1.6.12

As crianças-crianças





O Segredo do Homem é a própria infância.
Dr. João dos Santos

Anybody who has survied his chilhood has enouhg information about life...
Flannery O'Connor 


Naquele lugar, as crianças não sabem que são crianças. Não têm consciência de que são ingénuas, inocentes, inconsequentes. São o que são: crianças. Eu sempre soube que era uma criança quando o era, por isso acho que nunca o fui verdadeiramente. Ou seja, nunca se é verdadeiramente criança quando se tem a consciência de que se é criança.

Tenho a ideia que a maioria das crianças tem uma consciência de si, especialmente aquelas que vivem no dito mundo ocidental. Todos os dias, os Pais, os Avós, os vizinhos, os professores, a televisão, a publicidade, o mundo as avisa constantemente de que são crianças. Há o culto da criança, por assim dizer. Psicólogos, psiquiatras, sociólogos e educadores profissionalizam o ser criança, tornando-o numa espécie de Instituição. A infância encerra em si todos os desígnios da vida adulta, está escrito nos livros. E assim, neste mundo, dito civilizado, ser criança é talvez o estado de vida mais estudado e investigado por toda a humanidade.

Depois há os lugares, onde nada disso existe. Onde não há qualquer olhar elaborado a uma criança. Onde uma criança é como um cabrito: nasce, bebe o leite da Mãe, pendura-se no seu corpo e quando já anda sozinha, vai descalça pela rua e procura pela sua própria comida.

A razão da profissionalização da infância é inversamente proporcional à quantidade de adultos e crianças de um determinado meio. Assim, quanto mais envelhecida está uma população, mais se santifica o estádio infantil, enquanto que onde há crianças a sair debaixo do chão, dão-se-lhe pontapés como se fossem pedras.

Naquele lugar, em África, todas as crianças não sabem que são crianças. Andam aos molhos, como manadas de cabritinhos, sempre a gemer, sempre a chorar, sempre a rir, sempre a gritar. Andam como um chorrilho, como cabelo embaraçado, umas nas outras, não se distinguem, misturam-se.   

Andam sempre descalças ou perdem os sapatos facilmente, porque os pés crescem depressa. Os dedos dos pés muito afastados, as mãos muito abertas. Penduram-se às costas, enroladas nos panos, penduram-se nas mãos dos Pais, num equilibrismo cómico, penduram-se onde se conseguem agarrar.

Crescem, sobrevivem. Crescem como crianças, nunca o sendo. Mas em tudo se parecem com as “outras crianças”. Os risos, as brincadeiras, o querer subir a uma árvore, correr mais depressa, mergulhar mais fundo e apanhar um peixe. 

Em África, é fácil confundir o quotidiano dos homens com o de uma prole de leões, ou com uma família de elefantes. A natureza é a força superior; daí virá a razão pela qual os homens tenham tanta dificuldade em compreender África, se não antes assumirem uma posição submissa perante a natureza e os seus desígnios.  

E tal como com os animais, estas crianças começam por deixar as pegadas na areia, um rasto de inocência não sentida, de brincadeiras atrás das gaivotas, como pequenos fugitivos, a jogar à apanhada.  

As crianças-crianças, tal como os animais, não têm qualquer ideia do passado nem mesmo do futuro, apenas vivem um dia de cada vez. Em África vive-se um dia de cada vez. Havendo o suficiente para cada dia, há o que é necessário à própria existência da pessoa.
As crianças vivem um dia de cada vez, o que significa que não têm desejos. Se o desejo é uma coisa que se quer ter e não se tem, elas então não desejam. Apenas sonham. Fantasiam.
A fantasia das crianças-crianças não pressupõe uma existência real do objecto – elas não desejam carrinhos, bonecas ou passeios de bicicleta. Elas fantasiam. E normalmente uma fantasia tem um carácter muito mais etéreo, longínquo. Quase inalcançável.

As bicicletas caem do céu. Ou se é um construtor de bicicletas ou então sonha-se com o dia em que caia uma do céu. Os carrinhos e as bonecas fabricam-se com cascas de coco, restos de pano, latas de atum e bocados de borracha de um pneu. As coisas não se “ganham”, não se pedem. Cria-se a fantasia, produz-se. Resulta num carrinho ou numa bola de futebol. Tudo fica nas suas mãos. O dinheiro é assim uma coisa difusa. 
A inocência destas crianças é-lhes tão natural como a ideia que elas não possuem do que está certo ou errado. O que faz mal, o que está bem feito. Faz mal chorar? Faz mal errar? Não se deve voltar a cometer o mesmo erro?

A seguir às aulas tomam banho na praia. Tomam conta uns dos outros, mas não sabem o que é “tomar conta”. Não precisam disso. O mais importante é não perder os sapatos quando se despem para mergulhar e apanhar conchas e linguados debaixo da areia, sob a água totalmente transparente. Na praia estão outros meninos. Chegam a ser mais de 20. Tomam conta uns dos outros. Não se vê um único adulto a olhar por eles. Ninguém os vê, mas eles não deixam que algum se afogue, não brincam fora de pé, não molham as roupas da Escola, não perdem os sapatos, nem deixam que a maré lhes leve os livros de folhas comidas.
Sabem, pelo movimento dos barcos e dos pescadores, quando são horas de voltar para casa. Vêm pelo pôr-do-sol o fumo suave do pão que começa a cozer.

Em casa, tomam banho de água doce pelo balde que puxam do poço, limpam-se umas às outras, vestem-se umas às outras, entrançam os cabelos e penteiam-se umas às outras. Dormem umas com as outras, brincam com os morcegos na luz dos candeeiros e choram por tudo e por nada. Não sabem porque choram. Colam-se umas às outras e assim crescem. Nenhum adulto faz parte do seu mundo, são eternamente crianças, cabritinhos de olhos esbugalhados, curiosos e assustados.  
Para elas as árvores falam, os leões são os reis e os elefantes as rainhas e o fundo do mar é infinito.
Nunca pensei conhecer crianças assim, que brincam com as gotas da chuva, nos buracos de terra e que do fruto vermelho das amendoeiras fazem castelos.

Onde há crianças, há alegria. É verdade. Tão verdade como seria tão triste aquela terra se não as tivesse, se África fosse uma terra de velhos jamais lhe reconheceríamos a magia. São as crianças que lhe dão o encanto, a suave sensação de uma fantasia prolongada, como se vida que se vivesse lá não fosse totalmente vivida. Parte dela está num lugar imaginado, sonhado. Num lugar de crianças.
Nota: nestas fotos sou eu, sim senhora.



1 comentário:

João disse...

Mesmo com a técnica do teu telemovel vi logo quem era...

Como tu disseste o homem é sempre capaz de se adaptar, é sempre tudo relativo...

Um dia ainda vais escrever um livro sobre África, talvez até de poesia ou prosa...
gostava apenas que escrevesses...