29.10.10

Chuva e Trovoada

Recomeçamos de novo.
Saída de Lisboa ao final do dia, chegada a Maputo pelas 6 da manhã. Moçambique, agora.
África, aqui.
É uma experiência que se estranha, mas depois entranha-se. Vou-me habituando às pessoas, aos sorrisos tímidos, às crianças pequenas de mais para andarem na rua a vender amendoim torrado, ao trânsito incontrolável, às crianças pequenas de mais para dormirem na rua, aos pensamentos perdidos no banco de trás de um táxi que percorre a cidade, solto, sem rumo, às crianças sem rumo, pequenas de mais para tudo o que são.

Agora começamos de novo.

Primeiro começamos pela busca de um carro. Parece uma missão cumprida. Veremos.
Sim, sim meus caros leitores. Iremos repetir essa aventura de escalar Moçambique até Pemba de carro. Mais 3.000 km de uma viagem fantástica por este País cheio de vida e de potencial.
Além dos 8.391 km que nos separam de Lisboa. É tanto, mas quando bebemos café Delta ou água do Caramulo, quando pedimos uma meia de leite ou um bacalhau à braz, parece que tudo se junta. Falamos português tão longe, que quase, quase parece a nossa casa.

Mas fica a faltar aquela última coisa - que não tem marca, sabor ou embalagem. É o afecto dos amigos e da família - eu achava que havia de me habituar a isso, pensei mesmo que ao fim destes primeiros tempos fosse criando uma "camada" que protege os sentimentos dos ataques de saudades. Mas não. Por enquanto, não.

Resta-me a escrita, onde sinto que a partilha compensa a falta do que ainda está tão longe de acontecer.
Então passo ao registo.

Mais uns dias por Maputo, é a terceira vez que estou nesta cidade.
Não me consigo libertar da ideia de uma decadência que co-habita entre as pessoas, os passeios esburacados, a venda de flores e plantas nas esquinas, os hoteis esquecidos no tempo, de chão de tacos encerados e candeeiros de um dourado gasto e amolgado (onde agora estou, mas irei relatar essa experiência mais à frente), os casamentos na marginal suja, as sestas encostadas às magnólias, as vendas de fruta e legumes no chão, de peluches de todos os tamanhos e feitios, de fichas triplas e extensões, dvd's piratas, os carros cansados e os tuc-tuc que são libelinhas apressadas, os semáforos sem cor, a chuva sem chapéus e sem galochas.

Esta decadência deixa um sabor suave no ar. Não é o sentimento de destruição, de qualquer coisa deixada ao abandono, que alguém se foi embora e nunca mais voltou - é um sentimento cheio de força, cheio de vida, carregado de sentido. Que tudo faz sentido. Tanto sentido.

É uma melancolia imensa que vem com esta decadência, que me arrasta e me faz sentir tanta vontade, tanta, que algumas pessoas aqui estejam comigo. E eu absorvo tudo isto, como se tivesse um satélite que entregasse tudo isto directamente no coração de cada uma dessas pessoas. Porque tenho sempre esta vontade de partilhar tudo - como se não fosse digna de estar a viver tanta coisa, como se não merecesse este momento.
Porque a melancolia me comove, como hoje quando ouvi um canto de mulheres quando os noivos saiam da Igreja, como ontem quando começou a chover e a trovoada me fez sentir tão pequenina. A chuva traz tanta coisa com ela. Trouxe-me memórias e a melancolia.

Sempre gostei da chuva, acho eu.

22.10.10

there's no place like...

comer gelado. e um bolo de arroz. pôr os pés na areia do guincho. correr junto ao mar. cheirar o outono. jantar à luz das velas com os pais. jantar com os melhores amigos. esquecer o tempo. ter frio na cama. chorar e fazer beicinho. andar às escuras dentro de casa sem tropeçar. ouvir as gaivotas de manhã. encontrar as mesmas pessoas, como se fosse sempre o mesmo dia do ano há 20 anos. cheirar a relva fresca. cheirar a casa. não ter vento no guincho, e por isso respirá-lo como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. comer pão como se o mundo acabasse. e manteiga. e queijo. perder as pantufas debaixo do sofá. ouvir as crianças da escola, da minha escola. ir outra vez ao guincho. abraçar a Mãe e o Pai. subir as escadas, os mesmos degraus, seguir pelo mesmo corredor e dormir no mesmo quarto.

12.10.10

Águas Contaminadas


Meus leitores, meus caros!
Queiram desculpar esta ausência de textos, o tempo tem sido complicado.
Além disso, os últimos dias têm-me dado tanto em que pensar que nem sei por onde começar...
Regressar à cidade, às meias, aos chapéus-de-chuva, aos casacos de malha, ao trânsito, aos anúncios e aos outdoors, às horas que voam, aos dias curtos.
Dou por mim a olhar para as nuvens, para as gaivotas, para as árvores e para o horizonte do mar à procura de baleias e golfinhos.

Os dias voltam a ser dominados pelas notícias, pelos meios de comunicação e houve um "acontecimento padrão" que me intrigou nestes dias e que se relacionou com a água.

O fluxo tóxico provocado por um acidente industrial na Hungria atingiu o Rio Danúbio, ameaçando todo o ecossistema do rio, numa espécie de maré de ferrugem, altamente perigosa e contaminante. Houve suspeitas de ataques terroristas a centrais nucleares espanholas ao largo do Tejo, com risco de explosão e radioactividade que se iria entranhar no Rio e contaminaria toda uma Península. E mais recentemente, um navio com produtos químicos a bordo estaria em risco de afundamento ou derrame no Canal da Mancha, entre o Reino Unido e França, por ter chocado contra um outro navio.

Este poderia ser um guião de um filme, que assim começava com o prenúncio do fim do mundo. Deve ser assim que o mundo acaba – com toda a água limpa, e fonte de vida essencial ao homem, a ser contaminada. Sem dúvida que é na água que está o início de toda a vida – e o Homem está a destruir esse princípio.

Sinto-me completamente de rastos com estas informações. Preferia estar como estava em Pemba, longe destes meios de informação e destas sequências de pensamentos. Uma mulher caminha quilómetros para ir buscar água, e trá-la na cabeça, dentro de um bidão, com o filho enrolado na capulana e outro pela mão.

Aqui, na auto estrada despistam-se carros, há incêndios, um camião TIR perde a carga (blocos de cimento, pesadíssimos) ao embater contra o separador central – este podia ser mais uma cena para o filme do fim do mundo.

Não há dinheiro, mas há discussão. Consumo, dinheiro, tudo o que sirva para esconder esta crueldade é visto como um filtro que nos alivia o sofrimento. O Homem não está preparado para o sofrimento, para este choque – então torna-o mais suave, e acrescenta o jornalismo e o dinheiro.
Na essência, a realidade é demasiado cruel. Tanto que até a mim me custa horrores ter consciência disto. Mas temos de ir acordando… eu tento fazê-lo, um pouco todos os dias.

E para terminar tudo isto, ainda se passaram duas coisas: vi e ouvi ao vivo o José Luis Peixoto na Bertrand do Chiado e foi a "queda do mito" - a voz, a boca cheia de dentes, o sotaque demasiado alentejano, as mãos... uma desilusão; e ainda há pessoas que me fazem crer que a selva, das hienas e dos leões é aqui mesmo, entre os homens, enquanto é na savana que as regras são de ouro.
Lá todos são iguais a si mesmo, do principio ao fim.