30.7.13

Conversas do Divã #9




A coerência constante.
 
Uma rosa é sempre uma rosa, nunca um lírio ou uma frésia. A chuva é sempre em gotas e os peixes terão sempre escamas. Hoje, amanhã, até ao infinito.
A consistência das coisas torna-as tranquilizadoras e coerentes. Sabe-se com o que se conta, hoje, amanhã, até ao infinito.
Quando isso acontece com as pessoas, tenho as minhas dúvidas se é bom ou se não será antes uma penitência para quem adere a tal prática.
Eu sou uma dessas pessoas - da (talvez irritante) coerência consistente.
A Rita é sempre a Rita.
Aqui, no meio de uma ilha no Índico, ontem, amanhã, no infinito.
Comigo sabe-se com o que se conta. É constante.
Sou hoje daquilo que me trouxe o dia anterior, e pratico-o no futuro até ao infinito.
E ser assim, não é bom nem mau, é o que é.
Para mim, que tomo consciência dessa minha natureza, já muito própria há muito tempo, tem sido penoso conviver com essa consistência.
Parece-me, pelo que a vida me está a mostrar, que não me "adiantou" de nada cultivar essas árvores ao longo de tantos anos, porque ao lado há quem as plante de cabeça para baixo, ou mesmo quem as abandone a meio do caminho.
Pois eu estou sempre na constância do meu ser. O que sou é coerente.
Imagino um cartão de visita, com o meu nome, morada, contacto e por baixo do nome "pessoa coerente".
Além de coerente também sou pensante, mas até nisso (irritantemente) sou constante.
Não gosto de adjectivar; evito adjectivos na escrita - mas a verdade é que gosto de ser constante.
O que sou hoje é ontem e amanhã.
Sempre.
Até ao infinito.
 

25.7.13

Fiz um nic pic

Se há coisa que adoro são pic nic's. Sempre gostei.
Gosto da ideia do farnel e de levar o conceito muito a sério, com toalha, pratos e talheres de plástico, pão, queijo e enchidos, croquetes e afins.
Há muito tempo que não fazia um pic nic e este que fiz em Sintra foi de um nível para cima de espectacular. Gamba cozida e café quentinho no final.
Acho que não é preciso dizer mais nada, certo?
E no regresso a casa faço aquela pergunta: "porque não faço isto mais vezes?!"
É fácil, prático e barato. Respiram-se outros ares e de noite dorme-se melhor.
 


23.7.13


 
O M. teve a sua primeira experiência artística e arquitectónica!
Fomos ao Museu Paula Rego.
Uma manhã de Verão perfeita, uma frizze limão na esplanada, as histórias de encantar e o enquadramento ideal do verde e da arquitectura.
 


19.7.13

Bateria a (caminho dos) 100%

 
Porque o tempo está tudo menos fácil, fui levada a fazer o seguinte exercício: tem de haver qualquer coisa que faças e que te dê toda, ou parte, da energia que sentes estar a perder.
Pensei, pensei e na verdade, eu tenho andado nas lonas - sugada de energia e de força, com a bateria a chegar ao fim.
 
Há um lugar, e esse eu sabia ser certo: o Guincho. A praia do Guincho.
Vá em que altura for, esteja com quem estiver, é lá que o meu esqueleto gosta de sentir a forma que tem, seja pela areia que pisa, seja pelas ondas que nada.
 
Há um sujeito, o meu cão. O Flash. Ele é um bom bicho, bom amigo e um excelente companheiro para uma caminhada pela praia.
 
Juntei as duas coisas e vemos um cão a sprintar a 200 km/hora (2ªfoto) e uma praia inteira por caminhar (1ªfoto).
 
O resultado obtido foi perfeito.
Percebi que precisava de mais, principalmente precisava de transpirar, libertar toxinas.
E por isso, ao 2ºdia, fui correr (como já escrevi ontem).
Não posso/devo juntar as três coisas, pois o Flash não tem GPS e eu perdia o meu bicho pelas dunas, mas o certo é que ao 3º dia fiquei "curada".
 
Deixo o conselho para que cada um descubra o lugar e a acção que vos faça recarregar as baterias.
Limar as unhas, fazer compotas, correr maratonas, apanhar caracóis...
é tudo legítimo!
Deixem ficar aqui as vossas sugestões/ ideias de bons "carregadores".


