22.7.14

up!


Este fim de semana fui a um casamento. "Mas ainda há quem se case?!"
É o que todos perguntam.
Ainda há, e eu acho isso tão bom. Acredito no amor, e não na paixão, para sempre.
No final da festa, na praia, cada convidado recebeu um balão - dos mesmos que se usam no São João no Porto (que eu em Lisboa, nunca vi tal coisa).
Com o balão vinha um cartão, com uma mensagem personalizada dos noivos.
A ideia era haver um momento de partilha entre todos e lançar os balões ar acima.
E com eles o desejo de cada um.
Com a impaciência que me marca e a minha apressada vontade de terminar tarefas, rasgo o pacote do balão e ponho-me logo toda irritada - aquela coisa tão simples era  afinal um exercício de paciência.
Em primeiro lugar, não dá para lançar o balão sozinha. São precisas pelo menos três pessoas por balão. Depois de dado o lume à "acendalha" é preciso esperar que o balão (feito de papel fininho) se vá enchendo de ar quente e tome a iniciativa de querer voar.
Diz mesmo nas instruções: tenha paciência.
Mas eu quero é atirar com o balão céu acima, noite estrelada perfeita, lua bonita, brisa suave.
Depois do período de confusão inicial, todos nos fomos organizando.
Eu juntei-me a um grupo e com a ajuda do Zé, um empregado que era do Porto com um doutoramente em lançamento de balões, lançamos os nossos balões um a um.
O meu foi dos últimos. Eu já tinha aprendido a técnica, apurado os jeitos delicados das mãos a segurar o arame fininho.
Foi ficando cheio e cheio, gordo e ascendente. Com vontade de voar - "Este é capaz de ser o melhor balão da noite..." - disse o Zé.
Quando o larguei, foi tipo foguete - tal como a sua "dona", sempre apressado para tocar as estrelas, com o coração na boca, sem razão nenhuma, tudo uma mistura, umas guinadas à direita outras à esquerda, mas um bom balão, no fundo.
Segui-o até o perder de vista, viajou bem alto e para bem longe. Os meus olhos fixos numa pintinha de luz, outras tantas se juntando.
Com paciência, e a pouco e pouco, chegamos onde queremos.
Muitos balões tenho eu ainda de lançar...  

16.7.14

cada um é para o que nasce

 
Eu eu tenho a certeza que tu nasceste há 40 anos para isto, e para outras coisas como fazer uma excelente sopa de peixe!
Love you, mano.
Venham mais 40 sempre a ripar!

15.7.14

"it made us different..."


Um casal oriundo de Boston foi viver durante um ano para uma Ilha perto da Noruega, com uma população de 103 pessoas. (ler artigo aqui)
Ela, de raízes nórdicas, foi dar aulas na escola primária, ele, de raízes asiáticas, despediu-se do emprego como gestor numa empresa de software e dedicou-se à fotografia.
Os dois filhos, ainda em idade pré-escolar, frequentaram o jardim de infância.
Foram e voltaram.
E quando voltaram foram para a mesma casa, o mesmo Bairro, o mesmo circuito de amigos, e quando se viram naquela situação, tantas vezes comum, de estarem a ouvir as conversas entre amigos, em que um se queixa do trabalho, o outro dos filhos e mais outro da falta de dinheiro, têm um clique. Percebem que estão diferentes.
E para sempre vão ficar diferentes.
Eu identifiquei-me muito com esta história.
A diferença, para a minha experiência no Ibo, está na geografia da Ilha e nos filhos a cargo. Que logo tudo muda.
Mas as emoções são as mesmas.
O sentir-se diferente.
Não deixo de ser a mesma pessoa, mas também sou outra.
Por minha vontade, aceitei passar por esse processo.
A seguir a esse, veio outro, o da separação, sem a minha vontade.
E fiquei diferente.
Mais ainda.
E isto tudo não é mais do "a vida" a passar - que nos torna diferentes, quando tudo à volta vai ficando igual.
Estive estes dias pelo Porto, a propósito da Lifestories e de uma menção honrosa que os cadernos "it takes 2" receberam. Fui de comboio.
As viagens de comboio são muito literárias e interiores, são intensas. Ou durmo como um urso a hibernar, ou filosofo como um grego.
Fiz um pouco das duas - tendo sempre a sensação que à medida que o comboio avança pelos carris, avanço eu pelas minhas teorias.
E nessa viagem de comboio pensei precisamente no que nos faz ser diferentes; o que nos faz continuar a crescer, quando o corpo já estagnou.
E quando e como o Martim irá passar por isso. Por que implicando dor e algum sofrimento, não é o que nenhuma Mãe queira para o seu filho.
Mas a vida vai passar por ele, assim como passa por mim, assim como o comboio passa e rola pelos carris, assim como o tempo vai correndo pelos ponteiros.



