29.4.12

no dia mundial da dança



Ainda fui a tempo de ver este DOC na RTP2.
O Irlan passou do Complexo do Alemão, a favela mais mediática por todas as piores razões, no Rio de Janeiro, para o American Ballet Theatre em Nova Iorque.
Por duas razões: 1. adora dançar, é qualquer coisa que não consegue parar de fazer 2. teve uns Pais que na idade certa e na altura certa acreditaram nele e no seu talento.
Cada vez mais acredito que é na conjugação destas duas coisas que surgem os verdadeiros talentos, quando o dom natural de qualquer coisa muito especial e diferente, já lá existe dentro.
Amanhã, quase 30 anos depois, lá vou eu a caminho de mais uma aula de Ballet.
Nunca deixei de adorar dançar Ballet, os meus Pais sempre acreditaram nisso, mas faltou-me o que falta a 98% da população: um talento genuíno.
Os 2% estão reservados a muito poucos.
O Irlan é sem dúvida um deles e calhou nascer numa Favela.

o Xico foi ao Ibo

agora tenho saudades do ibo, como quem tem saudades de um túmulo para o qual se sabe estar talhado.
é essa a liberdade e o susto de áfrica. a hipótese de se ser esquecido, a possibilidade inerente do desaparecimento. uma parte de mim teme-a, outra parte sente-a como algo que sempre significará saudade. eu sei, é um cliché, um horrível cliché português, mas não é isso que pretendo, apenas quero dizer que há um rombo que agora habita em mim. nele posso ver o capim deitando-se no horizonte dos inselbergs, ou os trilhos de matope por entre o mangal da baixa-maré. para lá disso que existe? só a memória das cidades. e de que lhes serve o betão, o cimento, o tijolo, o alcatrão e o ferro? onde eu estive, todas as cidades são ténues.

Assim como uma carraça usa o corpo de um cão para sobreviver, eu uso as palavras do Xico que me tranquilizam. Eu sabia que ele iria escrever isto, só esperava pela oportunidade. Foi assim que ele me disse: vou a Moçambique, que eu lhe respondi: tens de ir ao Ibo, faças o que fizeres.
Não sei que fenómeno se pode chamar usar desta forma um amigo, uma pessoa com quem eu escrevi lado a lado durante anos, uma pessoa que eu sabia perfeitamente o que iria sentir lá, naquele mesmo sítio onde vivi, onde brinquei com a realidade, com o mundo e quase com a vida.
O Xico foi lá e já voltou a Maputo. Há dois dias escreveu este email. E eu assim adormeço a ferida, que não sei por isso estar mais em crosta ou mais em sangue. É o cliché de África que dói como dores fantasmas, de membros que já não são nossos. E dizem que é assim até ao resto da vida. O danado do vírus africano que o Xico resume a duas linhas, ou não fosse ele um genuíno arquitecto de palavras:

faz medo a imensidão deste lugar, mas também faz o fascínio dentro do homem. nunca tivera tanta noção da pequenez, da fragilidade, da insignificância do ser na terra.


Nota: o Xico é arquitecto e também escritor, tem um Blogue http://cenascoisasetal.blogspot.pt/ que tem estado desde o princípio deste Bolo-de-Arroz, na coluna do lado esquerdo.

26.4.12

Mulher aos 35 - Parte II


Uma mulher aos 35 quando fica um fim-de-semana sozinha em casa, rega plantas, faz máquinas de roupa, almoça em casa e convida umas amigas, pinta as unhas dos pés, lê 2 horas à noite na cama, depila-se, arruma a gaveta das camisolas, faz uma revisão no armário dos casacos.
(isto quando, claro, não existem crianças)
Um homem aos 35 quando fica sozinho em casa é como se fosse um homem aos 25 sozinho em casa, arrisco mesmo dizê-lo, é como se fosse um homem aos 15 sozinho em casa.
Isto diz qualquer coisa.
A pressão de saber se estamos à altura, se somos capazes.
Porque quando chegamos a casa a preocupação é saber se há pão e leite para o pequeno-almoço e se está a chover porque a roupa está na corda e a engomadoria esqueceu-se de passar lá em casa. E há ainda as festas de anos dos amigos dos filhos, as festas sem ser de anos e as festas da escola.
Aos 35 as mulheres desdobram-se entre trabalho, casa, escola e crianças, aulas de ballet, natação, escuteiros, máscaras de carnaval, trabalhos de casa, doenças, cenas de pancada com os irmãos, birras no supermercado, alergias e reacções a vacinas. E ainda ter as peles das unhas arranjadas, andar de saltos sem estarem carcomidos pela calçada e o cabelo impecavelmente lavado. 

