27.2.11

Quero sapatos e Pão-de-Ló!



Hoje chegamos às 10.000 visitas!

Que grande feito neste Bolo de Arroz! Fico tão contente, tão orgulhosa.

No mesmo dia em que são entregues os Óscares de Hollywood, eu faço o meu discurso:

Obrigada aos meus leitores e seguidores que me lêem, não me insultam, nem me deixam comentários idiotas, como tantos que se vêem escritos por aí. Se calhar porque ainda não escrevi nada que devesse ser insultado...

Ao início eram sempre os mesmos, uma meia dúzia deles. Se bem que cada vez que vejo "1 bolo" (um comentário), já sei que é sempre do mesmo... Do meu Pai, ou da minha Mãe. Fico toda contente quando alguém comenta, alguém sem ser o meu Pai ou a minha Mãe. Mas tal como nos discursos dos Óscares, é a eles que agradeço a minha existência. Agora, lá que gostava de outros bolos, sem ser sempre os mesmos, gostava, mas não se pode ter tudo.

Já tive uma leitora que me escreveu do Brasil a contar que já viveu no Ibo! E até uma leitora que inesperadamente me mandou um postal de Boas Festas, quando eu toda contente contei que tinha inaugurado a minha Caixa Postal! Fico mesmo contente pela extensão das minhas palavras. Não há nada que me dê mais prazer!

De resto, já sei que estão todos por ai. E agradeço sempre essa companhia. É um prazer. Em Abril o Bolo de Arroz faz 2 anos e amanhã o Benfica faz 107 anos de existência - é bonito!

10.000 leitores e os Óscares numa noite, Benfica na outra!

O que podemos querer mais? Como estou numa de festa, quero uns Louboutin pretos, mas também pode ser um pão-de-ló inteiro. Sim, eu como um inteiro. Mais uns copos de leite para ajudar a descer ou sumol de laranja! Perfeito!

25.2.11

África vs Rita

Em jeito de reflexão para o fim de semana, deixo-vos com as minhas interiores-introspecções-intra-filosóficas!

(e assim, numa primeira frase, perdem-se logo 76,7% dos leitores...)



Ao fim de 6 meses de vivência africana profunda, chego à conclusão de que já não sei porque se perde tanto tempo a engomar roupa, tanto dinheiro a comprar roupa nova e que sim, é possível viver com apenas 3 pares de sapatos.

Mas depois vejo a Sic Mulher e babo-me para cima das reportagens das colecções Primavera, Outono, Inverno, Verão, o que quiserem, vou ao site da Vera Wang e babo-me para cima dos vestidos de noiva, sem ser de noiva o que quiserem, e ainda vou ao site da STYLISTA ver umas dicas... Umas dicas?! Aqui em Pemba é de facto fundamental saber que os calções boho chic estão na moda, e os tons pastel, o azul e tal...


Já não como queijo flamengo, chévre, mozzarela, etc... e iogurtes há exactamente 6 meses e reduzo a minha alimentação ao que a natureza aqui me dá: fruta, vegetais, peixe e marisco... Nem um bifinho de lombo e salmão fumado, que eu nunca pensei saudar-me pelo salmão, esse enjoado peixe frio. Nada! É comer o que temos e ir comprar um chocolatinho à bomba de gasolina que acabou o prazo em Janeiro e, e!
"Muito já tens tu, Rita, agora a pedir mais..." - diz a minha voz africana (que tem um turbante enorme)
E eu, como uma vítima, ponho-me ainda a ver mais programas com aquelas chefes fantásticas a fazer bolos e cozinhados naquelas cozinhas lindas, bem equipadas, onde há bimbys e electricidade e eu aqui tento, com a faca e a colher e pau fazer o mesmo.

Já me esqueci do sabor das pipocas do cinema, do cheiro da sala da Gulbenkian e da alcatifa da FNAC, pensando que a minha alma se alimenta desta cultura, que se baseia em sair de casa e ver o que se passa na rua . Mas mesmo assim, devoro o site dos Óscares, continuo a pesquisar os espectáculos e ainda os livros mais recentes.


