30.6.12

Tabelas


Uma secretária, duas pessoas.
Na parede do lado dele (direito), um quadro com a preparação para a Maratona de Amesterdão em Outubro. São 18 semanas em que à sexta-feira e ao domingo descansa, e de resto o homem corre como um refugiado perdido no deserto.
Do meu lado (esquerdo), uma escala de nomes a cores, para escrever uma história interminável até 27 de Janeiro de 2013.
Não, não é o super divertido cadavre exquis em que estou metida com a Macaca, é outra coisa que foi combinada com um outro grupo de "gente que não se acaba". (lá mais para a frente irei falar sobre isso de "gente que não se acaba"). 

A tal never ending story começa dia 2 de Julho e a patir daí, todas as semanas, até Janeiro do próximo ano, escrevemos uma história em que cada um (somos 6 escritores, 3 rapazes + 3 miúdas) acrescenta 9 linhas por semana, sempre sob o mesmo documento, ou seja, vamos seguindo as histórias uns dos outros. Vai ser uma cena supimpa!

Entretanto, não é despropositado que no meio esteja uma foto de nós os dois!
(isto são imensos progressos neste Blog, hein?)

Pois assim como nas tabelas que os dois colámos na parede, tão distintas e diferentes, também na nossa vida acredito ser desse equilíbrio que resulta uma relação a dois. 
Cada vez mais me convenço que o que faz a coisa resultar, é o universo que cada um transfere ao outro e lhe remete em alturas diferentes da vida. Ao fim de 12 anos de casamento nunca o meu marido se tinha preparado para correr uma Maratona, ou eu escrito histórias intermináveis.
É desse surpreender, mantendo aquilo que cada um é na sua essência, de que se alimenta um amor, que dizem ser, para toda a vida.
Correndo maratonas ou escrevendo, o que importa, no final disto tudo, é fazer-se aquilo de que se gosta.
Não há grande segredo afinal.
Só o Pepe le Pew pode ser um segredo, mas eu também não posso contar tudo!

28.6.12

Ninguém gosta do meu Blog

Hora de almoço e trabalho entre amigas e Lifestories.
Falamos de tudo e mais um par de botas e definimos estratégias, reuniões, empresas a ir, encontros a marcar.
Partimos para o que está a dar, os Blogs de agora, as cenas mais in, etc, etc...
Blogs com 20.000 visitas por dia, coisas que as pessoas põem no Facebook e têm 500 likes, frases soltas como "Granda sol, granda calor, bora lá curtir, bom dia!!" que originam 213 comentários.

E eu digo: Ninguém gosta do meu Blog.

E elas dizem: As pessoas querem pensamentos e desabafos sobre as calças fluo da Zara ou do "ex" que dormiu com a melhor amiga. A malta quer coisas giras, vasculhar a tua vida, saber o que comes, com quem dormes e o que fizeste no fim de semana.

Saber o que te vai na alma é uma seca, Rita.

Concluímos as três ser efectivamente um factor de sucesso para um Blog, uma receita que não me assiste.
Mas, eu não desisto, eu não desisto! O bolo de arroz é o meu alter-ego e eu respeito o meu lado interior e contemplativo.

Mesmo assim, e sendo que uma blogger bem resolvida, tirei uma foto a parte do "meu canto". Aqui está o meu lado mais pessoal, as coisas minhas.
Para lá disto, só mesmo tirar fotos das minhas unhas e dos meus pés, da minha gaveta das meias e afins.

Cá vai. Pode ser que assim alguém vá achando mais piada a esta pastelaria.


P.s - e nem a propósito, subindo hoje a Rua Garrett a caminho de casa, cruzei-me com a Pipoca Mais Doce, a própria rainha dos Blogs em Portugal.

27.6.12

Os novos contos de fadas.


Lisboa. Final da tarde, 40ºC à sombra.
Para quem não sabe, Lisboa vive dias de calor inqualificável. Podemos ir desde o deserto do Saara, ao centro do vulcão, ao planeta Vénus, you name it! Está um calor horrível, impraticável.
Sim, eu vivi no Norte de Moçambique, sim, numa Ilha no meio do Índico, sim, de solo rochoso, quente como a mais quente das pedras, sim, mas não era tão quente como aqui e sim, suportava-se melhor.
Continuando.

