29.11.11

Estou lixada!


Acabo de conhecer um novo Blog de uma rapariga que se propõe passar 365 dias sem fazer nenhuma compra. Ao fim da primeira semana ela estava radiante e feliz porque tinha passado uma prova incrível na sua vida. Hoje vai no dia 47. E ainda não comprou nada... Uau.
Tem uns 60 e tal seguidores e quase 30 mil visitas (sendo que o Blog começou em Outubro).
Há dias em que penso abandonar este Blog, porque para mim é uma forma cruel de perceber que "ninguém" se interessa por ler estas coisas que partilho. É como um grito nos ouvidos: "Vai vender sabonetes, Rita!".
Os meus 10 leitores diários são-me fieis, eu sei, mas juntemo-nos num café ali na Baixa e pronto. Escuso de vos estar a importunar com estas coisas tão enfadonhas, quando de facto há vidas tão mais excitantes e tão mais inspiradoras.
A minha bandeira - quero escrever e fazer disso a minha vida - parece-me impossível de hastear nestes moldes.
Estou assim a pensar nos seguintes cenários:
- mostrar o meu armário e os meus sapatos;
- fazer receitas de bolos com fotos de deixar tudo a salivar;
- contar detalhes da minha vida privada;
- contratar uma rapariguinha magrinha e com dois palmos de cara, dizer-vos que sou eu e tirar umas fotos também, assim armada em modelo.

Se calhar, acho melhor continuar nesta luta.
Até ao dia.

P.S - não estavam à espera que eu fosse colocar o link desse Blog maluco aqui, pois não?!? então aí é que isto acabava de vez!

27.11.11

Tempo e Memória


Já tinha saudades.
Do cheiro da sala, do veludo rosa das cadeiras, do verde e do dourado das paredes, de ouvir a Orquestra a afinar os instrumentos minutos antes do espectáculo.
E durante o concerto, senti-me num barco a caminho do Ibo, senti-me a caminho. Naveguei a milhares de kms daquele auditório. Pela primeira vez revi o meu percurso e fiz uma viagem no tempo. Voltei atrás. Depois regressei ao presente.
Sonhei que o melhor do mundo seria navegar num barco ao lado de tartarugas e golfinhos, sentir a natureza tão explosiva e ao mesmo tempo ouvir aquele concerto fantástico, naquele lugar tão especial. O equilíbrio de dois mundos tão distintos. Ontem, o Ibo esteve no palco do Teatro Nacional de São Carlos.
pessoas, artistas fora do comum, que nos levam para locais da nossa memória.
Ontem, percebi que o Ibo é agora uma memória. É uma distância. É um tempo.
Com tempo e memória a arte surge, seja a escrita ou um quadro.
Aproveito o movimento de ontem e embarco em novas escritas. Agora sinto que começo a conseguir escrever sobre o que vivi e o que passei.