Pois isto, das duas uma, ou eu estou a ficar com uma esquizofrenia, ou então a culpa é toda da televisão e da internet que me "obrigam" a salivar e a responder à campainha do mundo ocidental.
Seis meses não foram suficientes para o meu cérebro libertar-se disto tudo, preciso de um retiro no meio de Tete (a Província mais isolada e longíqua de Moçambique), e talvez ao fim disso já coma as formigas com asas fritas como eles fazem, depois de as apanharem, atraídas pela luz (apanham aquilo à mão, tiram as asas e comem... é verdade, no Ibo é um pestisco).

Bom, então, onde ficamos? Onde fico eu? Pertenço onde? Onde está o meu padrão?

Continuo a lavar os dentes, sim, e a tomar banho, sim, mas, por exemplo, já uso t-shirts comidinhas pela traça e está muito bem assim. Não coso o buraquito. Isso já é mau? Já é sinal de mudança? Entro nas barracas e como aquela comida que antes, nem Deus e nem os anjos, sabem por onde aquilo andou, e eu devoro aquilo tudo. Tudinho.
Isso é sinal que estou a descarrilar?


Na rua quando peço uma indicação, baixo o vidro e grito: "Olha! Banco?", em vez de : "Olhe, desculpe, podia dizer-me onde fica o Banco, se faz favor?"

A seguir vem o quê?! Roer as unhas dos pés está a um dia de distância?!

Mas eu ainda faço máscaras para o cabelo seco, e arranjo as unhas, e tal... ah! e, grito para o mundo inteiro me ouvir, limpo a pele todas as noites e ponho o sérum, xpto, night repair xyz, que diz-me o meu homem, deve ser feito de baba de tartaruga!!


Hum... acho que vai ser um fim de semana complicado...!

23.2.11

Da Russia com calor...



Há uns dias que tudo é Rússia à minha volta.


Primeiro, por saber que se estreou o filme "Black Swan" que é só e mais nada o meu Ballet preferido; a história de amor mais triste do Ballet. Foi o primeiro que Piotr Ilitch Tchaikovsky compôs, e para mim não há outro igual. A presença de uma mulher vestida de negro e de olhos encarnados, no meio de cisnes brancos, sempre me assombrou e fascinou! Ando a ver fotos do filme, críticas do excelente papel da Natalie Portman, tudo o que consigo. E até se conseguisse ver o filme seria tão bom!

Mais Rússia, porque estou a ler o romance Ana Karenine, de Tolstoi, e chego à conclusão que ou vivo no século errado, ou serei uma eterna clássica. Pois tudo aquilo que atrai, aquele amor febril, desmedido, cidades imponentes como Moscovo e São Petersburgo e o campo tão bucólico, tão apetecível.


Pode-se pensar que não há nada de bonito com um cisne negro. Esta foto mostra a Prima Ballerina do Ballet Kirov numa atitude tão leve como pérfida. É a Odile, a má da fita. E é perfeita. Os braços, a ponta no chão, a perna em linha e o pé ainda mais esticado, num arabesque perfeito. As costas, o pescoço tudo! Não mexe uma palha.

Não sou deste mundo, agora sou russa, e vivo no final do século 19, sou uma princesa, uso vestidos cujas saias e os saiotes de seda fazem barulho quando me sento no canapé à hora do lanche.
E eu, com a Ana Karenine bem podiamos estar sentadas num Teatro a ver os cisnes a esvoaçar em pontas. Viveram os dois ao mesmo tempo, no mesmo lugar. O Tolstoi e o Tchaikovsky, os dois com "T".
A levar-me de África para o frio mais clássico do mundo.
Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.— Liev Tolstói

19.2.11

Mano's


Só se falar da coragem dos que partem, não é justo.