18.7.13

Foi ontem que voltei às pistas.
Um ano depois de ter literalmente parado com tudo, pois assim que soube que estava grávida estagnei como uma tartaruga sentada na praia. E fiquei assim até me mentalizar que sempre fui pelo desporto, pelo transpirar, pelo expurgar das toxinas, pela mente sã em corpo são.
Vai daí, fui primeiro comprar uns ténis novos, daqueles que eu mais gosto, não só porque personificam o meu mote (ASICS - Anima Sana In Corpore Sano), mas também porque são mesmo bons (e caros).
Depois ainda me aventurei em descarregar uma aplicação no i-phone, metê-lo numa bolsa no braço e assim aderir à corrida com noção de tempo e distância.
Durante todos estes anos corria de Swatch, uma "caseirada" autêntica.
Finalmente meti-me na pista.
Até senti medo, não fossem as pernas terem tido uma amnésia e assim como nunca mais se esquece de andar de bicicleta, elas nunca mais se tinham lembrado de correr.
Consegui fazer 5 km, mas foi intercalado entre corrida e caminhada; as dores de burro foram imensas e foi literalmente o que me custou mais, as pernas responderam bem, o coração também.
Voltar a sentir o cansaço da corrida, depois do banho tomado e do jantar mastigado, foi uma sensação muito boa.
Tinha saudades de transpirar, de ouvir o meu corpo, de me ouvir, o coração a bater, o compasso certo de cada passada, a satisfação de alcançar uma meta.
O cenário é perfeito; não sendo junto ao Rio, é agora junto ao mar, indo eu pela estrada que conheço de olhos fechados até chegar ao Guincho.
Por agora, fico-me bem aquém desse destino, mas não deixa de ser um objectivo promissor!
Dou-me o tempo necessário para o alcançar - e quando o conseguir é para mim um sinal de que tudo vai acontecendo e passando pela mesma medida que a vida nos propõe recomeços contínuos.
Eu ontem recomecei a correr.
Com tempo e com distância, o futuro agora é só meu.


17.7.13

Conto Selemane, segunda parte e fim (não sei porque está com esta configuração estúpida)


Quando o sol fazia sombra junto aos coqueiros da praia e se reflectia sobre as rochas do mexilhão, era a hora de voltar para casa. Selemane deixou o barco na praia, e levou os baldes de conchas e as armadilhas de camarões e lagostas que recolheu entre as marés.
Entrou na palhota, sacudiu os chinelos cansados e a roupa ressequida. Chegou-se ao balde de água doce e sentiu o cheiro do almoço na panela: lulas. Os olhos das lulas eram cuidadosamente comidos pelo gato que se punha muito direito junto às mulheres que pilavam a mandioca. O calor escorria e uma fumaça branca envolvia a Mãe, a filha e o gato, numa névoa em que até uma acácia vermelha estendia os braços para apanhar os vapores de mandioca.
Os rapazes deviam estar a chegar da escola.
- Os meninos devem continuar na Escola, Noémia! Eles não têm de ser pescadores e podem ser outra coisa, podem continuar a viver ao pé de nós. Não é preciso eu levá-los para o mar. Se calhar eles não têm de ser pescadores.
Nunca se ouviu tal coisa, toda a aldeia iria fazer pouco daquela família.
- A Escola é só até aprenderem a ler e a fazer contas. Os nossos filhos vão pescar. Não sabes isso?
Noémia não desviava o seu olhar do pote de madeira onde a farinha era moída.
- E se eles quiserem ser outra coisa, como carpinteiro ou pastor?
O gato terminava os olhos de lula e agora debruçava-se sobre uma concha que caia do balde, andando sorrateiramente perdida, a caminho de uma saída. O bicharoco meteu as patas de fora e pôs-se a picar a terra a caminho da fuga.
Os meninos chegaram. Sentaram-se na esteira. Engoliram as lulas com as mãos que cavavam um fosso na panela da xima e a colher que apanhava os quadrados brancos tingidos de caril. No fim havia pão para chupar o molho. Havia também o silêncio que se chupava com o pão. Selemane não conseguiu falar com os filhos, a mulher calada mastigava, a filha já se tinha esquecido do almoço e olhava para a porta à espera de ninguém, como esperava todos os dias por nada, com o mesmo ritmo com que arranjava as suas tranças. Ela e as amigas, umas às outras, as mãos de umas na cabeça da outra e assim sucessivamente, num carrossel de pentes e de elásticos.
Um dos filhos interrompeu o silêncio, perguntando a Selemane se nesse sábado poderia sair com ele na casquinha. E talvez visse o Pai a pescar um atum, ou até um espadarte, como no outro dia o filho do Mamude viu o Pai a puxar um desses enormes peixes de bico de espada.
A mulher esboçou um sorriso silencioso, quase malicioso - que ideia mais parva querer que os filhos sejam carpinteiros! Pensava ela e pensava todo o Universo ao mesmo tempo. Até o gato devia estar a pensar no mesmo agora que se punha a dormir na sombra da acácia. Que ideia mais parva!