26.11.11

Indignada


Estou indignada com esta juventude. Estes jovens imberbes, legítimos caçadores de ideais perdidos, que se juntam às Manifestações e se dizem indignados.
Que o povo, que ainda se julga "o povo", mas não compreendeu que já se passaram 30 anos desde o 25 de Abril, e já não existe povo nenhum, existe sim uma ideia de classe, mas no fundo queremos todos o mesmo: ir de férias uma quinzena em Agosto e comprar uma bicicleta nova para o filho no Natal. Dizia eu, que o povo se revolte, tudo bem, faz parte. E "o Partido" também assim é. Que se diga: unido jamais será vencido. Sim senhora.
O que me indigna são "aqueles" que há mais de um mês abancaram à porta da AR, com alguidares de plástico e garrafões de água do Pingo Doce, numa de negar o luxo burguês e de dar um ar de dissidente e desleixado porque isso até é uma cena fixolas. Não contribuem um chavelho para a Economia, muitos aposto que nunca fizeram uma declaração de IRS, não sabem o que é estar à espera de uma consulta ou de uma cirurgia, não sabem o que é ter de sustentar quatro filhos, tendo três empregos,  não pagam IMI ou IMT e muito menos o selo de um carro ou de uma mota. Isso é o que me indigna. Muito.
Quando eu estava em Moçambique, conheci aldeias inteiras sem dinheiro, era possível viver-se sem um centavo. Aqui, não é bem assim. Até para se ser indignado é preciso ter algum, e eles até têm um computador portátil. São por isso uns indignados- yuppies.
Bebem litrosas e fumam droga, tocam uns tambores e escrevem uma frases nuns cartões. E quando aquele povo, povinho miúdo, sai à rua a gritar, porque tudo o que lhes resta é gritar - como isto está, o caminho vai ser sempre a descer - estes indignados, que se dizem um movimento, exteriorizam a sua revolta, ou seja, dão aso à sua indignação.
Mas há por aí muito ferro velho e edifícios devolutos em Lisboa a precisar de umas intervenções e demolições, eles bem que podiam dar uma ajudinha, pôr-se aos pontapés e fingir enfrentar a polícia, como tão fortes e corajosos que são.
Porque quem não tem para comer, sem ser deitando-se todos os dias às onze da noite e acordar às cinco da manhã para ir limpar escadas e as casas dos outros, também não tem para se indignar. Então, afinal quem se indigna? Parece-me ser quem tem educação e talvez cérebro pensador, mas quem também tem de descarregar os recalcamentos da sua infância atribulada, algures entre o consumismo obsessivo e a ausência total de uma estrutura familiar, culpando o mundo e a sociedade onde eles mesmos fazem parte. Somos todos o 100%, não há 99% e 1%, como eles tão bem se colocam nas franjas do mundo, quais vítimas do sistema. Eles são também o sistema. A culpa é NOSSA.
Pobre povo. Apenas queria mostrar as suas bandeiras novas, os novos cantares que ensaiaram numa garagem da Moita, os cartazes que mandaram fazer numa tipografia que era de um familiar do Álvaro Cunhal. Deixem o povo com ele próprio. Que ele se entende muito bem. As greves sempre existiram.
Mas agora essa gentinha armada em malta alternativa, que dorme em tenda em frente à AR em Lisboa (por quem eu passo quase todos os dias) e literalmente não fazem ali nada, a não ser dar imagens de uma certa postura, armados em nómadas modernos - são esses que me indignam. Penso muitas vezes que não sobreviveriam um mês a viver no Ibo, e que aquele estendal e show-off é isso mesmo, uma treta sem sentido nenhum.
Quem trabalha, não se pode indignar. Nem tão pouco entende porque se indignam os indignados. Só querem "o seu" no final do mês. E se "aperta", passam a comprar o papel higiénico do LIDL em vez do Mini-Preço.
Os indignados não são a voz de ninguém, senão deles próprios. Uma cambada de gente egocêntrica, que acha que defender ideais é uma nova forma de filosofia de vida, que tendo um computador e a carta de condução são cidadãos e por isso têm o direito de abancar à frente de um edifício - símbolo do Estado a fazer fogueirinhas à noite com violas.
A revolução, e a legitimidade do conceito de liberdade e cidadania já veio de 1789, das chamadas luzes, que põem a nú a noção de sociedade civil e trazem à discussão movimentos tão interessantes e vastos. Isso já foi feito e isso está gravado na História do Mundo.
Os indignados, se querem ficar para a História, como os seus antepassados, não é com reuniõezinhas à fogueira que vão lá. Se querem mesmo ficar conhecidos como um movimento, que actuem com estrutura, firmeza e exemplo, com ideais, conceitos e correntes de pensamento,.Com cabecinha e não com murros e pontapés.
É por isso que ando indignada com esta gente, que se perde em tardes de litrosas e ganzas, em vez de tomar um banho, vestir uma camisa lavada e começar a estudar e a estruturar o pensamento. Só assim a História evolui. E o que me assusta é que o futuro parece pouco nítido e denso, e a brincar às cabanas não vamos lá. Eu também não fiz a coisa correcta, eu "desisti" deste País durante um ano. É certo que voltei, mas efectivamente desisti. Porque, lamentavelmente, esta classe, que não percebo ser média, se baixa, se alta, parece-me na sua maioria ser muito fraquinha de cabeça, a sua intelectualidade é muito, muito fraca.
O que eu acho que realmente ficará  para a nossa História é que nunca pessoas com tão pouca estrutura mental e intelectual, tiveram tanta voz e tanto poder.   