Lisboa está há 3 dias debaixo de uma onda de calor que produz efeitos, como por exemplo, as sandálias descolarem-se e rebentarem no meio da rua, o que leva a pessoa a andar descalça e atravessar ruas e passeios de pés no chão até ao sapateiro mais próximo. Dito isto, e tendo gente que me olhava incrédula (há uma primeira vez para tudo, até para se ver uma tipa com bom ar descalça, de pés na calçada a chamar um táxi em plena Avenida principal da cidade) todo o meu dia foi um desafio ao calor, tendo que andar de lugar em lugar pelo meio da cidade cujo alcatrão, vos digo, ferve como chapa de fazer ovos estrelados.
O dia vai caminhando para o fim. As temperaturas mantêm-se. Em África, sente-se o calor a diminuir, há uma quebra da temperatura, há alívio. Aqui, na capital do império, não há alívio nenhum, parece que estamos permanentemente dentro de um forno a 200ºC ventilado.
Então, as coordenadas do meu tom-tom levam-me até ao "meu" Jardim. Talvez lá se possa aliviar este calor horrível. Sombras, relva, água, bichos.
Tarefas: Revisão de um conto que pode vir a fazer parte de uma futura colectânea & Preparação de um workshop de escrita de histórias infantis para o qual fui convidada a participar nos próximos dias! (só coisas boas)
Lugar: Jardim da Gulbenkian
Sítio: Sentada na relva, numa sombra.

E assim, maravilhosamente instalada, estive eu a rever o conto do "Sentido da Vida", atenta ao movimento de quem passa. Pais, meninos e meninas, namorados, amigos, côdeas de pão, mantas, patos, patas, crias, melros, pombos e cágados.
Depois deitei-me na relva, fechei os olhos, assim como a Alice, e fiz parte daquele cenário. O chão fresco em contacto com o meu corpo era um bálsamo mais do que suficiente. Pensei em fadas, dragões e princesas, como seriam o que comeriam ao pequeno-almoço, qual o seu nome próprio.
Sim, eu vivi no Norte de Moçambique, sim, numa Ilha no meio do Índico, sim, era um lugar mágico, mas o de ontem também o foi.
E num único momento aqui relatado, consegui juntar quase tudo o que mais gosto: escrita, contos e imaginação sem limites, bichos e um jardim misterioso no meio da minha cidade.
Só faltou o meu Príncipe, para tudo isto parecer um verdadeiro conto de fadas.
Mas não foi ele que salvou a sua Cinderela com o sapatinho  de cristal (remendado)!
Teve de ser o Sr. Carlos, o sapateiro, que por 1€ me pregou as sandálias.


25.6.12

Conversas do Divã #5


A Perfeição.

O que é uma coisa perfeita? Uma saia bem cosida, um quadro bem pintado, um tempero no ponto, uma música bem tocada. Mas quem diz o que é bem, bonito e no ponto?
Ora bolas!
O que é a perfeição, onde se define, onde está a regra, quem diz que é, uma régua, uma balança, um metro?
A perfeição, na minha perspectiva, estaria sempre em primeiro lugar na arte. Pensei sobre isto uns dias, mas depois cheguei à conclusão que isso é subjectivo, o bastante para eu dizer que afinal já não é.
As minhas certezas são minhas, não são as do mundo.
A perfeição estaria então em padrões universais, coisas que são do domínio do mundo, ex: não mates que isso é mau. Mas mata-se na mesma, e vai daí, no domínio da ética e do bom senso também é uma gaita encontrar a perfeição.
Esgravatei, procurei e ao fim de ter estado a pensar nisto durante uns tempos encontrei a perfeição na natureza!
A natureza. A vil, má e agressiva natureza, cruel e crua selva da vida selvagem.
Ela entende-se em si própria, orienta-se, sempre o fez. Sendo que apenas a presença do Homem a fez desiquilibrar-se, pois durante milénios não fomos precisos para nada.
Ela é, para mim, a aproximação do perfeito. Com todas as imperfeições que tem, com toda a crueldade que dá ver uma leoa a comer um gnu acabado de nascer no meio da Savana, ou uma orca a abrir a boca e engolir três focas bebés que apanhavam um solinho na rocha. É assim, sempre foi.
A perfeição aproxima-se assim de uma quase auto-gestão organizada e contínua, cíclica e compassada. Com todos os tsunamis e terramotos, porque todos eles já tinham sido escritos no centro da terra há biliões de anos atrás.
A relação entre Homem e natureza é o desafio constante à perfeição, tentanto mater-se naquele limbo de forças e de capacidades superiores. Que para mim, será sempre a segunda que vence.
Mas também é verdade que é graças ao Homem que hoje temos um conhecimento e um contacto com a vida selvagem como nunca existiu. As séries primorosas da BBC Earth reclamam para si o espéctaculo e a quase perfeição da captação de imagens e do desenvolvimento de projectos únicos, nunca vistos na História da humanidade, como o recente documentário sobre os tigres selvagens no Butão.
Cada vez mais estes programas são mensagens de esperança na terra, de que o Homem é capaz do mal, mas também é nele que está a fonte do bem. Sabendo viver com a sua própria sombra, o Homem, assim como uma árvore milenar, é uma fonte de sabedoria e é dele, e da sua relação com a natureza, que podem resultar coisas perfeitas.
Coisas ao nível do milagre.