6.7.14

eu não sou deste tempo II

 
 
Aos 18 anos o que deve passar pela cabeça de uma pita, acabadinha de entrar na Faculdade? Tudo. Tudo menos as questões do António Damásio, e o "Erro de Descartes".
Ora aqui a vossa serva andava com essas preocupações - e como se não bastasse, anos mais tarde, ainda faz recortes de revista.
A linha sublime do raciocínio humano e o caminho da emoção ao sentimento.
Coisas para uma outra idade.
 


2.7.14

early gifts



 
Os Avós - a avó pinta a óleo e desenha razoavelmente bem; o avô pinta em acrílico, tem aulas de pintura e desenho, até fez um Atelier para pintar em casa.
O Tio - é o que se sabe, de todos é o que desenha / pinta melhor, autêntico profissional na matéria dá vinte a zero ao Bairro inteiro.
A Mãe - quando tenta desenhar um cão, um porco, um gato ou uma vaca, ficam todos com o mesmo aspecto. O desenho que lhe sai melhorzinho é o da casinha com duas janelas, portinha e chaminé com fuminho a sair!
Por isso tomei medidas, foi como a minha cena com a fruta - dou-lhe fruta a toda a hora e em todas as formas e feitios, pois não quero que o M. cresça com esta minha incapacidade de gostar de fruta.
Assim, fui comprar um bloco e lápis de cera, sentei-o à mesa e pûs a minha Mãe a vigiar os primeiros traços.
Agora a ver se me sais a fazer camelos em forma de saleiros.


1.7.14

quem procura, encontra!




 
Muitas vezes penso que  isto das memórias e histórias de família é como ir fazer análises: se procuramos, havemos de encontrar qualquer coisa!
Há sempre qualquer coisa "escondida" no meio de um todo que se julga muito arrumadinho.
Eu tenho um fraquinho por esses "mistérios", sempre tive.
Em pequenina gostava de conhecer outras casas, assim meio antigas e velhas, metidas no meio de uma serra ou no fundo de uma rua - eram tesouros escondidos. Ao contrário de ter medo, atraiam-me esses universos.
Agora, na minha busca pelos meus antepassados, do lado Rugeroni, fui até à Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva. E abri uma caixa cheia de cartas. 
Quase tinha a certeza que iria encontrar cartas da minha Avó, enviadas à sua prima direita, a Maria Helena Vieira da Silva.
A minha Avó Berenice e a letra dela, belíssima. Aliás, as minhas duas Avós tinham uma letra lindíssima.
E para tornar o momento ainda mais intenso, porque afinal eu gosto mesmo disto, juntei-lhe a aliança ao nome. Coincidência ou não, eu tenho a mesma medida de dedos da minha Avó, tendo ficado com os anéis dela, porque todos me cabem.
Anéis, dedos, escrita, letras, cartas... Um triunvirato de mulheres cheias de garra, artistas, independentes, inteligentes, decididas, mas sempre mulheres - sempre apaixonadas pelo romance.
Tenho imenso orgulho e sinto imenso respeito por este passado que faz parte de mim e que eu tanto prezo. 

30.6.14

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public
doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

W.H. Auden

A morte é tão cruel não pelo fim que representa, mas pela continuidade que a vida toma a seguir a ela.
O mundo não pára quando tudo o que uma Mãe pode sentir, no momento em que perde um filho, é que o mundo devia todo morrer com ele.
Nenhum filho deveria existir depois do nosso se ir.
Nenhuma estrela deveria brilhar, nem o sol ou a lua.
Só o tempo existe. E passa.

