31.8.11

Então e agora, Rita? (pergunta o Flash)

Agora é assim.

Acabada de chegar à cidade, vinda de um universo tão distinto, não deixa de ser difícil.

Difícil que não se veja tudo descalço, que não andem crianças a correr na rua, mulheres a passar com os sacos do Minipreço na cabeça e os homens de catana na mão, que o pôr do sol seja por trás de uma Basílica e não de um mangal ou de uma praia, que quando chove não há jericans e baldes a encher-se de água, que eu não diga "bom dia!" a toda a gente e toda a gente me diga mim, que ninguém se ponha na rua a vender gengibre e tomate, alface e ananás, que o céu seja tão cheio de coisas que não são azuis e brancas, que o tempo não se demore pelo calor e pela brisa, que não haja brisa, que não oiça tambores e cantares em cada casa e em cada esquina, que uma casa seja feita de cimento com telhas porque se for de bambu com telhado de macuti (folhas de palmeira) é uma barraca, que eu não acorde as 6 da manhã como se fossem 10, e me deite às 9 da noite como se fosse meia noite, que não me embrulhe com uma capulana e uma t-shirt e me sinta tão bem vestida, que não me entenda com o mundo tão bem como ter a certeza de que amanhã é outro dia e certamente tudo vai melhorar.

Como é que conseguiriamos obter uma certa forma de estar africana com um certo estilo de vida ocidental? Não quero dizer que os Bancos devem ficar cheios de gente, com mulheres a dar de mamar sentadas no chão e horas de uma espera interminável; mas gosto daquele sentir desprendido, de uma promessa sem compromisso, de um final de tarde esticado numa praia, dessa forma de estar e de ver a vida, tão básica, quase pueril.
De viver um dia, quase uma hora de cada vez. Passado e Futuro são verbos distantes, só conta mesmo o Presente.

No outro dia ouvi alguém que, enquanto falava sobre cães, dizia que tal como as crianças pequenas, os cães não têm noção de um passado ou de um futuro, apenas vivem o que têm naquele momento. Só e apenas o presente.

O agora é assim. Amanhã logo se vê.

25.8.11

Entrevista ao Flash, "Então e agora?"




- Olá, cão. Tudo bem?


- Tudo! O meu nome é Flash, sim? Não te chamo de coisinha, pois não?


- Não, desculpa. Mas tu és um cão.


- Sou?


- És. Mas olha, isso agora não interessa, queria fazer-te uma entrevista.


- Isso come-se?


- Não. É uma coisa em que eu faço perguntas e tu respondes.


- Ok. Mas depois posso comer?


- Não.


- Então e posso dizer que não gostei que tivesses lavado a minha tigela. Aquilo agora brilha e não deita cheiros, está horrível.


- A tua tigela estava um nojo, Flash.


- Um nojo para ti, para mim estava perfeito.


- Mas olha, diz-me uma coisa: então e agora?


- Agora, o quê?


- Então. O que todo o mundo pergunta, toda a gente fala, e agora? A crise, a instabilidade, a Troika, os Bancos, o Passos Coelho, o futuro… essas cenas.


-Ah, eu sabia! O Coelho come-se!


- Não, Flash. Esquece. Quero saber: então e agora? Responde se faz favor.


- Certo. Então, agora vamos lá abaixo que eu quero fazer xixi em 4 caixotes de lixo, nos degraus daquela casa que cheira a cadela, em 3 canteiros, em 5 rodas (2 de motas e 3 de carros), em 2 postes (se acertar) e ainda cheirar 17 sacos do lixo e, se possível, comer aquela fatia de pão de forma que ontem tu não me deixaste comer. É isso.


- Desisto. Vai lamber sabão.



- Não me deixas! Eu já quis mas tu é que não me deixas!

FIM

24.8.11

Last but not least...




















































O fim da viagem estava a chegar.


Depois de uma noite em Nelspruit, saímos para a visita ao Blyde River Canyon, mesmo às portas do Krugger, o terceiro maior Canyon do Mundo (antes estão os EUA e a Namíbia) mas o primeiro mais verdinho.Os outros são secos como ossos, este sempre é mais colorido. Deve ser todo ele bonito e verde, mas acontece que nesse dia em que decidimos visitá-lo e registar as espectaculares paisagens, estava a chover, havia carragas de nevoeiro e para melhorar havia uma greve! Os guardas dos portões de acesso aos miradouros e locais de vista fecharam as cancelas e pronto, os turistas que se lixem.


Coloquem no Google (Imagens): “Blyde River Canyon”. É lindo de morrer não é? Conseguimos chegar perto de um dos miradouros e já foi uma sorte. Antes disso, ainda visitamos uma aldeia histórica, Pilgrim’s Rest, do tempo das minas e da corrida ao ouro (que se iniciou no século 18). Lá ainda se respira o espírito da época, séculos depois, havendo até umas lojas que tiram fotografias com os fatos, os décors e as cenas da época! Mas estava tanto frio, que a ideia de ter de mudar de roupa fez-me rapidamente desistir do programa, que deve ser bem divertido.