Claro que os homens ajudam, claro que há maridos estupendos, e eu conheço alguns homens fantásticos que fazem tudo em casa, dão os banhos, arrumam a máquina da loiça, estudam com os miúdos, vão com eles às eternas festas de anos, dão o raspanete e com a Mulher/Mãe providenciam *uma educação calma e consistente aos filhos (isto é o que o Cesar Millan diz ser necessário para se educar devidamente um cachorro com 3 meses, cuja fórmula*, garantem-me as minhas amigas, é exactamente a mesma).

Mas uma mulher aos 35 é um mundo maravilhoso que se vislumbra, que para os homens é apenas a continuação daquilo que sempre foram. As relações são completamente diferentes, assumindo o princípio de que já se viveu algum tempo para se ter aprendido a ler nas entrelinhas, nos silêncios, nos olhares. É verdade que já não nos "atiramos de cabeça", pensa-se muito mais antes de responder. Observa-se muito mais. E tudo isto acontece porque se tem precisamente mais 10 anos do que aos 25. E se pensarmos numa criança aos 0 e aos 10 percebemos que esses anos são uma enorme diferença!
O medo de falhar, o medo da rejeição, o medo de deixar de amar, o medo de perder a paixão, o medo de uma data de merdas que nunca tinham passado pela cabeça. Uma perspectiva de "meio da vida", um balanço ao jeito feminino em que sempre se coloca num lugar de "foi bom, mas podia ser melhor". Aos 35 a mulher assume-se eternamente sonhadora, acredita piamente em Príncipes, em contos de fadas, em cavaleiros andantes. A busca da perfeição, a incessante busca da perfeição é aos 35 que começa. Activa-se uma parte do cérebro que nos faz correr atrás dos sonhos e quando isso acontece é uma espécie de "viagem sem retorno".
O que é bom.
Nunca pensei no que poderia ser aos 35 e por isso deixo-me ficar à escuta e em silêncio acerca dos próximos 35 anos.
A única coisa que me aflige é que aos 70 eu tenha este mesmo cérebro dos 35.

24.4.12

A Odisseia



Julgo ter um alter-ego algures entre uma investigadora de animais selvagens que vive num lugar da África oriental e uma tolstoieska rica,que vive em São Petersburgo, no princípio do século 20.
Entre uma coisa e outra acontece este fenómeno.
Toda a gente tem o seu lado menos humano.
Este é o meu lado totalmente "animal": adoro jóias. Ou. Adoro a Cartier. Ou. Adoro coisas lindas de morrer que servem só para usar e pronto. Função curta de vida, extensão longa de efeitos colaterais.
O Homero escreveu a Odisseia no século VIII a.c e a Cartier faz joias sublimes desde 1847.
Eu salivo com este anúncio ao mesmo tempo que a) queria comprar aquilo tudo que aparece e b) queria ter um leopardo igual em minha casa para dar festinhas.

Daqui a uns dias tenho os dois gatos da Elisa para tratar.

Cada um é para aquilo que nasce.

Rita, a catsitter

Ainda em jeito de reforço da teoria acerca de andar a colher o que semeamos, espera-me um autêntico desafio para o final desta semana!
A Elisa, minha vizinha do 5º andar, com quem eu vou para as aulas de Contemporâneo, vive com o namorado e mais dois gatos: o Tabu e o Ulisses. O primeiro é completamente preto de olhos verdes e o segundo é um tigre autêntico em ponto pequeno.
Ora, vai daí que a Elisa e o namorado vão passar uma semana fora e eu ficarei encarregue de tratar dos pequenos, o que significa ir lá acima uma vez por dia dar-lhes comida, água e mudar a areia.
Como animal lover que sou, aceitei imediatamente o desafio, ou não andasse eu a fotografar todos os gatos que me passam pela rua. Tanto fotografei que me calharam dois na rifa.
Tudo isto se passa no 5º andar, sendo que no 3º temos o Dr. Flash mantido na mais pura ignorância. Se bem que ele vai topar rapidamente, de certeza.
Prometo regressar com imagens e provas reais deste desafio, sendo que, obviamente, não tenho qualquer apoio do meu marido que por ele atirava com as tigelas da comida lá para dentro e estava feito.
Tudo isto é muito bonito, mas eu, que nunca me deixo ficar, já combinei devidamente com a Elisa que, quando voltar, vai-me fazer uns Gnocchi ou não fosse ela uma italiana de gema!
E com jeitinho ainda lhe peço um tiramisú.