E já agora: porquê a imagem dos três macacos?
Além de vir a propósito do tema, parece que o Bolo de Arroz está num projecto bem divertido com as Três Macacas do Sotão!
Novidades para breve, estamos em pulgas!

22.6.12

É hoje!


O meu marido, cara-metade, companheiro, eterno namorado, o que quiserem, chega hoje a Lisboa depois de 15 dias de pura loucura a acompanhar a Selecção Portuguesa no Euro 2012, Polónia abaixo, Ucrânia acima. Viagens de camioneta, carro, comboio, autocaravana, boleias e mais aviões com ligações intermináveis.
Apareceu várias vezes na televisão (SIC) e chegou mesmo a dar uma entrevista para a televisão russa.
Já chorei, morri de saudades e já cheguei a planear a minha total indiferença, do género: ele chegar a Lisboa, eu a sair de casa para um jantar de amigas e deixar-lhe uns croquetes fritos da semana passada com puré cheio de água no fundo.
Mas agora, estou aqui que não me aguento!
Apesar de ele andar há 15 dias com a roupa enfiada numa mochila e do odor que tudo isso deve emanar, não vejo a hora de o abraçar, beijar e ao mesmo tempo dar-lhe um banho de creolina, enquanto vou amuando e justificando as minhas compras nos saldos, fruto da carência afectiva de que fui vítima nestas duas semanas.
Dizem que o amor é assim mesmo. Não façam pouco.

21.6.12

Riquezas da vida



Foi acerca das minhas nódoas negras que, aliás, continuam.
Duas vezes por semana lá vou eu rua abaixo, calçada acima.
Este é um dos estúdios que usamos para as aulas de Ballet e Contemporâneo.
Os alunos estão agora a escassas semanas das audições, para entrar na Escola Superior de Dança. Eu apenas estou a escassas semanas de ficar sem aulas.
Para o ano, se assim for possível, regresso ao Ano Zero. Assim, será até ao infinito, que a mim já não me apanham nas audições!

Mas, e o gozo que dão estas aulas? Estas horas de música e de coreografias, exercícios e alguma palhaçada, como convém? E os meus colegas, miúdos fantásticos, que todos os dias têm aqui aulas ao final da tarde?
A Adelaide, que é de Braga e veio viver para Lisboa, alugou uma casa em Sintra, trabalha todos os dias no Colombo, na Loja da Zippy, e espera este ano conseguir entrar na Escola.
O Fábio, a quem os Pais sempre negaram o sonho de seguir Ballet, foi para as danças de Salão, mas afinal era só para confundir os Pais, e assim que conseguiu, meteu-se nestas aulas para preparar a audição em Julho.
E o Angelo, Professor de Fisico-Química, mas na verdade o que ele quer é ser bailarino, dá aulas num Liceu durante o dia, e ao fim da tarde dedica-se à dança que sempre quis?
Todos são seguidores do seus sonhos e eu gosto de estar no meio de sonhadores! 

Para além de, e especialmente nas aulas de Ballet, ter o privilégio de ter uma Professora (com menos 10 anos do que eu) que quando simplesmente marca um exercício põe as pernas a 90 graus, estica o pé numa ponta perfeita, mexe os braços como se fossem asas. Tem um corpinho quase de aspecto enfermo, a pele transparente, os olhos fundos, o cabelo, que ela raramente solta, é comprido, como comprido é o cabelo de uma bailarina, e quando dança (com uma tal maneira enfadonha de marcar os exercícios) deixa-me sempre em estado de alienação.
Conseguia ficar horas a vê-la dançar.
Tudo nela faz sentido, e é isso que deve distinguir um enorme bailarino de um bailarino bemzinho. É a forma como tudo se conjuga na pessoa, como a sua presença só nos pode remeter para a certeza de que estamos perante alguém para quem a dança faz parte de si.
E quem tem isso, seja com a dança ou com qualquer outra coisa, é dono da maior riqueza do universo.