Passámos a noite em Swadini, no local da Barragem do Blyde River; dizem que é lindíssimo também, mas os acessos estavam fechados, greve é greve, senhores! Dormi que nem uma pedra, entre o silêncio das montanhas (devia então ter escrito: “dormi que nem uma rocha”), acordando para um dia de sol e calor esplendoroso! Parecia que o dia anterior tinha sido uma mentira e rumamos ao Krugger para ver bicharada até mais não.
Contámos quantos safaris já tínhamos feito e com o Krugger estávamos a fechar os 10 safaris em saídas mas seis, se contarmos os diferentes Parques. Ou seja, já não gastamos 19 fotografias com um impala e dois javalis e criámos um código entre nós, para quando nos deparamos com esta bicharada da "base" da pirâmide: são as batatas! Zebras, impalas e toda a gama de bambies, gnus, javalis e porcos selvagens = batatas. As girafas já merecem alguma atenção e os hipopótamos são sempre cómicos de se ver. De resto o “gatilho” da máquina já só dispara pelos Big Five: Elefante, Rinoceronte, Búfalo, Leão e Leopardo; e pelos pássaros, sempre.


Mesmo assim, depois do Krugger, comecei a considerar o Elefante uma semi-batata. Vimos muitos, pois vimos. Em 5 horas, nós, e o nosso KIA Rio, vimos tudinho, faltando só mesmo o Leopardo. Até vimos três leoas e um leão, que tinham acabado de comer umas “batatas” e por isso estavam sujos de sangue da matança! Foi espectacular! Uma espécie de “trânsito na estrada” permanente e até divertido.


O Leopardo. No Centro de Reabilitação de Moholoholo, mesmo junto ao Krugger, tivemos um encontro imediato com esse bicho maravilhoso, solitário e astuto (que até já tínhamos conseguido ver no Niassa, no meio do mato e na escuridão). O Centro, uma autêntica lição de vida, de natureza e de comunhão com os bichos. Estivemos com águias e abutres, chitas e leões, e até com um rinoceronte de 18 meses - uma pequena bestinha que dá marradinhas nas pernas! É um local que recolhe e trata os animais, a maioria são presos em armadilhas e redes (vedações) e as aves ferem-se nos postes de electricidade.


A Lição que aprendi, é de que a natureza já não se consegue equilbrar sozinha. Sem a ajuda e a intervenção do Homem, caminhamos para um destino triste e para a perda de cada vez mais espécies na terra. Por exemplo, há uma águia, a águia africana que faz os ninhos nos buracos das árvores mais altas, normalmente embondeiros e assim. E há muitos poucas hoje em dia, menos ainda porque os elefantes, que são aos milhares naquela zona do Krugger, destroem as árvores para comer os ramos e as folhas e com isso dão cabo dos ninhos das águias que assim não se reproduzem.


O que aprendi é que apesar de serem animais selvagens, a convivência com o Homem, por um longo período de tempo, fá-los julgar que são pessoas, que são humanos. Mesmo as aves. Eu estive ao lado de uma chita que parecia um gato de casa, o leopardo juntou-se a mim, do outro lado da vedação e passei a mão pelo pêlo dele: tão suave. Eles esquecem-se de que são selvagens e assumem-se como humanos. E por isso, há 10 anos construíram o Centro, porque muitos bichos não podiam ser devolvidos à natureza, pois morreriam certamente. E qual o nosso papel? Eles diziam de uma forma muito natural, que os animais não falam, não têm voz e por isso nós, humanos, temos de falar por eles. De outra forma eles não têm hipótese de sobreviver num mundo dominado pelo Homem. Vai demorar tempo, mais vai acontecer...


Não é a primeira, nem será a última vez que eu escrevo neste Blog sobre a sempre intensa e milagrosa relação que me fascina entre os homens, os animais e a natureza. E no injusto e constante jogo entre as duas forças que partem de tão diferentes patamares: a natureza é sempre generosa, o homem é sempre tão egoísta.

E não é por uns serem vegetarianos que se ajuda mais a natureza; as plantações de cereais e vegetais, estufas e regadios implicam milhares de campos, de terra e terra a perder de vista, onde milhares de animais deixam de ter local de pastagem e de nidificação (é nessas vedações que os bichos ficam apanhados).

Outra coisa aprendi, que muito estupidamente os homens resolveram criar imagens de animais “fofinhos” e não fofinhos, como por exemplo as hienas que são feias. Fiquei fã das hienas, são dóceis e porque apenas têm aquele aspecto marreco e aquele riso velhaco ninguém gosta delas. São super inteligentes, sem elas a selva seria um caos, elas limpam tudo (comem ossos), funcionam como famílias autênticas e juntas conseguem caçar um leão. Mas como a Disney as fez feias e más, ninguém gosta das hienas e todos adoramos os leões.

