31.8.12







De maneiras que foram 3 dias passados no campo e daí a minha ausência.
Apanhar amoras, figos, fazer compotas, bolos e dormir sestas. Não se vê meio segundo de televisão, não há internet. Ir ao café, comer quilos de pão com manteiga, acordar com o galo da vizinha, passear no meio do milho e das figueiras. Conversas a fio e os jogos depois do jantar, juntos pelas gargalhadas vivas agora com a presença das crianças, que só podem pertencer a um lugar como aquele.
Há poucos sítios onde me sinto como em casa, este é um deles, onde já não regressava há muitos anos. E pouca coisa mudou. Na altura eu tinha 18 anos, eram os fins de semana da Faculdade e o início de uma bela amizade. A melhor.
E quando eu pensava que por não ir há tanto tempo é por esse momento das nossas vidas ter terminado, é quando ela me diz: "É precisamente o contrário. Agora é que começamos um novo ciclo das nossas vidas."
O melhor.

28.8.12

Mais alma na cozinha!

 
Já vos escrevi que sou voluntária na Cozinha com Alma, em Cascais, um take away solidário de refeições frescas e congeladas, com a particularidade de ser uma IPSS e ter uma Bolsa Social. A minha função passa pelo contacto com as famílias beneficiárias das Bolsas e fazer a articulação com as assistentes sociais da Junta de Freguesia de Cascais.
Ontem, dia 27 de Agosto, foi a abertura da nova Loja (até agora tinhamos usado umas instalações provisórias) e escritórios da Cozinha com Alma na zona da Pampilheira.
O lugar está lindo e cheio de alma. Deixo-vos aqui uma espreitadela, para que sintam vontade de ir conhecer este espaço maravilhoso recheado de comida deliciosa e feita com muito amor.
Por enquanto, ainda em Cascais.
 

27.8.12


Já aqui disse que tenho uma relação muito próxima com material de escritório.
É o lado de Papelaria Fernandes que há em mim. O cheiro do papel, as canetas arrumadas por cores, os cadernos alinhados, os lápis impecavelmente afiados.
As minhas recentes aquisições foram um afia que é um globo: não é o máximo? Afia-se e ficam as aparas dentro do mundo; de vez em quando despeja-se o globo!
A outra foi esta espécie de arruma-papéis, com várias divisões, em que que se mete tudo ao molho e fica com um ar arrumado.
Ando a ver se dou mais despacho às canetas e aos lápis, mas contra isso não tenho hipótese, neste momento tenho material até 2035... mas não resisto a uma canetinha nova. E post-its? daqueles com cores da 3M ou da UHU... ui.
Pareço uma viciada dos anónimos do papel.
Há por aí alguém que também sofra disto?


25.8.12

da Isalita para o mundo


É chegada aquela altura da vida em que suspiramos e pensamos: "...estou a ficar tão igual à minha Mãe...", seja bom para uns ou mau para outros, a verdade é que não se foge dela.
Ou passamos metade da vida a correr para ela, ou a outra metade a fugir dela, mas a verdade é que a todos assiste esse laço tão inexplicavelmente inevitável, patológico e complicado.
No espectacular filme "Habemus Papam", do Nanni Moretti, mostra-se essa inevitabilidade da vida, em que até um recém eleito Papa, o sumo pontífice, o Santo Padre do Universo, vê-se a ir ter de falar sobre a sua Mãe com uma psicanalista.
A Mãe.
Ontem quis fazer um bolo e lá fui eu ao Livro da Isalita, uma espécie de Pantagruel à portuguesa, que vai na 27ªedição, ou seja, que ainda é do tempo em que se fazia em casa perú assado e se explica taxativamente: "Morto o peru, deve ser logo pendurado pelas pernas para que saia todo o sangue e a carne depois de assada fique bem branca. Depena-se enquanto quente e a seguir chamusca-se. É preciso muito cuidado ao abri-lo. Corta-se a pele do pescoço pelas costas no sentido do comprimento, corta-se o pescoço bem rente ao corpo e tira-se o papo com cuidado."
 
