 
 
 

**excertos do meu Diário Pessoal escrito durante a minha estadia em Moçambique, entre Julho de 2010 e Agosto de 2011

24.12.12

As couves!

Neste momento tudo se resume a uma questão essencial: as couves.
Ontem, em Lisboa, no Calhariz, já estavam verdes e viçosas.
Hoje, na aldeia onde passo as noites de Natal, já se está a tratar do assunto.
O fundamental são as couves, o belo azeite para regar, o bacalhau fofo e finalmente as farófias!
Boas comezainas!

22.12.12

Boas Festas!

 
No final de contas, e porque eu não ando aqui a enganar ninguém, eu sou uma tipa clássica. Gosto daquilo que fica sempre bem e que é eternamente bonito. Como jóias por exemplo.
Mas isso agora não convém, nem é tempo, vamos lá voltar ao início.
Dizia eu que sou uma tipa clássica, e vai daí quando recebi esta imagem de Boas Festas identifiquei-me logo com ela. Eu gosto destas cenas.
Além de adorar os animais todos de roda do Pai Natal, gosto deste cenário, dos passarinhos de barrete, do bambi de cachecol.
Não é a onda do vintage, que já está a enjoar um bocado, é a onda mesmo do clássico.
Já é raro alguém gostar disto, acho eu. As ilustrações, mesmo as de contos infantis, são todas bastante abstractas, até para quem é adulto é lê os contos, como eu.
Desejo a todos um Natal feliz e em paz. Clássico ou não, mas que vos faça sentido, que seja o Natal que cada um deseja para si.
Podem comer bacalhau ou empadas de galinha, é indiferente. O importante é que faça sentido para cada um de vós.
 
 
 
 


20.12.12

76 MB

Acabei de descarregar um ficheiro de receitas da Bimby chamado: "doçaria conventual portuguesa", com 76 MB.
Não sei se isto é bom ou mau.

Já cá canta...

 
Este ano não deixei para a última, não senhora!
Já tenho a minha Agenda Moleskine 2013, novinha e bem encarnada como o Benfica!
Apesar dos cadernos da Lifestories virem um dia ser grandes concorrentes destes senhores (!!), não há dinheiro mais bem empregue do que nesta Agenda.
Dura um ano inteiro, dentro da carteira, a cair no chão, com água em cima, dentro das mochilas e das malas, a capa não se desfaz, o papel é resistente, não se afunda no meio da carteira porque é encarnada e vê-se à distância, tem o tamanho ideal, o espaço ideal para escrever, tudo em ideal.
Já comecei a escrever os afazeres de 2013, e vocês?


19.12.12

cenas de grávida

(o post que se segue é em torno da temática da gestação, quem não tem paciência, e está no seu direito, espere por amanhã que há outros assuntos, mas hoje é o que temos!)
 
Fui hoje de manhã fazer uma análise que serve para medir a tolerância da pessoa grávida à glicémia (açúcar) e assim fazer o despiste da Diabetes.
Que coisa mais nojenta que inventaram para uma pessoa fazer!
Logo de manhã tive de ir em jejum.
Sacaram-me sangue (tanto sangue sacam a uma grávida, senhores!), fiz xixi para um tubo (tanto xixi faz uma grávida para copos e tubos) e depois emborquei uma garrafa de 250ml de um líquido laranja que (...ainda me vem o sabor à memória, blarghhh!!) era insuportável de doce e espesso e tudo, e tudo.
Fui-me sentar 1 hora quieta na sala de espera do Centro de Enfermagem, enquanto o meu filho se contorcia na barriga e eu, quase a ter um fanico, ía me aguentando.
O Centro de Enfermagem fica mesmo no meio do Bairro Alto e assim já estão a ver a animação que aquilo é, não estão? Velhotes na conversa, o homem do Talho que vem trazer sacos de laranjas para oferecer ao Sr. Enfermeiro, a senhora da recepção que é casada com o Sr. Enfermeiro, os dois que são os Pais da dentista que é a dona do Centro, ... e podiamos continuar por aí fora!
Uma hora depois tirei outra vez sangue e fiz xixi para um tubo.
E duas horas depois repeti a mesma dose.
Tudo sem comer, a ouvir o Manuel Luís Goucha e a Cristina-histérica aos gritos, sem ser capaz de ler uma revista tal era a má disposição com que fiquei.
No fim, o simpático Sr. Enfermeiro (a quem eu chamo carinhosamente de "lenhador"  pelas mãos gigantes, a barba enorme e as camisas aos quadrados que veste por baixo da bata branca) deu-me uma fatia de bolo rei , que eu detesto, mas dada a minha fraqueza aceitei, tendo vindo a cuspir os bocados de frutas cristalizadas Bairro Alto abaixo até chegar à Padaria Portuguesa, onde finalmente pude alarvar num pequeno-almoço.
Para a semana volto lá, porque tenho de ir fazer uma análise à urina. Apanhei uma infecção urinária, lá estão as grávidas e o xixi.
O episódio que tive este fim de semana nas urgências de Santa Maria (onde fui lindamente bem atendida e tratada) também seria digno de uma mini-novela, além das minhas idas ao Centro de Saúde (também no Bairro Alto) em que as cenas e os diálogos são cada vez melhores.
É este agora o meu universo, senhores.
Isto e sujar-me a toda a hora.
Como a barriga está maior tenho a camisola permanentemente com nódoas.
O universo das mulheres gestantes é, sem dúvida, um mundo novo para mim!
 
