29.5.09

Bolo Familiar

Em jeito de conclusão, de fim de mês de Maio, o mês da nostalgia e dos suspiros profundos (podem ser também os outros, de açúcar), o Bolo de Arroz torna-se Familiar.

Isto da Família é coisa complicada de se explicar.
Sem lamechices, nem saudosismo exacerbado, uma Família é coisa altamente complexa. Não sei quem pensou nisso para os homens, porque os animais crescem e vivem em comunidades alargadas, não em agregados fechados. E, normalmente, quando deixam de ser crias pequenas, vão às suas vidas.

Nós, os homens, vivemos aflitos em construir agregados.
Quando ainda não nos conhecemos a nós próprios a questão é: quando começas a namorar?; quando namoramos já dizem: quando casas?; casamos e a pergunta óbvia é: quando têm filhos?.
Ou seja, somos animais autênticos em algumas destas atitudes, principalmente na angústia da não-reprodução, que nos faz tornar uns bichos marginalizados, e depois sobrepomos a "condição" da Família.

As Famílias são, para mim que já penso nisto há algum tempo, talvez dos núcleos mais complexos e estranhos de se analisar. São altamente heterogéneas, feitas de pessoas totalmente diferentes, homens e mulheres que representam vivências e passados completamente distintos.
Mas que são uma Família.

Um dia li um artigo que dizia algo semelhante a isto: os Pais não têm de ser os melhores amigos dos filhos, nem devem ser. Os Pais devem ter toda a amizade que vem do amor que sentem pelos filhos, mas isso não os deve confundir nos seus papéis.
Ou seja, existem papéis. Só isto baralha tudo, porque ninguém nos diz que papel é esse e onde se aprende.

Qual é o papel do Pai e da Mãe? E dos Filhos? Sim, porque também lhes arranjaram um papel, mas ninguém sabe onde se aprende. E depois os Filhos tornam-se Pais.
E então os Filhos-Pais têm de provar que sabem desempenhar o novo papel, que 9 meses antes era só o de Filhos.

Hum, complicado, não é? Eu disse.

Na essência, eu acho que um Pai é um Filho e será sempre um Filho. Mesmo já sendo Avô, nunca deixou de ser Filho, porque foi esse o primeiro papel que desempenhou e é daí que parte a sua vida.
Podemos partir daqui e entender melhor o que é uma Família. Porque na essência temos de viver em Família. Melhor ou pior, boa ou má, é a nossa Família e é dela que partimos para a vida.

A solidão não é coisa dos homens. Nem dos bichos.


Ps. Nesta foto, com cerca de 30 anos, está a minha Mãe, o meu irmão (3 anos mais velho), o meu Pai e eu ao colo dele. Vê-se, pelas mãos do meu Pai, o simpático perímetro da minha cintura...!

27.5.09

Lista de Compras

Já tinha dito da minha apetência pelas drogarias. Também disse na altura que as mercearias era outra das minhas fraquezas - é isso e sapatos que me sirvam, sacos (das lojas boas), as revistas daquela tabacaria nos Restauradores, arrumações que incluam deitar coisas fora, coisas com açúcar, lojas (dos sacos bons), ... entre outras.

No próximo mês, de Junho, da criança, de Portugal, do Corpo de Deus, do Santo António e do Primeiro dia de Verão (ufa), falarei, gente minha, que lerdes este Blog singelo, mais em detalhe das minhas fraquezas.

Bom, mas agora as mercearias. Aqui a questão do cheiro não é tão essencial. Aqui o essencial é a arrumação juntamente com a variedade de coisas muito diferentes e juntas num espaço tão pequeno.
Estamos a ver pacotes de massa e esticamos o braço e temos logo ali sabonetes de alfazema "Feno de Portugal". Vamos buscar uma caixa de ovos e em cima temos lenços de papel "Elos".
Está tudo juntinho. Apetece encher um cestinho de coisas inúteis, tipo essência de baunilha e molho inglês.

É um caos organizado, como nas drogarias, em que cada pessoa que entra encontra o seu caminho por entre os corredores apertados. Há algum silêncio e calma associada em ir à mercearia, não há pressa, nem gente com pressa à nossa volta - são quase centros de yoga-urbano!
Não há o megafone a dizer: "menáge à caixa 2"; não existem carrinhos empanados, gente com cupões nas mãos tipo dossier de facturas. Não há sofreguidão de gente que se procura por entre milhares de metros quadrados de azulejo e milhões de embalagens e pacotes.

