23.11.15

um ano de jejum

Estive um ano sem vir aqui.
Uma espécie de abandono consciente, ponderado, estudado.
A ausência da escrita não implica um vazio de pensamento. Antes pelo contrário.
As coisas levam o seu tempo.
O Martim cresceu um ano. O Flash engordou um ano. Eu envelheci um ano. (sem engordar).
Mas o silêncio das palavras escritas é nutritivo; assim como as saudades enchem o peito de ar.
Sinto falta de escrever.
Assim, devagar, irei recomeçar.
até já :)

18.10.14

da cor do Niassa


 
 
Passei um mês de Setembro em seco. Vazio de palavras.
Porque talvez todas as dúvidas me tivessem levado a vontade de escrever. Ou afinal, não sou escritora coisa nenhuma, apenas me sirvo das palavras para aliviar a angústia - assim como um homem fuma o cigarro para travar a ansiedade.
Escrevo porque não tenho outra forma de me expurgar. Pudesse eu cantar, tocar um instrumento ou pintar um quadro. É precisamente a mesma coisa.
Nada tem de criativo.
Apenas de desabafo.
Que vem e que vai. Conforme as marés.
Conforme o mal d'afrique que me aflige, e me ataca sem aviso.
Hoje o mar, em Cascais, estava plúmbeo. A mesma cor do Lago Niassa há quatro anos, numa manhã de Inverno (Junho).
Há dias de chumbo, mas até nesses dias consigo ver um pedaço do que é mais intenso e cru - e é essa capacidade de regeneração que hoje me fez voltar aqui.
 
 
 
 


27.8.14

eu não sou deste tempo III


 
 
 
 
 
 
 
 

Perdoai a minha ausência. Entre férias com o bolinha, que de bolinha já pouco tem (conto depois), férias sem bolinha (ainda duram), ir e vir, fazer malas, lavar roupa, faxinar e todos os verbos na conjugação das limpezas, além de passar a ferro e varrer escadas - não tenho tido vagar para o meu bolo de arroz.
 
Mas hoje, depois de ter comido um bolo de arroz, e a seguir ter levado com um carro em plena Rua Castilho, que do nada resolve virar e bate-me em cheio na porta onde estava a cadeirinha do Martim, com ele lá sentado, claro - pensei, a caminho de casa, duas horas depois, de declaração amigável em punho e sem Martim, que entretanto voltou para o Pai: "Porra (foi mais outra palavra que eu disse)... convém ir lá escrever senão rebento." 
 
Assim, estas férias estive embebida em sítios e locais anteriores a mim.
E como eu adoro estes cenários...
 
Primeiro, os 70 anos do meu Pai.
O meu irmão desenhou os Rolls Royces, e eu irei escrever a história do meu bisavó: José Garcia Rugeroni.  
 
Segundo, a minha ida ao Turf, onde "menina não entra".
Adoro esta cena do clube exclusivamente machista, com salinhas de espera para as senhoras, cenas de 1882, coração do Chiado, coisas ultrapassadas mas bonitas e eternamente clássicas.
 
Terceiro, os meus dias em Azeitão com o pipoca em casa da minha querida prima.
Um lugar lindíssimo, cheio de charme, com um jardim gigante onde imagino conversas e detalhes de vestidos e senhores de casaca a fumar cigarros de engate.
 
Quarto, a festa em Coruche.
Uma casa do século passado que todos os anos, ao dia 15 de Agosto, abre as portas para os amigos - um género de festa queirosiana, com bebidas, gelo e velas a derreter. Gente bonita e velha, coisas velhas e bonitas.
 
Por fazer parte, ou pelo convite que me leva, sinto-me uma privilegiada em participar nestes momentos, cenários, ocasiões.
São lugares cheios de história e de passado, que eu muito aprecio.
E é por isso que eu não sou deste tempo!
 
 


11.8.14

3 7

Foi ontem, dia 10.
Houve uma super-lua e eu fiz 37 anos.
E mudei o Blog para aquela meia dúzia de fieis leitores que me seguem... porque se queremos ser a mudança que queremos ver, tem mesmo de ser.
Penso com o coração, e talvez pense demais...
Ficamos por aqui, está bem?
Eu vou continuar, mas agora é tipo em versão "privado".
E para celebrar a vida, nada como estar perto de quem é sangue do sangue... seja o que corre nas veias, seja o que, ao longe, faz bater o coração.
 