 
 

A farda

Casaco azul tamanho 46
Camisa azul claro
Gravata azul escura
Cabide de arame
 
Jorge é nome de quem leva uma farda. E se farta dela.
Os 25 anos de serviço no posto da Alfândega tiraram o brilho do azul e arrancaram os botões e os berloques dourados.
Mais vale deixá-la pendurada num parquímetro do que ter de olhar para ela todos os dias. Alguém que a leve.
As calças ainda servem para usar com camisa e casaco ao Domingo.
Foi comprar camisas de poliéster e agora vai todos os dias às 9h30 da manhã para o café, ler "A Bola", ver quem passa, gozar a reforma. À tarde é jogo de cartas no Bingo.
Ao fim de semana continua a ir ao Rio pescar douradas, leva o canito e a mulher faz crochet dentro do carro.
Um homem não se quer em casa durante a semana, nem uma farda se quer fechada num armário.  

18.12.12

O poder de um clássico

 
Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes não.
 
Nada é mais poderoso do que uma primeira frase tão bem "tirada" como esta que o Leo Tolstoi escreve na primeira de 868 páginas do seu mítico Romance, "Anna Karenina", escrito em meados de 1869.
E, para mim, nada consegue superar o poder de um clássico.
Nem mesmo o filme.
Gostei da encenação, a ideia do Teatro é genial, mas não adorei os actores, achei as jóias demasiado "Parfois" e principalmente desiludiu-me não ver os reais cenários de uma Rússia imperial que me fascina.
Só a casa de campo do Levine me acalentou a imaginação: era tal e qual eu a  tinha imaginado, enquanto li este "tijolo" deitada na cama, à noite, ou sentada no jardim em Moçambique, entre Pemba e o Ibo.
No fundo, em relação ao filme, achei uma versão low-cost, como convém, nos tempos que correm. Soube-me a pouco.
Só esta primeira frase é para mim inexpressável em mil imagens, mil cenários ou mil personagens.
E é por isso que um livro quando é bem escrito, ou seja, quando se torna um clássico dos clássicos é uma coisa belíssima, rara, única e poderosa.

17.12.12

Golden Days

 
Apesar do dia de hoje ter sido do mais sinistro e cinzento que há, nunca é de mais relembrar que estamos no Outono!
O Outono que termina daqui a dias, data também escolhida pelos Maias (não os da Rua das Janelas Verdes) para o fim do mundo, é a minha estação preferida.
Dos finais de tarde de ouro, como este que captei a semana passada com a máquina do telemovel, aqui perto de casa, da aragem fresca mas refrescante, das folhas caídas e mornas, do chão brilhante, das casas iluminadas por dentro, do cheiro a forno ligado.
Das coisas que mais senti falta em Moçambique foi do Outono, precisamente.
Como se me faltassem algumas horas do dia, ou dias da semana.
Agora venha de lá o Inverno e o fim do mundo.
Estamos preparados para tudo!
 


16.12.12

os pedaços de fita-cola...

 
 
 
Há dois anos o Natal foi no Ibo, 30ºC, chinelos, vestido de alças, carangueijo, gelado de manga caseiro, zero família, amigos novos, gente desconhecida, árvore de natal só se for a Papaeira, presépio em pau preto, presentes só em espírito, lojas só em revistas, luzes só as das estrelas, tudo diferente.
Este ano.
Mantive o presépio e fui buscar rama de pinheiro (nórdico, daquele que não cai) à Praça da Ribeira, a 5 euros o molho, espetei-lhe um laço numa jarra e voilá!
Embrulhei os presentes com papel de embrulho bonitinho, acrescentei etiquetas e raminhos de pinheiro para enfeitar.
Até acrescentei a banda sonora, pois sou fã confessa de músicas de Natal e comprei no itunes o novo disco do Rod Stewart só de músicas de Natal. Perfeito! E ando eu com as músicas, traz e frente, e ainda umas velinhas de cheiro pela casa.
Mas foi quando me sentei a embrulhar os presentes, enquanto, tal como a minha Mãe me ensinou, cortava os pedaços de fita cola e os arragava às pontas dos dedos e os colava na bordinha da mesa, que percebi que por muitas voltas que o mundo dê, voltamos sempre ao que somos.
À nossa essência, seja ela qual for.
E os pedaços de fita cola levaram-me até mim e no regresso trouxeram-me saudades desse Natal africano, tão distante, tão diferente.
No meio do frio ou do calor, em África ou aqui, eu serei sempre eu.
Com fita-cola ou sem ela.

15.12.12

uma vergonha...