Há que congratular os que ficam, os que não são levados pelo assustador "brain-drain" que está a tomar lugar em Portugal.
Num País, que eu vou assistindo de longe pela televisão, a ficar cada vez mais reduzido, mais frágil, mais exposto, mais sozinho...
Quase todas as semanas conheço alguém que está a sair. Suíça, Macau, Londres, ...
Até eu, na próxima semana, irei tornar-me oficialmente emigrante, com o B.I Moçambicano (cá chamado de D.I.R.E) e o direito de residir no País.
E os outros que lá ficam? Faço-me essa pergunta todos os dias. Pois avizinham-se tempos tão difíceis, tão complicados. De uma crise, no seu verdadeiro significado, que é um impasse, um enorme período de incerteza.

Mas eu quero felicitar quem fica, quem ainda sonha, quem luta, quem remexe no meio do pântano.
E como só tenho um irmão, posso dizer que é o meu preferido e o melhor do mundo, e mostro aqui o trabalho que ele tem vindo a fazer numa escura e esquecida fatia da produção artística em Portugal: o design.

E no Blog dele está lá tudo, para verem que não é só orgulho de irmã, é mesmo tudo bom o que ele faz!

17.2.11

Mercados "de Risco"

Andar pelos mercados em Moçambique, tem sido para mim uma descoberta, além de que eles reflectem toda a realidade africana, que eu acredito ser genuinamente assim. Caótica, mas sem se saber como, acolhedora e benevolente para quem a vive.
Os mercados que melhor conheço são os de Pemba, naturalmente. São os mercados da cidade onde, a meias com uma casa numa Ilha, vivemos a quase 3mil km de distância da "nossa" Capital, Maputo. Por isso aqui, ainda se torna tudo mais intenso!

Não trago fotos, pelas razões óbvias, pois se fosse para lá tirar fotos, perdia-se toda a experiência de viver aquele momento por si mesmo. Por isso, e como já é meu costume, fazendo-o sempre com muito prazer, eu "tiro" as fotografias com as palavras. A máquina é a minha memória.

Há que primeiro ter em conta o espaço: são barracas, feitas de madeira, algumas só com as paredes laterais e o tecto em chapas de zinco, outras mais evoluídas em cimento, com a banca à frente, também há aquelas com apenas uma estrutura de bambu, cujos paus cruzados uns sobre os outros criam uma espécie de expositor onde de pendura roupa, malas, mochilas, cintos, sapatos, etc. O chão é terra, o céu é o sol escaldante, a atmosfera é quente e húmida.

Em Pemba há 4 mercados principais, pelo menos, são aqueles a que recorro mais:

- Mercado das Batatas. O mais famoso da cidade. Todo posto junto à estrada e depois com várias entradas lá para dentro, onde nos perdemos num labirinto infinito que nunca sabemos em que lado vamos parar. Ventoinhas, colchões, fechaduras, fichas, cds e filmes piratas, telemóveis usados, cadeados, panelas, pratos e talheres, canecas e copos, cordas, plásticos e baldes, fósforos e isqueiros, cuecas, meias, roupa, cintos e malas - e, agora vem a melhor parte, as aparelhagens! São colunas gigantes a debitar todas as músicas do mais actual e dance possível, eu que há 6 meses não sei o que se passa na cena musical ocidental, sei tudo porque as "Batatas" mantêm-me informada. Ainda há as barraquinhas que vendem o detergente, as latas de tomate concentrado, a pasta "cologate", a rede mosquiteira da USAID (que era suposto ser uma doação...) e as cebolas e as batatas (sim, há batatas, mas não é só!).
Na minha mais recente incursão pelas "Batatas" foi a um dos "Restaurantes" - sempre no mesmo registo de barraca. Arroz de coco, feijão e cabrito. No fim bananas e ainda uma coca cola. Tudo aquilo é um cenário de um filme supra-alternativo, com senegaleses, tanzanianos, moçambicanos, e nós, numa mistura de gente, moscas, música e comida.