26.6.14

just did it!

 
Nunca digas nunca.
Sempre associei as tattoos a uma estética pouco convencional, pouco cuidada, quando um dia percebi que queria fazer parte dessa tribo.
As tattoos têm algo de tribal, algo de cicatriz na alma que começou a fazer sentido para mim.
Não sei como é que chegou, mas o dia chegou.
Decidi que queria fazer uma.
O signo do meu filho e do meu querido Avô; a minha relação com o mar e a natureza.
Aqui, nesta imagem, estava acabadinha de fazer - ainda a pele inchada e encarnada.
Mais do que o processo em si, gostei do João, que me fez a tattoo, em casa (dele), da nossa conversa acerca da liberdade (esse tema que me é sempre tão querido), da intolerância e do amor; mas do que eu mais gostei, foi o resultado desse momento.
Uma marca no meu pulso esquerdo, do lado do coração - do meu coração, que muito aguentou.
Digo-o no passado. Acredito que com estas dores, destes últimos tempos, aprendi a sofrer menos - muito menos. Só o sofrimento do meu peixinho será algum dia superior à minha própria pessoa - tudo o resto, vai ser a vida a passar.
Venham de lá essas ondas, estou ansiosa por mergulhar!

23.6.14

eu não sou deste tempo I




 
Há quem viva à frente do seu tempo, são os visionários, os génios, aqueles que até não se encaixam no momento em que vivem, porque efectivamente não aquele não é o tempo deles. E por isso sofrem. É certo que são fazedores de ideias e isso é espectacular, mas também vivem assim, como que fora do lugar - e isso deve ser mau.
Depois há as outras pessoas que vivem num outro tempo também, mas em séculos passados.
Confirma-se a minha teoria, tantas e tantas vezes, quando dou por mim a gostar de fazer, ler e ouvir coisas que não são deste tempo. Já foram. Já passou.
E eu afinal, gosto é disso.
Não traz nada de espectacular e só me sinto meia-totó.
A querer acompanhar as cenas, hoje e amanhã, indo lá atrás.
É péssimo - mas também está tudo identificado, não vos apoquentais.
Em "sede de concertação social", eu já tenho isto tudo discutido e organizado.
Agora.
Que género de coisas, perguntais?
Coisas como: ler o livro "Out of Africa", sublinhar frases e ainda fazer o download da banda sonora (que é qualquer coisa ao nível da perfeição absoluta).
E mais. Cheguei a ir lá. Ao Quénia. Ah pois, não faço nada por menos.
Qual Seychelles ou Bora-Bora? 
A minha lua-de-mel foi no Quénia, pois eu um dia fui uma Karen e não estando ainda convencida disso, houve um Denys.
notinha de rodapé: o filme é de 1985
 
 
 

22.6.14

Solstício de Verão




 
 
Primeiro dia de Verão. Começa o solstício com uma tromba de água gigante - em Cascais choveu como se estivessemos numa floresta tropical e evaporou-se uma humidade carregada pelo sol quente que veio a seguir.
Fez tanta chuva como calor.
Começou o dia a chover e assim também acabou.
Mas entre uma chuva e outra, fui até Sintra, onde desde pequena gosto de ir quando chove - a clorofila da atmosfera traz-se muitas recordações; e depois segui até ao Guincho.
Todas as minhas recordações do Verão estão sobre aquela areia - e muitas incluem a chuva. São dias de Guincho tranquilo, sem vento e o mar suave, que terminam com chuva.
Já o disse várias vezes, eu gosto tanto do Guincho porque não é uma praia perfeita - se o fosse, não teria tanto vento, nem a água tão fria.
Mas quando isso deixa de acontecer, e os astros se alinham para o ar ficar quieto e a água tornar-se morna, chove.
É o chão que os meus pés reconhecem e é o cheiro que inspira os meus pulmões - é bom quando sabemos os lugares onde nos encontramos, apesar de  não saber exactamente onde estou, nem para onde vou.  
Estou a caminho.