Não tem desculpa esta minha ausência.
Ou talvez tenha?
Por causa dos cadernos da Lifestories e de um post no Blog da Pipoca Mais Doce, que simplesmente os adorou (pode ser lido AQUI), instalou-se o caos nas nossas vidas!
Foi uma autêntica explosão de emails, pedidos, encomendas, telefonemas para a gráfica e o pânico geral instalou-se.
O efeito imediato que aquele post provocou surpreendeu-me verdadeiramente.
Nós não estavamos minimamente preparadas, sabiamos que estando a oferecer um exemplar de cada à propria Pipoca era uma forma de os divulgar, caso ela lhes achasse alguma graça.
Mas a verdade é que os adorou e recomendou-os no Blog como presente de Natal, ainda por cima com um texto lindíssimo.
Em dois dias esgotamos a 1ª tiragem e temos dezenas de pedidos para a 2ª tiragem.
No meio disto a Lifestories começou a preparar uma História de Vida, de um "jovem" Engenheiro que hoje faz 90 anos e que nos conta um percurso de vida maravilhoso.
Para ajudar, o M. resolveu mostrar-me o que são contracções e eu tive de ficar de repouso forçado.
E depois é o Natal e o Benfica a ganhar.
E tudo isto fez-me estar estes longos dias afastada do meu estaminé.
Me desculpem. 
Tenho montes de coisas para vos dar e contar, para assim me perdoarem.
Começo já a seguir!
 
 


6.12.12

Onde vou eu, ele vai!

 
Pois aqui ando eu pelos lados da Pensão Amor na Rua do Alecrim, a horas diurnas e decentes convenhamos!
Se eu ando e por onde eu ando, anda ele também: esta ideia de eu ser uma espécie de canguru não deixa de me parecer divertida.
Se eu vi no outro dia o 007, então o M. viu o 007, pelo menos ouviu de certeza! E comeu pipocas com a Mãe, está claro.
Andamos de 28, apanhamos o metro, vamos ao Sr. David, o sapateiro nas escadinhas da Bica, à frutaria, visitamos a Sandra no Palácio do Papel no Calhariz e cheiramos o papel e experimentamos canetas, vamos à Pensão Amor, andamos às voltinhas em Lisboa a distribuir cadernos.
Ando eu, anda ele todo contente.
 


5.12.12

E ainda a Lifestories...

 
Assim que começamos a comunicar ao mundo os cadernos  "Um dia" (na semana passada), a Sónia Morais Santos, a jornalista que tem o Blog "Cocó na Fralda", foi uma das nossas primeiras contempladas com a oferta das duas versões dos cadernos.
Queríamos dar-lhe a conhecer o que fazemos e como fazemos e principalmente quem somos nós, a Lifestories: três raparigas (até aos 35 ainda dá) apaixonadas pelas histórias de vida.
A verdade é que nem sequer a Sónia ainda os recebeu (vai recebê-los hoje, precisamente) mas fez logo menção à Lifestories no seu Blog. Mais do que a promessa dos cadernos, ela adorou o nosso projecto!
E assim, sem mais nem ontem, fez logo um post no Blog sugerindo um presente Lifestories para este Natal. (podem ver AQUI)
Nem sabemos bem como reagir a isto, agradecendo o reconhecimento claro, e esperando que 2013 nos traga muitas mais histórias de vida! E que os cadernos as registem : )
 

3.12.12

Cadernos Um dia...



 
Quando me envolvi pelas histórias de vida e me juntei à Lifestories, apaixonando-me  assumidamente pelas vidas dos outros, percebi que efectivamente o português é um género pouco dado a isso.
Ou seja.
Não temos qualquer tradição em biografias e memórias, não existe uma cultura de partilha de histórias, de registo ou de respeito pelo património brutal que são os trilhos que cada um vai vincando no seu caminho ao longo da sua vida, seja ele presidente de um banco ou pastor de cabras.
 
Quando comecei a traçar o trilho do meu Bisavô, feito cão a farejar a caça, percebi que era uma lança em África e sempre matutava sobre o porquê desse silêncio na escrita da vida e dos costumes.
Por que será que somos tão fechadinhos nas nossas conchas, tão medrosos do que os outros pensam, com o julgar alheio, com o olhar invejoso do lado? Isso já vem do tempo do Camões e aventurar-me por aí seria uma conversa sem fim. Mas para mim tudo se resume a isso, a uma cultura ainda profundamente enraízada no nosso povo do medo dos outros e de não mostrar "o que se passa por cá". Pode cair mal.
 
Vai daí a Lifestories, de maneira ténue e ligeira, mas com um toque de humor e alguma originalidade, quis precisamente dar uma mãozinha a quem ainda acredita que a vida deve ser registada e partilhada, lida e desenhada.
Os diários são fonte inesgotável de histórias, memórias, estados de espírito e espelhos fidedignos do que se vive numa época, do que é o universo próprio daquela pessoa em particular.
Os cadernos "Um dia" são o empurrão para a escrita que se lança para o universo, sem medos, nem julgamentos alheios.
Há dias bons e menos bons, a vida é mesmo assim.
 