Selemane deixou-se levar pelo peso das pernas até à ponta da praia, a ver se mais alguém chegava do mar nessa tarde. A padeira já enchia o forno de lenha e preparava o pão que vinha cozido com o por do sol. Selemane sentou-se e pensou.
Não é costume os pescadores, nas histórias de pescadores, pararem para pensar, mas mesmo assim, Selemane sentou-se e pensou.
Pensou que em toda a sua vida nunca tinha pensado, nunca se tinha questionado, nunca tinha feito uma pergunta. Nunca. Apenas porque a vida lhe dissera que aquilo era tudo o que poderia esperar. Nada mais. E hoje perguntava: porquê? Os filhos têm de ser pescadores? A mulher riu-se daquela ideia tão tola, como se fosse uma brincadeira.
Passaram os meninos dos bolos fritos. Também aqueles meninos deviam vender bolos a vida toda, porque a Mãe os cozinhava, e os punha dentro do balde. E as meninas daqui a pouco vendiam o pão nos alguidares, tapados com as tampas das panelas perdidas, faziam o troco e guardavam as notas debaixo das roupas. Também elas vendiam pão e vão vender pão toda a vida. Porque já os outros assim o faziam, e antes desses os outros, e a seguir a eles a mesma coisa. Até ao infinito.
Pôs as mãos na cabeça, sentia-se quente. De onde lhe vinham estas ideias?
Ao fundo as cegonhas ajeitavam-se nos topos do mangal. Não deixava de ser curioso observá-las a ocupar os seus lugares, tal e qual como quando o barco sai para o continente e os passageiros vão-se ajeitando no espaço, nos bancos, no chão - encontrando o seu lugar.
As cegonhas chegavam a pouco e pouco, e pousavam, sabendo perfeitamente cada uma o lugar onde ficar. Porque antes delas as outras também já o faziam, e as que vierem a seguir vão repetir o mesmo movimento.
Estou a ficar louco? É melhor visitar o curandeiro – pensou. Tenho de lhe falar nestas minhas vozes, nesta voz que ouço e que não consigo perceber estas perguntas que me faz. Deve ter sido do vento norte que me entrou no peito.
No regresso a casa, passou pela carpintaria. Lá estavam os carpinteiros a trabalhar na madeira, em qualquer outra coisa que não era o sal e o cheiro a peixe. Qualquer outra vida, que talvez qualquer um pode ter.
Selemane ainda sonhou nessa noite. O filho mais velho, Ibraimo, pediu-lhe para ir para a Oficina dos carpinteiros e o seu primeiro trabalho foi construir um bote, e quando Selemane foi ver o bote, era igual ao “Único Caminho”. O mesmo recorte da madeira, as mesmas cores. E Selemane, o seu Pai e Ibraimo saíram para o mar. E dessa vez não foram pescar. Os três no “Único Caminho”, foram até ao infinito.
Na manhã seguinte, Selemane foi à palhota no curandeiro no meio da aldeia. Receitou-lhe chá de maçanica à noite com duas gotas de sangue de raia. E depois, com a maré, saiu para o mar.

quando o amor (afinal) acaba

"Talvez sejas antiquada..."
 
Para mim o amor não deveria acabar nunca e um casamento seria para sempre.
Acredito, sofregamente, que nada persiste sem sacrifício, sem haver uma luta, algo por que se acredita.
Sou de uma dedicação canina ao objecto do amor, fiel e imperturbável, recta como uma linha de comboio, firme como uma estaca de marfim.
Inabalável.
E agora, afinal, o amor acabou.
O dele, não o meu.
 
E agora, como se faz?
Alguém me explica onde se enfiam estes sentimentos, em que gaveta se metem, como é que se fazem etiquetas e separadores neste dossier que agora passa a arquivo morto.
Toda a minha vida acreditei no amor para sempre.
Toda a minha confiança estava depositada naquela pessoa, no meu Príncipe que afinal não existe mais.
Toda a minha dedicação seria para ele.
 