24.11.11


O Alfa cá de casa foi para Manchester ver o Benfica e ainda não voltou, por culpa de uma greve nos Aeroportos. Há duas noites que o Flash faz-me esta cara.
A quantidade de informação que contem este olhar é maravilhosa.
Mas na essência, é isto:
- Então, mas como é isto? A gente anda aqui os dois e não há meio de ele voltar? Não há ninguém com quem se possa falar? Hum?!

22.11.11

Mens sana in corpore sano

Há dias assim.
Mesmo.
Então toca de entrar na Mango e comprar um vestido: tungas! E depois abrir um pacote de nozes do Mini-Preço e parecer um esquilo obsessivo em privação, a amontoar metades de nozes nas bochechas. E ver episódios das séries Mildred Pierce e Downtown Abbey e mais SIC Mulher até vomitar televisão (que praticamente não vejo, para grande desgosto da minha Paulita, a nossa empregada). E entrar na Loja da Tema nos Restauradores e virar tudo o que é Vanity Fair&Harper's Bazaar da vida. E descer as escadas rolantes da FNAC com fagulhas a sair pelos olhos, pronta a rebentar com o cartão dos pontos em toda a novidade literária e clássico do mundo da escrita. E ainda, entrar no itunes e não dar misericórdia a qualquer novidade, descarregar tudo, desde o Concerto nº2 para piano de Rachmaninov à Adele.
Cansados?
Este meu delírio não acabou, falta ainda mandar vir coisas perfeitamente inúteis do Continente online como: farinha de fécula de batata, porque vi numa receita de 1876 ou uma tesoura de unhas para cães, sendo que o Flash, em 3 anos de vida, nunca cortou as unhas...
E então? Nada.
Fica tudo na mesma, como se fazer aquilo que nos parece ser o que mais gostamos ajudasse a serenar a nossa desorganização interna. Ando desorganizada, a bem da verdade. Faço aquilo que me parece ser o correcto. Errado.
Amanhã parece-me que o que vou fazer será mais sensato: ir correr de manhã, como de costume, à tarde escrever, depois ir ver a Exposição da Gulbenkian: "A Perspectiva das Coisas" e no final rematar com mais uma aula de Filosofia do meu cursinho na Universidade Nova.
E conclusões?
O acto de consumir às vezes ajuda, mas não serena. Eu que vivi no anacronismo do consumismo, numa atitude tão feliz por não estar a gastar e a consumir, assim que me vi nas malhas da sociedade dita evoluída, caí na mesma "armadilha"!
Exercitar corpo e mente, parece-me mais sensato, já diziam esses tipos que também estão em crise, os romanos.
Digam-me de vossa justiça, o que vos ajuda a organizar as meninges?
(e não vale dizer que é a fazer arrumações em casa, ou melhor, limpezas!)

P.s - com a cena do itunes aproveitei e descarreguei mesmo o Concerto para Piano e com a ida à FNAC comprei dois livros novos; isto vá que é consumir, mas ajuda muito!

18.11.11

Montra da Pastelaria



Partilho convosco este espectacular exemplar de vitrinismo popular urbano-pasteleiro! E como eu gosto desta coisa de se encherem prateleiras de pastéis de nata, brigadeiros, rochas, bolo de ananás, bolacha coração, tarte de amêndoa, pingos de tocha, suspiros, bom-bocados e o céu é o limite! E ainda há espaço para garrafas de vinho de Porto! Isto, é uma coisa muito portuguesa!
Em nenhum outro lugar do planeta se enchem 2 metros quadrados de vidro com tantos quilos de bolos e de calorias. É uma catarse de açúcar, gordura e mau gosto que eu assumo desde já que: ADORO!
Tudo ali enfiado. Tudo ali para o freguês apreciar. Qual manifestação de arte, de engenho, de perícia em encavalitar 19 variedades num só lugar.
Nenhum engenheiro projectista alemão chega aos calcanhares dos empregados das Pastelarias da Baixa, que com os seus paninhos húmidos esfregam o vidro verde, grosso e riscado do balcão e produzem estas verdadeiras esculturas boleiras!
Já esteve mais longe a minha tese de doutoramento acerca deste fenómeno tão Português a que se dá o nome de: Pastelarias.
Dá-se ao nosso povo o mérito da via verde e dos Descobrimentos, mas as pastelarias, os seus empregados e a capacidade de invenção e criação de nomes dos bolos é já um standard nacional!