Nas mercearias e nas drogarias só vai quem quer e só lá entra quem lá se sentir bem. Eu sinto-me sempre bem, mesmo quando entro pela primeira vez em que tenho de justificar bem a minha presença. Ir só por ir, não dá.
Nos hiper-mega-super mercados entram todos e todos querem lá entrar, dá para ir só por ir, há megafones e carrinhos empanados, gente sofrega e perdida.

Sei que são os sinais do tempo. Não digo que está bem ou mal.
É o que é.

25.5.09

Retiros

São os retiros das minhas palavras.
Quando as escrevo em demasia depois fico sem elas por uns tempos. Estão cansadas de serem pensadas. Então, faço retiros para que elas descansem em paz.

Pensamos demais nas palavras, acho eu. Tem de ser, pois.
Ontem, enquanto assistia a uma Missa e um velório notei na preocupação do Padre em dizer as palavras certas. E que palavras bem pensadas, comentadas até no final da Missa. Todos concordaram em que as palavras foram certas, bem medidas, bem pensadas.

Às vezes dizemos só disparates. As coisas mais idiotas do mundo. Façamos retiros das nossas palavras. Pensemos só no vazio que seria o mundo sem palavras. Respeitemos o som da palavra. Nada disto me vem da fé ou do acto de rezar. Vem do silêncio. Do silêncio que procuro, talvez cada vez mais. Os retiros são o silêncio.

O silêncio é a ausência de barulho? Não. É a ausência da palavra. O descanso em paz vem depois. A paz é o descanso? Não. A paz é a ausência da palavra.
Saber a "não-palavra".
Mas eu não sei viver sem palavras...


P.s - O Bolo de Arroz está "armado" em Platão de Arroz, é isso? Mais ou menos... a Filosofia é qualquer coisa de tão linear e matemático, como de orgânico e irregular.
para mim é uma "ciência" perfeita.

20.5.09

Lá em baixo.


Há qualquer coisa de misterioso e fantástico que ocorre nas linhas de metro. Nos metros do mundo todo. No "debaixo do chão" das cidades.

São corredores de gente apressada. Olhamos pouco nos olhos dos outros, mas há ali uma espécie de solidariedade intrínseca a quem anda de metro. Companheirismo que deve vir das toupeiras, certamente.




Quando descemos as escadas, a caminho do "debaixo do chão", até parece que queremos deixar entrar nos nossos pulmões todo aquele ar carregado de óleo e metal a chiar nos carris. Somos guerreiros, todos. Vestimos umas armaduras e lá vamos nós.
Não interessa quem é quem. Vê-se lá de tudo. Novos, velhos, manetas, pernetas, cegos, menos cegos, coxos, bebés, cães... e até os ratinhos que desafiam a vida naqueles tuneis de escuridão.

Voltamos à luz. Ao ar do céu azul. Lá em baixo - a demanda. Fura a cidade, ponta a ponta. Correm as carruagens de ferro, como plaquetas nas veias.
A Cidade é um organismo, cheio de vida e de sangue.
Há dois momentos em que sentimos o seu coração a bater: no debaixo do seu chão e na noite profunda, pouco antes do sol nascer.
É aqui que sentimos que, afinal, as cidades são vida.

Fotos: Metro Chiado; Metro St Germain de Prés

18.5.09

Em flor...


Na minha cidade eles já estão assim, cheios de cor, a carregar o alcatrão escuro de flores roxas, violetas e lilases.

Os jacarandás!







Aquela árvore que alguém há muito tempo a plantou e agora, anos e anos depois, sou eu que a vejo em flor.

Esta foto é do ano passado (24 de Maio de 2008), e agora, um ano depois, a natureza repete-se.
O ciclo confia-se em si mesmo.

É bom e bonito ver estas árvores que tingem a cidade de roxo, é bom saber que a natureza sobrevive sozinha entre os homens e a cidade.

14.5.09

África





Agora lembrei-me da "Mãe África"... e então isto era sobre aquela geração que nasceu e cresceu nas colónias. A guerra, etc...

Eu não vivi coisa nenhuma, pois como já disse, faço parte de uma geração que não suspira pela Luanda de outros tempos. Nasci e cresci em Lisboa, Portugal.
Fui a África na minha lua de mel. Como Maio é mês de saudade, lembrei-me de África.