- Mercado dos Legumes. É a "Praça", onde vamos comprar a fruta e os legumes. Os que há, os que desaparecem e voltam a aparecer. Agora a alface sumiu-se, como as maças e as laranjas. Mas há imensas beringelas, quilos de abóbora, pepino, o tomate está ao dobro do preço de meses atrás, e o alho e as cenouras são o maior roubo durante todo o ano!
O ananás é delicioso e as mangas já estão a acabar. Quilos de bananas vindos de toda a parte, assim como pimentos e limões! A mais recente aquisição da estação é o Sr. feijão verde que com a couve lombarda (que eles cá chamam de repolho) tem feito as delicias das nossas refeições sempre muito vegetarianas. Quando estamos em Pemba entregamo-nos às vitaminas que nem uns loucos, pois no Ibo fazem-nos falta, se bem que é compensando pelo peixe e o marisco sempre fresco.
Este mercado é também "ambulante". Muitos rapazes andam pela rua de cestas de legumes e fruta na cabeça - é mais frequente comprarmos a estes rapazes pois negociamos melhores preços (estes produtos aqui não são baratos).

- Mercado dos Sapatos. Um must da reciclagem do calçado ocidental para o terceiro mundo! Os pares de sapatos usados chegam no estado em que os seus donos, algures no mundo, os deixam. Depois são lavados, limpos e puxado o lustre, recheados de papel e de plástico para não perder a forma e pendurados um por um, formando um efeito visual tipo árvores de natal, com centanas de pés no ar!
É uma loucura pegada, e até há sapatos bem bons, e de qualidade, e a preços baixos, desde 5€...

- Mercado da Roupa. A minha mais recente experiência em que fiz parte daquele pedaço do mundo que "usa" o "lixo" que o primeiro mundo deita fora. Por cá, chamam-se a esses contentores de toneladas de roupa: "calamidade". E eu arrecadei três saias por 2,5€ cada, sendo uma dela da Zara!
A histórias das saias é porque a roupa que eu trouxe de Lisboa era demasiado à imagem e semelhança de 15 dias de férias por ano. Calções mini, saias mini, tops e coisas todas coloridas e todas decotadas que o que a malta queria era estar de braços e pernas ao léu e ter férias com sabor a tudo. Mas aqui não é bem assim...
Há que baixar o volume, e tudo bem com uns tops sem mangas, mas lá a pernas têm de estar mais escondidas. Além das saias, abaixo do joelho, trouxe um lenço bem giro da HM por 0.25€.
E para não falar dos lençois de linho e de algodão, óptimos, das toalhas de mesa e dos panos de cozinha. Tudo coisas boas, de óptima qualidade, como tudo o que se vende no primeiro mundo é, e que por isso resistem ao tempo, só não resistem à pressão do consumo, à regra de que todos os anos temos de comprar roupa nova...
Quando vejo aqueles montes de roupa, sendo a maioria roupa nova, nunca usada, penso que não faz qualquer sentido. Quando vejo aqueles quilos e quilos de roupa, as centenas de saias que estavam penduradas, t-shirts e calções, calças e até vestidos de costureiros franceses, penso como é possivel eu chegar a Lisboa e gastar dinheiro em roupa.

Esta nossa nova vida traz-nos todos os dias estas lições, e agora que sabemos que pela velha Europa se vivem dias tão complicados, só pensamos que aqui há espaço para todos, há vidas novas todos os dias!
Fácil não é, só é preciso arriscar.

14.2.11

São sempre velhos, nunca idosos.

Quando "projectei" este Blog, havia vários assuntos que queria escrever sobre.
Um deles era sobre os velhos de Lisboa. E as intenções foram boas, escrevi duas histórias, da Ana e da Maria Helena, em "Manta de Retalhos" no ano de 2009.
Depois a minha mente "africanizou-se" e o tema da mudança de vida e toda essa reflexão tomou conta de mim e da minha escrita.