Isto é espolio da nossa culinária, já não se fazem livros como o da Isalita, onde ensinam a fazer geleia de peixe, soufflés, almôndegas de lebre, croquetes de ostras e pão de ló de Ovar com 12 gemas.
Foi a minha Mãe que me deu este Livro quando casei e já ela também tem um que era da minha Avó.
As Mães.
 
Não sei como é que consegui juntar num só texto estes assuntos todos, mas a minha ideia era só vir aqui falar do Livro da Isalita, que toda a gente devia ter só para ler estas maravilhosas receitas que nunca na vida se vão algum dia cozinhar, mas que são uma herança tão rica da nossa cozinha portuguesa.

23.8.12

comunicação preconceituosa

Não sou nada de preconceitos.
Zerinho.
 
Cada um é como é, se gosta de homens ou de mulheres, se usa cuecas ao contrário, se se veste de amarelo e encarnado, se usa cabelo enrolado num pano sujo, se não corta as unhas, se vive junto com um gato, se vive junto com uma iguana, se come folhas das árvores, se lê o corão, se vê touradas na televisão, se queima os cabelos e usa sapatos rotos, se dorme de dia ou se se esconde de noite e só come alhos podres.
 
Mas há uma coisa que me mete espécie e logo à partida é um preconceito que me fica acerca de uma pessoa: é de gente que usa linguagem em sms com abreviaturas tipo: "axo" (acho) e "k" (que), "eskecer" (esquecer),  etc... porque no fundo está-se a substituir apenas duas palavras (ch e qu) por uma. Enquanto que também, mesmo ou quando parece-me bem ser tb, mm ou qdo. Mais do isto é um exagero, é feio, é sem sentido nenhum.
 
Isto talvez seja uma mania minha, mas se alguém me manda um sms com o "axo" e este é o nosso primeiro contacto, está logo tudo estragado. E até pode comer novelos de caracóis com massa ao pequeno-almoço, mas o "axo" é que estraga tudo.


20.8.12

Ainda acerca de Lisboa em Agosto:

- As invasões francesas conheceram oficialmente a sua "segunda leva" no Verão de 2012. Eu confirmo e já confirmei com várias pessoas, de Cascais a Alfama: os franceses invadiram Lisboa!

19.8.12



Quando começam a pôr aquelas fitas encarnadas à volta dos carros e os polícias começam a não deixar estacionar dentro no nosso Bairro (Rua e Largo de Santa Catarina), já sabemos que vem de lá coisa.
Desta vez não era um filme de longa-metragem, mas um anúncio do novo Mercedes Classe A, que por sinal, é lindo de morrer.
Mais uma vez foi o alvoroço, com gruas, carrinhas e camiões de equipamento, actores, figurantes, equipas de filmagens e até uma carripana do benfica que se vê no lado direito da foto!
Foi um dia inteiro de filmagens e só sairam daqui pela noite dentro.
E nós sempre curiosos para ver brevemente as nossas ruas tão familiares no ecrã da televisão.

17.8.12

Lisboa em Agosto

Venho então a enumerar o que se passa por aqui, em Lisboa, nos dias pasmaceiros que correm:

