26.4.13

pensamentos à 6ªfeira - II

 
Começar o dia com boa música é fundamental a um bom começo.
Disse-me certo dia uma amiga.
E hoje confirmei e assim o fiz.
Foi com o Frank Sinatra, "The way you look tonight".
O M. delirou com a nossa "dança"; ele deitado/ sentado nas minhas pernas dobradas, virado para mim a ouvir-me cantar e a mexer as mãos; ria, ria , ria.
E um sol imenso brilhou dentro dos dois.
 


24.4.13

Hoje foi o dia!

 
Meti-o na mochila e lá fomos os dois.
Farmácia, multibanco e supermercado. Calhariz, Largo do Camões, Rua do Loreto.
Uma agitação para o meu pequeno que adorou e portou-se lindamente.
Houve quem perguntasse se eu era estrangeira.
Este corpinho que tenho era afinal para isto - andar com ele juntinho a mim e ter força para alancar três andares de escada quando chego a casa.
A ginástica pós parto nunca foi tão eficaz!
 


23.4.13



 
Hoje é o dia de anos de um poeta que certo dia me escreveu estas linhas, pouco tempo antes de eu partir para Moçambique.
 
"Rita,
Por ser tão rara e grande a sensibilidade e a verticalidade do teu ser, celebro hoje e aqui até ao fim dos dias a tua vida, e a forma pura e generosa como a partilhas.
Que escrevas lugares novos no mundo, para o encheres da luz com que transformas tudo em que tocas."
 
Foi um presente que ele me deu e hoje dou-o a ele. Fazendo-lhe um papel químico das palavras.
Pedro meu, raro és tu do que és feito. E obrigada por me teres dado a luz da escrita.
 

19.4.13

pensamentos à 6ªfeira - I

 
Tenho saudades de África.
Tenho o "mal d'afrique".
Tenho um lugar dentro de mim que me é ausente, mas que sei existir.
Queria que o M. fosse lá, queria que ele tivesse nascido com um pedaço da minha memória, com os cheiros e as cores de lá, com o por do sol e a magia da noite muda.
Quero lá voltar, mas não quero.
Como a curiosidade que mata os gatos, como a atracção de um abismo.
Habitei um lugar na terra que se habitou de mim.
Não sei se para sempre, se por uns anos. Só sei que é um sintoma de lá e que quando chega dói.
 
 


15.4.13

 
 
Vamos lá ver ...

9.4.13

Xavier

Xavier, cão-guia.
11 anos, Labrador Amarelo.
 
Quando entrei na carrugagem, imediatamente olhei para uma mancha amarela no chão.
"Ultimamente, andas a olhar mais para baixo do que para cima", pensei, "e as coisas bonitas que se vêem no chão."
O Xavier estava deitado aos pés do seu dono, naturalmente. As unhas um pouco compridas e um sininho muito discreto, na coleira, ao pescoço.
"Gostava de ter um cão destes", pensei.
 
A expressão do Xavier era de uma tranquilidade e de uma calma absoluta, pedi-lhe um pouco daquela paz imensa que até lhe faz o pêlo mais fofo e brilhante.
Fechei os olhos e pensei em me deixar guiar por ele, naquele passo lento que me parece ter.
 
O Xavier era uma espécie de "ambientador" de tranquilidade numa carruagem de metro, em hora de ponta, na capital do País.
Do País falido, desacreditado, perdido e desorientado que o Xavier nem faz ideia fazer parte. Ele é o orientador daquele homem, tudo o resto não importa.
O Xavier só reagiu a uma africana cheia de sacos e capulanas ricas em cheiro que lhe roçaram as patas. Olhou muito para os sacos. E pousou a cabeça novamente.
Olhar longínquo, completamente sabedor do que faz e pensa.
 
"Em que pensas, Xavier?"
 
Acabou por adormecer a meio da viagem.
Eu saí na Baixa-Chiado, ele iria então até ao Cais do Sodré. Um vai-vém de gente, comboios, barcos, pés, pernas, sapatos, encontrões e tropeções.
Mas ele não se perde.
O Xavier é um feixe de luz de um homem que vive na escuridão.
 



7.4.13

como diz?

 
Lisbon market kids ou kids market lisbon ou market lisbon kids ou uma boa maneira de inventar uma desculpa para perder a cabeça com roupas de Verão para o meu Principezinho.
E se fosse rapariga estava lixada, que a oferta era de 80/20!
Tudo 100% made in portugal, tudo lindo de morrer.


3.4.13

diários de moçambique**#7


Diário de Moçambique. Volume 2. "as raízes do princípio."
 
(a despedida)
 
19 de Julho de 2011 (3ªfeira)
Hoje iniciei a minha despedida. Só hoje.
Ou por outra, começou ontem, quando, no Ibo, resolvemos ir ver o pôr-do-sol. O "último" pôr-do-sol no Ibo.
Depois de tratar das coisas práticas da casa, vender as coisas todas, chegou o momento da "venda" da minha alma.
Quando começamos este movimento da partida, tudo à nossa volta encaixou-se e foi-se encaixando perfeitamente - pareciam como peças de um íman que se iam arrumando automaticamente num tabuleiro. E eu observo como tudo se compõe.
No Ibo não foi excepção!
Tudo foi andando como um barco que desliza, compacto, inteiro em si mesmo.