Mas eu deveria ter continuado a escrever sobre eles. Os velhos que vivem sozinhos em Lisboa e que eu conheci. Entrei em casa deles, sentei-me na cozinha escura e com panelas perdidas, vi as embalagens de comida pré-cozinhada vazias e deitadas pelo chão, molduras com fotografias amarelas, cheiro a cão e a gato, ausência de pessoas, vestidos de pijama e de roupão, cheiro a naftalina, num 10º andar num Bairro em Benfica ou na Av. de Berna, com os autocarros a passar lá em baixo.
E aquilo sempre me tocou.

Foi a Coração Amarelo que me mostrou esse mundo. A mesma que eu tenho desde o 1º dia nos meus links lá em baixo. Além dela, existe a Cruz Vermelha Portuguesa, que em Lisboa tem o Programa "Mais Voluntariado, Menos Solidão"e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
As três olham para os velhos, sempre o fizeram. Olham para quem ninguém quer olhar. Trabalham com voluntários, gente mundana, mas com uma capacidade fora do comum, que vão a casa da D. Anita na Encarnação aquecer o almoço, dar comida ao gato, despejar o lixo.
Esta gente existe há muito tempo e faz um trabalho único, pelo menos daquilo que eu conheço na cidade de Lisboa.

Houve um Natal em que eu entrei em casa desses velhos e levei-lhes a Ceia de Natal. Eles não sabiam como agradecer e muitos davam-me abraços. Abraçavam-me ávidos de ter contacto com alguém diferente, que veio de "fora", talvez mais jovem, que representa um mundo tão distante.

Estas notícias dos velhos encontrados mortos em casa, provocam-me sentimentos vários.
Da ironia dos meios de comunicação social, que tal como desataram a cair balizas em todo o País quando um menino morreu, eu também pensei: agora vão "aparecer" velhos mortos em casa em todo o lado. E assim foi.
O que é a notícia, afinal? Uma fabricação engenhosa de factos?
Agora vêm todos dizer que ninguém olha para os velhos, para as autênticas bibliotecas ambulantes que se perdem pelo País.
E esta gente, estas três Instituições que trabalham só com estes esquecidos, ninguém fala do que eles fazem? E além destas devem existir muitas outras...

É sempre tudo pelas crianças e tão pouco pelos velhos.

Mesmo aqui, em Moçambique, há poucos velhos, pelas razãos óbvias de uma pirâmide demográfica escolar de um País de 3ºmundo. Por isso quando vejo um tento aproximar-me: têm os olhos mais brilhantes do mundo e a pele mais macia da terra. São sempre suaves seres, calmos e de sorriso fácil. Sinto que já não são gente deste mundo, já flutuam para uma outra dimensão muito superior à minha.

E aqui não morrem sozinhos, não são abandonados. Vivem na sua aldeia, na sua comunidade, passam pelo pior, mas jamais ficarão 9 anos numa casa à espera de um funeral.

Que mundo afinal é este? O terceiro?

10.2.11

Inter-Cidades: Nova Iorque

























Estivemos os dois em NYC em Outubro do ano passado e nunca aqui, no meu forno de Bolos, relatei eu, a viagem fabulosa que tivemos.

Talvez por estar a precisar de um banho de urbanismo - armada eu em pseudo-intelectual, urbano-depressiva, pensam vocês. Mas não. Toda África não cabe num Blog, nem em qualquer Livro. Enquanto que Nova Iorque é uma cidade da qual apetece fazer cromos para ir colando na caderneta, coleccionar todos e no fim ainda receber um poster para colar na porta do armário!

NYC caiu-nos entre uma nova vida em Moçambique e uma viagem inesperada a Lisboa. Para mim uma segunda vez, para ele, uma estreia absoluta. Tenho inveja de quem vai a Nova Iorque pela primeira vez, tal como de quem lê “Os Maias” pela primeira vez.

É uma cidade tão democrática, como nos filmes: todos temos direito a um papel, mesmo que secundário, ele existe para cada pessoa que lá vai. Todos temos direito a tudo. É uma alegoria intensa, uma parábola de Aristóteles, uma cidade que parece feita à medida do Homem, pelo Homem, preenchida por Homens.