20.6.12

Eu e os estendais



Mais uma bem dita vizinha que fez uma máquina de lavar peluches!
E como eu adoro o efeito dos bichos pendurados na corda. Uns pendurados pelas orelhas, outros pelo rabo!
Ora, desta vez, encontramos: um urso polar, um cão tipo dálmata e mais outro cão branco.
Foi sem dúvida uma escolha de cores.
Há então, para a vida dos peluches, assim como para a da nossa roupa, máquinas de peluches escuros e máquina de peluches brancos.
Já sabem, se virem estendais destes por aí, fotografem e partilhem com o Bolo de Arroz!

17.6.12

Go Harley or Go Home!


Não percebo nada de motas. Zero.
Mas se aquilo que a Harley-Davidson quer e deseja é que uma pessoa que não percebe nada de motas, nem nunca gostou, pensasse que, se um dia tivesse uma mota, seria uma Harley, então conseguiu!
Se um dia, numa outra vida, eu for motard, vai ser um com uma Harley-Davidson.
A marca tem agora todo o mérito da vida, porque converteu uma total analfabeta das duas rodas.
À mesma hora das couves e dos patos no Terreiro do Paço, em Lisboa, com o Tony Carreira e o Continente, havia em Cascais cerca de 6.000 motas, a desfilar pela Estrada do Guincho até à Baía.
Até hoje, decorre em Cascais, o 21º Encontro Europeu de Harley-Davidsons!
Não se vê uma Harley igual a outra (não sei sequer se é esse o conceito da marca, como disse, conheço abaixo de  menos um), há motas que chegam da Polónia e da Áustria, há lustre puxado nos escapes, há peluches de mascote, coletes em pele e t-shirts oficiais da marca, pessoas com idade para serem meus Pais e alguns Avós. 
Diz quem vive em Cascais há mais de 40 anos, que nunca se viu Cascais assim: tão animado, tão vibrante e colorido! 
You go Harley!
(eu disse, fiquei convertida!)

14.6.12

Das coisinhas da vida #7

Dos irmãos e das irmãs.


Eu tenho um irmão mais velho. Somos um casalinho, é verdade.
Aqui estamos os dois, num Verão dos anos 80 em Cascais, na casa dos nossos Pais.
O meu quarto ficava numa ponta e o dele noutra, entre nós havia um corredor. Como a alcatifa do quarto (sim, nesse tempo usava-se alcatifa) era de cor diferente da do corredor, costumávamos dizer: "Se pisas a minha alcatifa estás lixado(a)!". O banco de trás do carro era um campo de batalha, as nossas brincadeiras passavam pelos muitos insultos, tinhamos discussões típicas de miúdos.
Como todos os irmãos, tanto nos insultávamos como seriamos os primeiros a ir correr a salvar o outro. Comecei a sair à noite com o meu irmão e os amigos dele, e ele vinha comigo e com as minhas amigas. Foi com ele que aprendi a gravar cassetes, a gostar de comprar discos e a ir ao cinema.
Os anos foram passando e nós fomos crescendo. 
Os irmãos continuam a ser "os irmãos", mesmo já adultos, cada um em sua casa, com a sua vida. Por muito anos que passem, não se deixa de ser o irmão com quem se fazia colecções de cromos ou se comia a mousse de chocolate às escondidas.  
Ou seja, por muito que a vida nos leve a destinos tão diferentes ou distantes, há uma ligação que fica para o resto dos nossos dias.
Há piadas com que só os irmãos se riem e o resto fica sem perceber a graça, pequenos gestos, frases, memórias da vivência em conjunto que ficam para toda a vida e só os irmãos sabem o seu significado.
Os irmãos são os primeiros a ser criticados pelos seus próprios irmãos e os últimos a quem admitimos uma crítica de alguém. Ninguém pode falar mal dos irmãos, só os irmãos!
Há literalmente um pacto de sangue entre eles, seja onde for, aconteça o que acontecer são um por todos e todos por um.
É claro que há irmãos que se odeiam de morte, e que já em idade adulta não se podem nem ver, por circunstâncias da vida ou momentos em que as pessoas agiram de forma incorrecta e se tornaram más, magoando o outro.
Eu aqui refiro-me aos irmãos que mesmo em adultos, andando às turras, são os primeiros a descodificar a nossa cabeça, a perceber o que estamos a sentir, a dizer o que mais ninguém teve a coragem de dizer, a dar uma "chapada" quando é preciso e um abraço do orgulho de irmão quando é sentido.
Daí que, e fazendo um apelo aos Pais ainda em idade jovem, dêem um irmão ao vosso filho único. Julgo ser o melhor presente que se pode dar a um filho. É uma parte de vida que não nos pertence mas que faz parte de nós, que nos confirma e completa, que nos  protege e perdoa sempre.
São os outros olhos de nós próprios, é um outro coração que partilhou o ventre da mesma Mãe, o sangue do mesmo Pai, ou o amor genuíno de uma mesma família.