São assim dois os cadernos que a Lifestories apresenta:
Um Dia | Um Desenho; para a pressa dos rabiscos, das tatuagens prometidas e das ilustrações mais tímidas.
e
Um Dia | Uma Palavra; para as exclamações efusivas, as interrogações em perspectiva, todos as reticências, os furos da ciência e os sonhos para o futuro.
Os cadernos são pessoais mas transmissíveis e trazem pistas para o desempate da inspiração e os despistes necessários para iluminar a hesitação.

Por cada 100 cadernos vendidos a Lifestories propõe-se resgatar uma vida solidária, personagens que marcam a vida dos bairros e das comunidades.
Todos os cadernos estão numerados.
 
Esta é uma edição limitada sem prazo de validade!
Preço: 9,90€ (envio por CTT ou entrega na zona de Lisboa)
Para mais informações e encomendas: eraumavez@lifestories.pt

30.11.12

na mesa de cabeceira...

 
De modo que as leituras têm sido estas.
Ando há que tempos para começar a "Servidão Humana" mas dá-me ideia que o grande "Romance" da minha vida vai ser outro...!


29.11.12

É bonito saber que as pessoas vêm aqui parar ao meu estaminé com pesquisas relacionadas com:
 
- casa dos piny pons
- bolachas de amêndoa
- gelados

e... o melhor de todos:
 
- como dar banho ao cão
 
Apesar de tudo, não sei se é dos banhos, mas o Bolo de Arroz tem recebido muitas visitas. Não sei se é um vírus que me entrou pelo estaminé ou se são mesmo leitores que espreitam pela primeira vez a chafarica. Já estamos a chegar às 100 visitas por dia!
Isto já é muita massa cinzenta junta. E eu fico muito feliz.
(a ultra famosa Pipoca Mais Doce atingiu os 24 milhões de visitantes, no fundo é só uma questão de tempo e eu dou duas voltas a Portugal, eu chego lá!)
A todos os que ainda procuram a casa dos piny pons, continuem, não desistam que dois ou três sites mais à frente ela vai aparecer.
Ou então vão logo directamente à Loja do Puto contra Ataca, em Lisboa, e fica o assunto resolvido.
 

28.11.12

Afinal o que eu quero são os bichos dos outros - Parte 2


Falar de bichos sem falar de cães, seria para mim uma estranheza.
Ora, como o que eu quero é final os bichos dos outros, eu quero esta cadela, a Dark que está sentadinha na cadeirinha do lado direito da fotografia.
A Dark é uma cadela labrador com pouco mais do que 1 ano e que vive a uns 10 metros de nossa casa. Acontece que os donos são proprietários de uma Loja de antiguidades na Calçada do Combro, Memória do Tempo, onde a Dark passa o seu dia.
É logo assim uma cadela cheia de requinte, pois passa o dia rodeada de coisas bonitas e antigas. Além disso, é a coisa mais meiga e doce que eu algum dia conheci. Cumprimenta-me sempre de forma dócil, calma e tranquila.
O que comparando com o selvagem do Flash, que dos seus 4 anos não evolui minimamente nas suas habilidades sociais, cumprimenta as pessoas com saltos, cheira-lhes o rabo, os pés e os sacos, ladra e desata a correr a fazer oitos, só me faz querer trocar de cão por uns dias.
Não me importava nada de ir para a Loja, passar lá o dia sossegada com a Dark enquanto o selvagem arranca bocados de relva, mija em todas as jantes de carros, caixotes do lixo e vasos, come toda a m*rd@ que encontra no chão e entra dentro dos prédios onde a porta tenha ficado, sem querer, aberta.
A última dele, aqui na rua, foi empoleirar-se na bagageira de um Mercedes lustroso, enquanto o dono do carro, um Senhor de fato impecável, arrumava um saco lá atrás.
O Flash não faz mais nada e mete-se de pé, com as patas apoiadas na bagageira a espreitar para dentro da mala... como se o mundo fosse dele e pronto!
Sendo assim, quero a Dark e pronto.

27.11.12

Afinal o que eu quero são os bichos dos outros - Parte 1

 
Já aqui demonstrei por diversas vezes que adoro ursos pardos!
Por todas as razões: vivem nas montanhas, no meio de cenários repletos de riachos, árvores, planaltos verdejantes e outros animais igualmente bucólicos, do género, bambis, esquilos, castores, lontras etc..., comem salmão e mel (coisas que eu adoro), hibernam e deixam assim que a vida lhes passe de maneira mais suave, constituem família, são espertos e dóceis.
Vai daí, eu um dia gostava de ter um urso, como se tem um cão, e este rapaz, o Casey Anderson só faz isso o dia todo há uns 20 anos: estuda, filma e produz documentários acerca da vida dos ursos pardos no Montana, nos EUA, onde ficam as famosas Rocky Mountains.
Tanto é assim que tem um urso, que é o "cão" dele; o Brutos que pesa 360kgs e foi o padrinho de casamento do Casey, quando este se casou com uma actriz!
Eu quero isto.
Quero um urso e um quintal nas traseiras da minha casa como uma montanha a perder de vista!  

26.11.12

diários de moçambique** #4 (continuação e fim)

Diário de Moçambique. Volume 1. "do que te leva a ir..."

