30.5.10

viajar de comboio



Na 6ªfeira tive de ir até ao Porto. E voltei no mesmo dia, à noite.

Fui de comboio da Gare do Oriente até Campanhã e depois apanhei um comboio até Valadares. No regresso já parti do Metro na Casa da Música e cheguei a Lisboa por Santa Apolónia.

Gosto imenso de viajar de comboio, concluo.

Não me cansa, não me farta. A paisagem vai sempre mudando, há sempre pessoas a entrar e a sair, a passar. Mesmo de noite, a lua pode acompanhar a nossa carruagem, aproximando-se ou afastando-se. Há sempre luzes novas, postes de iluminação mais amarelados, casas ao longe.

Ao contrário de um avião, onde o azul e as nuvens seguem-se como a repetição dos desenhos no papel de parede, num comboio não existe padrão. Os carris desenham paisagens sempre diferentes e nós seguimos pela força da carruagem.

Leio, escrevo, ouço música, levanto-me, passeio nas carruagens, encosto a cabeça à janela e adormeço. E que bem que durmo no comboio. Quando estudava na Universidade em Lisboa, ia todos os dias de comboio para as aulas, e entre Cascais e Lisboa adormeci ferrada várias vezes com direito a sonhos. Eu e outros, que sucumbiam ao embalo dos carris.

A certeza de uma linha que se segue ao minuto faz-nos entregar ao momento da viagem - e vamos, de corpo e alma, dentro de um movimento fluido e premeditado. E mesmo viajando sozinhos, nunca estamos realmente sós. Há uma ligação entre os viajantes de comboio - uma coisa do passado, antiga, que veio de outros tempos. As pessoas cumprimentam-se silenciosamente e, ao contrário dos aviões, nos comboios há uma cumplicidade subliminar entre os viajantes.

Além dos comboios gosto das Estações. É uma agitação grande de pessoas, linhas, bilhetes, relógios, revisores. E mais uma vez a sensação do pertencer a qualquer coisa, de partilhar um mesmo momento, um espaço, que tem a função de nos acolher.

Qualquer viagem de comboio, qualquer carruagem, estação ou bilheteira, tem matéria suficiente para escrever um livro, um conto, um romance inteiro. E assim penso que todos os dias circulam pelo mundo milhares de enredos sobre carris.

24.5.10

É assim. Assim. As coisas são assim.

Há uma casa, roseiras e num pote carregado de rosas encarnadas. Na grande roseira de um pote de terracota está a cama dele. De uma boa de pêlo. Preta, gorda e perfeitinha. Ainda os olhos de leite da Mãe, um olhar cheio de luz.

Persegue-me e morde-me os tornozelos. Brinca, corre, abana a cauda - é um raio de agitação. Lambe-me a cara, esfrega-se no meu colo, trinca-me a orelha, persegue os meus pés, morde-me os tornozelos - já disse isto?

É um ar cheio de vida - a vida genuína de um cachorro com 2 meses.

Veio um carro, não o viu. Eu ouvi os gritos o choro imenso. Passou-lhe uma roda por cima. Era uma bola de pêlo com marcas de uma roda - o seu corpo era só pó.

De bacia partida voltou 2 dias depois, de olhos aguados e tristes. Hoje já não estou ao pé dele, não sei como está.

O que é isto? O que é isto que num segundo estás abraçada a uma bola de pêlo e um minuto depois está debaixo da roda de um carro?

É a vida.



Nota: o cãozinho voltou a casa, com a bacia partida e a precisar de estar de repouso para aquilo voltar ao lugar. esta foto foi tirada quando voltou do veterinário. estava ainda com uma cara muito assustada, mas no dia seguinte já se levantava sozinho!

18.5.10

O saco da Fnac

Ele há coisas do arco!

Andava eu hoje no sub-mundo (metro), vai-vém, vai-vém, a congeminar este texto quando lá no fim da viagem, já de regresso a casa com um calor incompreensível, vejo o final da história. Passa por mim uma rapariga de saco da Fnac na mão, com um cão-guia, um labrador amarelo lindo de morrer, a caminho da linha azul.

Começa a história pelas minhas andanças no mundo lá de baixo. Gente e gente, tantos, sempre só de dois géneros, homens ou mulheres. E agora é divertido ver a maneira como as pessoas se vestem com este calor que aterrou por cá - passam umas havainas, lá à frente botas de cano alto, vestidos de praia, lá atrás era um de fazenda cinzenta, sandálias de dedo de fora e acabei de passar por um par de sapatos com collants opacos.

