31.12.09

A porta


Choviam umas gotinhas muito finas e o vento uivava como um lobo desgovernado.
Subi a ladeira e fui-me abrigando da fúria dos elementos nos intervalos das casas, onde as pedras rudes já tinham sido gastas pelos séculos e os carreiros de água seguiam o seu rumo, já rotineiro.
Não havia silêncio, mas tudo estava suspenso.
Avistei uma porta. Fechada, zangada e com frio certamente. Não se quis abrir e ai de quem tome a ousadia de a forçar.
Gosto de portas, pensei. É um objecto que passa os dias virado de costas para nós, mas que nos persegue em todos os nossos passos. Tem uma função definida, apropriada.
Porta fechada - não entrar. Porta aberta - entrar. Porta entreaberta - espreitar!...
Arrombar uma porta é roubar. Bater com a porta é a força da ira. Dar pontapés e murros numa porta é um castigo.
A porta de uma casa... uma tábua rasa. Vai-se decalcando com o tempo, com as mãos e com os pés, com os sacos das compras, com as malas, com as chaves, o cão a raspar, a chuva que incha a madeira, o vento que a empurra, o sol que a descasca.
Arrancar uma porta é eliminar um rectângulo de memórias e de marcas.
Boas entradas em 2010!

20.12.09

A engorda

Começou a engorda.

Mais açúcar, mais fita cola, mais papel de embrulho, mais queijos e gorduras, mais cremes e recheios, mais sacos de plástico, mais papel do multibanco, mais vinho e digestivo, mais pão e batatas, mais chocolates e amêndoas torradas, mais gasolina, mais embrulhos e bolas coloridas, mais laços e mais papel do multibanco.

Menos paciência, menos tempo, menos respiração, menos calma, menos convicção, menos vontade, menos sono, menos silêncio, menos ouvido, menos pausas e menos tempo.

A balança só acusa mais peso. Mais engorda.
Mas precisamos do "menos" que agora fica reduzido a quase nada...

11.12.09

Hopenhagen

Daqui a uma semana acaba a esperança em Copenhaga.
Porque a Esperança só dura 15 dias...
Tenho medo de que não resulte em nada. Acho sinceramente que por muito que queiramos já não conseguimos parar uma máquina, um monstro gigante que se move há milhões de anos e que faz da terra aquilo que bem entende - o Homem.
Uma vez ouvi, e acho que já o escrevi, que nunca tanto mal foi feito a uma coisa que só nos dá graças - a natureza. Porque somos tão ingratos?

O homem é ingrato, insaciável e bruto.
Já o era quando andava pelas estepes, com um cão ao lado a caçar, agora só muda o cenário e em vez de um cão tem um carro.
A natureza só nos dá, não nos pedindo nada em troca. Nós só pedimos em troca e damos muito pouco.

As mudanças já são demasiadas, temo que tenhamos chegado a um ponto sem retorno. Por muito ecoponto amarelo, pilhão e vidrão que entupamos de lixo.
Porque fazemos muito lixo, porque já temos muitas vacas a pastar e muito milho a queimar terra, porque já derreteu muito gelo, já desapareceram muitas espécies e outras estão a dias de desaparecer... já foi feito todo o mal.
Agora andamos a tentar tapar buracos de uma barragem iminente de rebentar.

Temos esperança - HOPE - porque talvez seja aquilo que nos resta, no meio do destino traçado.

4.12.09

Anda tudo constipado de nariz a pingar. Uma interrupção neste Blog - passamos as mãos por gel desinfectante - e voltamos ao teclado. Um inferno, as constipações!

(adoro dizer: "que inferno!" dá-nos um ar secular, com uma expressão tipo queirosiana, mas cheia de blasfémia e de irritação dos novos tempos.)
Qu' inferno!!

Continuando.
As constipações trouxeram cá para casa o "Vik" (que se escreve Vicks). Oh, memórias olfactivas, como vos quero!
De repente abrimos o frasco (que já teve um re-style considerável) e vem aquele pijama de flanela cheio de borboto, as tardes em casa doente e constipada, cheia de brinquedos em cima da cama e bonecos, as mãos da minha mãe a esfregar o Vik cheias de força, a luzinha da mesinha de cabeceira que iluminava a pasta transparente... e no fim, o melhor, comer um bocadinho de "Vik" como se fosse um rebuçado de mentol!

Dormiamos como se fossemos um eucalipto numa sauna. Acordavamos sempre melhor.
Há duas noites que adormeço com estas memórias e sonho com rebuçados de mentol!

É bom ter memórias de cheiro.







1.12.09

O oposto

Hoje é o primeiro dia de Dezembro. A Lua está quase cheia; é amanhã, no segundo dia de Dezembro.
Saí à rua com a máquina para apanhar a Lua. Está lá em cima, como um poste de luz infinito com uma bola na ponta.

Diz-me o borda de água que devemos resguardar as plantas do gelo, arrotear terras (dar arrotos a terra?) e acarinhar o gado. Mesmo assim plantamos macieiras e pereiras.
O mês de Dezembro é um sopro de fim de ano. Passa tudo a correr. Desde o final de Outubro que se fala em Dezembro, nenhum mês é tão "falado" como o último mês do ano.
O Natal e a Passagem de Ano são uma parte da questão, a outra é o ano que chega ao fim.

Há uma certa tensão no mês de Dezembro.
Deve ser o mês com mais toques de carro na cidade, as pessoas andam muito tensas. Anda tudo muito tenso. Nos centros comerciais e nos supermercados há mais tensão ainda.
Até o Flash anda mais tenso...

Quando saí para tirar esta foto a rua estava calma, mas as pessoas pisavam as pedras com tensão, os carros roçavam o alcatrão na tensão.
Antes que todos apanhemos um choque de alta tensão, gostaria de sugerir uma espécie de Ashram para todos. Podemos levar uma árvore de natal e um presépio, algumas bolas e ramos de azevinho. Mas tenhamos alguma paz e tranquilidade. Pois é isso que deve ser o mês de Dezembro.