13.6.12

Aqui a Selecção festeja-se assim...


Na Rua de São Bento, em Lisboa, há a Loja do Depósito da Marinha Grande (vidros).
A montra tinha tão simplesmente este desenho do nosso Cristiano e do Rui Patrício (guarda-redes). Coisa meia sem jeito, desenho feito numa folha de Agenda de 2010 com uns autocolantes feios.
Mas eu adorei a ideia!

Aqui os Santos foram assim...




Há sempre formas diferentes de viver as coisas.
Apesar de estar a dois passos da autêntica festa dos Santos Populares (a Bica é liiiiinda!), optei por um serão a ver episódios em barda da nova série do Project Runway na Sic Mulher.
Não fui para o maralhal, mas vivo bem com o maralhal aqui ao lado. É giro ver o Bairro a mudar de cara.
O Metro da Baixa/Chiado encheu-se de festa e música, as barraquinhas animaram o Largo de Santa Catarina e até o Marco do Correio (onde eu costumo deixar cartas e o Flash também deixa, outra coisa, sem ser cartas) teve direito a companhia e a traje a rigor.

Hoje, nem era meio-dia, e já cheirava a sardinhas, chouriço assado e ao Quim Barreiros!
Quem gosta, gosta sempre.

9.6.12

No Euro

Hoje, dia do jogo da Selecção Portuguesa, está lá mais um adepto das Quinas.
É o meu querido Príncipe que embarcou na 5ªfeira à noite nesta aventura, para apoiar a nossa Selecção.
Ele disse-me: Eles, os rapazes, precisam lá de portugueses, de que torçam por eles no Estádio.
Eu respondi: Estou-me nas tintas para a Selecção. Eu preciso mais de ti.
É lindo, não é.
Ele não se demoveu e seguiu em frente, na camioneta Renex para o Porto, que era dia de greve. O avião saiu do Aeroporto Sá Carneiro directo à Polónia, onde chegou ontem. Hoje iria atravessar a fronteira.
Eu acho, sinceramente, que Portugal não tem grandes hipóteses neste Campeonato, mas se for pelo melhor adepto, o meu marido já ganhou o 1º prémio.

8.6.12

Começar e Acabar

É importante como os dias começam e acabam.

Dão-me a forma e o feitio do meu corpo, pela maneira como inicio e termino os meus dias. Servem de balança para sentir o peso dos ossos e dos sentimentos.
Se começamos bem, se acabamos mal.