30 de Novembro de 2010. (3ªfeira)

No caminho, encontro o Tiaheri que me ajudou a comprar uma super lanterna e pilhas por 130 meticais, fui ao pão que se vende por 2,5, 3 e 5 meticais e ainda fui visitar a florista do Ibo: a Dona Manassa que amanhã me recebe às 7h00 para eu aprender como se faz aquelas flores secas, que são folhas de mangueira. Comprei-lhe um colar.

Tu não imaginas o trabalhão que aquilo dá, cozer as folhas na panela, esfregar com uma escova e meter no cloro (deve ser lixívia). São 2 ou 3 mulheres que fazem aquilo – estão a fazer um candeeiro muito giro. Era giro vender isto no nosso sítio!

Depois, ainda na companhia do rapaz fui ao tal Clube Desportivo do Ibo (CDI), o sítio do Sahid o famoso pasteleiro do bolo de noiva que nos acompanhou numa viagem de barco.

Recebeu-me tão contente. Diz que o bolo foi um sucesso e a festa muito bonita – eu só me lembro das formigas pretas, gordas e reluzentes que se passeavam tão contentes pela cobertura branca! O Sahid tem um pequeno restaurante no CDI, com ementa, bebidas e tão feliz mostrou-me ele o seu estaminé.

Sentei-me e bebi uma Sprite. Os miúdos jogavam à bola no campo lá fora e foi um momento bem passado. Apareceu o “Cristiano Ronaldo”, aquele puto que tu gostas muito, que veio logo dar-me o resultado do último jogo do Real Madrid.

Ainda conheci o Siufu, que trabalha na Educação e está ligado ao desporto, cultura e … não me lembro. O Ibo tem equipa de futebol, atletismo e xadrez! E entra em competições provinciais. Há uma dança típica do Ibo que se chama Tufu e há por aí um Festival de Cultura. Fiquei logo cheia de ideias!

Ainda de regresso a casa encontrei o Elder, conheci finalmente o Dimitri e ainda vi o Arnau e demos dois dedos de conversa.

Cheguei a casa tomei um bom banho e vim para aqui, onde estou a escrever-te esta carta – o Miti Miwiri.

Quis-te contar tudo, tudo desde o segundo em que nos separamos. Vou dormir sozinha naquela casa, é verdade, mas tu sabes que eu durmo sempre bem. E está lá o Sahid no jardim, assim não me sinto tão sozinha. Tenha esta certa dose de coragem, que eu não sei de onde vem. Penso sempre na minha Avó Nice, porque ela também seria o tipo de mulher que dormiria sozinha numa casa como aquela, numa Ilha como esta, muito senhora de si.

Só durmo mal por pensar onde estarás. Já sei que passaste a “Ponta do Diabo” – passaste um obstáculo, superaste-te e eu também  me sinto mais forte neste dia sozinha. Não é fácil estar sozinha naquela casa cheia de complicações e de bichos, mas senti que assim que abro a porta para rua, há sorrisos por todo o lado e por isso sinto-me bem aqui.

Espero que durmas bem, amanhã estarás exausto e terás uns dias para descansar por aqui. Espero que chegues bem, rezo por ti.

Parece que estamos a viver o tempo das nossas vidas, a tua aventura deve ser verdadeiramente maravilhosa e só me resta esperar-te e ouvir depois a tua “carta”.

Fica bem. Amo-te muito. Um beijo salgado, um abraço forte. Quero-te ao pé de mim…

(Na noite seguinte, às 3h da manhã ele voltou! Vinha ensopado, exausto, queimado pelo sol, magro. Como eu não sabia ligar o gerador e a bomba de água, tivemos de o fazer aquela hora. Agora já sei e ele fica cheio de orgulho de mim!)

**excertos do meu Diário Pessoal escrito durante a minha estadia em Moçambique, entre Julho de 2010 e Agosto de 2011

22.11.12

diários de moçambique** #4

Diário de Moçambique. Volume 1. "do que te leva a ir..."

30 de Novembro de 2010. (3ªfeira)
 

(Esta entrada no meu Diário merece uma explicação prévia para se entender o seu contexto. O meu marido partia nessa madrugada para uma viagem de barco Pemba - Ilha do Ibo que supostamente duraria 8 a 10 horas. Como nesse dia o vento mudou, demorou 52 horas. Eu fiquei quase duas noites a dormir sozinha no Ibo e ele num barco no meio do Índico... Ele finalmente chegou na segunda noite às 3 da manhã.)

Meu Amor,

Como vais tu dormir esta noite? Onde? Debaixo das estrelas, no meio do mar, do Oceano.

Passei todo, todo o dia a pensar em ti. E ainda agora, que o sol se foi e anoite chega, não paro de te imaginar. Vou-te contar como correu, depois de te ter deixado no Paquite às 2h30 da manhã.

Regressei de carro, pela cidade adormecida, até casa. Não se via vivalma nas ruas, tudo tão silencioso e sereno – sabes, reparei melhor que a cidade não é muito bonita. E com aquela iluminação rarefeita e o céu tão negro, Pemba parecia um adolescente com acne – desconcertada, feia, perdida, à espera de uma Mãe que lhe faça a cama.