E agora, afinal, o amor acabou.
E o que dói, o que mais empurra o dedo na ferida, ainda aberta, é saber que eu já não tenho o meu lugar no seu coração.
Ocupo uma outra divisão, desconhecida para mim, como um quarto escuro.
A partir de agora, já não faço parte da sua história.
Apareceu uma nova personagem e eu perdi o meu papel principal.
Então perdi tudo o que tinha. O amor, a confiança, o sonho, a fantasia.
Roubaram-me tudo.
Só ficou o meu filho e eu nua e despida de amor, a ter de consolar e dar um colo, quando a mim só me restam farrapos de sentimentos. Quando eu estou inconsolável.
 
Tenho amigos poetas, escritores, pintores, artistas que me poderiam ajudar a compor um cenário, a descrever aquilo que sinto, a espalhar os mil pedaços de mim em palavras infinitas de um amor que acabou.
Mas eu não sei como se faz.
O ódio e a raiva parecem-me coisas fáceis e simples de se alcançar; deviam existir outros sentimentos, muito mais elaborados e eficazes na expurgação desta mágoa.
 
Como se deixa de gostar de quem se ama?

O que é afinal o amor.
Estou confusa.
É uma coisa que acaba. O amor começa e acaba, como uma época das chuvas.
Não vai chover para sempre.
 


16.7.13

Ao meu Principezinho

Amor da minha vida.
Martim da tua Mãe.
Coisa mais boa deste mundo e de todos os adjectivos que eu encontre no dicionário.
 
Faz hoje um ano que te confirmaste enquanto novo ser neste mundo.
No dia 16 de Julho de 2012, recebi o resultado do teste em que tu existias com 13 dias de gestação; tudo muito precoce, mas já eras tu!
Fomos jantar a casa do Tio João, porque são os anos dele, e eu explodia de alegria por dentro.
Foram tantos anos, meu lindo, mais anos do que os que tu terás daqui a 5 anos!
O tempo é uma coisa para ti ainda muito desconhecida, mas um dia eu explico-te o que é o tempo; que não é o tempo do relógio ou do calendário, mas o tempo das coisas quando tem de ser tempo de acontecer.
 
Hoje tens 4 meses e já 7,300kg de gente. Mas para mim tudo começou nesse dia, há um ano atrás.
Quando nasceste então percebi o que é "ser Mãe" e o que é essa coisa do amor incondicional. Ouço canções de amor e só penso em ti - em que me apaixonei novamente  e o meu coração foi ocupado por ti, para sempre.
 
Para a próxima semana já vais comer sopa e papa pela primeira vez. Para mim é tudo tão maravilhoso que tu nem imaginas.
Ver-te crescer, ver-te agarrar os pés com as tuas mãos, ver-te rir, dar-te banho, dar-te colo quando choras e limpar as tuas lágrimas que logo saltam, sentir a tua pele e ouvir a tua respiração quando dormes.
 
Sonho contigo e acordo feliz.
 
Só quero o teu bem, e é uma coisa muito forte esta de só querer o teu bem.
Porque ando aqui a ver se encontro uma maneira de que nada de mau te aconteça  na tua vida; procuro uma espécie de pacto com o Universo, para que estejas sempre protegido, desviar os carros todos da estrada, eliminar os buracos do chão, esvaziar as ondas galopantes ou até aniquilar os corações mais fortes do que o teu.
Mas não posso fazer nada disso e sinto-me logo incapaz de te garantir uma vida plena sem percalços... como os que a tua Mãe agora vive.
E depois olho para a tua Avó e vejo-a, também ela, aflita por não poder dar-me um coração novo, o dela, porque o meu sua de tanto chorar.
E então percebo que não há mesmo nada a fazer.
Ser Mãe é assim, e amar-te até ao resto da minha vida é hoje o único pacto que tenho.
E isso consigo garantir-te, sem desvios.
Tudo o resto é o tal tempo que te vai ensinar, sendo que me tens sempre ao teu lado, para trocar o meu coração pelo teu, se for caso disso.
 
 
 

15.7.13

Contos, Selemane e outras coisas

(Ontem fiz o que talvez já devia ter feito há algum tempo; tirei a vergonha de cima de mim e publiquei os meus contos africanos no facebook, a ver se a malta gostava, e gostou! Então vou publicando por partes e assim, para que os meus leitores não se sintam excluídos, aqui fica a 1ª parte do conto do Selemane. São contos escritos cá em Portugal, mas as imagens são de Moçambique.
Quem me conhece e sabe o mal que estou a passar nesta fase tão dura da minha vida, só me diz: escreve, mulher, escreve!
E na verdade não me sai nada. Ou por outra, preciso de despejar "isto" primeiro para que venha o mais recente sentir da minha memória.
Amanhã já vem coisa fresca, sofrida. Com as emoções bem lá nos píncaros, como eu gosto.
Até lá deixo-vos na companhioa de um pescador que "conheci" no Ibo.
Espero que gostem.) 