Enfim, é a nossa urgência em “humanizar” tudo à nossa volta que nos faz tomar estes princípios, afinal tão sem sentido.



Mas é como somos, e no final de contas estamos todos no mesmo saco: vegetarianos ou não. E o que importa perceber é que isto não caminha para melhor. É importante conhecer estes projectos, acreditar, doar, sentir a causa.

Depois do inesquecível Chewy (o leopardo, com um nome sugestionável!) e do Krugger, em que a certa altura só nos faltavam as pipocas, tal era a diversão, regressamos a Nelspruit para na manhã seguinte apanhar o autocarro que nos levaria até Maputo.


Era o fim da nossa viagem. Entregamos o KIA Rio com um aperto no coração e contamos 4.000km de estrada feita. Suspirámos por roupa lavada, fizemos as últimas sanduíches de pão de forma e fatias de queijo fundido “A Vaca Que Ri” e fomos para a paragem esperar o autocarro. Pagámos 13 euros cada um pelo bilhete. O autocarro levava 62 passageiros, três eram brancos o resto era tudo moçambicanos que já vinham desde Joanesburgo. Oh! Saudades da minha terra! Tudo a discutir pelas sacas de cebolas e pelos frangos a descongelar na bagageira do autocarro, crianças aos berros, pacotes de 1 kg de Corn Flakes e caixas de 32 ovos, embalagens de pão de forma e de flocos de aveia, garrafões de óleo de cozinha e rolos de papel de cozinha, só faltava mesmo o pêssego em lata para eu me lembrar quando há uns 25 anos íamos a Badajoz comprar água de colónia e caramelos pinhoñes, que em Lisboa era tudo uma miséria.

Afinal, vale a pena encher uma camioneta de mercearias.


A passagem da fronteira foi feita a pé, de um lado (RSA) carimbámos o passaporte de saída, do outro (na Fronteira de Ressano Garcia) entravamos em Moçambique. Muda logo tudo. Há lixo no chão, música aos gritos, gente a correr por todos os lados, polícias corruptos e mal encarados. Mas, Oh! Saudades da minha terra! Antes de parar no Centro de Maputo, na Av. 24 de Julho, ainda estivemos na Matola sem perder o pitéu da malta a descarregar o “City to City”, com 40 toneladas de víveres e outros tantos quilos de gente.



Para o fim, sobraram uns poucos, entre eles os 3 brancos. Descemos, inalamos bem o cheirinho da cidade e apanhamos um tuc-tuc até à casa da nossa amiga Mafalda, onde já nos sentimos tão bem. E antes de subir ao magnífico 21º andar, ainda bebemos uma cerveja (eu uma Cola Zero) e comemos uns cajus, uns tremoços e uns amendoins na esplanada do Piri-Piri.


Que maravilha; tinha sido uma viagem fantástica mas sabia mesmo bem ter chegado a “casa”!

22.8.11

Semana II; Good Hope Cape – Mossel Bay – East London – Durban – Nelspruit
















































A Garden Route é um “Krugger Park nº 2” de África do Sul. Muitos dos que visitam o País, fazem este pedaço de umas centenas de quilómetros da N2, que sempre indo junto ao mar, segue desde Mossel Bay até Port Elizabeth, passando por Plettenberg Bay e Jeffrey’s Bay. Estes últimos nomes, para quem é cromo do surf, sabe bem do que falo, e as praias são qualquer coisa de eu ficar outra vez sem adjectivos e palavras para descrever as paisagens e o mar…



Agora começa a parte rija da viagem, a que nós nos propusemos de chegar a Nelspruit ao fim de 5 dias: 2.417 km no total! Tinha de haver aqui algum desafio, senão não era a mesma coisa. E para ajudar ao plano de viagem, resolvemos no dia da partida visitar o Cabo da Boa Esperança.




Foi D. João II, o Príncipe Perfeito, que enviou uma missão exploratória ao Sul de África chefiada por Bartolomeu Dias e que em Janeiro de 1488 dobra o Cabo das Tormentas (depois da Boa Esperança), estabelecendo uma via de passagem entre os oceanos Atlântico e Índico.
Só nós faltou levar um daqueles kits do Euro 2004, porque tudo em nós era orgulho em ser português! A distância a que se está de Lisboa (de onde partiram as caravelas) é absurda, e pensar que eles se enfiaram naquelas casquinhas de madeira pelo globo abaixo é ainda mais absurdo. E o melhor disto tudo é que 10 anos depois veio o Vasco Da Gama repetir a dose para chegar à Índia. Gente com centelha de louco, só posso concluir.