Quando cheguei a casa, como suspeitava, demorei imenso tempo a adormecer – eras tu naquela escuridão, no meio da areia a dizer-me adeus, eram os galos que se apresentavam ao serviço às 3h30 da manhã, foi o vizinho que teve uma insónia e acordou às 4 da manhã e começou a fazer barulho. Devo ter adormecido pouco antes do despertador ter tocado às 5h30 da manhã. Custou-me muito ter saído da cama.

Achei melhor tomar um banho, mesmo que frio, e arrumei tudo como combinamos. Tomei o pequeno almoço e às 6h30 estava com o Sr. Mário dentro do carro a caminho de Tandanhangue.

Fizemos a viagem num silêncio cordial, conversamos um pouco, mas deixamos que cada um viaja-se dentro de si também.

O Pai do Zulficar combateu pelo exército português, na época colonial e levou com uma mina que lhe deu cabo de um joelho. Deitaram fogo às suas lojas durante a guerra civil e já fez essa viagem que estás a fazer dezenas de vezes.

Foi ele que me disse que não chegarias hoje, com este vento contra, só irás chegar ao Ibo amanhã.

Foi ele que me disse que o povo moçambicano “é um povo que sofre”. E é, meu amor. Tu fizeste aquela estrada tantas vezes como eu. Os miúdos tão pequenos a carregar água na cabeça, as mulheres logo de manhã a carregar lenha, molhos gigantes de lenha na cabeça, os velhos nas bicicletas com canas de bambu enormes – vê-se que aquilo é um esforço.

E é tão cedo, e faz tanto calor, e eles andam tanto a pé até à machamba e levam com o pó dos carros, a lama da chuva e as nuvens dos mosquitos. E os meninos, sempre descalços brincam com pedras e paus.

Parei na estrada para comprar uma saca de carvão como me tinhas dito. Cada saco é 70 meticais mas se levas o saco pagas vasilhame! Com o saco são 100 meticais. Comprei a duas mulheres e foi o Sr. Mário que falou com elas.
Metemos a tralha toda dentro do barco-chapa e ainda esperamos 1 hora dentro do barco por mais dois chapas atolhados de gente. E foi aquele filme do costume; mas acho que desta vez pior! Mais elaborado. No meio dos passageiros e da mercadoria havia duas motas, sacas de carvão, farinha, açúcar, caixas de cigarros, galinhas, um pudim dentro de um saco com um par de ténis, sacas de manga seca e mandioca, um saco de carne crua, com moscas agarradas, sacos e sacos, malas e crianças.

Partimos contra o vento, tal como tu, com imensa ondulação. Levei com muita água, o barco pesadíssimo e demoramos duas horas a chegar ao Ibo.

Sabes que por viajar sozinha, sinto muito mais a diferença de tratamento, do que quando ando contigo. Quase que eu só existo se o "patrão", tu, também estiveres presente. O homem do barco-chapa foi muito bruto comigo, não gostei da forma como me tratou, era mal educado e percebi que fazia de propósito. Disse “mezungo” imensas vezes, sendo eu a única branca no barco (havia lá outro, mas era homem e da Fundação Aga Kahn).

Duas horas depois chegámos, paguei-lhe 100 meticais e depois ele veio pedir-me mais 30 pelo saco de carvão – eu dei-lhe os 30 só para não o ver mais. Veio o Manobra ter comigo e ajudou-me a tirar tudo do barco, até a saca de carvão. E depois ainda veio o Tiaheri, que tem aquele ar muito doce, porque vê-se que é um menino bom. Assim os três fomos até nossa casa, onde cheguei com a sensação estranha de não te ter, como de costume, ao meu lado.

Abri todas as janelas! Em três dias da nossa ausência fez-se pó e havia vestígios de ratinhos com algum veneno comido. Limpei a cozinha e fiz o almoço. Cozi massa e fiz tomate com azeite, alho e orégãos. Pus a mesa e sentei-me sozinha no alpendre a almoçar sozinha, claro. Eu e a casa a olhar para o jardim. Resolvi limpar um pouco a casa depois arrumei os sacos e saí à procura de uma lanterna para o Sahid.

(Continua)

**excertos do meu Diário Pessoal escrito durante a minha estadia em Moçambique, entre Julho de 2010 e Agosto de 2011 

19.11.12

a parede azul


 
Já aqui disse que acompanho regularmente o meu Príncipe nas suas lides profissionais, diga-se, andar nas obras dos apartamentos que recupera no centro de Lisboa.
Já vos falei por isso das conchas que encontro no meio do cimento.
No outro dia, numa outra obra, deparei-me com esta parede (magnífica).
É uma simples parede, em tempos terá sido completamente azul, agora escavacada e suja, quase vítima de um bombardeamento. A luz era de final de dia, a luz fria do Outono que faz realçar a cor entre o caos de uma casa em obras profundas. 
Rapidamente chamou-me a atenção aquele cenário, quase como se fosse um "quadro".
Há riscos de lápis do meio, medidas e um quase número de telefone.
 