Todos os meus dias começam da mesma maneira: com um passeio canino matinal. Eu faço o passeio da manhã, o meu marido o da noite. Sempre. A tarde divide-se, no passeio do Flash.
O passeio do xixi, cocó. Nada de especial, todos os dias são iguais. Dois sacos pretos de plástico, a trela, a chave de casa, eu e ele rua acima, rua abaixo.
Nos entretantos há outros donos de cães, que se chamam " o dono do/a..." , a dona do Mickey, o dono da Google, o da Alice, o do Kiko, a da Dark, a da Skin, e por aí fora.
Eu, na rua, e para o mundo dos cães, não sou a Rita, eu sou a dona do Flash.
Dizia eu, que uma destas manhãs, encontrei-me com a dona da Jade. Uma cadela boxer. Cumprimento geral ao dono e ao cão, pequena pausa para eles (os cães) brincarem um bocado.
A dona da Jade fala-me da dona do Mac, um labrador preto, muito parecido com o Flash, que chegam mesmo a ser confundidos um com o outro.
"Já sabe?" - disse-me ela.
Não! - respondi eu
A dona do Mac, nossa vizinha da rua do lado, tinha tentado o suicídio na noite anterior. Isto não é conversa, tipo o "Casos de Polícia", é mesmo a sério.
O marido tinha saído de casa, separaram-se, ela ficou com uma depressão. Certa noite encheu-se de remédios, mas depois, não se sabe como, foi a tempo de pedir ajuda. Veio o INEM, alvoroço na rua, partiram a janela da sala, num 1º andar, entraram em casa e deram com ela insconsciente e o Mac deitado ao seu lado.
Pronto, até logo.
Despedimo-nos.
Dou meia volta e sem ter qualquer controlo sobre mim, vão-me rolando lágrimas pela cara abaixo. Pensei no sofrimento daquela mulher, tão perto de toda a gente e tão sozinha, sentindo uma tamanha dor que a fez querer acabar com a sua vida. E o Mac, o seu cão, labrador preto, sempre ao seu lado.
A dona do Mac foi para casa de uns familiares e está bem. As janelas de casa estão fechadas, o vidro continua partido. Ela chama-se Maria.

E assim começou o meu dia.

Nessas mesmas 24 horas, saio na Estação de Metro do Chiado, onde acabam muitos dos meus dias, num regresso a casa pelo final da tarde.
Determinada, subo as escadas, as mesmas de sempre. Aquelas que têm sempre o mesmo velho a pedir esmola, o mesmo a quem eu sempre olho. Mas ele nunca me olha, nunca estende a mão. (já escrevi sobre ele aqui).
Foi quando estava a preparar-me para vê-lo no mesmo degrau, com a mesma cara, que me deparo com a sua ausência. Afinal, não estava lá sentado. Estava de pé. E estava a conversar. E ria-se, ria-se sem dentes na boca como uma guitarra sem cordas, mas que ainda se lembra das notas.
Estava a conversar com o segurança da Estação do Metro e parecia contente.
Vi-o pela primeira vez em pé, um homem que eu achava que toda a vida tinha estado sentado e calado a pedir esmola e que nem saberia usar a boca para nada. Afinal sorria. E falava. E tê-lo visto no final da tarde, fez-me sorrir automaticamente. Assim como lembrar-me de como tinha começado o meu dia.
E assim, diz o povo e digo eu:

Tudo fica bem quando acaba bem  - All's well that ends well - Tout est bien qui finit bien

6.6.12

Bairro do Amor | Lifestories



clicar no vídeo para ficarem a conhecer um dos projectos da Lifestories em co-parceria com a Cidade na ponta dos dedos e a Vespazul!

Na ponta dos dedos!



4.6.12

Conversas do Divã #4


O que nos move.

Nada me parece ser mais complicado, do que falar sobre a motivação. Por que é coisa tão simples. Será?
Quando me questiono sobre o que me move, parece-me fácil responder. Mas não é.
É um clichézinho da vida, pois a todos assiste a capacidade de se ser motivado, ou motivador, mas depois não sabemos o que fazer com isso, nem para que serve.
É o que se passa comigo.

Se me move a escrita, se gosto de escrever, por que não termino de uma vez por todas com a malograda-sempre-a-última-que-depois-acaba-mesmo-revisão-do-meu-primeiro-Romance? por que não começo de uma vez por todas com o meu novo-sempre-com-vontade-de-o-escrever-mas-nunca-é-aquela-altura-e-quando-é-tenho-de-ir-fazer-uma-sopa-segundo-Romance?
Eu sei que há coisas que me motivam, que me movem. Sei e digo afirmativamente que o que me move é a minha própria existência no mundo e sentir-me parte dele. Ouvir as andorinhas ao final do dia, ver a roupa estendida nas varandas e os canários nas gaiolas, a melancolia do Tejo em dias cinzentos de chuva miudinha, o cheiro de uma memória africana, o meu amor pelo meu marido, haja o que houver, aconteça o que acontecer, conhecer a amizade verdadeira que não cobra, não julga, não se intromete. O meu cão a correr pela praia com uma bola de ténis na boca, um tacho de panela de zinco com colher ao lume, o bailarico do Arraial, o cheiro das sardinhas, os sinos da Igreja, as escadinhas e os becos calcetados de povo e de vida. A sala ampla no final da tarde, de janelas abertas e arejadas, o chão de linóleo branco, as paredes forradas de espelho, as barras pregadas em madeira escura pregadas, a música e o exercício, as minhas sapatilhas a empurrar o chão.
Mas será que chega?
Entra uma joaninha pela janela e aterra na minha secretária. Isto move-me. E deixa-me tranquila, a passo com o mundo, com o sentido que a vida me tem – seja ele qual for.
E se um dia já não servir?
Quando chegar a essa altura, logo vejo o que faço com aquilo que sinto.