Eu tenho cá a minha teoria de que toda a gente devia contactar aquele mundo – perceber que até ali o Homem chega. À pureza das coisas mais humanas, mais materiais, mais fúteis, mais ostensivas, mais físicas, mais evoluídas, mais sofisticadas.

No outro dia, em conversava com um bom amigo do Ibo, acerca do que é a felicidade, se é viver em comunhão com a natureza, se é ter coisas, se é ser alguém, ele disse-me: “Sabes, Rita, felicidade é para nós poder escolher. Felicidade é conhecer o “outro” lado e mesmo assim decidir ficar aqui.”

É isso, então.

7.2.11

Luz no Ibo

Sábado, 29 de Janeiro de 2011

Que fique para sempre registado nos anais da História que nesta noite a luz eléctrica regressou ao Ibo (mesmo que tenha sido apenas por uma noite, de testes de equipamento). Numa noite que começou por ser um dia cheio de calor e de humidade, um dia de chuvas anunciadas, depois de um ciclone que esteve para chegar, aparecendo nas notícias por todo o País. Haveria de chegar na noite de dia 27 um ciclone ao arquipélago das Quirimbas, na Província de Cabo Delgado. Um ciclone! E no Ibo, durante dois dias não se falou de outra coisa. Os pescadores recolheram-se, tal como as suas redes e os seus barcos. Assistimos a muitas discussões entre eles, e nem o barco-chapa iria sair para ir ao continente levar/trazer os passageiros.

Mas passaram dois dias e o ciclone deve-se ter perdido pelo fundo do mar. Houve sim, muito vento, que quase roncava, culminando na noite de sábado, dia 29, com uma chuvada e um espectáculo de trovoada e de relâmpagos que meteram a pirotecnia sofisticada da noite de passagem de ano da Madeira num chinelo.

Começou pelas 18h00, em que já era praticamente noite, mas o céu ainda com uns tons de azul-escuro e cor de alfazema. Estávamos junto ao mar, em casa da nossa amiga Lucie, em que do outro lado avista-se a terra firme e tal como se estivéssemos numa plateia, fomos assistindo aos clarões da trovoada que varria todo o continente. Umas nuvens negras e gordas aproximavam-se de nós, e os clarões e os estrondos desencontrados, eram de segundo a segundo, sem interrupção. Uma coisa a que eu nunca assisti, sem ser nos filmes.

A pouco e pouco começamos a sentir as primeiras gotas e o inevitável aconteceu quando toda aquela trovoada nos começou a engolir. Não eram raios, eram veias de luz que se abriam sob as nuvens, como se fossem raízes de árvores zangadas. Por segundos ficava dia e os nossos olhos não tinham outro sentido que não fosse o céu. E nós aqui, no meio de uma ilha, a sentirmo-nos tão pequeninos e impotentes perante a força da natureza – eu tenho uma teoria que me diz que é nestas alturas que a natureza nos mostra um décimo daquilo que é capaz de fazer, como que nos deixando um aviso, um recado da sua capacidade tão misteriosamente contida. Imaginamos também o que seria estar num barco, no meio do mar a assistir a tudo isto. Um misto de excitação com medo!

Aguardamos até a chuva acalmar um pouco para sairmos para nossa casa, que ainda fica a uns 500 metros de distância. Fomo-nos salpicando com um intervalo do combate entre a chuva e a trovoada, se bem que aqueles relâmpagos em forma de veias iam continuando, mas agora mais em silêncio. Foi quando começamos a atravessar a Avenida principal da Vila que eu notei num tom alaranjado das casas, em sombras, e em focos de luz, foi aí que me soltou um grito: “Luz! Olha, a luz!”.