A zona do Cabo da Boa Esperança é parte do Parque Natural da Table Mountain, e por isso completamente protegida e uma vez mais, lindíssima. Tem uns lagartos pretos retintos, que eu nunca tinha visto, altamente vaidosos, que se adoram fotografar e ainda montes de turistas que vêm ver a rocha que o Sr. Dias dobrou.



Tal como ele, seguimos no nosso Kia Rio 1.100, que mais parecia um isqueiro, até Mossel Bay, a próxima e última paragem das caravelas daquela expedição. Depois disso, o navegador resolveu voltar a Lisboa, como quem apanha a A5 para Cascais e pronto. “Venha de lá o Sr. Da Gama buscar o açafrão, piri-piri e cristãos, que eu quero é calçar umas meias quentes e comer uma açorda com rogões!” – deve ter o Bartolomeu desabafado com o seu contra-mestre.



Experimentem olhar para o Mapa-mundo e ver o caganito que é Portugal e depois com o dedo fazer o caminho, contornando o colosso que é África e ir até à Índia e depois dai, já agora, também até à Indonésia e ao Japão… Ficamos com a boca ligeiramente aberta. Eu andei assim uma semana inteira, porque é mesmo do caneco e isto tudo há mais de 500 anos…



Em Mossel Bay tomámos o pequeno-almoço numa praia (a partir de aqui sempre que me refiro a praia é sempre, sem excepção, uma praia maravilhosa, isto é, areia branca, ondas perfeitas, cheirinho a maresia, areal extenso, tudo em bom e tudo bonito!), com uma carrada de golfinhos que nos acompanharam nesse momento bem matinal.
Já na estrada, fizemos uma passagem em Port Elizabeth; isto no fundo era também uma forma disfarçada de reconhecimento de estádios de futebol do Mundial 2010, não totalmente assumida pelo meu mais-que-tudo, mas compreendida por mim. Chegamos a uma cidade com 1, 5 milhões de habitantes, onde o disléxico do GPS nos levou para uma espécie de ”centro da cidade”, que era uma mistura de Estação de Sta. Apolónia, Cais do Sodré e uma pitada de Meia laranja. Horror! Prego a fundo, mas ainda tivemos sorte e vimos o estádio!



Neste percurso, em que a Garden Route se junta com a Wild Coast, passamos pelo local de Bungy Jumping mais alto do mundo, com 276 metros que se atiram de uma ponte abaixo, no meio de um vale. Chama-se Face Adrenalin, bem a calhar. Por cima passam camiões TIR, e o nosso KIA Rio, também, e lá em baixo é um autêntico penhasco… houve um senhor de 96 anos que saltou daquilo, e eu só de ver fiquei 3 horas com arrepios contínuos. Eu, até que me achava uma radical e tal, despedida de solteira a fazer rafting e alguns anos de escalada e coiso, e assim que me imaginei com aquelas cordas a “amandar-me” tornei-me a totó do radical.


Havia 4 dias para fazer 1550 km, e por isso não nos podíamos alongar muito. Mas o cansaço já era bastante e depois do troço até East London, de mais de 600 km, resolvemos ficar duas noites nos arredores da cidade, em Chintza, numa espécie de retiro de surfistas e amantes da natureza. Ficamos literalmente no meio do nada, em cima de uma praia gigante (sempre que falo em praia já sabem!), num alojamento completamente enquadrado na paisagem e perfeito para um descanso merecido.
Depois de passeios e umas sestas na praia retomamos a estrada e lá seguimos até Durban, com mais uma “talochada” de 651 km. A paisagem muda drasticamente e o tempo também. Começamos a apanhar chuva, frio, nevoeiro e uma má estrada, que apesar de em bom estado, estava carregada de camiões TIR e era a subir e descer montanhas. Passamos para o interior, mar nunca mais vê-lo.


Passamos pelas cidades e aldeias 100% negras e 0% brancas, sempre a divisão presente.


Depois de tantas e tantas horas dentro do carro, no lugar de co-pilota atenta, cheia de mapas e à chapada com o GPS, comecei a perceber que havia várias técnicas para se pedir boleia na estrada: há os que estendem uma nota de 10 ou 20 rands, os que apontam para o céu, como quem diz: “sou só eu, não vou com anexos para dentro do teu carro” (aquela gente transporta-se em múltiplos de 4 normalmente), e finalmente os que mostram um papel com as iniciais da cidade para onde querem ir.


Passamos por sítios muito mais rurais, com cavalos e cabras, vacas e uns cães perdidos. Estava tudo muito seco e muito amarelo, e o engraçado é que os pretos pintam as casas às cores, gostam de as colorir, e isso faz um contraste bem giro. (os pretos são pretos, e não são “de cor” ou “negros”, eles próprios se tratam assim e querem ser assim tratados).



