14.11.11

E o Douro outra vez!



A profunda paixão que eu sinto pelo Douro, não é novidade para ninguém. É mesmo uma profunda paixão.
É qualquer coisa de inexplicável, em que me perco pelas palavras, em que não sei como me justificar. Não tenho família no Douro, não tenho qualquer ligação, sendo que só há poucos anos comecei a beber vinho do Porto, até mesmo a apreciar os vinhos do Douro. Para mim, o Douro era como uma mancha no coração de Portugal, um lugar longínquo a que poucas pessoas acediam, como uma espécie de “clube restrito”, a que a só alguns era permitida a entrada. Não falo dos cruzeiros e do visitante mais turístico, falo de quem entra na vida de uma Quinta e conhece a sua família, envolvendo-se naquela vivência obstinada em torno do vinho.

Foi em 2003 que pela primeira vez conheci o Douro. No Vale do Rio Torto, onde há o lugar de Casais do Douro, está a Quinta do Barão dos nossos amigos Ana Rita e Mário. Quando torno a visitar o Douro é lá onde fico. E é onde sempre quero regressar.

Tudo no Douro é grandeza, sendo ao mesmo tempo simples e rude. Dizem que quando as pessoas se conhecem pela primeira vez e à medida que vão cultivando as suas relações, desencadeiam-se reacções químicas. Eu tive e tenho uma reacção química com o Douro. É qualquer coisa que acontece fora de mim e me leva a desejar voltar.
São as Quintas, as casas e as famílias, o profundo amor ao vinho, a um produto tão simples e tão ilustre que durante séculos representou o maior e mais importante produto de exportação portuguesa (ainda hoje não o será?). O Douro é feito de uma história que vem de trás, muito atrás. De uma história que confunde amor com sofrimento, pragas, crises comerciais, doenças, cheias, seca, fome, morte, perdas, anos extraordinários, ganhos, concorrência, cobiça e paixão.

Nada nem ninguém explica o que faz com que famílias inteiras se dedicassem, e se dediquem, aquela terra, quando não havia comboio e muito menos Pontes ou Barragens, e as estradas eram uma mistura de lama e pedras. Naufrágios, acidentes de carro, bois que caiam pelas encostas, muros e oliveiras que o Rio levava nas cheias, perdas e mortes. Um lugar onde ora o sol asfixia e o xisto ferve, ora a chuva não cessa e destrói anos inteiros de melhoramentos e investimentos nas vinhas.
Ao longo destes 8 anos de relação com o Douro, tive o privilégio de ter conhecido várias Quintas. Uma das que conheci foi a de Roriz. E agora, com este Livro, reforço a minha profunda admiração por estas famílias e a tamanha coragem e capacidade de entrega.

O Douro tem sobre alguns o encanto, a ideia vaga de um sabor doce na boca, de uma sensação de respirar fundo, de fechar de olhos e de sentir o silêncio do Rio. Onde em nenhum outro lugar da terra quero voltar a sentir. O silêncio do Douro é único no mundo. E eu prometo não gostar de mais nenhum.
Como não tenho uma Quinta, nem família no Douro, criei uma. Das coisas boas de se escrever é criar mundos onde talvez nunca possamos existir, ir fazendo parte deles com o prazer da escrita e participar numa vida que não é mais do que uma fantasia. Em 2008 escrevi o meu primeiro Romance: “Chão de Sangue”. Entre o Douro e o Alentejo.

Agora, concluindo o meu êxtase duriense, até penso ainda bem não ter uma Quinta no Douro. Porque se a tivesse, não saberia viver sem ser dentro dela, com ela, e por ela. Seria a minha obsessão, a minha fobia, a minha utopia.
Contento-me com a leitura desta “História de Uma Quinta no Coração do Douro” –  não sou digna em tecer comentários, eu mera lisboetazinha, pouco mais de 30 anos, pequenina e sem saber nada ou pouco da vida. Mas posso dizer que se alguém, algum dia, também sentiu essa química por aqueles vales de socalcos plantados de videiras enraizadas até aos confins da terra, leia este Livro. Compreenda o que são séculos dedicados ao vinho do Porto, a uma tarefa tão dura como quase ilusória.
É por isso que o Douro é para mim aquilo que mais se aproxima de um sonho, de um pequeno delírio. É uma febre que se instala e só de escrever sobre ele fico irrequieta e perdida, como qualquer coisa de inexplicável e intraduzível em palavras.

Dizem que isso é Amor. Então que seja. Que sinta Amor por uma terra: é isso!

I LOVE DOURO!



"Roriz - História de uma Quinta no Coração do Douro", Autor: Gaspar Martins Pereira, Edições Afrontamento e Symington Family Estates, 1ª edição Outubro 2011


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