- O 28 está impossível de se andar, pois está pejado de turistas com máquinas fotográficas e de filmar, crianças ao colo e excursões de 20 pessoas. Eu ainda insisto em apanhar uma boleia até ao Largo do Camões, e digo sempre que é a última vez que lá ponho os pés. 
- O Mini-Preço do Calhariz é só Alemães, gente da Noruega ou da Holanda, a comprar pacotes de batatas fritas, garrafas de água e de vinho, pão e fruta e os tipos da caixa estão-se nas tintas e perguntam: "Quer saco?? SAAAA - COOO?" como se dizendo a palavra saco aos gritos os fizesse perceber alguma coisa.
- Quis ir mudar a pilha ao meu Swatch, e para apoiar o comércio tradicional aqui do Bairro fui, como de costume, ao Senhor na Rua do Loreto, que obviamente está de férias até dia 20 de Agosto. Agora lixa-se que vou mas é à megalomana Boutique dos Relógios nos Armazéns do Chiado. (armada em defensora dos mais fracos, é que me lixo!)
- O amigos do Flash desapareceram aqui da rua, devem ter ido de férias, e ele está incrédulo e ao mesmo tempo um chato a queixar-se da falta de companhia canina.
- Há muitos lugares para estacionar, é verdade.
- Os correios estão vazios, também é verdade.
- A minha Paulita está de férias, logo voltei às doces lides domésticas de limpeza da casa de banho, do pó, aspirar e varrer, lavar o chão da cozinha. E estamos assim até dia 4 de Setembro.
- Serviu este ram-ram de Agosto para ir à FNAC, espreitar as novidades, e qual não é a minha surpresa que agora eles têm uma secção de papelaria com cadernos, blocos, canetas, carimbos, caixas, envelopes e cartões?! Em quatro dias já lá fui duas vezes. Aguentei-me tanto que só comprei um afia-lápis. Mas um carimbo com um "R" e respectiva esponja, está na calha para vir da próxima vez!


16.8.12


Os treinos do meu homem para correr uma Maratona em Outubro, implicam corridas diárias de vários kms, desde os 7 até aos 28...
Com estes finais de tarde bem simpáticos, tenho-me juntado à beira Tejo com o Flash para uns passeios de uma a duas horas. E como eu gosto de pic-nics até cheguei a levar lanche, manta e livro. Que me serviram de imenso com a chuvada que caiu em Lisboa na 3ªfeira, além da ventaneira junto ao Rio. Adiante.
Temos ido os dois, enquanto o Alfa corre como um desalmado.
O Flash ainda não distingue todos os homens que vê a passar de calções pretos e então desata a correr atrás de qualquer um, que nem um filho atrás do Pai fugitivo. 
As nossas caminhadas começam e acabam na Fundação Champalimaud, com os seus jardins verdejantes e largos passeios. A localização é magnífica, um autêntico privilégio para os lisboetas e as carradas de turistas que estão por Lisboa nesta altura.
O Flash, apesar de tudo, ainda prefere ir cheirar as mochilas dos pescadores que estão postados junto ao Rio e até comer-lhes o isco, se for caso disso.

14.8.12

O cantinho da comezaina


Ontem o Papai fez anos e então fomos (os carnais e os respectivos, como diz a minha Mãe) jantar ao Cantinho do Avillez, na Rua dos Duques de Bragança, bem no coração Lisboa.
Foi a estreia de todos e que estreia!! Não é barato, não senhor. É para quando Papai faz 68 anos e pouco mais, mas é isso mesmo.
Come-se divinalmente, em doses de tamanho certo e cozinha que é tudo menos nouvelle.
Serviço impecável, pessoal simpático e rápido.
Comemos de entradas o crumble de morcela de arroz com maçã, o queijo de niza no forno com mel, peixinhos da horta, empadinhas de perdiz e as vieiras.
Seguimos para a vitela à colher com molho de caril e arroz thai (diz quem comeu que é uma delícia, depois de ter estado 33 horas a cozinhar!), o risotto de cogumelos, as lascas de bacalhau e o prego "LX MEX" uma mistura do nosso prego no pão, com o taco mexicano; uma diversão de se preparar à mesa.
De sobremesas pendemos para o bolo de chocolate com bola de gelado de morango do Santini, a avelã ao cubo (a minha preferida) e o gelado de limão com vodka.
Foi um repasto autêntico. Uma maravilha!
Sim, volto a repetir que é caro, mas é óptimo e um dia não são dias!
A seguir fomos todos a pé até ao Chiado, que a noite estava impecável para um passeio pela cidade.
Nota 10 ao Cantinho e 20 ao meu Pai, que está cada vez melhor!

Tua




Ainda não leram este Livro absolutamente extraordinário e imprevisível?
Estão à espera do quê?
É da Quetzal (Bertrand).
E juro que não se vão arrepender

13.8.12

Ainda os 35...