Foi um caminho bem mais difícil e por isso muito mais cansativo. A chegada a Durban já foi perto do por do sol, chovia e nós só queríamos descansar e tentar marcar as dormidas em Nelspruit e no Krugger Park. Mas vimos o Estádio, que é belíssimo!



Manhã seguinte, bem cedo, fomos para a estrada: os últimos 700 km da viagem! Uma loucura, porque foram os mais duros! O tempo continuava mau, o frio apertava, com muito nevoeiro, e pior é que a estrada estava péssima (buracos, obras). Praticamente de 50 em 50 km parávamos porque havia trabalhos na estrada, chegando a esperar 20 minutos para passar. E tudo isto com uns 9ºC, e nós já cheios de camisolas e produtos feitos de lã, mas agora com stress pós-traumático do frio dentro de nós. Nem saíamos do carro e só comíamos bananas, bolachas e fatias de pão de forma com queijo, que nem esquilos a fazer reservas para o Inverno.



Já tínhamos feito mais de 3.000km no total, e por acaso nunca tínhamos tido um furo ou assistido a um acidente (pois fomos bem avisados de que a África do Sul tem uma taxa horrenda de acidentes na estrada). Até este último dia em que uma manada de vacas andava solta na berma da estrada (passamos por várias) e uma das vacas resolve entrar no alcatrão.

E tudo se passou a 5 metros à nossa frente, na faixa contrária, em que o carro que vinha de lá, para não se atirar para cima de nós, levou com uma vaca. Foi horrível, estava o chão molhado e via-se mal.


Não parámos. A berma estava cheia de vacas, a probabilidade de acontecer o mesmo era alta e nós só quisemos sair dali o mais rápido possível. Com a imagem da vaca e do carro sempre à nossa frente, que até mesmo se sobrepôs ao trauma do frio, chegamos finalmente a Nelspruit! (não sem antes termos ido parar praticamente a Maputo, pois mais uma vez o GPS baralhou-se de tal maneira que nos pôs a andar numa estrada sem fim)



Chegamos! Agora seriam 3 noites em Nelspruit, uma delas perto do Krugger, no último dia entregar o carro no Aeroporto e apanhar um autocarro para fazer pouco mais de 200km até Maputo. Chegar a Maputo, era, para nós, muito equivalente a chegar finalmente a “casa”!


Foram 16 dias sempre em movimento, na maioria em estrada e já a roupa que andava na mochila cheirava mal, andava com o mesmo polar há 15 dias e as calças já se punham de pé sozinhas.
Mas antes, claro, haveria a grande aventura do Krugger e nós estávamos mortos de cansaço, mas cheios de vontade para vivê-la!

21.8.11

Semana I ; Joanesburgo – Cape Town – Saldanha Bay – Stellenbosch









































































































Por muito que me tivessem avisado de que África do Sul era qualquer coisa de extraordinário, eu confesso que nunca estive realmente preparada para o “choque” (texto 29 de Julho, “Pedimos desculpa pela interrupção…”).





O choque foi também ele térmico, porque apanhamos temperaturas negativas, além de ventos gélidos e neve. Era Inverno, pois era, mas também era em Pemba, onde o termómetro teimava em não baixar além dos 27ºC. A nossa roupa toda junta teria um total de 1,9% de lã, sendo ela 98,1% de algodão, o que para se estar uma cidade que chegou a ter 2ºC, foi um verdadeiro desafio de estilo e moda. Foram camisolas em cima de camisolas e muito frio que se rapou em Joanesburgo. A cidade má, a cidade feia de África do Sul. Carregada de minas de ouro e platina, assim como quem não quer a coisa, de “guetos” de vivendas gigantes cercadas por muros enormes e mais arame electrificado, de vidas fechadas dentro de centros comerciais, escadas rolantes e seguranças em cada esquina. Não é uma cidade bonita, nem muito apetecível de se visitar, mas está carregada de mensagens e de histórias. Ainda lá vive o Nelson Mandela, tem 5 milhões de habitantes, é o maior centro industrial e financeiro do País, tem o maior e mais movimentado Aeroporto de África, tem uma grande comunidade de emigrantes portugueses/ moçambicanos, de brancos e pretos que não se misturam, nem nunca se querem misturar, mas que assim vivem naquele pedaço de terra a 1.753 m de altitude, habitado há milhões de anos pelo Homem (há vestígios de vida humana há 3,3 milhões de anos).