Senti-me aquele tontinho do filme American Beauty que filmava os sacos de plástico ao vento... pois para o que me havia de dar, então.
Mas a verdade é que gosto de ver estas paredes que se revelam por detrás de papel de parede antigo (muitas vezes em várias camadas), de tinta plástica foleira e estuque descascado.
Quando estive em Moçambique visitei sítios rochosos com quedas de água, inselbergs e paredes de rocha maravilhosas. Nesses passeios, tentava sempre parar e colar as minhas mãos à pedra, à parede. Gostava da sensação de sentir a rocha, a força brutal daquelas paredes milenares. Abria bem os dedos, espalmava bem as mãos e uns segundos bastavam.
 
Aqui em Lisboa, não há montanhas nem quedas de água.
Há paredes azuis que me lembram a alma dos lugares, neste caso, de uma casa. Daqui a poucos dias vai levar com tinta de água em cima, vai-se sumir numa nova cor, mas aquela parede, cheia de feridas, nasceu azul.
E eu gosto de pensar e sentir estas coisas, assim como o outro filmava os sacos de plástico.
É assim e pronto.  
 

15.11.12

O mancha


O Flash é um tv-dog, ou seja, faz-nos sempre companhia quando à noite, depois do jantar, o serão é passado a ver umas poucas horas de televisão.
Deita-se, dorme, ressona, sonha. Vai alternando entre estar aos meus pés ou aos pés do seu Alfa.
Quando ele se deita aos meus pés é isto que vejo: uma mancha negra. Só se percebe que ele está ali graças à risquinha branca do olho!
Verdade que já o pisamos umas quantas vezes, pois nunca sabemos qual o lado que ele escolhe e quando nos levantamos, às vezes, esquecemos de ter em atenção que ele pode estar "lá em baixo"!
 

10.11.12

Home made



 
Das (inúmeras) coisas boas do Outono, aquela que é sem dúvida a minha estação do ano, é o voltar-se para dentro de casa e desatar a fazer coisas, feitos esquilos a armazenar reservas para o Inverno.
 
Fizemos piri-piri, tempero mui apreciado pelo meu marido. Usamos malaguetas moçambicanas numa brutalidade de proporção de sete oitavos de malaguetas para o restante de azeite -  acho que só do calor na cozinha, o frasco explode!
 
Produzimos muesli. Sem leite em pó, sem açúcar, tudo feito com produtos integrais e naturais e depois junta-se tudo no forno e fica uma maravilha - eu pareço, mais uma vez, um esquilo a comer daquilo e a catar passas e ameixas, blargh!
 
E ainda fizemos doce de abóbora com nozes "grosseiramente partidas", como vem na receita da Bimby. A minha amiga M. deu-me uma abóbora lindíssima, enorme, completamente biológica e eu experimentei a receita pela primeira vez. O doce ficou óptimo mas esqueci-me de escrever nas etiquetas "com nozes". Um requeijão já foi!
 
P.S - apesar de gostar muito do Outono, já de há uns anos para cá que sofro horrivelmente de uma alergia que me ataca sem misericórdia! Espirro 30 vezes de manhã e nada me resta senão ensopar lenços de papel... É um horror, eu nunca tive isto, surgiu-me aos 30 e poucos anos, para agora, neste Outono em especial, me fazer acordar a meio da noite com o nariz a picar por dentro! Já li que a gravidez também dá este tipo de reacções... Acerca disso, e das minhas impressões de grávida, falarei em breve!


8.11.12

Mais uma!


aqui tenho partilhado a minha especial atenção para com as montras das pastelarias em Lisboa.
Decerto que um pouco por todo o nosso Portugal, há estes belos exemplares de vitrinismo calórico-boleiro, mas eu quando vejo uma montra destas páro no mesmo instante e marco o momento para sempre.
Quem me vê ou pensa que sou uma deslumbrada turista sul africana, americana ou qualquer coisa que não europeia(pois não encaixo nos padrões) ou então pensa que sou uma coisa estranha. Portuguesa e estranha a fotografar montras de pastelarias.
 

6.11.12

Conversas do Divã #7

 
"Em África uma coisa é verdade ao amanhecer e mentira pelo meio-dia e não devemos respeitá-la mais do que ao maravilhoso e perfeito lago bordejado de ervas que se vê além da planície salgada crestada pelo sol."
Ernest Hemingay, Verdade ao Amanhecer (True at First Light)
 
A Mentira.
 
Poderia a humanidade ser o que é hoje, se a mentira não existisse?
Reformulando a pergunta: se todos dissessemos a verdade e nada mais que a verdade, estaríamos no exacto ponto onde nos encontramos? Com as nossas famílias, nas nossas casas, nas nossas relações, nos nossos circuitos?
Aquilo que hoje tanto se advoga, em que tanto se empina o nariz com o "digo tudo o que penso" não será um claro sinal de falta de inteligência?
 