 
 
 

Selemane é um pescador.
E como em todas as histórias de pescadores, ele passa os dias dentro de água a puxar redes, enquanto na praia as mulheres aguardam com os baldes para recolher o peixe. Este pescador sai ao romper do dia, numa piroga, uma casquinha da largura das suas ancas, 45 centímetros e 11 milímetros, e do comprimento de um espadarte alongado e curvado sobre o seu fundo, de um charéu com 12 quilos, ou duas garoupas de 5 quilos, ou até um atum, duro com um pneu, pesado e teso.

O pescador Selemane passa no mangal, apanha marisco, afunda os pés em lama negra e morna, deixando que o lodo hipnotize os seus membros inferiores. O suor escorre pelo rosto, mistura-se com a pele e como um manto transforma o tronco nu numa escultura em pau-preto, maciça e pesada.

Selemane, tal como todos os pescadores, nas histórias de pescadores, começou a pescar quando era um menino. Uma criança de calções rotos, de camisa rendilhada pelas traças, de feridas nos pés e nas mãos, de barriga espetada, sem saber distinguir a manhã da noite, pois tudo o que ele fazia, com ou sem sol, era sair para a pesca com o Pai. Empurrar o barco para além da maré, puxá-lo dos bancos de areia com a canas de bambu, abrir a vela latina e desenhar paralelas pelo mar. 

O barco do Pai de Selemane sempre navegou até ao dia em que apanharam aquela tempestade - as histórias de pescadores têm tempestades. Houve um dia em que o Pai de Selemane saiu para a pesca e não voltou nessa tarde, nem no dia seguinte. E no Continente viram-se nuvens negras de chuva e clarões de uma trovoada forte. Um ciclone abateu-se sobre aquele pedaço de mar e ninguém voltou, nem o bote “Único Caminho”.

O pescador continuou a pescar, pois não havia mais nada que ele soubesse fazer no mundo. No seu mundo, na sua aldeia, na sua palhota, debaixo daquele telhado de colmo, Selemane não queria verdadeiramente fazer parte da história de um pescador. Ele queria fazer parte de uma outra vida, mas se lhe perguntassem para onde ia, ele respondia que ia para o mar. Não sabia fazer mais nada que não fosse encher-se de sal e de vento todos os dias, cortar as mãos com as linhas, sentir o corpo húmido e os pés sempre molhados. Encaixar-se na sua casquinha, pegar no remo e atravessar o canal até ao mar alto. Pescar. Voltar a casa, para junto da mulher e dos filhos, comer a papa de farinha com o caril de peixe, mastigar lentamente e de vez em quando trincar uma manga.

Como era filho de pescador, os seus filhos seriam pescadores e os filhos deles pescadores e os filhos dos filhos pescadores, até sempre. Até ao infinito. Que era bem depois do sítio onde ele um dia pescou um tubarão. Assim como tudo se repete, toda a natureza da sua vida sempre se repetiu – a sua mulher carrega nas costas os filhos, tal como ela veio às costas da Mãe, e sua Mãe às costas da Avó velhinha, e ela nas costas de outra mulher, até sempre. Até ao infinito.

São 5h30 da manhã, Selemane está dentro de água, olha para os pés e para um buraco de pele lisa perfeitamente redondo, como se tivesse entrado uma rolha pelo pé. Foi quando espetou uma raiz de mangal no pé. Era pequeno. Não se lembra de ser pequeno. Às 5h32 da manhã, dentro de água, talvez Selemane sempre tivesse sido um pescador e nunca uma criança.

