27.9.10

Johnny - o cão ladrão



Esta é a história do Johnny, um cão que vive na baixa de Maputo, já não é novo, mas também não é velho, nunca tomou banho, tem cicatrizes no focinho, de manhã é uma coisa, à noite é outra, e é ladrão.

Johnny vai à marginal, passa pelo Jardim Botânico, é amigo do vendedor de almofadas que come meias laranjas com a namorada no banco, anda de táxi com o Acácio e os dois discutem Mia Couto, faz xi-xi na rua, tropeça nos buracos do passeio, cheira os pés dos turistas, bebe Laurentina preta com amendoins torrados, assusta-se com os sacos de plástico pretos que voam como se fossem corvos e não gosta de atravessar na passadeira.

Há uma coisa a que ele não resiste – roubar. Se alguém deixa um par de óculos no jardim, o Johnny leva-os e esconde-os. Uma carteira, uma camisola, um porta-chaves. É talvez dos primeiros casos de um cão cleptomaníaco. Johnny nunca foi a um veterinário, mas ele era capaz de lhe dizer isto.

Johnny não sabe há quanto tempo vive naquela casa; ele acha que já se passou algum tempo. Gosta de estar à porta, ver quem entra, quem sai. Gosta que os hóspedes cheguem cedo. De manhã gosta das festas, à noite fica irrequieto, de mau humor, nem se deixa tocar, ladra e rosna. De dia abana o rabo, salta para as pernas dos hóspedes e deita-se de barriga para cima.

As pessoas entram e saem, atravessam a porta, levam malas e mochilas e Johnny nunca sai dali. Passa o dia meio escondido, a ver o que consegue roubar; ultimamente tem roubado os “diários” dos hóspedes.

18.9.10

Estou de volta.

Os dias aqui cheiram a começo de Verão, a noite demora mais, o vento sopra mais calmo, o mar está denso e sereno. Lá, começam as árvores a dar os sinais do Outono. Os dias vão ficando mais curtos, imagino eu, cheira a melancolia. Tal como aqui.
Aqui, as montras põem a saldo a colecção de Inverno, as camisolas e os agasalhos (nunca pensei ter tanto frio em Moçambique) ficam a metade do preço. Chegam os tecidos frescos, as sandálias.
Lá deve estar tudo cheio de lã e de botas.

Estou no Aeroporto, neste momento, a aguardar pelo avião que só irá partir às 2h00. As pessoas chegam, sentam-se, comem e bebem... cá estou eu neste espaço neutro que é um aeroporto. Grandes ou pequenos, no mundo ocidental ou africano, são sempre assim. Pedaços de tempo suspenso.

As horas passam, a cidade mergulha numa noite profunda.

Estou de volta a Lisboa, sabendo do meu regresso a África. E agora, sinto-me confusa.
Onde fica a minha casa?

14.9.10

I do...



16 de Setembro de 2010


Faço 10 anos de casamento e não consigo escrever nada, pois tudo o que escrevo parece-me pouco.

Já o escrevi, no ano passado, que não sou nenhuma “encartada” em casamento, mas sinto-me a caminho do doutoramento…

Se alguém viesse ter comigo à porta da Igreja, quando saímos os dois, marido e mulher, e me perguntasse: “como te imaginas daqui a 10 anos?”
Eu não sabia o que responder.

Se essa pessoa então dissesse: “Estarias a viver em Moçambique, numa ilha, um dia foste despedida e depois o teu marido depois despediu-se e viverias com uma ferida dentro de ti, que não tinhas conseguido sarar e que te lembrarias dela todos os dias da tua vida. E amarias o teu marido mais do que nenhuma outra pessoa na terra, e ele a ti.”
Eu não sabia se acreditava.

São 10 anos – e eu quero celebrar!
Acredito hoje que tudo é possível, que a vida é uma aventura, que o casamento é a maior empresa que duas pessoas podem criar e que é na partilha que encontramos o caminho certo.

10.9.10

Ide Mubarak



Hoje termina o Ramadão.

Hoje é dia de se dar “Boas Festas”. E hoje foi o dia em que almocei numa casa de uma família muçulmana. Chamusas de peixe papagaio, caril de cabrito e arroz de açafrão, saladas de atum e camarão. Tudo delicioso!

Foi a Mãe que cozinhou tudo, apareceu o Tio viúvo, o Pai que negoceia pedras e marfim, os filhos que se vão pondo à volta da mesa. Nós levamos as bebidas e a expectativa de entrar numa casa de uma família tão diferente, numa cidade tão diferente, num País tão diferente.