Podem não acreditar, mas esta é a melhor fotografia que tenho do meu dia de anos.
Daqui para a frente é tudo mau: braços no meio, metade das cabeças, imagem tremida, etc...
Não percebo o que se passou!

Já o bolo é um pão-de-ló com recheio de doce de ovos e amêndoas  torradas por cima. O que eu gosto, o típico bolo de anos redondo e amarelo, da nossa pastelaria tradicional. Este era da Sacolinha de Cascais.

Apesar de já estar em território nacional, não me livrei de ter Moçambique perto. Nem que seja pela toalha de capulana que eu trouxe de Maputo para a minha Mãe!
Este cenário é no Jardim de casa dos meus Pais, o mesmo de há 35 anos atrás.

Já cheguei aos 35.
Nada de grandes conclusões, apenas feliz por ter ido comprar turcos com 50% de desconto ao "Paris em Lisboa" e ansiosa pela chegada dos meus dois presentes super-materialistas, que em breve irei partilhar com vocês: um anel (mas não é um anel qualquer!) e uma mala linda de morrer!
Afinal tenho uma conclusão aos 35: prefiro ter pouco, mas que seja muito bom!

(Do lado direito está o meu Principe a tirar fotos igualmente sem graça nenhuma.)

10.8.12

E o fim!


Parte III
Maria Amália saiu para mais uma ida semanal ao cinema. Assim que fechou a porta de casa, preparando-se para enfiar os head-phones nos ouvidos, deu um encontrão no homem que salvou o Tito.
Estava novamente de passagem pela rua. Que coincidência!
(Maria Amália lembra-se que havia uma frase num filme que dizia não haver coincidências.)
- O Tito está melhor?
- Está bem, Obrigado!
- Posso perguntar-lhe onde vai?
- Como?
- Sim. Onde vai?
- Ao cinema. Sozinha.
Não foi por acaso que Maria Amália disse que ia ao cinema sozinha. Já tinha lido num Livro de auto-ajuda, que se uma mulher se mostrar disponível para o outro, é muito mais simples conseguir um convite, um primeiro encontro. Usando a táctica do Livro Estar Sozinha Nunca é Para Sempre, esperou pelo resultado.
- Posso ir também?
- Não sei se gosta do filme.
- Não é isso que agora importa.
Não é isso que agora importa.
Podia ser uma daquelas frases. Acrescentando-se: O que importa sou eu e tu.


Parte IV
Maria Amália está em casa, sentada no sofá a comer donuts do Minipreço fabricados com produtos sucedâneos. Está a ver um daqueles Programas de televisão para mulheres que estão em casa, onde se fala em crianças com alergias, receitas de compotas, maridos ausentes, casamentos falhados, frustrações e angústias. Os donuts consolam Maria Amália. O chocolate na cobertura e o açúcar da massa têm essa capacidade. Nada a tranquilizava mais do que o chocolate. Um calmante automático muitas vezes consumido em segredo e às escondidas, assim como um dependente, um fraco dependente. A dolorosa consciência de si própria que tentava apagar com comida, afogando as vozes interiores em bolo alimentar, agora sucedâneo.
O Tito canta lá fora. Não há vento.
A sessão é às 15h45. O filme é O Sentido da Vida.  
Maria Amália interrompe o estado sedativo dos donuts e pensa sobre o sentido da vida. Para o Tito o sentido da vida era cantar numa gaiola. Não seria um pássaro feliz, nem angustiado. Para si, adivinhava que o sentido da vida talvez fosse qualquer coisa pela qual faça sentido estar vivo e ter o gosto pela vida. Mesmo que essa vida seja estar sentada 7 horas por dia à janela a fazer crochet ou dentro de uma gaiola a cantar. Descobriu que, afinal, ainda lhe faltava descobrir o sentido da vida, antes de deixar de a viver. Talvez não fosse má ideia partir nessa busca, de uma consciência tranquila sem ser afogada em comida ou em vozes estranhas. Talvez começar a ouvir as vozes estranhas. Pensou que era verdadeiramente excitante ser alguém que ainda não tinha pensado no sentido da vida e estar a descobri-lo pela primeira vez parecia-lhe um renascimento. Sempre pensou um dia em escrever os diálogos dos filmes que consumia como os donuts do Minipreço. Seria esse o primeiro passo para o sentido da sua vida: tentar começar a escrever aqueles diálogos.
A fotografia da Serrra da Estrela foi descolada do vidro e posta no lixo  
Olhou para as pontas dos dedos cheios de chocolate.
O sentido da vida não é uma fantasia, é uma vivência presente. Como o canário que canta, a vizinha que faz costura, o seu corpo que é obeso, o cinema que é confortável e escuro.
Deitou fora a caixa dos donuts. Lavou as mãos. Vestiu o casaco. Saiu.
Sabia que primeiro ele devia segurar-lhe a cara entre as mãos, afagando-lhe o cabelo enquanto a beijava serenamente, sem pressas. Seria assim o primeiro beijo do Ricardo e da Maria Amália, numa sala de cinema às 15h45 daquela tarde.