Há uma frase linda, perfeita que ouvi da boca de uma personagem do Downton Abbey:  "I'll cross that bridge when I get to it"

Talvez a motivação chegue enquanto aguardamos pela travessia.
Acho sempre mais sensato ouvir no silêncio, do que falar no barulho.


Nota: foto de escultura da exposição "ZITMAN em Lisboa", até 28 de Junho no Palácio Quintela (Rua do Alecrim, 70 www.iade.pt)

3.6.12

O Bolo foi ao Santo António!





Ontem fui aos Santos.
Alfama. Escadinhas e Becos. Arraial. Sardinhas. 76 mil estavam no Rock in Rio, outros 60 mil no Estádio da Luz. Eu estava no meio do povão e dos turistas, triste pela bateria da máquina que não me deixou registar uns belos postais ilustrados.
Jantou-se sardinha gorda, febra bem grelhada, subimos ruas, descemos escadinhas, há caldo verde e pipis, há tremoços e pevides, sal grosso na salada, arroz doce, cerveja, sangria, água serve para baixar o lume.
No Largo o bailarico, música assumidamente pimba, como eu gosto, mulheres a dançar com mulheres, homens sentados na porta da Igreja a "controlar as febras", um copo de ginginha.
Fado e guitarra portuguesa, ainda há sardinhas na caixa e fumo do assador, farturas polvilhadas com açúcar e canela.
Ir de 28 e voltar de táxi, resingão, a dizer mal de tudo, andam a roubar quem trabalha e isto era bom era no antigamente.
Gosto mesmo desta minha cidade que é Lisboa. Gosto tanto.

1.6.12

As crianças-crianças





O Segredo do Homem é a própria infância.
Dr. João dos Santos

Anybody who has survied his chilhood has enouhg information about life...
Flannery O'Connor 


Naquele lugar, as crianças não sabem que são crianças. Não têm consciência de que são ingénuas, inocentes, inconsequentes. São o que são: crianças. Eu sempre soube que era uma criança quando o era, por isso acho que nunca o fui verdadeiramente. Ou seja, nunca se é verdadeiramente criança quando se tem a consciência de que se é criança.

Tenho a ideia que a maioria das crianças tem uma consciência de si, especialmente aquelas que vivem no dito mundo ocidental. Todos os dias, os Pais, os Avós, os vizinhos, os professores, a televisão, a publicidade, o mundo as avisa constantemente de que são crianças. Há o culto da criança, por assim dizer. Psicólogos, psiquiatras, sociólogos e educadores profissionalizam o ser criança, tornando-o numa espécie de Instituição. A infância encerra em si todos os desígnios da vida adulta, está escrito nos livros. E assim, neste mundo, dito civilizado, ser criança é talvez o estado de vida mais estudado e investigado por toda a humanidade.

Depois há os lugares, onde nada disso existe. Onde não há qualquer olhar elaborado a uma criança. Onde uma criança é como um cabrito: nasce, bebe o leite da Mãe, pendura-se no seu corpo e quando já anda sozinha, vai descalça pela rua e procura pela sua própria comida.

A razão da profissionalização da infância é inversamente proporcional à quantidade de adultos e crianças de um determinado meio. Assim, quanto mais envelhecida está uma população, mais se santifica o estádio infantil, enquanto que onde há crianças a sair debaixo do chão, dão-se-lhe pontapés como se fossem pedras.

Naquele lugar, em África, todas as crianças não sabem que são crianças. Andam aos molhos, como manadas de cabritinhos, sempre a gemer, sempre a chorar, sempre a rir, sempre a gritar. Andam como um chorrilho, como cabelo embaraçado, umas nas outras, não se distinguem, misturam-se.   

Andam sempre descalças ou perdem os sapatos facilmente, porque os pés crescem depressa. Os dedos dos pés muito afastados, as mãos muito abertas. Penduram-se às costas, enroladas nos panos, penduram-se nas mãos dos Pais, num equilibrismo cómico, penduram-se onde se conseguem agarrar.