Foi um almoço de família e nós fizemos parte dessa celebração!
É bom saber que faço parte destes momentos e gozo-os cheia de satisfação.

4.9.10

O caminho do ibo

O destino foi a Ilha do Ibo, o vértice no triângulo entre o continente e as Quirimbas. Mais uma vez temos de sair pelo Porto de Tandanhangue, tal como na nossa viagem à Ilha do Matemo.

Saímos a meio da manhã e o caminho começa com uma enorme circular que contorna a Baía de Pemba, como se fossemos uma faca a descolar um bolo da forma, fazendo um enorme circulo à sua volta. Contornando a Baía chegamos à sua outra ponta, de onde avistamos a cidade e daí seguimos viagem passando por mais umas quantas aldeias e povoações.
A minha colecção de embondeiros vai aumentando (tenho tentado fotografar tantos quanto posso) e a isso juntei a minha convicção de que estou apaixonada por embondeiros e “requiems”, tendo por isso levado o ipod para juntar a banda sonora ao caminho das árvores esculpidas.
Não estava errada – é a conjugação perfeita! Requiem de Mozart em África, no meio dos embondeiros, é mágico!


A povoação principal, antes de Tandanhangue é Quissanga, um outro porto carregado de pescadores, palhotas e cabras que andam pelo meio das estradas estreitas. Chegamos finalmente ao nosso porto, cumprimento o seu gigante embondeiro e lá ao fundo já nos aguarda o barco que desta vez nos leva até ao Ibo.

Fazemos a viagem que já nos é comum: passamos a Ilha de Fiona ou Ilha dos pescadores, começamos a contornar o mangal em direcção a sul e logo as cegonhas se ajeitam nos ramos com as folhas, que parecem de brincar, e um enorme pelicano cinzento estica o seu pescoço ainda vazio.

A chegada ao Ibo é o regresso a uma outra vida. Em 1761 a coroa portuguesa fundou a vila do Ibo e até 1929 aquele foi o porto principal e capital do governo provincial de Cabo Delgado.

Pela sua situação estratégica, o Ibo é um lugar que junta influências árabes, indianas e africanas.
Hoje, o Ibo conta com pouco mais do que 3.000 habitantes e as ruas da vila são agora restos de ruínas de tempos coloniais.

Entro em casas e pequenos palacetes, imaginando os passos das senhoras até aos jardins que se estendem em cima do mar. As salas de estar de enormes tectos, as janelas maiores que as paredes por onde o cheiro das magnólias entrava pelo entardecer. E tudo isto com a brisa quente que chega pelo Índico, os retalhos de velas que deslizam pelo canal e um pôr do sol que me faz sentir num outro mundo.
Estivemos cerca de três dias no Ibo, como se lá fosse importante contar os dias, caso contrário não sabemos se aquilo são dias sequer. É uma espécie de vivência esquecida – quando ponho o pé do Ibo faço-o pela memória de outrém. De alguém que já lá viveu e que de lá nunca quereria sair; e então, eu sou essa pessoa.

O meu corpo transporta alguém e desta vez senti-me uma mulher profundamente apaixonada pelo homem que tinha saído pelo mar há muitos, muitos dias, a caminho da Índia. E todos os dias ela espera-o no porto, conta as luas, observa as estrelas, vê os peixes que chegam, mói com o pilão a farinha de mandioca assim como os seus pensamentos e a sua angústia por ele que não chega. "Porque aqui o coração bate mais devagar... meu amor."


No Ibo, vivia-se o jejum do Ramadão, o que além das marés é uma outra condicionante do ritmo na Ilha. Fomos de barco até à outra ponta da ilha, e qual não foi o espanto quando foi o Capitão Campo que nos conduziu! Também ele estava no Ramadão, então não fumava nem bebia água e só iria quebrar o jejum depois do pôr do sol. Mas continua gago como um peixe papagaio e certeiro no mar, como um lobo velho.


Saímos do Ibo ao entardecer, vendo o pôr do sol no barco a chegar a Tandanhangue. Quando chegámos, estava tudo tão deserto e tão calmo, como se continuássemos naquela vivência paralela, num cenário que se põe em frente a nós. Não havia ninguém. Só os barcos na água mole, o embondeiro gigante que lá do alto abraçava aquele pedaço de ilusão e as garças que traziam a vida em silêncio.



Deixamos o porto e partimos de regresso a Pemba, de regresso a casa. Fizemos toda a estrada de noite, com muitos mochos e corujas a riscar os faróis do carro com os seus voos irregulares e dezenas de ratinhos do campo a atravessar a estrada, na continuação do seu caminho.

Eu continuo também no meu, a caminho do Ibo.