16.11.11

Cristina


Todas as 3ªfeiras, Cristina almoça em casa da Avó, no Intendente. Sai das aulas da Faculdade no Campo Grande e mete-se no metro.
Só ela é que ainda visita a Avó, Mãe do seu Pai. O seu feitio complicado, para não dizer infernal, faz com que ninguém se aproxime da Senhora. Só Cristina, a neta mais nova, é que ainda visita a Avó. As duas juntas fazem a cama de lavado, vêem o Jornal da Tarde, conversam sobre o tempo e Cristina costuma ainda sair à Mercearia para trazer as coisas mais pesadas: os pacotes de leite, a terra ou a ração do gato, garrafas de azeite, sacas de um quilo de batatas ou de cebolas.
No Natal fazem juntas a Árvore e o Presépio, no Verão abrem os roupeiros e arejam a casa. Cristina já não sabe o que fazer às 3ªfeiras, na hora do almoço, sem ser apanhar o Metro até ao Intendente.
Sempre quis aprender a tocar Piano. Certo dia soube de um curso muito barato na Junta de Freguesia às 3ªfeiras, das 12h30 às 14h00. Falou com a Avó. Passariam a almoçar às 4ªfeiras? Nem pensar! O que faria agora a Avó às 3ªfeiras? O mesmo que faz às 4ªfeiras, dava-lhe Cristina a solução.
Mas como? Se às 4ªfeiras faz-se o que se faz às 4ªfeiras e não o que se faz às 3ªfeiras. Não faz sentido.
E por isso, nesta 3ªfeira, lá vai Cristina a caminho da casa da Avó Laurinda e do gato Tobias.

14.11.11

E o Douro outra vez!



A profunda paixão que eu sinto pelo Douro, não é novidade para ninguém. É mesmo uma profunda paixão.
É qualquer coisa de inexplicável, em que me perco pelas palavras, em que não sei como me justificar. Não tenho família no Douro, não tenho qualquer ligação, sendo que só há poucos anos comecei a beber vinho do Porto, até mesmo a apreciar os vinhos do Douro. Para mim, o Douro era como uma mancha no coração de Portugal, um lugar longínquo a que poucas pessoas acediam, como uma espécie de “clube restrito”, a que a só alguns era permitida a entrada. Não falo dos cruzeiros e do visitante mais turístico, falo de quem entra na vida de uma Quinta e conhece a sua família, envolvendo-se naquela vivência obstinada em torno do vinho.

Foi em 2003 que pela primeira vez conheci o Douro. No Vale do Rio Torto, onde há o lugar de Casais do Douro, está a Quinta do Barão dos nossos amigos Ana Rita e Mário. Quando torno a visitar o Douro é lá onde fico. E é onde sempre quero regressar.

Tudo no Douro é grandeza, sendo ao mesmo tempo simples e rude. Dizem que quando as pessoas se conhecem pela primeira vez e à medida que vão cultivando as suas relações, desencadeiam-se reacções químicas. Eu tive e tenho uma reacção química com o Douro. É qualquer coisa que acontece fora de mim e me leva a desejar voltar.
São as Quintas, as casas e as famílias, o profundo amor ao vinho, a um produto tão simples e tão ilustre que durante séculos representou o maior e mais importante produto de exportação portuguesa (ainda hoje não o será?). O Douro é feito de uma história que vem de trás, muito atrás. De uma história que confunde amor com sofrimento, pragas, crises comerciais, doenças, cheias, seca, fome, morte, perdas, anos extraordinários, ganhos, concorrência, cobiça e paixão.

