30.10.09

É mais fácil não escrever...





Gostaria de ser entrevistada para responder a esta pergunta: como eu escrevo?

Como ainda não estou ao nível de uma entrevista na Ler ou no Cartaz do Expresso, faço-a aqui no meu Blog.

Isto é meu, faço o que quero!


Escrevi agora um conto infantil. Foi horrível. Difícil e sem encontrar o meu tom. O meu tom de conversa com as crianças dos 8 aos 12 anos. A minha voz já a tenho e já a reconheço. Já se marca em qualquer coisa que escrevo. Sempre que escrevo, as minha palavras têm uma voz que me distingue.

Agora, e o tom? Escrever para crianças com que timbre? chamá-las de criancinhas inocentes? falar de coisas fofas? (aqui entramos num campo que me perturba, como os que escrevem comigo já o sabem) falar do mundo ideal? do mundo cruel?


Para este conto sentei-me nas cadeiras pequeninas do IKEA que há nas livrarias para as crianças e li o que elas lêem. Falei com Pais que têm filhos desta idade. Falei com educadoras e professoras.

Depois sentei-me e esperei que a conversa chegasse. Vou construindo essa conversa. Faço muitas perguntas. Vai nascendo a história. Sei como a quero começar e como a quero terminar. Nunca sei qual é o caminho.
A certa altura são as personagens que mandam e dizem-me o que querem, normalmente fartam-se de mim e seguem a sua vida. Atravessam a passadeira comigo e dão comida ao cão de manhã, mas depois fartam-se.
Daí que eu nunca sei o caminho que levo. São elas que me orientam. Escrevo o que elas querem.
Não sou esquizofrénica. Não sou escritora. Sou uma espécie de escriturária. Cumpro horários sentada a uma secretária. Obrigo-me a escrever todos os dias. Tenho de escrever, fazer intervalos e voltar a escrever. Se não gosto, volto a tentar. Fico farta. Zango-me.
Escrever é um sofrimento, muitas vezes. Pior ainda quando leio o que escrevo e não gosto e já li 20 vezes e já não aguento mais porque mudo sempre mais uma palavra.
Sou aprendiz, tenho um mestre. Sou aprendiz de construção de personagens e de enredos. Tenho colegas de profissão. São uns sofredores como eu. E lá nos vamos apoiando uns aos outros, seguindo o nosso mestre.
Não é que a escrita seja complicada, mas é muito mais fácil não escrever.

23.10.09

O algodão é frio



Chegou o Outono. Chegou a chuva. Os dias mais curtos e as noites mais frias.
As folhas a cair. O chapéu de chuva que se perdeu no fundo do armário. Os kispos que se embrulharam com chuva num último dia de Abril.
Chegaram os arcos das luzes e os volts do Natal. Chegou uma nostalgia esquecida de fim de Verão. Princípio de vida.
Chegaram os melros salpicados de chuva, os carros nas poças de água. Os sapatos a escorregar na calçada, o fumo das castanhas, o cheiro do sal queimado.
O forno volta a trabalhar, um cachecol amarrotado, sopas mais densas. As meias aquecem demais os pés, o algodão é frio mas a lã é sufocante.
Chega um balanço forçado, em jeito de final de ano. Chega uma especie de tristeza
Da minha janela passam as estações.
Tudo muda do lado de fora.
Pouca coisa muda do lado de cá.

16.10.09

Couves Coração


Depois dos 30, dos casamentos e dos nascimentos dos filhos, das primeiras idas para as escolas e pré-primárias, de uma vida profissional mais consciente e mais ou menos controlada e de uma relação que se vai tornando mais sólida e cúmplice com a nossa cara metade, temos de retomar o assunto dos amigos.

Houve ali um momento da nossa vida em que somos só marido e filhos, trabalho e família. Mas agora é tempo de retomar a amizade, de a reconhecer e dar graças pelos amigos que temos. O tempo que temos para eles é pouco? Não. Talvez seja mais do que suficiente, nós é que nos escondemos atrás dessa ideia muito comum.

Quando entramos para a escola pela primeira vez, qual é a primeira coisa que fazemos? Amigos. Quando vamos para o Liceu e depois para a Faculdade. Quando chegamos a um primeiro emprego ou a uma cidade desconhecida. Criamos laços de afecto e de amizade.

Cultivar amigos é como cultivar hortas (mais uma vez se prova que o Borda de Água é um meio auxiliar à minha sobrevivência) . Tratamos o terreno, semeamos, regamos, vigiamos de pragas e outros bichos, cuidamos e aguardamos pelo fruto. Depois do fruto, temos de o manter e de o saber usar.

Com 32 anos tenho tido um pensamento recorrente - sinto um enorme orgulho pelos laços de afecto e de amizade que criei ao longo desta minha curta e jovem vida. Acho que tenho uma belíssima horta de amigos!!
Não são muitos, mas são todos bons. E agora cada vez melhores e mais apurados.

