Xavier
Xavier, cão-guia.
11 anos, Labrador Amarelo.
Quando entrei na carrugagem, imediatamente olhei para uma mancha amarela no chão.
"Ultimamente, andas a olhar mais para baixo do que para cima", pensei, "e as coisas bonitas que se vêem no chão."
O Xavier estava deitado aos pés do seu dono, naturalmente. As unhas um pouco compridas e um sininho muito discreto, na coleira, ao pescoço.
"Gostava de ter um cão destes", pensei.
A expressão do Xavier era de uma tranquilidade e de uma calma absoluta, pedi-lhe um pouco daquela paz imensa que até lhe faz o pêlo mais fofo e brilhante.
Fechei os olhos e pensei em me deixar guiar por ele, naquele passo lento que me parece ter.
O Xavier era uma espécie de "ambientador" de tranquilidade numa carruagem de metro, em hora de ponta, na capital do País.
Do País falido, desacreditado, perdido e desorientado que o Xavier nem faz ideia fazer parte. Ele é o orientador daquele homem, tudo o resto não importa.
O Xavier só reagiu a uma africana cheia de sacos e capulanas ricas em cheiro que lhe roçaram as patas. Olhou muito para os sacos. E pousou a cabeça novamente.
Olhar longínquo, completamente sabedor do que faz e pensa.
"Em que pensas, Xavier?"
Acabou por adormecer a meio da viagem.
Eu saí na Baixa-Chiado, ele iria então até ao Cais do Sodré. Um vai-vém de gente, comboios, barcos, pés, pernas, sapatos, encontrões e tropeções.
Mas ele não se perde.
O Xavier é um feixe de luz de um homem que vive na escuridão.
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