22.4.12

Conversas do Divã #3

O Sentido da Vida

Não sei se o mesmo se passa convosco.
Sinto que é um fenómeno que me tem vindo a acontecer de maneira muito consistente e suave, não é nada de brusco ou  violento.
São coisas que vão surgindo na minha vida, pessoas que vou conhecendo, situações que me sucedem por precisamente eu ter muito pensado, lido, falado, visto ou desejado sobre elas.
O que eu quero dizer é o seguinte, o Borda d'Água tem razão quando diz que: "quem semeia ventos, colhe tempestades".
Tenho cada vez mais a forte convicção de que colhemos o que semeamos, de que sempre um dia na vida vemos o resultado daquilo que cultivamos de forma congruente.
E hoje, em jeito de dia mundial da terra, admito que sempre fui uma adepta da sementeira!

Tudo o que formos fazendo, construindo, pesssoas que vamos conhecendo, momentos passados, projectos em que nos envolvemos, conversas que travamos, frases que trocamos, tudo. Tudo isso volta à nossa vida, em jeito de um eterno retorno. E é isso que me faz experimentar fenómenos maravilhosos e sentir o verdadeiro significado da expressão: o sentido da vida.
Prova mais factual que vos posso dar: tanto tenho eu pensado sobre o "sentido da vida", o maior e mais actual leitmotiv da nossa sociedade ocidental, que no outro dia desafiaram-me a participar numa colectânea de contos  para edição e comercialização, cujo mote é esse mesmo que estão a pensar.
Há 6 anos comecei a largar as sementes da escrita. Pé ante pé, ousei arriscar nesse mundo!
Hasteei a bandeira do partido: "Quero ser escritora" quando voltei de Moçambique, há 1 ano.
Sementes e mais sementes fui largando, tirando cursos, escrevendo contos, participando em concursos. Agora vejo o meu nome e por baixo a designação: escritora.
Estremeço!
Mas afinal o que é preciso para se ser escritora?
Durante a viagem que fiz por África do Sul e também nas viagens por Moçambique, preenchia as fichas dos alojamentos, em que nos pedem o nome e a morada e algumas vezes a profissão, com a palavra: writter/ escritora.
Escrevi o sonho em vários sítios.
Fui deitando mais sementes.
Nada disto é ficção científica, tudo faz parte de um caminho e de um processo. É desse processo que resulta o ser "escritor", "pintor", "músico", "mecânico de automóveis".
Tem de haver um percurso com obstáculos, paragens, recuos e avanços.
É desse caminho que se faz o resultado que se procura.
Por precisamente eu ter feito tudo o que fiz (os vários cursos escrita criativa, criar este Blogue, publicar contos, participar em concursos...) e ainda ter hasteado a minha bandeira, sem o medo do julgamento alheio, cheguei agora a esta "primeira colheita". 
Alcancei um ponto. O caminho não parece terminar.
Sei que esse caminho significa desconforto, dor. As zonas de conforto não me permitem avançar. Mas eu não tenho medo.
Retomo o caminho, de saco de sementes numa mão, regador na outra e um sorriso na minha alma.
E é quando a alma pensa que existe e o caminho sabe-se desconfortável que  mais queremos alcançar aquilo que procuramos desde que nascemos, sem medo: o sentido da vida.

"Também eu estou na mesma situação que tu, meu amigo. Não vou para lado nenhum. Estou apenas a caminho. Sou um peregrino."
Siddharta
Herman Hesse



18.4.12

Ser uma parte do rebanho...

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes,
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva toda.


Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos I
Estou feita uma convertida.
Descobrir estes versos é para mim uma maneira de não me sentir tão sozinha. Não sou poeta, não sou escritora. Sou só uma pessoa que se sente sozinha. Que sempre escreveu por se sentir sozinha.
Que teve medo de soltar as amarras de um barco preso ao Porto, e de o ver partir. Mas que agora, e cada vez mais, sente que é tempo do barco se ir. E se soltarem as cordas salgadas e velhas. Como se tudo fosse salgado e velho. E é esta estranheza no meu sentir que me faz uma convertida.

Pensar incomoda como andar à chuva.
(...)
Toda a paz da Natureza sem gente.
São versos escritos com palavras pobres, sem adjectivos, como se fosse uma forma crua de escrever. Assim como é uma maneira crua de se viver.
Numa poesia escrita há 100 anos, está a verdade que afinal eu farejava desde que nasci.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe

Afinal a tristeza é quando a alma já pensa que existe.
E o alívio que isto me dá.
A minha alma existe, ela pensa, assim ela é triste. Não podia ser de outra maneira.
As cordas velhas e salgadas largam-me. E eu sigo sem o medo.  





17.4.12

Mulher aos 35 - Parte I

Tenho cá para mim que quando se trata de mulherio a gerir um Blog, a tendência em 90% dos casos é para se emergir num dos seguintes e temas:

- Roupas, Sapatos & Cia.
- Receitas & Food Styling
- Crianças & Crianças

Ora, gaja que é gaja tem de falar de uma destas três coisas. Ou é do verniz e da mala, do trapo e do sapato, ou é do menino(a) que caga, mija e arrota ou finalmente é para mostrar fotos de uma tosta mista, em que a qualidade da imagem é tão boa, que em dois segundos estamos a salivar para cima do teclado.
É verdade que no meio disso há um género híbrido, que fala de tudo um pouco, ao estilo do fait-divers. E há bons exemplos de “blogadas” no feminino, tipo a Rititi, e é tudo. Não estou a ver mais nenhum.
Ao contrário da nova tendência mundial, eu aqui, não me estou a especializar. Não procuro um nicho, mas acho que, por acaso, encontrei um: ser mulher aos 35.

Gostaria de me especializar naquela que me parece ser a uma típica mid-life crisis. (e gosto tanta desta música dos Faith no More)
A mim faltam-me os filhos para falar com moral sobre o assunto, mas tanto convivo eu com as minhas amigas, na sua maioria Mães de crianças entre os 8 anos e os 3 meses, que acabo por conhecer as suas inquietações do que é ser Mulher aos 35.

É que há coisas que devem surgir precisamente aos 35 e não aos 25.
Porque aos 35 é provável que o nosso marido/companheiro, o que for, nos deixe por uma de 25. E isso é lixado. Aos 35 corremos que nem umas loucas na passadeira, na rua, no ginásio e a balança não reage, quase que a atiramos de um 6º andar para a porra dos ponteiros se evaporarem no espaço. Aos 35 é provável que já tenhamos sido despedidas, dispensadas, postas de lado, encostadas à parede, numa empresa onde já podíamos estar a trabalhar há 6, 8 ou mesmo 10 anos.
Porque uma mulher aos 35 é diferente de um homem de 35, que essencialmente olha para miúdas de 20 anos e pergunta-nos a idade que elas poderão ter, só porque lhes parece qualquer coisa de diferente. Porque uma mulher aos 35 não tem vontade de pôr saltos altos, de usar maquilhagem durante o dia, de usar qualquer outra coisa sem ser cuecas brancas de algodão e meias grossas para dormir.
Porque uma mulher aos 35 tem a cabeça cheia de pontos de interrogação que aos 25 nunca alguma vez existiram: será que sou boa Mãe? Mulher? Amante? Profissional?
Porque uma mulher aos 35 tem medo de, pela primeira vez na vida, de não ser desejada. Porque uma mulher aos 35 tem preocupações genuínas como seja lavar decentemente a placa de vitrocerâmica, comprando para isso produtos específicos para o efeito, ou então a gaveta da fruta e dos legumes do frigorífico. Questões como se os filhos encontram vaga nos cestos da cantina da Escola, são o centro do Universo de uma mulher aos 35.
A tenacidade da pele não é a mesma, existem efectivamente dores nas costas, torcicolos, fica-se arrasada depois de um treino, anda-se 3 dias com o corpo dorido.
Engana-se quem pense que eu acho que caminhamos para um poço escuro e lamacento. Eu adoro ir a caminho dos 35 (faço daqui a 4 meses).
Em nenhuma outra altura da minha vida me senti tão conhecedora de mim própria, tão tranquila, tão contempladora do mundo e da vida como uma passagem, um caminho ao estilo do Siddhartha, em que as opções são nossas. Escolher dizer “sim” e “não”, saber ouvir e principalmente saber manter as expectativas, encontrando esse meio ponto entre o máximo e o mínimo, são tudo coisas que só se conseguem aos 35.
Lá está, coisas que nunca poderiam ser aos 25.
Mas os 35 caminham para o passo seguinte, os 40. E, porra! A coisa não é a mesma. Mesmo.