Não se deve dizer tudo o que se pensa.
Se o mundo dissesse tudo o que pensasse estávamos reduzidos ao homo sapiens-sapiens, a caçar javalis e a cozer caldos de nabos (mas com a companhia de um cão, é verdade).
A mentira fez-nos chegar onde estamos, a mentira como um mecanismo de defesa e não como um pecado mortal.
São ferramentas de sobrevivência, assim como um reflexo que nos protege além de proteger aqueles de quem mais gostamos.
Se pensarmos bem, só mentimos a quem gostamos, a quem não queremos saber se vai lamber sabão ou ter uma crise de diarreia, dizemos o que for e mais um par de botas.
A mentira é como um conservante daqueles que se metem em sumos 100% naturais, para durar mais, para ter mais tempo, para evoluir para um outro patamar.
 
Não sou a favor da mentira maldosa, traiçoeira, tinhosa. Essa é tóxica.
Falo antes da mentira que nos serve para garantir uma rede de pessoas e de relações que amamos e queremos preservar.
Dando um exemplo muito básico, quando no Natal recebemos um naperon de crochet feito pela nossa Avó, vamos dizer (e porque isto seria dizer o que se pensa): "Oh Avó, que coisa tão pirosa, é que sinceramente isto já não se usa, é feio, fora de tempo, mau mesmo."?
Aquela malta que assume orgulhosamente que diz tudo o que pensa são uns infelizes. Coitados. Não sabem o que dizem.
Inteligencia é saber estar à altura do momento, e se para isso tivermos de utilizar a mentira então ela que saia do buraco. Que fiquemos calados, que façamos um sorriso, que digamos uma mentira.
Saber (de vez em quando) calar o pensamento, guardá-lo para si, dentro de si, não é mentir.
É precisamente o contrário, é ser fiel a si e aos outros.
 
E em jeito de final, a minha bisavó que se casou com um senhor de nacionalidade britânica e que educou os seus três filhos em colégios ingleses (incluindo a minha Avó paterna), dizia:
"Ask no questions, hear no lies."
 
Fica a deixa.  
 

3.11.12

 
Eu gostava de ter vivido noutra época.
Nesta, em que o campo era tão sofisticado como a cidade, em que ir à caça era um ritual elementar, em que se faziam pic nics com toalhas de linho e sanduíches de pepino. Chamem-me snob, o que quiserem. Eu gosto dos ingleses e gosto especialmente deles nesta época.
 
 
 
 
 
Esta série (Downton Abbey) é mesmo uma delícia!
 

2.11.12

Parabéns meu Amigo!

 
O Flash faz hoje 4 anos, o que na escala humana equivale a 32! Está quase da minha idade e muito ligeiramente se vai notando a sua personalidade a ficar mais tranquila e menos agitada. Ou seja, está a crescer! (finalmente)
Não deixa de ser o "relações públicas" do Bairro, aquele que se dá bem com todos, para quem está sempre tudo numa boa, o que é preciso é haver caixotes do lixo para cheirar e uns rabos de cabela também. Acorda todos os dias bem disposto e está sempre pronto para um passeio!
Quando o Flash fez 1 ano, em 2009, eu fiz-lhe uma festa de anos (foto em cima)! Mesmo.
Como todos os dias, ao final da tarde, participavamos no encontro de cães e respectivos donos no Parque do Arco do Cego (em Lisboa, junto ao Técnico), pensei em aproveitar esse ajuntamento de cães e fazer uma festa! Assim, avisei os donos com uns dias de antecedência para que nesse dia não faltassem (acho que era uma 5ªfeira).
Fiz um cartaz, enchi balões, comprei biscoitos e toppings de vários sabores e ainda levei chocolatinhos para os donos.
Nunca esperei conseguir uma reacção tão espectacular: eram perto de 20 cães e os donos trouxeram presentes para o Flash: bolas, cordas, biscoitos e até molduras com fotografias do Flash com os amigos. E ele esteve toda a tarde, e início de noite, com uma atitude hiper feliz, parecia que sabia que fazia anos e aquela era a sua festa.
Foi de tal maneira, que houve pessoas a vir perguntar-me se eu organizava este tipo de festas para outras pessoas/cães e ainda outros donos que ficaram sentidos por não terem sido convidados (que foi por não os ter visto na semana anterior)!
A moda pegou de tal maneira, que a partir dessa data, todos os outros cães começaram a ter festa de anos. Mas nenhuma teve o sucesso da festa do Flash!
Até o meu Príncipe, senhor muito discreto nas suas acções, e que não gosta nada destas manifestações, rendeu-se às evidências e quando chegou ao Parque e viu aquela animação não queria acreditar que fosse a festa do seu próprio cão!
Desta vez não há festa, há o frango inteiro (sem ossos) com arroz, como já tem vindo a ser tradição.
Mas fica uma recordação de uma parte desse grupo de amigos de quarto patas, que durante 2 anos foram a companhia diária do Flash (entretanto fomos para Moçambique e mudámos de casa). Temos imensas saudades deles, e quando às vezes conseguimos lá voltar, o Flash, e os outros, adoram o reencontro e tal como os grandes amigos, quando voltam a estar juntos é como se o tempo não tivesse passado!