Nada nem ninguém explica o que faz com que famílias inteiras se dedicassem, e se dediquem, aquela terra, quando não havia comboio e muito menos Pontes ou Barragens, e as estradas eram uma mistura de lama e pedras. Naufrágios, acidentes de carro, bois que caiam pelas encostas, muros e oliveiras que o Rio levava nas cheias, perdas e mortes. Um lugar onde ora o sol asfixia e o xisto ferve, ora a chuva não cessa e destrói anos inteiros de melhoramentos e investimentos nas vinhas.
Ao longo destes 8 anos de relação com o Douro, tive o privilégio de ter conhecido várias Quintas. Uma das que conheci foi a de Roriz. E agora, com este Livro, reforço a minha profunda admiração por estas famílias e a tamanha coragem e capacidade de entrega.

O Douro tem sobre alguns o encanto, a ideia vaga de um sabor doce na boca, de uma sensação de respirar fundo, de fechar de olhos e de sentir o silêncio do Rio. Onde em nenhum outro lugar da terra quero voltar a sentir. O silêncio do Douro é único no mundo. E eu prometo não gostar de mais nenhum.
Como não tenho uma Quinta, nem família no Douro, criei uma. Das coisas boas de se escrever é criar mundos onde talvez nunca possamos existir, ir fazendo parte deles com o prazer da escrita e participar numa vida que não é mais do que uma fantasia. Em 2008 escrevi o meu primeiro Romance: “Chão de Sangue”. Entre o Douro e o Alentejo.

Agora, concluindo o meu êxtase duriense, até penso ainda bem não ter uma Quinta no Douro. Porque se a tivesse, não saberia viver sem ser dentro dela, com ela, e por ela. Seria a minha obsessão, a minha fobia, a minha utopia.
Contento-me com a leitura desta “História de Uma Quinta no Coração do Douro” –  não sou digna em tecer comentários, eu mera lisboetazinha, pouco mais de 30 anos, pequenina e sem saber nada ou pouco da vida. Mas posso dizer que se alguém, algum dia, também sentiu essa química por aqueles vales de socalcos plantados de videiras enraizadas até aos confins da terra, leia este Livro. Compreenda o que são séculos dedicados ao vinho do Porto, a uma tarefa tão dura como quase ilusória.
É por isso que o Douro é para mim aquilo que mais se aproxima de um sonho, de um pequeno delírio. É uma febre que se instala e só de escrever sobre ele fico irrequieta e perdida, como qualquer coisa de inexplicável e intraduzível em palavras.

Dizem que isso é Amor. Então que seja. Que sinta Amor por uma terra: é isso!

I LOVE DOURO!



"Roriz - História de uma Quinta no Coração do Douro", Autor: Gaspar Martins Pereira, Edições Afrontamento e Symington Family Estates, 1ª edição Outubro 2011


13.11.11

O chocolate

É verdade que até dar uma volta inteira a todas as estações e momentos do Ano, vou andar aqui a escrever coisas de gente que parece tolinha.
Do género: sentir o cheiro das castanhas assadas na rua! vestir as minhas camisolas de gola alta pretas! ver as folhas no chão! salivar à porta das pastelarias e das suas montras obscenas! ver as decorações de Natal na rua! 

O momento de ontem foi: comer um Baci(o)! Há tanto tempo que não comia um Baci(o)!
E ler a mensagem e guardá-la.

É que no Ibo um milagre aconteceu e no Natal houve quem levasse desde Maputo (a uns 3.000km de distância) uma caixa de Ferrero Rocher. Quando comi um, o mundo parou uns segundos para que o mastigasse e o engolisse.
Ontem foi a vez do Baci(o).
Obrigada querida V. pelo encontro de amigos (de há tantos outros anos) e pelo Baci(o).
Outro para ti.