16.4.12

poeta (escritor)

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

"O Guardador de Rebanhos", Alberto Caeiro,  1911 -1912

13.4.12

O meu mestre voltou!

E com ele, as suas Crónicas...
A não perder!

12.4.12

Era uma vez...




Aconteceu por estes dias em Lisboa o 1º Festival de Storytelling (True Tales Festival), um fenómeno ultra-anichado em Portugal mas já muito rodado no mundo anglosaxónico. Em Inglaterra há "doutorados" nestas andanças das histórias e dos contadores de histórias.
Foram dois dias apenas dedicados ao contar de histórias. Na noite em que assisti, a plateia do Tivoli estava cheia!

A organização comentava: como será possível haver tanta gente interessada em ouvir histórias dos outros? (tinham que ser verdadeiras e contadas no máximo em 10 minutos). Histórias tão simples como uma mudança de casa, uma operação ao coração ou até a primeira vez em que encontramos o nosso ídolo.

A verdade é que foram figuras públicas a contá-las, se fosse o Zé da Esquina duvido que a plateia estivesse cheia. Mas mesmo assim é preciso saber contar histórias, porque a) temos de saber rir de nós próprios, b) temos de alguma maneira ter as contas feitas com a vida e não andar a aqui atrás de alguma remissão e c) ter sabedoria e algum humor, o que significa ser inteligente.
Todas as histórias que ouvi foram maravilhosa, mas as do valter hugo mãe foram para mim muito boas. Talvez por ser escritor, esperava uma pessoa mais introvertida, tímida e monocórdica. Mas a verdade é que levou muita gente às lágrimas, de tanto rir.

Há regras para se contar histórias? Parece que afinal não.
As histórias "dos outros" interessam? Parece que afinal sim.

O actor Miguel Guilherme, anfitrião do "evento", falou aquilo que para mim conclui tudo isto, as histórias são aquilo que dão sentido à vida, daquilo que vivemos, que somos. Muito disso tem-se vindo a perder, pela força dos dias que correm e passam e por uma vida, e penso que para a maioria das pessoas, não tem sentido nenhum. Parar e ouvir uma história, uma vida de outro alguém é a coisa mais básica do mundo, mas são essas coisinhas de nada que se tornam as mais belas.

Sem saber, eu sempre fui uma apaixonada pelo storytelling, pela vida dos outros, pelas histórias. Acredito que é esse caminho de histórias que nos leva a ser o que somos hoje, não poderia ser de outra maneira, foi porque vivemos situações, momentos. E é minha curiosidade danada que me leva atrás dos "personagens" que fantasio na pessoa que vai à minha frente na escada do metro.
Gosto de escrever porque gosto de contar histórias e quando escrevo tenho a sorte de viver em muitos universos distintos.

E porque a vida é tantas e mais vezes melhor do que a ficção, superando-a, o meu desejo de conciliar a paixão da escrita com as histórias está a concretizar-se num fantástico projecto -  numa história escrita a três mãos!

To be continued...

11.4.12

quem tem Mãe tem tudo.


já diz o Povo.
ela oferece-me flores, muitas vezes, assim sem razão nenhuma. só porque sim.
quem tem Mãe, tem tudo.
(sempre disse o meu Pai!)

10.4.12

Gatos nas cadeiras a meio da calçada, afinal, também vai bem!