Já passaram quase 9 anos, mas ainda me lembro bem da cor da savana e do cheiro quando começou a chover. Os bichos recolhem-se, só fica uma chita. Com a chuva elas apuram o olfacto e naquele lusco fusco procuram caçar a sua presa. A nossa presença era-lhe indiferente. Estava fita num objectivo.

São bichos solitários, ao contrário de todos os outros que se agregam para se defenderem: elefantes, gnus, zebras e até mesmo os leões. Gostam de andar sozinhas. Vimos duas, numa tarde. Estavam a acasalar.

Lá, só cabe a natureza. Não há nada superior a isso. Não há arte, música, tecnologia, ciência. Tudo é natureza, daquilo que somos feitos e para onde caminhamos no final da vida.
Nós queremo-la fazer coisa dos homens, mas a natureza é rude. Tão rude como cruel. Seca e áspera. Como a cor da savana que adensa toda a paisagem. Como os leões que espreitam atrás de um caminho para atacar os gnus que atravessam o Rio.

Lá, sentimo-nos pequenos e feitos de coisas terrenas como os ossos e a carne que nos preenche o esqueleto.
Gostava de lá voltar.

foto: tirada por mim no Parque de Masai Mara

13.5.09

3 Actos de Fé.
Açores. La Verna (Itália). Fátima.
Senhor Santo Cristo. São Francisco. Nossa Senhora.
Eis-me em La Verna, num santuário misterioso e carregado de correntes de ar e de vozes interiores, carregado de fé.
Nos Açores era um tremor que vinha do fundo dos pés, em que toda a força da natureza é feita de fé.
E em Fátima, porque nos recolhemos na fé perto de casa.
E digo eu que ando zangada com a fé, quando no fundo corro atrás dela.
Porque somos feitos de fé e porque a reconhecemos quando a vemos.

12.5.09

Durante a minha ausência...

Foram dias áridos e secos, sem palavras nem pensamentos.
O meio é a mensagem - disse o teórico da comunicação, McLuhan. Pois é! Por isso quando "se vai" o meio, a mensagem vai atrás dele.
O Bolo de Arroz ficou sem meios durante quase uma semana... uma desgraça!
Mas já voltou. De lá.
O que lá aconteceu?
Há 169 anos, no dia 7 de Maio, tinha nascido Tchaikovsky. O culpado por eu sonhar com um lago cheio de cisnes, com a bela adormecida em pontas ou pelo quebra nozes na noite de natal.
É de um só fôlego que vejo Ballet; mas tem de ser bonito, bem dançado, com boa música, fluído, capaz de nos fazer um nó na garganta. Porque é assim que ele tem de existir. Como um adagio. Como uma história de amor.
Eu gosto de ballet, porque no ballet procura-se a perfeição, quase total, quando o ballet é "feito" por pessoas tão imperfeitas como nós. São raros os momentos de perfeição no ballet, para se ver um, têm de se ver muitos. Eu já vi três, julgo.
O Benvindo Fonseca a dançar, a companhia do Merce Cunningham na Gulbenkian no início dos anos 90 e o último que foi este ano no CCB, por ser também surpreendente, o Ballet Preljocaj.
Tenho pena de ainda não ter consigo ver uma bailarina em pontas perfeita. Lá está, é tão difícil que se torna raro.
Aguardo.

6.5.09

J'aime Paris au mois de mai...

Estamos num novo mês. O mês de Maio.

O povo diz-lhe o mês de Maria. O Borda de Água põe-se a enxertar damasqueiros, amendoeiras, cidreiras e laranjeiras.

Para mim, Maio é o mês da saudade. Estamos quase a meio do ano. Temos meio ano novo pela frente. O tempo convida à nostalgia, as noites mais mornas, as manhãs frescas em que a roupa vai-se despindo ao longo do dia. Lembro-me que na Escola já cheirava a férias, faltava pouco mais de um mês. Arrumam-se as camisolas grossas e os blusões. Tiramos os vestidos e as t-shirts para fora. Embrulhamos os cobertores e retiramos as mantas da cama.
Aparecem as borboletas. O feno é feito de ar fino. Os dias são compridos e iluminados.
Pegamos no saco da praia cheio de areia do ano anterior, as toalhas escondidas ao fundo do armário, o chapéu encartilhado do salitre.

Fazemos planos para o resto do ano, em jeito de balanço. Fica-se mais nostálgico, mais doce e apaixonado pela vida. Sempre vale a pena tudo. Como diria o poeta.
Para mim, Maio é o mês de Paris. Porque a minha Mãe sempre o disse.
E porque Paris é a cidade da saudade.