11.11.11

11.11.11 às 11.11



Quando hoje acordei e saí à rua para passear o Flash, não me lembrei que era dia 11 do 11 do 11. Estava uma manhã menos fria, com a ameaça da chuva, mais uma vez.
Desde que voltei de Moçambique - ultimamente tenho ouvido tantas vezes "voltaste!?!"- tenho ido correr todas as segundas, quartas e sextas feiras de manhã. Começo na Estação de comboios de Santos, vou até ao BBC (já quase a chegar ao Museu de Electricidade) e volto.
Nestas últimas semanas, tem estado sempre sol às terças e quintas. Eu posso confirmar. Esta semana, então, não houve um dia que não chegasse a casa ensopada. Completamente. Qual Jessica Augusto ou a minha eterna heroína, Vanessa Fernandes, enfrento o vento e a chuva, numa batalha inglória contra a roupa toda molhada, os ténis a fazer blherg-blherg-blherg, a cara encharcada e o meu cérebro (seco) que me fala: o que raio estás tu aqui a fazer? olha bem a tua figura.
É verdade.
Na 4ªfeira era só eu e um pescador, que me deu guarida debaixo do chapéu por uns minutos, quando só me apetecia atirar-me para debaixo de um carro, tal era a carga de água e sem qualquer tecto à vista senão árvores e caixotes do lixo. Enquanto esperei que a chuva acalmasse, o Sr. pediu-me um instantinho e foi puxar uma das canas. Já lá tinha uma mini-dourada. "Está a ver?" - dizia ele - " É preciso é a gente vir, se a gente não vem, a gente não sabe se apanha ou não?!".
Nem Kant diria melhor.
Despedi-me da guarida do chapéu e segui até ao BBC. Completamente sozinha naquele percurso, era só eu e as gaivotas que serenas sobre a calçada adoptavam uma posição geometricamente igual, todas com o mesmo ângulo em relação ao Rio. A chuva voltou e eu decidi não parar mais até chegar a casa. E assim foi, depois com Aspirina C e espirros até mais não.
Hoje, no dia 11.11.11 às 11horas e 11 minutos e 11 segundos, deveríamos estar todos atentos a qualquer coisa, ou conscientes que algo poderia acontecer.
Pois aqui a vossa serva só pensou que hoje era 6ªfeira. Dia da corrida junto ao Rio. Mais uma dia que está a chover e eu lá me meti rua abaixo, caminhando a pé até à Estação.
Até chegar à Ponte, tudo bem, depois foi o dilúvio. Estava muito pouca gente, só me cruzei com um ou dois corredores e lá estava o meu "amigo" pescador-filósofo agarrado ao seu chapéu de chuva e às três canas de pesca. Consegui chegar ao Café In e abrigar-me da carga de água maior.
Decidi não parar mais, chovesse o que chovesse. Mas o pior não era a chuva, era o vento. O troço até ao BBC foi com a banda sonora de uma Ópera de Wagner - vento descontrolado e fortíssimo, mal conseguia abrir os olhos tal era a força e a quantidade de água que chovia, as gaivotas nos seus postos, eu, desfeita em suor e em chuva, a contornar os pilares e a iniciar, finalmente, o regresso a casa.
Cruzo-me novamente com o pescador-filósofo, começa a chover com muita força. Continuo. Não sentia os pés, nem as pernas, encharcadas. Só tinha uma imagem na minha cabeça que era um duche quente.
Aquela hora, em que mundo devia estar a desabar, eu estava a debater-me contra o tempo, pisando e saltando poças intermináveis até chegar novamente à Estação de Santos.
Missão cumprida.
Duche quentíssimo tomado. Aspirina C, desta vez sem espirros.
Pronto, foi assim que passei o meu único dia 11.11.11.11.11.11.
Para o ano há o 12.12.12. Vou fazer por estar na Biblioteca Nacional a ler os Sermões Escolhidos do Padre António Vieira, parece-me bem melhor e mais seco.
Bom fim-de-semana e boas castanhas!
(Nota: Não façam como eu que toda contente quis fazer o magusto cá em casa e queimei as castanhas todas, ficaram duras como pedras da calçada e era uma fumarada que não se podia aqui estar!)

9.11.11

20.000

E assim o Bolo-de-Arroz atingiu as 20.000 visitas! Fico tão feliz! Pois tenho cada vez mais a certeza de que está alguém desse lado que dá o seu precioso tempo à leitura do Blog.
Para comemorar, fiz uma busca do número 20.000 e, claro, o que mais poderia surgir senão o Júlio Verne e as suas léguas submarinas!


Acho engraçado relembrar a história do Capitão Nemo e do seu submarino Nautilus (por opção não pûs uma foto com a lula gigante, pois isso é um nojo, deve ter sido um delize do Senhor Júlio), além de que ultimamente tenho adorado usar a minha caneca à marinheiro comprada no Cabo da Boa Esperança, na África do Sul!