Crescem, sobrevivem. Crescem como crianças, nunca o sendo. Mas em tudo se parecem com as “outras crianças”. Os risos, as brincadeiras, o querer subir a uma árvore, correr mais depressa, mergulhar mais fundo e apanhar um peixe. 

Em África, é fácil confundir o quotidiano dos homens com o de uma prole de leões, ou com uma família de elefantes. A natureza é a força superior; daí virá a razão pela qual os homens tenham tanta dificuldade em compreender África, se não antes assumirem uma posição submissa perante a natureza e os seus desígnios.  

E tal como com os animais, estas crianças começam por deixar as pegadas na areia, um rasto de inocência não sentida, de brincadeiras atrás das gaivotas, como pequenos fugitivos, a jogar à apanhada.  

As crianças-crianças, tal como os animais, não têm qualquer ideia do passado nem mesmo do futuro, apenas vivem um dia de cada vez. Em África vive-se um dia de cada vez. Havendo o suficiente para cada dia, há o que é necessário à própria existência da pessoa.
As crianças vivem um dia de cada vez, o que significa que não têm desejos. Se o desejo é uma coisa que se quer ter e não se tem, elas então não desejam. Apenas sonham. Fantasiam.
A fantasia das crianças-crianças não pressupõe uma existência real do objecto – elas não desejam carrinhos, bonecas ou passeios de bicicleta. Elas fantasiam. E normalmente uma fantasia tem um carácter muito mais etéreo, longínquo. Quase inalcançável.

As bicicletas caem do céu. Ou se é um construtor de bicicletas ou então sonha-se com o dia em que caia uma do céu. Os carrinhos e as bonecas fabricam-se com cascas de coco, restos de pano, latas de atum e bocados de borracha de um pneu. As coisas não se “ganham”, não se pedem. Cria-se a fantasia, produz-se. Resulta num carrinho ou numa bola de futebol. Tudo fica nas suas mãos. O dinheiro é assim uma coisa difusa. 
A inocência destas crianças é-lhes tão natural como a ideia que elas não possuem do que está certo ou errado. O que faz mal, o que está bem feito. Faz mal chorar? Faz mal errar? Não se deve voltar a cometer o mesmo erro?

A seguir às aulas tomam banho na praia. Tomam conta uns dos outros, mas não sabem o que é “tomar conta”. Não precisam disso. O mais importante é não perder os sapatos quando se despem para mergulhar e apanhar conchas e linguados debaixo da areia, sob a água totalmente transparente. Na praia estão outros meninos. Chegam a ser mais de 20. Tomam conta uns dos outros. Não se vê um único adulto a olhar por eles. Ninguém os vê, mas eles não deixam que algum se afogue, não brincam fora de pé, não molham as roupas da Escola, não perdem os sapatos, nem deixam que a maré lhes leve os livros de folhas comidas.
Sabem, pelo movimento dos barcos e dos pescadores, quando são horas de voltar para casa. Vêm pelo pôr-do-sol o fumo suave do pão que começa a cozer.

Em casa, tomam banho de água doce pelo balde que puxam do poço, limpam-se umas às outras, vestem-se umas às outras, entrançam os cabelos e penteiam-se umas às outras. Dormem umas com as outras, brincam com os morcegos na luz dos candeeiros e choram por tudo e por nada. Não sabem porque choram. Colam-se umas às outras e assim crescem. Nenhum adulto faz parte do seu mundo, são eternamente crianças, cabritinhos de olhos esbugalhados, curiosos e assustados.  
Para elas as árvores falam, os leões são os reis e os elefantes as rainhas e o fundo do mar é infinito.
Nunca pensei conhecer crianças assim, que brincam com as gotas da chuva, nos buracos de terra e que do fruto vermelho das amendoeiras fazem castelos.

Onde há crianças, há alegria. É verdade. Tão verdade como seria tão triste aquela terra se não as tivesse, se África fosse uma terra de velhos jamais lhe reconheceríamos a magia. São as crianças que lhe dão o encanto, a suave sensação de uma fantasia prolongada, como se vida que se vivesse lá não fosse totalmente vivida. Parte dela está num lugar imaginado, sonhado. Num lugar de crianças.
Nota: nestas fotos sou eu, sim senhora.