20 de Julho de 2011 (4ªfeira)
Agora a despedida são fronhas - andamos a transformar todas as capulanas das nossas duas casas (Pemba e Ibo) em capas de almofadas. Fronhas.
As que não havia cá em casa fomos comprar às Batatas***.
Na "Alfaiataria da Moda", ao lado do KK, fomos atendidos por um Sr. indiano, muito reservado, mas determinado, que por 50 meticais transforma capulanas em "sonhos", em noites...
Temos as malas praticamente fechadas, o carro foi hoje vendido. (...)
As estranhas despedidas e os restos que vamos deixando; roupas, livros, cadernos, filmes, sapatos, tralha.  Sempre tudo tão descartável. Só o que vai aqui dentro, não dá para aliviar o "peso".
A despedida, hoje, é exactamente 1 ano depois de ter dormido pela primeira vez nesta casa, tal é a força da vida que "arruma" tudo no seu lugar, sem que eu alguma vez pudesse ter alguma influência sobre isso.
Nunca vivi num outro País sem ser Portugal, nunca tive uma outra casa - esta foi a primeira vez. A minha primeira vida fora de uma outra.
Porque África é uma outra vida - mas eu sinto que, na verdade, eu não me despeço dela, apenas a continuo de longe.
Aqui tive uma outra vida, um outro mundo que não estranho, que já faz parte de mim: os embondeiros, o pôr-do-sol, os pássaros agitados, as mangueiras e os cajueiros, os vendedores de rua, de ovos cozidos, de fruta e maçarocas, pepinos e tomate, os bebés nos cestos e nos baldes e as trouxas na cabeça, a padaria e as barracas de rua, as cabras na estrada e os cães miseráveis e magros, as motas brulhentas, as bicicletas flutuantes, os pés descalços, as crianças aos molhos, as osgas, os mosquitos e os caranguejos, as baleias ao longe, os golfinhos e os corvos de babete branco, o barco chapa, o Ibo, os pássaros do Ibo, os sons do Ibo e as crianças do Ibo sempre a chorar, o pôr-do-sol do Ibo, as cegonhas no mangal, os barcos dhows sem pressa, a rotação da terra em câmara lenta, a estrada e a terra batida, o pó, as unhas sempre sujas, o calor colado à pele, o frio nos ossos, a música aos gritos nos mercados, os homens dos mercados, os alfaiates, as mulheres do caju e do amendoim na praia, os pescadores de linha e anzol, as crianças na beira da estrada sempre a acenar, a xima e a matapa, o peixe frito e tudo frito, a coca cola mundial e a ausência de açúcar  na vida, o ritmo lento de cada um, as barracas tão bem pintadas, os montinhos bem arrumados de lenha, carvão e limões, os saquinhos de piri-piri, caju ou amendoim pendurados nos troncos, a febre do telemóvel, o Banco a abarrotar de gente, a linguagem fácil e a calma do caos, a natureza selvagem e forte, os galos pendurados nos guiadores das bicicletas, as cabras amarradas no topo dos carros e o dia que acaba no segundo em que a noite chega.

22 de Julho de 2011 (6ªfeira)
Estou no Aeroporto de Pemba onde acabamos de chegar, depois de termos fechado a casa. Demos tudo ao Jorge (guarda) que foi lá buscar o que tinhamos comprado cá (talheres, pratos, copos, baldes, panelas, frigideiras, canecas, baldes e esfregona...). Ficaram as duas mesas, quatro cadeiras, uma cama e um colchão.
A sensação de fechar a porta foi um alívio.

11 de Agosto de 2011
(5ªfeira)
Cá estou, mais uma vez, dentro do avião a caminho de Portugal. Desta vez não é para voltar. Desta vez é para ficar e pensar. E reflectir e prioritizar as vontades, os desejos e as necessidades.
Tudo fica bem, quando acaba bem. E foi verdade.
O nosso ano em Moçambique acabou bem, apesar das frustrações, das discussões, das tristezas...
(...)
O que não nos mata, fortalece-nos. E assim foi.
Aprendi a gerir melhor as minhas fraquezas, a acreditar que "pode sempre dar", a ser mais cautelosa e menos ingénua, a olhar melhor para os outros, a ponderar com calma os factos que nos apresentam como graves, porque podem ser sempre menos graves, a ouvir mais os outros, a acreditar mais em mim, a respeitar a natureza das coisas em primeiro lugar e a Natureza sempre, a saber amar e perdoar, a saber pensar e "dormir sobre o assunto".
Não há pressa. Foi o homem que criou a pressaa e o conceito de tempo. O tempo é coisa que não existe na natureza, os animais sentem o nascer do dia e o pôr-do-sol como momentos de luz e escuridão e entre uma coisa e outra a vida corre. Um dia de cada vez.
Aprendi a ouvir-me, a respeitar-me, a conversar comigo a respirar fundo.
Nada é para sempre. Um dia começa com um minuto e termina em 24 horas, são passos que vamos dando.
Nada é eterno.
 
**excertos do meu Diário Pessoal escrito durante a minha estadia em Moçambique, entre Julho de 2010 e Agosto de 2011
***mercado de Rua em Pemba