30.12.10

Outros Natais

Aqui também foi Natal.

Apesar de toda a falta de “suportes” para nos lembrar dessa data, em que apenas o calendário marca o dia e a véspera de Natal, no Ibo celebrámos o Natal em família. Com a família que tínhamos. Uma família como um grupo de amigos à volta de uma mesa – como um símbolo de família. Não era a minha família no mês passado, mas pela necessidade que todos temos de nos juntar e de nos agregar, juntamo-nos uns aos outros e assim celebramos a noite e o dia da Família.

Estava uma noite especialmente calma e ao contrário do que tinha vindo a acontecer nestas semanas, em que havia sempre uma brisa que refrescava toda a ilha durante o escuro, desta vez, e na noite de Natal, não soprava uma aragem. Não havia vento e com isso o céu misturava-se entre nuvens e estrelas.
Como o nosso bacalhau tinha azedado enquanto estava de molho, resolvemos cozer uns caranguejos que chegaram a nossa casa na tarde de 24, trazidos por um menino que era do mesmo tamanho do saco dos bichos negros e lamacentos. Tinha a roupa tão rota e os olhos tão grandes que a visão daquela criança, na véspera de Natal, trouxe-me a memória de um outro Natal, aquele em que meninos da idade dele escrevem cartas ao Pai Natal, não vão pescar caranguejo durante a maré vazia.

Depois do caranguejo vieram os nossos amigos portugueses de Pemba, que por aqui passaram uns dias em nossa casa, tendo vindo conhecer o Ibo pela primeira vez. Há alguns portugueses em Pemba a trabalhar com ONG’s ou Instituições com Projectos com o Governo de Moçambique, além de espanhóis, franceses, austríacos, etc… A Maria João e o André chegaram com os caranguejos e o exotismo ao lado, pois veio a Yumi, uma coreana (do Sul) amiga do André que trouxe mais um Natal para dentro da Ilha.

Preparamos os nossos 10 quilos de caranguejo, além do arroz doce e do gelado de manga que já tinha ido para dentro do congelador na véspera, e partimos para casa da nossa amiga Lucie, uma Suíça que vive aqui no Ibo, com a mesma vontade do que nós – realizar um projecto de turismo na Ilha.
Em casa da Lucie havia mais amigos e assim pusemos a mesa no jardim, juntamos os nossos pratos e os talheres, vinho, pão, azeitonas e tremoços, uma deliciosa carne com cogumelos silvestres, um bolo de coco e assim estava pronta a nossa Ceia.

Descalços, eu de vestido, ele de calções e camisa, partilhamos aquele momento que pela sua simbologia nos levou a Portugal, nos fez estar à mesa, dentro de casa, com a lareira acesa, o frio lá fora, o bacalhau e as couves, o azeite a regar os pratos, o vinho, os doces e o queijo da serra. Os abraços e as camisolas quentes, a cozinha concorrida de gente, os rituais de já alguns anos desse outro Natal.

No dia seguinte saímos de barco pelas 8h00 para a Ilha do Matemo e ainda fomos mergulhar pelo mar, passamos o dia 25 a passear de barco, com o mar azul turquesa, mais uma vez todos juntos – os mesmos da noite anterior. A outra família. E pelas horas que iam passando eu viajava novamente até Lisboa, e agora para outra casa, cheia de gente e de crianças, para uma sala em que sempre me lembrei de estar no dia de Natal, em que lhe reconheço os cheiros e as cores, com o meu Avô sentado e nós à sua volta. Talvez ele já não se tenha apercebido da minha falta naquele almoço, mas eu acho que se ele soubesse onde eu estava, num barco, a ver peixes, conchas e estrelas-do-mar ele ficaria contente e se pudesse viria comigo também.

Ao final do dia regressamos a casa, cansados e esfomeados! Repetimos a mesma ementa e novamente nos sentamos à mesa. Terminando assim o nosso Natal entre amigos. Nessa noite as estrelas estavam mais brilhantes e estivemos algum tempo de cabeça para cima a olhar o céu – como se fosse esse o melhor presente do mundo!