e assim se fazem 35 anos...


Parabéns a mim!
Um dia, ainda hei-de ter uma festa de anos assim, cheia de balões e amigos sentados à volta da mesa.
Resta-me o consolo de saber que faço anos no meio de Agosto, em que a cidade está deserta e as pessoas estão ausentes.
Há dois anos que passo este dia em Moçambique, uma vez em Pemba outra em Maputo. Desta vez estou de regresso "a casa". E isso é bom.
Mesmo sem balões, nem amigos à volta da mesa, estão lá os que mais importam!

9.8.12

O conto continua...


Parte II
Todas as manhãs, Maria Amália põe a gaiola do “Tito”, o canário amarelo, no prego da parede do lado de fora da janela. É lá que passa o dia, a encantar o Bairro com a sua doce melodia de canário amarelo. Muitas vezes, a pedido dos vizinhos, a gaiola é colocada mais cedo ou fica até mais tarde.  
Num dia, de grande ventania, o Tito, lá estava posto do lado de fora da janela. Veio uma rajada mais forte e a gaiola, com pouco mais do que 178 gramas, com o canário (de 15 gramas), voaram do 1º andar até ao passeio. O estrondo foi grande e trouxe a vizinhança às janelas.
Maria Amália quando ouviu o barulho vindo da rua correu à janela e percebeu a algazarra.
- Foi o Tito! O Tito caiu!
Correu a descer as escadas do prédio e quando chegou à rua estava a gaiola toda escavacada, o bebedouro e o comedouro partidos, e um homem com o canário enrolado num naperon, que servia para cobrir o “telhado” da gaiola.
- Foi esse senhor, vizinha! Foi ele que salvou o Tito. Se não fosse ele, o Tito, coitadinho, se calhar ficava-se e morria de susto. Foi esse Senhor que o salvou!
As vozes dos vizinhos chegavam das janelas e das varandas. Todos debruçados para assistir ao salvamento do Tito.
O homem pelos vistos passava pela rua no instante em que a gaiola caiu ao chão.
O Tito, na verdade, assim que se estatelou, não se mexeu – à parte de cantar, ele não devia saber para que deviam servir as suas asas. Nunca tinha voado. Estava encolhido e tremia como um cão com o rabo entre as pernas.
Uma gaiola com um canário amarelo aterrou aos pés do homem e o Tito foi salvo graças à orientação da vizinha do prédio em frente, a D. Lurdes. Essa mesma senhora (vizinha) que costuma estar 7 horas por dia à janela a fazer crochet, malha ou arranjos de costura, enquanto consegue controlar todas as pessoas que passam na rua, carros, carrinhos de bebé, carteiros, carrinhas da luz e da água, visitas inesperadas, saídas não previstas, ausências prolongadas.
Foi Dona Lurdes, que de imediato, no seu posto, deu as ordens:
- Agarre no passarinho, oh Meu Deus! Agarre-o, não o deixe fugir! Pegue no paninho e tente agarrá-lo! O Tito, o nosso Tito!!
Maria Amália agradeceu ao homem e levou o Tito para casa. Durante duas semanas o Tito não foi posto lá fora. Todos ainda estavam a recuperar do choque.
A rua, e o Bairro, voltaram à normalidade assim que o pássaro recomeçou a cumprir a sua função de cantar enjaulado.
 (continua)

8.8.12

Regresso de férias com a menos boa notícia de que um conto meu não foi seleccionado para um Livro de vários autores de uma editora da nossa praça.
Assim sendo, aqui vos deixo a primeira parte do conto: "Maria Amália: O sentido da vida".
Espero que gostem. Já que eles não.
Até já!