De “Jo’burg” partimos para Cape Town de comboio: vinte e sete horas atravessando quase todo o País. Saímos pela hora do almoço e chegamos à Cidade do Cabo no dia seguinte pelas 15h00. Tudo funcionou bem com a compra dos bilhetes e a reserva dos lugares, só me assustei com a quantidade de gente que se apresentava na Estação de Comboios e no terminal à hora da partida. Só faltava mesmo o transporte de uma cabrinha ou uma galinha, porque de resto estava lá tudo: sacas de tralha, cobertores e roupa, crianças ranhosas aos gritos, gente e mais gente. E nós os dois, com as nossas mochilas, no comboio 70081, carruagem 11, compartimento F. Aquele povão todo, que parecia estar nas bilheteiras do Estádio da Luz em dia de jogo com o Porto, ficou nas carruagens “Sitter” (sentados); nós, e mais uns quantos casalinhos no mesmo registo e alguns viajantes sozinhos, ficamos na “Sleeper” (dormidas). Pouco antes do pôr-do-sol (pelas 17h) vieram fazer as caminhas. Por uns 4 euros tivemos direito a lençóis, dois cobertores e duas almofadas para cada um. Para mim, que fiz o inter-rail nos meus tempos de Faculdade, era um upgrade considerável, com direito até a utilizar o Restaurante do comboio e poder escolher o que quisesse do Menu!






O pior nesta viagem foi mesmo frio. Atravessámos uma frente fria, que, além de neve nas montanhas, trouxe uma chuva miudinha, e eu, debaixo dos dois singelos cobertores, sentia-me como dentro de um saco de ervilhas congeladas. Acho que nestes anos de vida, nunca tive tanto frio! Foi horrível e traumático, deixou tamanhas marcas, que ainda hoje, em Lisboa, equaciono usar meias e a dormir de edredão, com um aquecedor tipo TEFAL ligado no 6 a noite toda. (a simples ideia de ainda ter de passar por uma Estação do ano que se chama Inverno, deixa-me com tremeliques).





Como em tudo, quando uma sensação muito forte se associa a uma experiência na nossa vida, isso fica marcado para sempre. Assim, aquela experiência que se queria bem divertida de uma viagem de comboio (e logo eu que gosto tanto de comboios) ficará eternamente marcada por um frio glaciar. Nem mesmo o facto de a meio da noite, nos terem entrado pelo compartimento adentro dois polícias armados, com coletes anti-bala, revistado as nossas coisas e pedido os nossos passaportes, eliminou o frio da coisa:




- Afrikaans or foreigners?! - Foreigners, Sir! (perninhas a tremer, de frio ou de nervos com aquele cenário?)
- Where from?! - Portugal, Sir! (lá vamos nós outra vez…)
- Huum…







O frio apoderou-se de toda a experiência “comboial”, e por isso, mal chegámos a Cape Town, fomos comprar cachecóis, calças, camisolas e um blusão. E mais teríamos comprado, completamente descontrolados, não fosse eu lembrar-me: “ah… mas lá em Lisboa é Agosto, certo?”.





Só existe um “mas” nisto tudo, é que o Inverno Sul-africano é geralmente acompanhado de um sol luminoso em céu azul celeste. Confirmou-se que, em Cape Town, tivemos um tempo fantástico, com quilos de sol altamente nocivo, porque é daqueles que dá logo dores de garganta e tal, e como nós estávamos sôfregos por nos aquecermos de alguma maneira, espetamos com o nosso cocuruto ao sol, estando por isso ainda hoje a pagar esse comportamento animal e de sobrevivência pura.








A Cidade do Cabo é uma cidade feita pelo homem, onde hoje existem ruas e prédios, antes era uma praia. A primeira vez que algum homem fala desta cidade, foi um português de seu nome Bartolomeu Dias. É uma cidade de vida simples e de gente muito acolhedora e simpática. Não tem grandes prédios, nem grandes avenidas, fazendo lembrar cidades americanas com casas de primeiro andar e varandas em ferro furjado, tipo New Orleans.








A Table Mountain, que se vê deliciosamente traduzida por “Montanha Mesa” (fiquei a pensar se nos Guias de Turismo de Portugal também se escreve Star Mountain ou Dog’s Spine Mountain), é uma espécie de rainha da cidade. Claro que subimos (por um teleférico), e à custa do sol altamente brilhante, vimos toda a cidade aos nossos pés: é uma escalada reveladora de uma paisagem deslumbrante. O que eu tenho notado à medida que vou escrevendo textos e emails sobre Cape Town, é que me faltam adjectivos e outros sinónimos para bonito, lindo, maravilhoso, magnífico, estupendo, etc, etc…








A visita seguinte foi a Saldanha Bay, a noroeste da Cidade do Cabo, e que foi no momento devidamente documentada (texto 2 de Agosto, “My name is Saldanha”).





Depois do exercício de narcisismo puro, seguimos para Stellenbosch – a terra do vinho sul africano. Além de ter uma Universidade, cujos primórdios remontam ao século 17, é uma região de vinho estabelecida e fundada em 1679. A seguir a Cape Town, esta foi a mais antiga região habitada pelos europeus, quando colonizaram o País.