Todo o caminho até casa, em que a chuva deu-nos tréguas, cruzamo-nos com duas ou três pessoas mas com todas comentamos: “Luz! O ibo tem luz!” E todas sorriram como nós, como se tivéssemos descoberto petróleo no meio das rochas.
É curioso como nos sentimos tão ridículos tanto perante um espectáculo da trovoada, como a apontar para um poste de iluminação como se estivéssemos a ver uma aparição. Ficamos os dois parados no meio da rua a ter a certeza do que víamos, foi quando percebemos que as ruas principais da ilha estavam com luz.

Até mesmo à porta de nossa casa temos um poste, e de lá iluminou-se o interior da casa, que entre as janelas deu-nos uma luz alaranjada, como se fosse uma memória de uma outra casa, numa outra cidade, numa noite de chuva. Também dentro de casa ficamos alguns minutos a ver a sombra da luz que incidia sob o nosso quarto e o escritório (onde eu agora escrevo, dar-vos-ei essa imagem em breve).

E agora as opiniões dividem-se: os “puristas” do Ibo defendem o Ibo assim como está, sem luz nem rede de telemóvel, pois ele só é um lugar tão especial e tão mágico porque de noite acendemos velas, vemos as estrelas e a via láctea, somos nós que escolhemos a quem comunicar e não o contrário, aprendemos a viver com o essencial e somos livres do telemóvel e da tecnologia, na verdadeira origem do ser humano. E as notícias acabam sempre por chegar, e as pessoas gostam de aqui estar.

Depois há os “progressistas” do Ibo, que defendem a necessidade de luz e de comunicações como condição essencial para a evolução da Ilha no sentido mais produtivo que ela tem, que é o do Turismo. Só se consegue que venham mais pessoas ao Ibo havendo um mínimo de condições a garantir, como por exemplo uma caixa multibanco! Mas não irá por acabar por perder o seu encanto?

A discussão está na mesa e na ordem do dia, mas o que a mim mais me fascina é eu estar aqui a assistir a esse momento, como se assistisse aos romanos a construir as estradas. Ao principio de tudo, em que cada dia nos dá uma surpresa, uma nova descoberta.

1.2.11

Ibo, 1 de Fevereiro de 2011

Meu Querido Avô,

Já há algum tempo que lhe deveria ter escrito a contar todas as coisas que tenho vivido em Moçambique – além de que quando vim para cá, nunca lhe expliquei isso realmente, achando que o Avô iria talvez ficar confuso.

Eu vim para cá com o Alexandre, pois resolvemos iniciar uma nova experiência na nossa vida, uma nova aventura, bastante longe da nossa família, mas com a bênção e o apoio de todos. Que eu tenho a certeza que o Avô também apoiaria esta nossa decisão – confesso-lhe que apesar de ter sido bem planeada, não deixou de ser uma grande mudança na nossa vida.

Nós vivemos no norte de Moçambique, na Província de Cabo Delgado, onde há muito existiu a Companhia do Niassa, que o Avô deve ter ouvido falar certamente, no tempo das colónias. A cidade capital da Província é Pemba, antiga Porto Amélia e nós estamos entre a cidade e o mar, na Ilha do Ibo, no Arquipélago das Quirimbas, ao Norte de Pemba.

Vivemos ora uns dias em Pemba, onde tal como nos filmes dos cowboys, temos de ir à cidade comprar mantimentos, ir ao Banco e aos Correios, tratar de assuntos, ora uns dias no Ibo, tal como o dia de hoje. Hoje estou no Ibo. A 9.000 e tal kms de distância de Lisboa, onde é preciso fazer uma viagem de barco, 120km de estrada e apanhar 2 aviões para chegar até ao pé de si.

