31.7.14

O triciclo


triciclo em material plástico
 
 
Quando recebeu a primeira bicicleta sem rodinhas, André chorou agarrado às pernas da Mãe.
Tinha 6 anos. Era tudo o que mais queria e tinha pedido. Não haveria razões para aquele choro.
Era uma "super" bicicleta: quadro azul metalizado, os raios das rodas em amarelo canário, os pneus grossos, um suporte para a garrafa de água, luzes à frente e atrás, autocolantes reflectores, buzina. Tudo.
Toda a rua iria querer dar uma volta na sua bicicleta. Todos os amigos iriam pedir uma bicicleta igual.
Como sempre, a Mãe tinha a regra do "não quero tralha cá em casa" e por cada coisa que entrava de "novo", uma "velha" tinha de sair. Dar brinquedos, roupas e tralhas aos meninos mais pobres, aos filhos mais novos dos amigos - tudo servia para evitar amontoar a "tralha" que a Mãe tanto detestava.
Mas o André adorava a "tralha" e muitas vezes escondia as coisas mais pequenas e que a Mãe já não teria cabeça para se lembrar; até ao dia em que se decretavam as "limpezas" e até a tralha "escondida" não tinha salvação possível.
A única excepção em vários anos da "fúria" da Mãe contra a tralha, foi com o triciclo.
O primeiro triciclo do André.
Em que mal sabia andar e já se sentava no triciclo, os pézinhos a marcar o ritmo para a frente e marcha atrás, no corredor da casa ou dentro do quarto, no parque ou no passeio.
O triciclo rapidamente deixou de lhe servir, mas André tinha-o sempre com ele, como se fosse um urso de peluche. Levava-o de férias, para a creche, para a praia, para a noite de Natal em casa da Avó, para as festas de anos.
Até à primeira bicicleta, com rodinhas, houve mais dois triciclos e tudo o que André pedia era que não lhe levassem o "primogénito". A Mãe lá negociava com o filho outras contrapartidas, de uma limpeza mais a fundo de tralhas, e André concordava.
Até que chegou o pior, e o melhor dia da sua vida. O dia em que recebeu a tão desejada bicicleta de crescido!
E André pensou, tão rapidamente quanto apreciou o aspecto futurista e espectacular da nova bicicleta, que tinha chegado o dia de se despedir do triciclo.
A Mãe perguntou se não teria gostado da bicicleta...
"Não é isso, Mãe. É o triciclo que se vai embora..."
 
Depois chegou o dia de ter uma bicicleta com mudanças, a seguir uma de BTT, antes de ter uma mota, ainda uma bicicleta de carbono, e depois outra mota e a carta de condução chegou aos 18 anos e o triciclo não saia da garagem.
André foi estudar para fora. Os Pais mudaram de casa.
Chegaram os homens das mudanças e começam a pegar em tudo o que apanhavam.
A Mãe mandou um email a perguntar o que fazer com as tralhas da garagem, e o triciclo.
Que desse tudo, incluindo o triciclo.
A Mãe assim fez.
Despachou todos os caixotes, mas o triciclo guardou-o para si.
Negociou consigo mesma permitir-se a ter aquela "tralha" - o pedaço de memória mais presente do seu filho que agora começava a pedalar para cada vez mais longe de si.
 


22.7.14

up!


Este fim de semana fui a um casamento. "Mas ainda há quem se case?!"
É o que todos perguntam.
Ainda há, e eu acho isso tão bom. Acredito no amor, e não na paixão, para sempre.
No final da festa, na praia, cada convidado recebeu um balão - dos mesmos que se usam no São João no Porto (que eu em Lisboa, nunca vi tal coisa).
Com o balão vinha um cartão, com uma mensagem personalizada dos noivos.
A ideia era haver um momento de partilha entre todos e lançar os balões ar acima.
E com eles o desejo de cada um.
Com a impaciência que me marca e a minha apressada vontade de terminar tarefas, rasgo o pacote do balão e ponho-me logo toda irritada - aquela coisa tão simples era  afinal um exercício de paciência.
Em primeiro lugar, não dá para lançar o balão sozinha. São precisas pelo menos três pessoas por balão. Depois de dado o lume à "acendalha" é preciso esperar que o balão (feito de papel fininho) se vá enchendo de ar quente e tome a iniciativa de querer voar.
Diz mesmo nas instruções: tenha paciência.
Mas eu quero é atirar com o balão céu acima, noite estrelada perfeita, lua bonita, brisa suave.
Depois do período de confusão inicial, todos nos fomos organizando.
Eu juntei-me a um grupo e com a ajuda do Zé, um empregado que era do Porto com um doutoramente em lançamento de balões, lançamos os nossos balões um a um.
O meu foi dos últimos. Eu já tinha aprendido a técnica, apurado os jeitos delicados das mãos a segurar o arame fininho.
Foi ficando cheio e cheio, gordo e ascendente. Com vontade de voar - "Este é capaz de ser o melhor balão da noite..." - disse o Zé.
Quando o larguei, foi tipo foguete - tal como a sua "dona", sempre apressado para tocar as estrelas, com o coração na boca, sem razão nenhuma, tudo uma mistura, umas guinadas à direita outras à esquerda, mas um bom balão, no fundo.
Segui-o até o perder de vista, viajou bem alto e para bem longe. Os meus olhos fixos numa pintinha de luz, outras tantas se juntando.
Com paciência, e a pouco e pouco, chegamos onde queremos.
Muitos balões tenho eu ainda de lançar...  