Em Stellenbosch, existe uma rota do vinho com dezenas de Quintas que se podem visitar, além de provas e até algumas servem refeições. A cidade em si parece um cenário de um filme vitoriano, pois as casas da época estão todas impecáveis, respeitando o espírito da altura, com os telhados recortados, as janelas de vidrinhos e os jardins muito bem arranjados. Além das montanhas que cercam a cidade, dando-lhe um ar meio pré-histórico, existem as vinhas que se vão estendendo ao longo dos campos bem tratados. Comemoramos 13 anos desde que começamos a namorar e almoçamos numa Quinta (Boshendal), debaixo de um sol de Inverno preenchido de celebração. Fizemos umas provas, não as suficientes para que ficássemos pior do que o GPS (que se fartou de nos enganar durante a viagem), e seguimos para o Western Cape com a Garden Route em próxima missão.






























































17.8.11

A despedida

No final de uma nova vida, começava uma viagem.
Fechamos as portas das casas de Pemba e do Ibo, com a estranha sensação de não ser um fim para sempre. Qualquer coisa de nós ficou em Moçambique, qualquer coisa de Moçambique ficou aqui dentro de nós.
Vendemos o carro, as ferramentas, os sofás, a impressora, a tenda e o colchão, a ventoinha e a cómoda, o material de mergulho e de pesca e demos pratos e talheres, frigideiras e panelas, alguidares e molas da roupa.

Quando fechamos as nossas casas de Pemba e do Ibo fiquei com a sensação de que nada na vida é de facto para sempre. E de que tudo se monta e desmonta, se constroi e destroi, conforme a nossa vontade e a nossa força. Uma casa existiu, duas aliás, onde vivemos. Carregadas de coisas, de objectos nossos, de rituais, de rastos e de pedaços de pistas que vamos deixando. Mas conforme tudo se constroi à nossa volta, tudo é assim tão facilmente “descartável”.
Aprendi que afinal é fácil desmontar um sonho, o pior é que enquanto o vivemos, vamos conhecendo pessoas e lugares e são esses afinal que não se soltam, como quem vende um gerador e uma bomba de água.

Foi o mais difícil nesta despedida. Foi sentir do outro lado a nossa tristeza de partir, de alguém que nos quer bem e que, de uma forma consciente e realista, acredita que nunca mais iremos voltar. O saber que “nunca mais vamos voltar” é uma seta dura que se espeta no coração.
Os abraços são longos e apertados e há um sentimento que se partilha, e que não tem outro corpo que não seja o da tristeza. Dói quando partimos e dói mais ainda quando nos despedimos de um lugar e de alguém que sabemos ser difícil voltar a ver, voltar a ser igual, voltar ao dia em que nos despedimos.
É curioso que quando me preparava para esta despedida, muito decidida, apenas via o seu lado prático, lógico e racional. Há muito que tenho esta ideia de que alguém deveria escrever um “Manual Prático para Despedidas”. Porque ninguém nos avisa do que é esta dor que se põe no nosso colo. Escrevi em Pemba, pouco depois de ter acabado de chegar, um texto que começava assim: “Manual de Preparação para o “Adeus” (ou antes, o que é ser emigrante, afinal, o que agora se chama de expatriado não é mais do que um emigrante requintado, mas cheio de “dores” e sofrimento também)”.

Foi há um ano, logo eu tinha apenas a perspectiva de quem tinha acabado de sair da terra onde viveu 33 anos da sua vida.
Falava em três variáveis que ajudavam nesta Preparação: nº1 o tempo; nº 2 a capacidade do Homem para a aceitar a mudança (e fazê-la) e nº 3 fazer uma Lista com duas colunas, do lado esquerdo o “antigo Adeus”, aquilo que tínhamos deixado, do lado direito o “novo Adeus”, que era para mim a nova vida que vivia em Moçambique.
E eu escrevi a tal Lista pouco tempo depois. Aqui vai o que eu pûs na coluna do "novo Adeus": Andar descalça em casa e na rua, acordar com o nascer do dia e sentir o pôr do sol, molhar-me e salgar-me com a água do mar, sem pensar se fico com frio ou se estraga a roupa, dormir de janelas abertas, ouvir os pássaros e os cabritos na rua, descobrir todos os dias novos pássaros e novos cabritos, ouvir vozes de crianças, de mulheres a cantar e de gente (nunca de carros, buzinas, trânsito), tomar um banho ao final do dia e pôr uma roupa fresca, viver numa ilha, comer caranguejo que veio do mangal, andar de carro pela estrada de terra, passar pelas aldeias, cheirar as magnólias, lavar a roupa de manhã que fica seca ao fim da tarde, não sentir o tempo a passar, nem os dias, ou as semanas, não ter saudades…
Agora estou de volta. À minha terra, à minha outra vida, à minha cidade, ao meu canto onde sinto que sempre pertenci. E agora tenho saudades.