Estou longe, Avô. Mas sinto-me sempre perto, porque aqui há muita coisa, tanta coisa em que eu revejo todas as pessoas de quem gosto, tal como o vejo a si em todos os pássaros que não me canso de observar. Há já um grupo considerável de pessoas que dizem que o Ibo é um lugar muito especial para a observação de pássaros, espécies muito raras e outras mais vulgares, que formam uma comunidade de centenas de aves. Hoje no nosso jardim, e nestes últimos dias, temos tido a visita de imensos pássaros que andam todos a acasalar e a fazer os ninhos, além de virem comer as minhocas que andam no chão e que saem cada vez que cai a chuva. Além dos tecelões, amarelo vivo, e das rolas cor-de-rosa pastel, há uns muito pequeninos azuis turquesa e cinzentos, outros todos cinzentos, com rabo de papagaio e com os olhos pintados de encarnado, também vi e fotografei um pequenino de peito encarnado fogo, asas pretas e bico arredondado preto – que muito elegantemente se punha de cabeça para baixo num ramo de uma árvore. Ficou uma bela foto!
Tenho andado com a máquina a ver se os consigo fotografar, além dos binóculos, que a Mãe que ofereceu ao Alexandre, e que nos deixam vê-los tão nitidamente como se estivessem na televisão.

Além destes pássaros que andam pelas árvores e pelo nosso jardim, há todas as maravilhosas aves que vivem no mangal e na praia sempre que a maré está baixa. Flamingos, cegonhas, pelicanos africanos (todos cinzentos), garças, gaivotas, são muitas e de todos os tamanhos, feitios e cores.

Ontem pelas 17h00, 15h00 em Lisboa, sai para ir correr com o por do sol. Corri uns 50 minutos, num passo muito calmo, com o Alexandre mais lá à frente e fiz uma volta pela Ilha. Estava uma tarde muito calma, sem vento, e com uma temperatura tão morna que tudo estava suave. O verde, as crianças a jogar à bola, a maré serena, as nuvens tingidas de cor de rosa e laranja líquido, o cheiro das fogueiras que se acendiam para fazer o jantar, cozer o pão ou queimar as folhas secas.

Junto ao mar havia muitos caranguejos, que nesta altura vêm para dentro da Vila, numa espécie de êxodo rural, que nem eles próprios devem saber porque se vêm meter aqui. O sol ia descendo ao mesmo passo que as cegonhas pousavam nos ramos do mangal em frente, num ritmo sem pressa, como se cada segundo bastasse para sentir o mundo inteiro. E eu passei na minha corrida por todo este cenário, como se desenrolasse um filme na minha frente. Suava copiosamente, mas sentia-me bem e o meu corpo devolvia-me a mesma sensação desse final de tarde. Estava uma luz muito nítida, que chegava em missão de paz para terminar o dia na Ilha. E eu terminei a minha corrida!

O Alexandre e eu fizemos o jantar e ainda jogamos cartas, rindo muito. A atmosfera tinha-se tornado mais densa pela noite dentro, ficando um calor insuportável. Às 5h00 caiu finalmente a chuva e só com ela voltou a brisa e o vento que refrescou toda a ilha e a soltou de uma humidade atroz que se tinha instalado noite dentro. Acordei com a chuva que entrava pela janela do quarto, com o vapor que me molhava a cara! Sobressaltados saímos da cama e fomos fechar a janela. Foi o Alexandre que viu a mensagem, foi ele que ficou com uma cara triste e foi ele que me contou que o Avô já não estava cá.

Mas hoje os pássaros continuam aqui no meu jardim, e eu vejo-o aqui sentado com os seus livros a observá-los. E ainda passam borboletas e libelinhas flutuadoras, que olham para si e contornam o seu corpo, cumprimentando-o com um sorriso.
O Avô estará sempre por aqui então, já sei onde o encontro. E o Avô já sabe por onde eu ando, pode ser que me veja pelo olho de um pássaro - do mais belo pássaro do mundo.

Um grande beijo da sua neta,
Ritinha (do Bô)

P.s – Não posso deixar de sofrer com esta distância a que encontro da minha família, num momento tão difícil e triste para todos. Só quero que sintam paz e amor nos vossos corações, porque o Avô era um coração cheio de amor, um homem cheio de bondade que a mim me ensinou que “tudo passa”. E que se é sempre feliz quando se ama alguém de verdade.