16.7.14

cada um é para o que nasce

 
Eu eu tenho a certeza que tu nasceste há 40 anos para isto, e para outras coisas como fazer uma excelente sopa de peixe!
Love you, mano.
Venham mais 40 sempre a ripar!

15.7.14

"it made us different..."


Um casal oriundo de Boston foi viver durante um ano para uma Ilha perto da Noruega, com uma população de 103 pessoas. (ler artigo aqui)
Ela, de raízes nórdicas, foi dar aulas na escola primária, ele, de raízes asiáticas, despediu-se do emprego como gestor numa empresa de software e dedicou-se à fotografia.
Os dois filhos, ainda em idade pré-escolar, frequentaram o jardim de infância.
Foram e voltaram.
E quando voltaram foram para a mesma casa, o mesmo Bairro, o mesmo circuito de amigos, e quando se viram naquela situação, tantas vezes comum, de estarem a ouvir as conversas entre amigos, em que um se queixa do trabalho, o outro dos filhos e mais outro da falta de dinheiro, têm um clique. Percebem que estão diferentes.
E para sempre vão ficar diferentes.
Eu identifiquei-me muito com esta história.
A diferença, para a minha experiência no Ibo, está na geografia da Ilha e nos filhos a cargo. Que logo tudo muda.
Mas as emoções são as mesmas.
O sentir-se diferente.
Não deixo de ser a mesma pessoa, mas também sou outra.
Por minha vontade, aceitei passar por esse processo.
A seguir a esse, veio outro, o da separação, sem a minha vontade.
E fiquei diferente.
Mais ainda.
E isto tudo não é mais do "a vida" a passar - que nos torna diferentes, quando tudo à volta vai ficando igual.
Estive estes dias pelo Porto, a propósito da Lifestories e de uma menção honrosa que os cadernos "it takes 2" receberam. Fui de comboio.
As viagens de comboio são muito literárias e interiores, são intensas. Ou durmo como um urso a hibernar, ou filosofo como um grego.
Fiz um pouco das duas - tendo sempre a sensação que à medida que o comboio avança pelos carris, avanço eu pelas minhas teorias.
E nessa viagem de comboio pensei precisamente no que nos faz ser diferentes; o que nos faz continuar a crescer, quando o corpo já estagnou.
E quando e como o Martim irá passar por isso. Por que implicando dor e algum sofrimento, não é o que nenhuma Mãe queira para o seu filho.
Mas a vida vai passar por ele, assim como passa por mim, assim como o comboio passa e rola pelos carris, assim como o tempo vai correndo pelos ponteiros.



6.7.14

eu não sou deste tempo II

 
 
Aos 18 anos o que deve passar pela cabeça de uma pita, acabadinha de entrar na Faculdade? Tudo. Tudo menos as questões do António Damásio, e o "Erro de Descartes".
Ora aqui a vossa serva andava com essas preocupações - e como se não bastasse, anos mais tarde, ainda faz recortes de revista.
A linha sublime do raciocínio humano e o caminho da emoção ao sentimento.
Coisas para uma outra idade.
 


2.7.14

early gifts



 
Os Avós - a avó pinta a óleo e desenha razoavelmente bem; o avô pinta em acrílico, tem aulas de pintura e desenho, até fez um Atelier para pintar em casa.
O Tio - é o que se sabe, de todos é o que desenha / pinta melhor, autêntico profissional na matéria dá vinte a zero ao Bairro inteiro.
A Mãe - quando tenta desenhar um cão, um porco, um gato ou uma vaca, ficam todos com o mesmo aspecto. O desenho que lhe sai melhorzinho é o da casinha com duas janelas, portinha e chaminé com fuminho a sair!
Por isso tomei medidas, foi como a minha cena com a fruta - dou-lhe fruta a toda a hora e em todas as formas e feitios, pois não quero que o M. cresça com esta minha incapacidade de gostar de fruta.
Assim, fui comprar um bloco e lápis de cera, sentei-o à mesa e pûs a minha Mãe a vigiar os primeiros traços.
Agora a ver se me sais a fazer camelos em forma de saleiros.


1.7.14

quem procura, encontra!




 
Muitas vezes penso que  isto das memórias e histórias de família é como ir fazer análises: se procuramos, havemos de encontrar qualquer coisa!
Há sempre qualquer coisa "escondida" no meio de um todo que se julga muito arrumadinho.
Eu tenho um fraquinho por esses "mistérios", sempre tive.
Em pequenina gostava de conhecer outras casas, assim meio antigas e velhas, metidas no meio de uma serra ou no fundo de uma rua - eram tesouros escondidos. Ao contrário de ter medo, atraiam-me esses universos.
Agora, na minha busca pelos meus antepassados, do lado Rugeroni, fui até à Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva. E abri uma caixa cheia de cartas. 
Quase tinha a certeza que iria encontrar cartas da minha Avó, enviadas à sua prima direita, a Maria Helena Vieira da Silva.
A minha Avó Berenice e a letra dela, belíssima. Aliás, as minhas duas Avós tinham uma letra lindíssima.
E para tornar o momento ainda mais intenso, porque afinal eu gosto mesmo disto, juntei-lhe a aliança ao nome. Coincidência ou não, eu tenho a mesma medida de dedos da minha Avó, tendo ficado com os anéis dela, porque todos me cabem.
Anéis, dedos, escrita, letras, cartas... Um triunvirato de mulheres cheias de garra, artistas, independentes, inteligentes, decididas, mas sempre mulheres - sempre apaixonadas pelo romance.
Tenho imenso orgulho e sinto imenso respeito por este passado que faz parte de mim e que eu tanto prezo.