10.7.13

O Sr. Zé

Conheci o Sr. Zé quando comecei a andar de bicicleta.
Devia ter uns 10 anos quando acompanhava o meu irmão, ou os meus primos, à oficina do homem mais mal encarado que alguma vez tinha conhecido na minha (curta) vida.
Para mim o Sr. Zé vivia dentro daquela oficina e até devia lá dormir todos os dias.
Não devia ser Pai, casado ou ter qualquer tipo de família. Era simplesmente o dono da única oficina que existia a uma curta distância de casa para encher os pneus, alinhar a direcção da bicicleta, pôr óleo ou arranjar a corrente que tinha saltado.
E era mal disposto. Sempre foi.
Nunca o vi sorrir, nem podia imaginar que tivesse dentes.
Para mim ele comia criancinhas ao pequeno almoço, porque simplesmente as odiava assim como detestava todas as bicicletas do Universo.
Ele tinha uma oficina de bicicletas porque alguém o deveria ter obrigado a isso, porque ele gostava mesmo era de motas.
E para mim sempre foi assim, até encostar a minha bina a um canto a ganhar ferrugem...
Mas os movimentos da vida são cíclicos e perfeitos e eu regressei à oficina.
O carrinho do M. é com rodas xpto, autênticos pneus que têm de ser enchidos tal e qual como se fosse uma bicicleta.
E eu pensei em dar uma segunda oportunidade ao mundo e provar que as pessoas, talvez, possam tornar-se diferentes.
E fomos ao Sr. Zé.
Ele estava no mesmo sítio de sempre: sentada a uma secretária a ler o jornal.
Levantou-se, reconheceu-me assim como a minha Mãe, mas os olhos dele foram todos para o pequeno M. que dormitava no carrinho.
Vejo-lhe um primeiro sorriso.
Arrisco: "Sr. Zé, tem aqui o seu mais jovem cliente que precisa de encher os pneus...!"
Ele sorri outra vez, derrete-se com o meu filho.
Recorda os netos, que já são adultos (afinal ele tem uma vida normal, pensei), desdobra-se em carinhos para dentro do ovo, suspira como se fosse um adolescente e enche os pneus do Martim cheio de genica.
O tempo não passou pelo Sr. Zé, ele está igual, como há 25 anos atrás.
Eu é que talvez hoje já esteja diferente!
 
 


9.7.13

novos vizinhos

 
Vivo agora numas águas furtadas.
Sou vizinha de telhados, de gaivotas e de gatos.
Por onde espreito pelas janelas vejo o azul, do céu e do mar ao longe, do verde e das estrelas, da luz dos aviões e do farol do Cabo da Espichel.
Nestes últimos dias de ausência, muito por culpa do calor absolutamente incapacitante que se fez sentir nestas latitudes, vou seguindo os passos de uma família de gaivotas e das suas três crias.
Moram neste telhado que se vê na foto: ali está um dos progenitores, as crias já não as vejo há uns dias. Terão já voado?
Tinham ainda a penugem castanha, o bico enorme em comparação com o resto do corpo, um andar trôpego.
São muito agitadas as gaivotas. Estou eu a dar de mamar às 5 da manhã e andam elas para trás e para frente, cruzando o meu telhado. Penso que também andam elas a alimentar os filhotes.
Vivo agora num topo.
Não tenho ninguém em cima de mim, nem de um lado ou do outro.
Sou vizinha de pássaros e de gatos que se passeiam em telhas mornas da cor de pôr do sol.
É assim qualquer coisa que se aproxima de um retiro, de um refúgio.
Como um ninho no cimo de uma árvore.
 


6.7.13

dias D...

 
Estou viva.
Mas têm sido dias D...
Dentes
Desespero
 
e nenhum está cá de fora são só mesmo as duas mãos e os cinco dedos dentro da boca todo o dia e mau estar.
coitadinho do meu M.
e com este calor ainda pior.
prometo voltar em breve com as crónicas do telhado!


1.7.13

Dia 1; do resto da minha vida...



E assim a vida segue. 
Somos capazes de tudo, basta ser posto à prova. 
Hoje durmo numa nova casa, numa nova morada, não estranha, mas diferente.
Tomei um duche, recebi o Continente, dei banho ao M., sequei o cabelo, vesti um vestido novo, meti flores numa jarra, jantei, deitei o M., vim para a sala continuar a ler "A Servidão Humana".
Ainda não tenho tv. Nem net (escrevo pelo telemóvel).
Tenho este corpo que me permite a força e a alma que me dá o tónico.
Os meus Pais acolheram-me como se acolhe o filho que ao fim de 13 anos fora de casa, pede para ter colo mais vez. 
Agora, lambidas as feridas e de consolo cheio, ergo a cabeça e levanto-me, qual fénix renascida.
O coração, ainda em convalescença, aninha-se no meu sofá e encosta-se a mim. 
Não te preocupes, digo-lhe.
A vida segue sem medos.
Haja sol todos os dias e saúde para o sentir.