31.7.14

O triciclo


triciclo em material plástico
 
 
Quando recebeu a primeira bicicleta sem rodinhas, André chorou agarrado às pernas da Mãe.
Tinha 6 anos. Era tudo o que mais queria e tinha pedido. Não haveria razões para aquele choro.
Era uma "super" bicicleta: quadro azul metalizado, os raios das rodas em amarelo canário, os pneus grossos, um suporte para a garrafa de água, luzes à frente e atrás, autocolantes reflectores, buzina. Tudo.
Toda a rua iria querer dar uma volta na sua bicicleta. Todos os amigos iriam pedir uma bicicleta igual.
Como sempre, a Mãe tinha a regra do "não quero tralha cá em casa" e por cada coisa que entrava de "novo", uma "velha" tinha de sair. Dar brinquedos, roupas e tralhas aos meninos mais pobres, aos filhos mais novos dos amigos - tudo servia para evitar amontoar a "tralha" que a Mãe tanto detestava.
Mas o André adorava a "tralha" e muitas vezes escondia as coisas mais pequenas e que a Mãe já não teria cabeça para se lembrar; até ao dia em que se decretavam as "limpezas" e até a tralha "escondida" não tinha salvação possível.
A única excepção em vários anos da "fúria" da Mãe contra a tralha, foi com o triciclo.
O primeiro triciclo do André.
Em que mal sabia andar e já se sentava no triciclo, os pézinhos a marcar o ritmo para a frente e marcha atrás, no corredor da casa ou dentro do quarto, no parque ou no passeio.
O triciclo rapidamente deixou de lhe servir, mas André tinha-o sempre com ele, como se fosse um urso de peluche. Levava-o de férias, para a creche, para a praia, para a noite de Natal em casa da Avó, para as festas de anos.
Até à primeira bicicleta, com rodinhas, houve mais dois triciclos e tudo o que André pedia era que não lhe levassem o "primogénito". A Mãe lá negociava com o filho outras contrapartidas, de uma limpeza mais a fundo de tralhas, e André concordava.
Até que chegou o pior, e o melhor dia da sua vida. O dia em que recebeu a tão desejada bicicleta de crescido!
E André pensou, tão rapidamente quanto apreciou o aspecto futurista e espectacular da nova bicicleta, que tinha chegado o dia de se despedir do triciclo.
A Mãe perguntou se não teria gostado da bicicleta...
"Não é isso, Mãe. É o triciclo que se vai embora..."
 
Depois chegou o dia de ter uma bicicleta com mudanças, a seguir uma de BTT, antes de ter uma mota, ainda uma bicicleta de carbono, e depois outra mota e a carta de condução chegou aos 18 anos e o triciclo não saia da garagem.
André foi estudar para fora. Os Pais mudaram de casa.
Chegaram os homens das mudanças e começam a pegar em tudo o que apanhavam.
A Mãe mandou um email a perguntar o que fazer com as tralhas da garagem, e o triciclo.
Que desse tudo, incluindo o triciclo.
A Mãe assim fez.
Despachou todos os caixotes, mas o triciclo guardou-o para si.
Negociou consigo mesma permitir-se a ter aquela "tralha" - o pedaço de memória mais presente do seu filho que agora começava a pedalar para cada vez mais longe de si.
 


22.7.14

up!


Este fim de semana fui a um casamento. "Mas ainda há quem se case?!"
É o que todos perguntam.
Ainda há, e eu acho isso tão bom. Acredito no amor, e não na paixão, para sempre.
No final da festa, na praia, cada convidado recebeu um balão - dos mesmos que se usam no São João no Porto (que eu em Lisboa, nunca vi tal coisa).
Com o balão vinha um cartão, com uma mensagem personalizada dos noivos.
A ideia era haver um momento de partilha entre todos e lançar os balões ar acima.
E com eles o desejo de cada um.
Com a impaciência que me marca e a minha apressada vontade de terminar tarefas, rasgo o pacote do balão e ponho-me logo toda irritada - aquela coisa tão simples era  afinal um exercício de paciência.
Em primeiro lugar, não dá para lançar o balão sozinha. São precisas pelo menos três pessoas por balão. Depois de dado o lume à "acendalha" é preciso esperar que o balão (feito de papel fininho) se vá enchendo de ar quente e tome a iniciativa de querer voar.
Diz mesmo nas instruções: tenha paciência.
Mas eu quero é atirar com o balão céu acima, noite estrelada perfeita, lua bonita, brisa suave.
Depois do período de confusão inicial, todos nos fomos organizando.
Eu juntei-me a um grupo e com a ajuda do Zé, um empregado que era do Porto com um doutoramente em lançamento de balões, lançamos os nossos balões um a um.
O meu foi dos últimos. Eu já tinha aprendido a técnica, apurado os jeitos delicados das mãos a segurar o arame fininho.
Foi ficando cheio e cheio, gordo e ascendente. Com vontade de voar - "Este é capaz de ser o melhor balão da noite..." - disse o Zé.
Quando o larguei, foi tipo foguete - tal como a sua "dona", sempre apressado para tocar as estrelas, com o coração na boca, sem razão nenhuma, tudo uma mistura, umas guinadas à direita outras à esquerda, mas um bom balão, no fundo.
Segui-o até o perder de vista, viajou bem alto e para bem longe. Os meus olhos fixos numa pintinha de luz, outras tantas se juntando.
Com paciência, e a pouco e pouco, chegamos onde queremos.
Muitos balões tenho eu ainda de lançar...  