Nesta fotografia estou eu com uma amiga tão especial como uma belíssima couve coração da minha horta. Eu gosto muito de couves coração, são pequeninas e rijas e têm uma cor verde água muito suave. São compostas por centenas de folhas macias e brilhantes, têm a forma de um coração e são muito saborosas. Cada folha é mais suave e tenra do que a anterior.

E a amizade verdadeira é assim - a cada folha que retiramos descobrimos que a seguir vem uma ainda melhor!
A amizade vai passando as estações do ano e os anos passam sobre ela, o nevoeiro, as chuvas e às vezes as tempestades, mas se foi bem vigiada e tratada, se o terreno que se escolheu para a cultivar foi certo, ela nunca vai desaparecer.

E tal como eu penso que quando estamos velhos vivemos uma segunda vez a infância, os amigos nessa altura ainda são mais verdade e fazem mais parte da nossa fibra, daquilo que somos feitos. Nunca os esquecemos, porque são o nosso chão.

O Outono passa pela minha horta, mas os dias estão perfeitos e as minhas couves coração crescem viçosas e brilhantes!

12.10.09

Cartões de Memória

Cada pessoa, quando nasce, devia vir equipada com vários cartões de memória, tal como se fosse uma máquina fotográfica.
Esses cartões de memória seriam trocados de vez em quando. Havia uma espécie de ecoponto, onde de tempos a tempos, eram depositados os cartões e levantados outros novos: os que tinham sido utilizados por outras pessoas.
Naquele depósito havia a distinção por cidades, bairros, ruas, aldeias, lugares...
Para que servia?
Para que cada um se visse a si próprio, pelas memórias dos outros. Para ver como é, aos olhos dos outros. Certas pessoas precisam disso, de ter a memória do outro, de viver a memória do outro.

A isso chama-se empatia.
Há pouca gente empática. A maioria gosta de se sentir muito bem calçadinha nos seus sapatos, nunca ousando experimentar espreitar para dentro de si. Muito memos para dentro dos outros, pondo-se no seu lugar.
Há cada vez menos gente com empatia.Seja aqui, seja numa cidade longe. Num outro País.

Anda tudo muito excitado consigo mesmo.
E pois sim, isso faz-me muita confusão. Não sei porquê.

7.10.09

Se tu visses o que eu vi....

Hoje vi tanta coisa.

Na fila dos correios, um paquete de Hotel aguardava pela sua vez enquanto lia as dezenas de postais que os hóspedes do seu Hotel inocentemente depositaram na recepção, a aguardar um selo e uma viagem até aos CTT mais próximos.
Primeiro virava-os para ver o tema: Castelo de São Jorge, Serra de Sintra, Jerónimos e depois lia-os com indiferença e até algum desdém.

Numa paragem de autocarro, de uma rua bem movimentada, dormia sentado um sem abrigo, com uns headphones nos ouvidos. Talvez ouvisse música. Talvez esperasse que algum autocarro o tirasse dali, o levasse para longe, para acordar de um pesadelo.

Nos bancos de um jardim homens olhavam para as horas que não passavam. Na esquina da rua mais um grupo de homens aguardava pela vida. Os dias são compridos demais e quando se está na rua, sem casa, sem rumo, as horas desafiam a nossa resistência.

O que lia os postais à espera do nº 227 está farto da vida, tem uma barriga grande e o colete da farda incomoda-o quando almoça o resto do Buffet farto do Hotel. O sem abrigo que não sabe se espera pelo autocarro nº723 está também farto da vida mas tem fome, não toma banho há muitos dias, não dorme em cama nenhuma e nunca entrou num Hotel.

2.10.09

To you

Hoje vou dar-te um presente. O meu presente é a tua memória, e eu vou escrever sobre ela.
Vou mergulhar no teu mar azul, sentir os pés na areia branca que ferve, respirar um vento morno e suave, sentar-me naquela praia.

Depois vou fechar os teus olhos e dentro deles vou espreitar a tua alma. Encontro-te lá dentro. Os teus sentimentos são puros e verdadeiros. És tu mesmo e por isso és feliz. Encontro os teus sonhos feitos balões de oxigénio. Encontro as tuas convicções, os teus pilares, a tua consciência tão limpa.

A tua força guia-te no meio do mar azul. Do teu mar azul.
Hoje dou-te a memória de uma viagem. Uma viagem até dentro de ti.

1.10.09

Carris de palavras


Já aqui tinha falado que gosto de metros. Gosto porque são como veias de um enorme corpo que é uma cidade.

Gosto ainda mais quando se fazem dos espaços urbanos, meios de comunicação com a pessoa. Quando há literatura no metro. Quando se põe ao alcance de todos aquilo que era apenas de um.
E podemos optar. Ou a queremos também ou esperamos pelo próximo comboio.
Eu não só a quero como a registo, fotografando-a.

Não há outro canal de comunicação como a nossa própria voz. Quando repetimos uma frase, lendo-a cá dentro ela é absolutamente nossa.
Os azulejos são generosos e oferecem a leitura. Todos os dias, todos os minutos.
É bom haver dias assim.