Em certa tarde Primaveril, percorrendo as ruas do nosso Bairro, deparo-me com esta bela foto!
O gato estava a dormir ferrado e só acordou porque "sentiu" o Flash, que rapidamente o deixou em paz a continuar a sua sesta.

9.4.12

Fatias Sevilhanas






Já há muito que não visitava a Andalucía e a sua cidade capital, Sevilha.
Talvez já me tivesse esquecido da agitação, dos folhos às bolinhas, dos touros e do flamenco, das tapas, das cañas, do "Olé!" - mas logo que me imergi naquelas ruas estreitas e nos restaurantes típicos das tapas e do taca-taca-taca-taca-taca-taca (a conversa non-stop), lembrei-me de que Sevilha é mesmo assim!
É uma lolita de vestido às bolinhas, de abanico na mão e tem sempre assunto para falar. Como é possível eles terem sempre assunto para falar?

Sevilha cheirava a laranjas, o perfume era encantador. As niñas e os niños sempre impecáveis nos seus vestidos e laçarotes no cabelo, calções e sapatinhos de presilha, as senhoras muito bem maquilhadas e os caballeros a deixar um rasto de Aqua Brava à passagem.
Fatias finas de presunto, águas de colónia ao litro, castanholas e palmas, saltos altos e leques, touros negros e baton vermelho.

Tudo se estava a compor para o início da Semana Santa, confirmando-se a dedicação daquela gente aos 7 dias de procissão e da passagem dos andores levados aos ombros de 48 homens. Pela cidade havia 36 mil cadeiras, além de colchas cor de vinho e flores frescas.

Terminada a Semana Santa começa a Feira de Sevilha, onde fui há uns anos para que os meus olhos acreditassem naquela tradição tão especial: os fatos das sevilhanas são únicos, as danças, o ritual das corridas de touros, o taca-taca-taca-taca-taca-taca.

Desta vez conheci uma outra Sevilha: urbana, artística e músical.
É certo que apanhamos chuva, mas valeu a pena o regresso.
Olé!

7.4.12

Páscoa Feliz!


Ora por aqui, respira-se bem esta quadra.

Ontem já marchou um pacotinho de amêndoas tipo Milão, é verdade que partilhado entre Papai e Mamãe, mas eu afinfei bem na amêndoa e confirma-se: (as do pacote transparente) são as MELHORES amêndoas do universo! (já que agora há tanta coisa com "A Tarte", "O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo", "O Melhor Pão de Ló", também podia haver uma "A Amêndoa").

Depois, pelas 21h00, tivemos a Procissão da Via Sacra a passar mesmo à nossa porta, tal como há 2 anos atrás, eu relatei aqui no Blog.

Amanhã sei que me esperam coelhos como estes acima indicados, produzidos à base de chocolate, e mais uma amêndoas tipo Milão e mais tudo o que me aparecer à frente: é a desgraça, desgraça será!

Na 2ªfeira volta tudo ao normal, nódoas negras nas pernas e corridas à beira Tejo.

Até lá, boas amêndoas!

5.4.12

Boas notícias

Hoje, dia 5 de Abril, um dia em cheio.

As boas notícias são para se partilhar, para se aumentar o volume das mesmas.
O meu conto, "Os Segredos do Arco Íris", foi escolhido juntamente com o de Gonçalo M. Tavares e o de Ana Luísa Amaral, no Livro de contos "Princesas, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas", a estar no site CATA LIVROS disponível on-line para as crianças, e Pais, folhearem e ouvirem a história!
Dos seis contos apenas escolheram três, e eu, uma novata nestas andanças da escrita, fui uma das seleccionadas. Para mim é um grande motivo de orgulho e por isso estou muito feliz!
(a ilustração do Igor é da Estela Costa)

Três mulheres, três cadernos e três copos de vinho (que ficaram cheios!).
Um projecto que tem tudo aquilo que eu sempre quis e sonhei fazer: juntar a escrita com histórias de vida, lugares, pessoas e criatividade em roda livre!
Uma simples ideia de contar histórias, mas com muita imaginação, originalidade e trabalho.
Isto tudo a passar-se bem no coração de Lisboa. Haverá coisa melhor?