15.8.11

Descascar Favas (ou ervilhas).

A ausência de textos no meu Blog é, para mim, inversamente proporcional à quantidade de ideias que se acumulam no meu cerebelo. Bom, bom era haver um cabo USB que se ligasse do cerebelo à net e eu despejava tudo num instante!

Ora vejamos: voltei de Moçambique, fiz uma viagem à África do Sul, fiz 34 anos, cheguei a Lisboa, cá está calor, lá era Inverno, fechei as portas de duas casas, abri a porta da minha casa, acordei sem saber onde estava, estou em Cascais, mas nestas últimas semanas já acordei no meio de uma montanha num Canyon, no Niassa a ouvir leões e em Lisboa com o 28 a subir a Calçada do Combro, cá a água do mar é gelada, lá era quente e mole, cá toda a gente está em crise, lá a crise não está em lado nenhum.

Às tantas não sei se devo esquecer isto tudo, só pela trabalheira que é organizar este monte de ideias, ou antes dar-lhe a devida atenção e esperar por, quem sabe, um resultado divertido.
Era como quando eu me sentava com a minha Mãe, cada uma no seu banco, e um alguidar cheio de favas (ou seriam ervilhas?) para descascar, que ficávamos com as mãos encardidas de negro, que era uma tarefa ingrata e feita debaixo de sol e calor, mais fácil era meter aquilo tudo num buraco e ir ao supermercado comprar umas embalagens da Iglo. Mas não. Era muito mais divertido descascar as favas. (o que dizem é que com a "idade" as pessoas tendem a deixar de achar as coisas divertidas e querem meter tudo em buracos, mas isso é outra conversa e mais um "caju" pendurado no meu cerebelo).

Mais uma: é bom estar tanto calor e eu não ter de ir à praia, porque sim. Porque se deve ir à praia, quando está calor e bom tempo. Mas não. Afinal, não. Libertei-me desse espírito maligno que anda por aí à solta e que diz que se fazemos anos devemos nos divertir e estar com montes de amigos, que se pagamos uma multa não devemos no mesmo dia comprar uma t-shirt na Zara, que se queremos parecer cultos temos de ler os jornais todos os dias, que se é Verão devemos emagrecer e estar bronzeados e se é Inverno devemos comprar botas de cano alto e beber coisas com espuma e coberturas especiais, que se temos um Blog devemos escrever sobre coisas interessantes e que se queremos ser escritores temos de escrever todos os dias.

Quero descascar favas ou ervilhas, tanto faz, e ficar com as mãos todas sujas e ser 105% mais lógico ir comprar umas embalagens aos Mini-Preço (que agora até há a preços bem em conta e com qualidade). Mas assim tenho o cheiro do calor, as vagens a tocar na minha pele e a encher impressões digitais de terra, a conversa solta entre cada um que vai descascando, um alguidar a ir ficando cheio e outro mais vazio, a cor das bolinhas verdes, o interior das vagens feito de veludo, algumas bolinhas que saltam e fogem e o calor que vai entrando na conversa.
É mais divertido, eu acho.
Até breve, vou-me agora sentar ali no banquinho.

9.8.11

Quatro mil kms depois...



Desta África distante e tão diferente, e sobre a qual vou seguramente "cozinhar" alguns bolos (perdoem-me meus leitores, mas nem sempre foi fácil encontrar tempo para escrever e ter o acesso à internet), deixo a minha primeira e mais forte impressão: de que há Esperança, sempre!


2.8.11

My name is Saldanha!


















Uma vez em Lisboa, no Saldanha Residence (Galerias Comerciais), ao fazer um pagamento com o multibanco, a menina da loja muito contente notou: - Ah, que giro! Rita Saldanha! E está no Saldanha! E eu, apesar de ter sorrido, não achei assim lá grande piada, mas a menina foi espirituosa e simpática.

Além de não gostar de centros comerciais, acho que é bem mais divertido a estação do metro, ou mesmo o autocarro amarelo da Carris, escrito "Saldanha" em letras garrafais!


Mas por estes dias de viagem na África do Sul, deu-se um fenómeno verdadeiramente egocêntrico e narcisista na minha vida. Fui (propositadamente) conhecer uma terra, a 170 km de Cape Town, de seu nome Saldanha Bay com a cidade baptizada com o mesmo nome.

Foi em 1503, que o navegador António de Saldanha, por ali passou, com uma frota de caravelas, e descobriu este Porto natural (o maior e melhor da costa oeste Sul-Africana), que é hoje essencialmente um centro de pesca e indústria de peixe! Foi bem divertido andar atrás das placas a tirar fotografias! Havia funerárias, oficinas, escolas, ginásios e supermercados!


Desta vez fui eu que disse à menina do Restaurante onde almoçamos: - My name is Rita Saldanha, and I'm in Saldanha Bay!


Ela sorriu...