Bom, dizia eu que andava nas linhas debaixo do chão, quando começo a pensar nos cegos. Ultimamente é um universo com o qual tenho tido contacto. Os cegos que não vêem, mas que dizem que sim. Conheci vários ultimamente e as histórias que me contam são fabulosas: os homems imaginam uma mulher bonita, apenas pela voz que ouvem. E o que é uma mulher bonita para si, Vitor? - pergunto eu. Resposta: É alta, loira, olhos claros e cabelos compridos.
Mas eles não vêem, penso eu.
De um grupo de pessoas conseguem dizer muito aproximadamente quantas pessoas são, sentem as vozes e o abafo dos corpos entre os sons. A Maria Helena disse que seriam uns 90, estava certa e disse-me de olhos bem cegos que adora flores. Adora. O Rui leu-nos em braille, os dedos passavam pelos furos no papel e ia escrevendo as palavras no ar da sala.
Eles são mesmo cegos e não gostem que lhes chamemos invisuais. Eles são cegos. Não vêem.

O que será que o cego percebe, se fosse aqui sentado. Não vê o senhor que vai de pé a ler o Público, nem a senhora à minha frente de olhos aguados. Penso. Entra um cego a pedir esmola.
Penso. Saio cá acima, cruzo-me com um cego de bengala. Aprendi que é pelos sons que eles percepcionam o lugar das coisas, onde a bengala toca o som transmite uma coordenada. E assim, andam na rua.
Penso. Entro lá em baixo novamente. O cego ouvia os alemães no banco em frente, sentia o bafo quente desta tarde que inundou os túneis, o passo nervoso dos que correm para as linhas, as conversas que se cruzam no ar entre nós, que vamos calados: "oh Susana, ele não arranjou uma mulher, ele arranjou foi uma segunda Mãe!", "Eu senti, eu senti mesmo ele a vir....", é divertido também.
Penso. Penso que o mundo de escuridão é de facto triste, mas rico em sensações e em sensibilidades. Que ganhando autonomia, podemos ser plenamente nós.
Ir à Fnac? Sim!
E foi aqui que me cruzei com aquela rapariga do labrador impecável na sua função de guia.

Há coisas absolutamente maravilhosas que acontecem no nosso dia.

14.5.10

64 mil pessoas, o Papa, a Sorte e os 3 agrafos.

Esta semana que passou foi uma semana rica.
Rica em efemérides e actividades diversas! As crónicas desta semana destacam:
  • Benfica Campeão!
Foram horas de tensão seguidas pela euforia bem documentada nos meios de comunicação social. Mas o mais engraçado foi eu ter assistido ao jogo sozinha e ter feito toda a festa dentro do estádio sozinha, mas ao pé de 64 mil pessoas. Saltei 500 vezes quando foi golo, filmei e fotografei aquilo tudo, no intervalo lá fui ao pacote de pipocas ti-ti e garrafa de água e depois sentadinha gritei: "metam a bola no chão, no chão!!". Não me agarrei a desconhecidos, nem chamei nomes ao arbitro.
  • O Papa veio a Portugal
Papa acima, Papa abaixo, lá ia o Papa a subir para Belém, lá vinha o Papa a descer para a Praça do Comércio. Carros, motas, motas, carros. Vem à janela, sai da janela, abana a bandeira, põe a t-shirt, não tira a t-shirt, fala de pecado, o pecado é entrevistado. Sobe ao norte, desce ao centro da aparição, acende vela, apaga a vela, carros, motas, motas, carros. Põe anel, tira anel, fala, não fala, Papa entra, Papa sai, Papa foi.
  • Um avião despenhou-se na Líbia, morreram todos menos um miúdo de 9 anos.
Sorte!? Como é que se explica isto a uma criança. Por que ele é uma criança. Os miúdos adoram aviões, acham divertido, é motivo de vanglória na Escola. "Eu já andei de avião, e tu não!" Isto é tudo ao contrário, aquela criança é o único sobrevivente de um acidente brutal. Tem memórias de sons, os últimos sons metálicos de um avião, de pensamentos, de sentimentos. Perdeu o seu chão, os seus Pais. Sorte?! E agora, vai passar uma vida inteira a perguntar-se por que razão "ficou cá".
  • Flash cortou-se numa pata com um vidro
Foi no cerne da chegada do Papa. Não tinha carro, o veterinário era próximo da "zona P" (zona Papa), os táxis não levam cães. Cortou-se num vidro, aqui perto de casa, na brincadeira a correr com outro cão. Cada pisada dele, era uma mancha de sangue no chão. Mas fomos e viemos. Já vamos no 2º penso oficial, 3 caseiros - ele arranca tudo, incluindo o abat-jour na cabeça. Tem 3 agrafos na pata, olha para mim e não compreende porquê. Nem eu!