16.7.14

cada um é para o que nasce

 
Eu eu tenho a certeza que tu nasceste há 40 anos para isto, e para outras coisas como fazer uma excelente sopa de peixe!
Love you, mano.
Venham mais 40 sempre a ripar!

15.7.14

"it made us different..."


Um casal oriundo de Boston foi viver durante um ano para uma Ilha perto da Noruega, com uma população de 103 pessoas. (ler artigo aqui)
Ela, de raízes nórdicas, foi dar aulas na escola primária, ele, de raízes asiáticas, despediu-se do emprego como gestor numa empresa de software e dedicou-se à fotografia.
Os dois filhos, ainda em idade pré-escolar, frequentaram o jardim de infância.
Foram e voltaram.
E quando voltaram foram para a mesma casa, o mesmo Bairro, o mesmo circuito de amigos, e quando se viram naquela situação, tantas vezes comum, de estarem a ouvir as conversas entre amigos, em que um se queixa do trabalho, o outro dos filhos e mais outro da falta de dinheiro, têm um clique. Percebem que estão diferentes.
E para sempre vão ficar diferentes.
Eu identifiquei-me muito com esta história.
A diferença, para a minha experiência no Ibo, está na geografia da Ilha e nos filhos a cargo. Que logo tudo muda.
Mas as emoções são as mesmas.
O sentir-se diferente.
Não deixo de ser a mesma pessoa, mas também sou outra.
Por minha vontade, aceitei passar por esse processo.
A seguir a esse, veio outro, o da separação, sem a minha vontade.
E fiquei diferente.
Mais ainda.
E isto tudo não é mais do "a vida" a passar - que nos torna diferentes, quando tudo à volta vai ficando igual.
Estive estes dias pelo Porto, a propósito da Lifestories e de uma menção honrosa que os cadernos "it takes 2" receberam. Fui de comboio.
As viagens de comboio são muito literárias e interiores, são intensas. Ou durmo como um urso a hibernar, ou filosofo como um grego.
Fiz um pouco das duas - tendo sempre a sensação que à medida que o comboio avança pelos carris, avanço eu pelas minhas teorias.
E nessa viagem de comboio pensei precisamente no que nos faz ser diferentes; o que nos faz continuar a crescer, quando o corpo já estagnou.
E quando e como o Martim irá passar por isso. Por que implicando dor e algum sofrimento, não é o que nenhuma Mãe queira para o seu filho.
Mas a vida vai passar por ele, assim como passa por mim, assim como o comboio passa e rola pelos carris, assim como o tempo vai correndo pelos ponteiros.



6.7.14

eu não sou deste tempo II

 
 
Aos 18 anos o que deve passar pela cabeça de uma pita, acabadinha de entrar na Faculdade? Tudo. Tudo menos as questões do António Damásio, e o "Erro de Descartes".
Ora aqui a vossa serva andava com essas preocupações - e como se não bastasse, anos mais tarde, ainda faz recortes de revista.
A linha sublime do raciocínio humano e o caminho da emoção ao sentimento.
Coisas para uma outra idade.
 


2.7.14

early gifts



 
Os Avós - a avó pinta a óleo e desenha razoavelmente bem; o avô pinta em acrílico, tem aulas de pintura e desenho, até fez um Atelier para pintar em casa.
O Tio - é o que se sabe, de todos é o que desenha / pinta melhor, autêntico profissional na matéria dá vinte a zero ao Bairro inteiro.
A Mãe - quando tenta desenhar um cão, um porco, um gato ou uma vaca, ficam todos com o mesmo aspecto. O desenho que lhe sai melhorzinho é o da casinha com duas janelas, portinha e chaminé com fuminho a sair!
Por isso tomei medidas, foi como a minha cena com a fruta - dou-lhe fruta a toda a hora e em todas as formas e feitios, pois não quero que o M. cresça com esta minha incapacidade de gostar de fruta.
Assim, fui comprar um bloco e lápis de cera, sentei-o à mesa e pûs a minha Mãe a vigiar os primeiros traços.
Agora a ver se me sais a fazer camelos em forma de saleiros.