Quem diria que o número 20.000 me levasse para junto do mar?
E para terminar, fica o meu marinheiro preferido, o Capitão Haddock e a sua múltipla imaginação para inventar nomes e insultos. Acho-lhe muita graça e acho que ele devia usar uma caneca igual à minha.


Obrigada e até aos próximos 20.000!

8.11.11

A. Lopes

A. Lopes - Agente de Tráfego. Trabalha há tempo demais no Metro de Lisboa, está cansado e farto, mas tem ir trabalhar todos os dias.
São mais as coisas de que não gosta, do que as que gosta. Ele acha mesmo que não gosta de nada.
Atende quem precisa de bilhete e não consegue usar as máquinas, quem vem fazer o "Lisboa Viva", quem está perdido e quem acha que falar com alguém que está dentro de uma casinha de vidro é sempre a solução de todos os problemas: qual é a saída mais próxima de um sapateiro? onde se fazem chaves? há ali perto algum Banco da Caixa Geral? qual é o horário dos metros? tem mapas de Lisboa? há descontos para idosos? fala inglês? fala espanhol?
A. Lopes está farto e cansado.
De vez em quando, muito de vez em quando, pode haver um ou outro que o façam sorrir, mas há demasiado tempo que A. Lopes não sorri. O próprio não se deve lembrar do seu primeiro nome, porque, também há demasiado tempo, que sempre foi o "Lopes". António, Albano, Alberto, Alfredo, Armindo, Armando, Alexandre - o que seja, não interessa. É o Lopes.
Tiraram-lhe metado do subsídio de Natal, tem de trabalhar até às 19h45 e não tem folgas há anos.
O tempo, em demasia, desgasta as relações, os hábitos, as rotinas e o Lopes. Não sabe ele como passaram 29 anos desde que entrou para o Metro de Lisboa. Não se apercebe que foi totalmente sugado e absorvido pelo tempo, se ainda há pouco tinha ido ao Passeio dos trabalhadores do Metro, em que foram ao Mondego: foi em 1991; tinha ganho a medalha da prova de rally paper: foi em 1993; tinha comprado em Espanha, numas férias da Páscoa, a bolsa de pele para levar para o trabalho: foi em 1990; e tinha aberto a Estação do Oriente, que até lá foi o Presidente da República: foi em 1998.
De resto, não há mais nada. Dos últimos 10 anos não há absolutamente mais nada a dizer.
Repete-se o Lopes em todas as manhãs e todas as tardes, dias e dias seguidos. Imóvel e observador, dentro da casinha de vidro, já viu milhões de pessoas, mil milhões de pessoas. Poucos podem dizer que já viram milhões de pessoas passar à sua frente. O Lopes já viu e continua a ver.
O tempo esmaga-o, mas a cada pessoa que passa, A. Lopes prende-se aos seus calcanhares e arrasta-se atrás dela. Vai pelas escadas, entra no comboio, senta-se no banco, liga para os filhos, vai ao supermercado, chega a casa e faz massa cozida com carne.
O Lopes afinal gosta de viver a vida dos outros, debaixo do chão.