5.5.10

28



Têm sido dias de voltas pela Baixa-Chiado.
Colina acima e colina abaixo, tanto estou na Baixa como me meto no meio do Bairro Alto.
Várias vezes apanho o 28 para Campo de Ourique e de regresso a casa, também.
O 28 é uma espécie de veia que corre desde os Prazeres até ao Castelo, marcando a estrada com os carris e mostrando uma cidade tão bonita.


Apanho-o cá em baixo, no começo da Calçada do Combro, e assim, misturo-me no meio das dezenas de turistas. Gosto de me meter no meio deles e experimentar ver pelo olhos deles. Usar a sua lente, ver a minha cidade como se fosse uma turista.

Vou sair no Camões e descer a Rua Garrett. Gosto da minha cidade.
Algumas coisas enchem-me de orgulho, outras nem tanto... o comércio de rua, principalmente na zona da Baixa, está velho e ultrapassado, salvo raras excepções.
Entro na Papelaria Fernandes, na Rua do Ouro e dá-me um dó de alma. Prateleiras vazias, duas canetas perdidas numa vitrine, uma caixa de clips a pedir socorro na montra...

Depois, vá, há a Pollux! Um mundo maravilhoso! Uma mistura de drogaria fina com feira do artesanato. Eu tenho de me puxar dali para fora pois consigo passar uma manhã inteira naqueles 8 pisos de plásticos, drakalon, pirex, almofadas, toalhas, turcos, formas de silicone e regadores.
E ainda não foi ao 9º Piso, onde é o café, experimentar a vista que eles prometem ser fabulosa.

Mais abaixo chego á Rua da Conceição, a famosa Rua dos Retroseiros. Outro mundo que me fascina. Toneladas de botões, fitas de nastro, fivelas para cintos, colchetes, .... algumas sente-se bem a melancolia de um tempo que já foi.
Outras ainda vão sobrevivendo aos eléctricos que raspam no alcatrão, indo e vindo.
Lá está o 28 outra vez! O 28 é um vaidoso.

Vou subir a Rua Augusta e cruzo-me com mais turistas, outro tipo de comércio e começo a cortar para a Rua Nova do Almada até ao topo. Há livrarias onde só apetece ficar uma tarde inteira e trazer metade dos livros, mesmo sabendo que não os vou ler.

Regresso ao coração do Chiado. Gente, Igrejas, Prédios em recuperação, pedra da calçada madura, cheiro o Castelo ao longe e meto-me novamente no meio dos turistas.
Acho que se fosse turista também gostava...

3.5.10

O dia seguinte.

(isto é o nome de um programa de "bola" na sic notícias, e que o tema da bola também se exige neste dia seguinte...)

Ontem foi o Dia da Mãe, e foi dia de bola.
Hoje é o dia seguinte.

É o dia de quem não é Mãe.
A minha amiga Susana, uma "irmã" da escrita, lembrou-se disso ontem, e escreveu assim:

Hoje é dia da mãe. Se o mundo fosse, efectivamente, justo, amanhã deveria ser o dia daquelas que não podem ser mães por vicissitudes várias como os caprichos da natureza ou mesmo por causa da crueldade de outros.

A natureza é cruel, sempre o disse. Ela é Rainha e soberana. Nós, os Homens, é que ainda julgamos ser superiores a ela. Um vulcão paralisou quase o mundo inteiro durante uma semana, as suas consequências são incontáveis.
A natureza decide quem será Mãe, o Homem ainda a pode contornar, mas efectivamente é ela que julga.

A palavra "sentença" é demasiado forte, mas eu aceito essa espécie de condição a que me julgo, por agora, confinada.
Um dia sei que serei Mãe, pois como qualquer mulher o desejo, sendo que já me habituei a viver com essa sede.
Um dia esse dia será meu, por agora resta-me o dia seguinte.