Maria Amália
Parte I
Maria Amália estava em pé, tinha o seu Pai do lado esquerdo e do lado direito a sua Mãe. Os três tinham ido à Serra da Estrela. Era indiferente o sítio onde tinham tirado a foto porque o cenário era todo igual, todo branco. Podia ter sido num estúdio com uma parede branca, seria o mesmo. Maria Amália lembra-se do cheiro do casaco que tinha vestido naquele dia, do enjoo que sentiu durante a viagem e da história que o Pai contou dos ciclistas que subiam a Serra, até à Torre, ficando sem oxigénio, com os músculos das pernas atrofiados. Foram comer cabrito a Seia e também tinha enjoado na viagem de regresso a Lisboa, numa auto-estrada escura e húmida.
A fotografia era uma fotografia triste. Estava na mesma moldura há muitos anos, fechada entre uma chapa de madeira e um pedaço de vidro. Incomodada, sufocada por se ter tornado numa memória sem vida. Há fotografias que não merecem viver em memória alguma. Aquela era uma delas. Maria Amália era uma delas. Sentia-se uma memória fechada numa moldura. Pouco ou nada teria mudado desde o tempo dessa fotografia.
A casa onde vivia com os Pais foi sempre a mesma. Os móveis e a televisão antiquada, o corredor cansado e as cortinas esforçadas. Tito, o canário, que estava à janela, era uma outra vida numa moldura engaiolada.
Desde aquela fotografia tirada na Serra da Estrela, Maria Amália tinha entrado para a Faculdade e terminado o curso em Direito. Agora está desempregada.
Aceita uma mesada dos Pais e vive com uma solidão galopante e um vazio que vai preenchendo de comida, como a argamassa que preenche uma parede de tijolos não deixando nada a descoberto. Ela precisa de preencher o vazio. Talvez sempre tivesse sentido esse vazio – desde pequena, como na foto triste da Serra da Estrela. Era uma consciência de si própria que lhe dava essa incapacidade de lidar com a vida.
Maria Amália é filha única, de Pais filhos únicos. A curta família conta apenas com uma Avó e uma Tia afastada. Os vizinhos são uma família mais aproximada. Mas os vizinhos são criaturas a quem o mundo ainda não conseguiu decifrar qualquer outra condição que não é amizade, nem família. É uma gente sem qualquer outro nome. E Maria Amália sofria com as vizinhas, as amigas da rua, a Ana, a Luísa e a Cláudia que já tinham saído de casa, já tinham casado e agora viviam em Almada, no Montijo e em Massamá. Tinham uma casa e meninos.
E ela não.
Para se consolar, convenceu-se que, se calhar, tinha de ser assim. Tinha de viver em casa com os Pais, não conhecer alguém, não casar e não ter uma família. Já se apaixonara, mas sempre por alguém que não sentia o mesmo de si. E mesmo nunca tendo beijado um homem, sabia exactamente onde e como queria que fosse esse beijo.
Maria Amália gosta de ir sozinha ao cinema. Nos dias em que as horas são passos de chumbo, Maria Amália vê-as a passar a voar. Vive outras vidas, com homens e mulheres, famílias, cenários, cidades americanas e europeias, músicas e diálogos. E quando gosta das frases, aponta-as num caderno que costuma levar.
No Metro, a caminho de casa, repete as frases em voz muda.
Não podes perder uma coisa que nunca tiveste.
Tu fazes-me querer ser um homem melhor.
Eu e tu, só nós dois.
(continua)