5.11.11

Souvenirs em Cacos


Já aqui disse que de Moçambique não trouxe o meu afia-lápis.
Afinal, podem perguntar, o que é que se traz mesmo de Moçambique? Além de 5 quilos de capulanas, transformadas em fronhas de almofada, para uma suposta casa de campo, além do caju torrado e das bolsinhas em palhinha, não há muito mais que se traga.
Os souvenirs são antes milhares de fotografias, amizades, cheiros, experiências, sensações.
Mas certo dia, em Lisboa, andando eu pelas minhas arrumações compulsivas, encontrei o saco de plástico fechado com dois nós e imediatamente reconheci-o. É o saco dos pedaços, dos cacos de loiça que apanhei na praia do Ibo, tardes e manhãs passadas na maré baixa.
Começou com a Lucie, a nossa amiga suíça que vive no Ibo e está activamente a construir um eco-lodge. Em casa dela vi as cestas de palhinha, as mesmas que as mulheres usam para peneirar a farinha de mandioca e o arroz, cheias de loiça partida.
Ela explicou-me que vinha tudo da praia, resultado de longos passeios à beira-mar. A loiça correspondia à mercadoria que os barcos, entre 1600 e 1900, traziam até ao Ibo pela troca de escravos, mica, sisal e madeiras nobres. Em alguns pedaços distinguimos o carimbo: holandês, inglês e chinês.
Pedi-lhe  "autorização" para a copiar nessa empresa, e começamos as duas a passar horas na maré baixa a apanhar os cacos. Era um espécie de terapia, de mata-tempo, da longa espera de notícias e novidades das nossas intermináveis tentativas de começar a fazer qualquer coisa na Ilha.
Cada caco tem um significado, quase os consigo distinguir um por um e lembrar-me onde e quando o apanhei.  
A certa altura chegámos a escolher os cacos, numa selecção natural de um coleccionador exigente. Eu comecei a dedicar-me ao azul cantão, a Lucie preferia a loiça verde e preta, mais ao século XIX.
Tenho pedaços de cantão iguais às tigelas e pratos que estão no Museu da Marinha na Ilha de Moçambique, quando, há 10 anos atrás, uma expedição de holandeses recuperou o lastro de dois navios que afundaram ao largo da Ilha, sendo tudo de Dinastia Ming para cima. Ou seja, tudo antigo e carregado de história.
O caco maior, que vêem no canto inferior direito, apanhei-o numa tarde de calor, quando já estava de regresso a casa; vi-o debaixo de um barco, na sombra. Estava à minha espera!
Foi o maior pedaço que consegui encontrar!
Por lá continua a Lucie, penso eu, nas manhãs e nas tarde de maré baixa a tirar da água salgada e da areia, os restos de uma História e de um tempo que já passou. Numa Ilha tão longínqua que às vezes penso se terei mesmo vivido ali.
Eu trouxe-os comigo, quase que não me consigo separar deles. A ideia é colocá-los numa parede, na mesma casa onde vamos pôr as fronhas de capulana!
Que ainda não existe, mas com que sonhamos há muitos anos.



2.11.11

3 anos


O nosso Flash faz hoje 3 anos!
O que equivale a 28 anos na idade dos humanos, mais coisa menos coisa. Ou seja, o Flash que já tinha idade para ter juízo, além de dever estar a pagar a prestação da casa, não passa de uma criança de 2 anos e 2 meses = idade da minha sobrinha.
Ontem estiveram os dois em animada sessão de brincadeira e o Flash encaixa-se perfeitamente no perfil da M. Incluvisamente jogam às escondidas e partilham fatias de bolo.
O Flash, sendo um cão, não deixa de ser o 3º elemento cá de casa. Ele faz parte da família. Acorda e deita-se connosco, passa os dias à nossa espera, partilha todas as horas e os momentos.
Já viu e ouviu coisas que mais ninguém sabe.

Certo dia tive de ir tirar fotografias tipo passe e numa de apoiar o comércio tradicional do Bairro, resolvi ir à Rua Poço dos Negros a um mini-micro estúdio de fotografia, "Fotografia Triunfo".
A porta, igualmente mini, dá para a Rua e lá dentro está o casalinho que gere a casa há uns 257 anos.
Entrei com o Flash, achei que seria engraçado ele também assistir ao momento. O Senhor disse logo: "Venha, venha!" Fizemos a foto enquanto o Flash andava solto pelo estúdio, que afinal desvendava divisões atrás de divisões à medida que avançamos pelo espaço. Foi um momento animado daquela tarde já chuvosa e tristonha.
Depois das fotos, continuamos o passeio e voltamos a casa.
O facto de eu ir tirar fotos tipo passe com o Flash, mostra a relação que podemos ter com os cães.
A certa altura, eles fazem parte de nós.

E como hoje é dia de festa, fica em jeito de "lista de presentes", aquilo que eu acho que para o Flash seria o topo dos topos dos presente de anos perfeitos:


Uma jante para fazer os 24 xi-xis diários, à vontadinha! E ainda....


Uma grelha de um carro, para estar a cheirar durante todo o dia, à vontade, sem pressas!

PARABÉNS AMIGO!