Espero agora que, quando for a passear o Flash, não me caia em cima uma floreira com sardinheiras ou tropece na calçada e parta um pé.
Começo a desconfiar que a minha vida é um género de Caracórum paquistanês, um lugar na Ásia onde estão concentradas as 60 montanhas mais altas do mundo.
Quando me sinto no "topo da montanha", há que haver alguma maneira de a descer e voltar a ter de subir a próxima.... (isto é resultado de andar a ler um Livro maravilhoso - mais um que foi emprestado - chamado "Três Chávenas de Chá").
Por enquanto saboreio o "pico", sem grandes preocupações.

3.4.12

Hoje, aqui...



Estão a dar gelados até às 21:00 e cheira a relvinha fresca!
(é de aproveitar minha gente, coisas destas não é todos os dias)

2.4.12

Das coisinhas da vida #6


Dos vizinhos.



Certamente que este tema já terá resultado em várias teses de mestrado e até, arrisco dizê-lo, de doutoramentos honoris causa, dado a riqueza e a densidade da sua natureza.

Os vizinhos não se escolhem.


Venha daí a primeira pessoa que diga que nunca teve “assuntos” com vizinhos. É tão inevitável a qualquer ser humano como trocar a dentição de leite para definitiva. Nem mesmo vivendo numa Ilha a meio caminho do fim do mundo, eu me livrei deles. Neste caso até eram cabras que me acordavam às 4h30 da manhã a bater com os cascos no alpendre da casa, para onde dava a janela do meu quarto. 


Moro num Bairro típico de Lisboa, onde a vizinhança é um assunto sério. As varandas das casas, todas de traça antiga, são os lugares cativos das que eu considero estarem no topo da arte em "vizinhar". Têm os corrimões das varandas acolchoados, em alguns casos com direito a banco, e passam as suas determinadas horas a dar conta dos movimentos na rua. Sendo uma zona de pouca circulação de carros, é um arregalo para a vista dar conta de quem passa, de quem sai, de quem entra, de quem estacionou mal o carro, de quem não abriu a porta ao carteiro.


Pode parecer um sufoco para algumas pessoas, mas eu divirto-me com estes vizinhos que têm conversas autênticas entre varandas, uns com os outros. Ou seja, dá-me ideia que falarem ao nível do rés-do-chão, com os pés na calçada, é coisa que nunca acontece. A relação é de varanda para varanda, cada um no seu poiso. Há também homens nestas lides, não se pense que isto é coisa só dada ao mulherio. Tenho um vizinho que está permanentemente à varanda em pijama e dá-se muito à conversa com a vizinha da frente. Na varanda, nunca o vi sem ser em pijama. No dia em que o vi a passar na rua, devidamente vestido, não o reconheci.


Houve um dia em que tendo ficado fechada no pátio (morava num rés-do-chão), com um muro a toda a volta, não tive outra hipótese senão gritar por ajuda. Foi a vizinha do prédio do lado que me ouviu. Estava a chover. Ela atirou-me um chapéu de chuva lá de cima e ligou para o meu marido, que me veio socorrer.


Há uma outra vizinha que observa as brincadeiras do filho pela varanda de um 2ºandar, a ver se ele faz asneiras enquanto dá toques na bola. O puto não deve ter mais do que 8 anos. Chama-se José Pedro, mas ela lá de cima grita bem alto: “Oh  Ramalho!!”.
Quando em casa ouvimos isto, já sabemos que o Ramalho está a fazer porcaria. O puto brinca com os filhos dos outros vizinhos e eu gosto de os ver  "soltos", tal como eu brincava junto à casa dos meus Pais. Não havia carros, não se conheciam pedófilos (já os havia certamente), não havia horários e actividades extras. O “extra” era ir para a rua. Lembro-me de tentar acabar a correr os trabalhos de casa, para “poder ir para a rua”.
Era a minha melhor recompensa.

Vivemos tão próximos uns dos outros, mas dentro dos nossos "caixotinhos" fechados à chave estão vidas tão distantes e distintas. A aproximação deveria ser natural, mas quase sempre é complicada e muitas vezes conflituosa. O fenómeno da vizinhança até se dá com os cães e gatos. É universal.
São grandes questões. É isso e perceber se o Benfica consegue ou não este ano ser Campeão.