BOM ANO NOVO!

24.12.10

Nesta época que se aproxima como se fosse a última portagem da auto-estrada, depois desta, só lá vem mais uma bomba de gasolina e chegamos a 2011; nesta época em que se trocam os desejos de boas festas e próspero ano novo, presentes e lembranças, barrigas cheias e iguarias sem igual; nesta época em que me sinto tão longe de tanta gente, de tanta coisa, mas próxima de uma alma grande e de um coração cheio de força, só quero e desejo que todos dêem graças pelo que os olhos vêem, pelo que a boca sente, pelo que o nariz cheira, pelo que o coração sente, pelo que as mãos agarram, pelo que o corpo vive.

Nada é tão grande como a capacidade que o Homem tem de amar, de perdoar e de sonhar.
Saber viver um dia de cada vez, agradecer pelo que nos é dado, ser feliz e fazer os outros felizes.

É o que eu desejo para todos.

21.12.10

Noites de Lua Cheia

Chega a noite. A minha altura preferida do dia (nunca pensei escrever isto, eu, um passarinho irrequieto da manha).
Noite de lua cheia. O vento e a brisa que varrem a ilha trazem ar fresco, tao fresco que nos renova e nos prepara para o dia seguinte. O dia do calor que consome tudo.
Tomo um banho e paro de suar.
As 18h00 e escuro, tao escuro como a noite pode ser escura. A lua esta tao inchada que faz sombras. Gosto de quando a lua faz sombras.
No Ibo nao ha electricidade (e neste PC nao ha acentos), entao a lua e um candeeiro gigante que ilumina os coqueiros, o mar, as casas abandonadas e perdidas... da a este canto um ar ainda mais encantador e magico.
So o fresco agora. De noite so quero o vento fresco e a luz da lua que entra na janela do nosso quarto, durante a noite, e ilumina os meus pes.
Dias de calor e noites frescas de lua cheia.

15.12.10

A minha caixa encarnada

Uma caixa encarnada. Nunca um presente de Natal teve tanto significado para mim, como uma caixa encarnada com uma chave.
É a caixa nº314.
Ontem fomos à Estação dos Correios pedir uma caixa postal (apartado), e todo o processo que começa a partir dai é um pequeno filme documentário.
Primeiro há que ter uma caixa livre que não esteja partida, sem fechadura e que tenha chave. É como encontrar um smartie cor de laranja, sem ter uma lasquinha, todo inteirinho. Neste caso é um smartie encarnado.

O sítio dos apartados, é uma parede forrada de caixinhas quadradas de 20 cm de metal encarnado, cada uma com um número e uma fechadura; do outro lado entramos num corredor onde estão os mesmo números e as prateleiras divididas com o tamanho de cada portinha, com uma profundidade de 40 cm, mais ou menos.
Ou seja, de um lado é uma porta encarnada com a fechadura, do outro vem o Sr. dos Correios e vai pondo em cada divisão as cartas.
Então do lado das prateleiras andava o Senhor a ver que caixa estava vazia, sem dono, e nós do outro lado, com umas chavinhas na mão, iamos seguindo as ordens dele. Ele batia do lado de dentro e nós do lado de fora andavamos atrás do pica-pau: "Aqui, aqui e aqui!!". Encontramos uma com chave e vazia: nº 170! Ah! não dá! é de um Padre.
Experimentamos outras chavinhas, ele ia batendo nas portinhas e nós tentavamos abrir com a chave.
Outra: nº 314. A chavinha entra, gira, mas não abre. Pintaram as caixas e a tinta colou a porta. Do outro, com uma pedra, batemos na porta e ela abriu!! Do lado de fora aparece a mão preta do Sr. e uma enorme teia de aranha acompanha a porta fechada há alguns anos. Nós aceitamos perfeitamente que a aranha fique e vá tomando conta das nossas cartas, sem as abrir antes de nós.
Que alegria! Uma caixa com chave, com porta, sem dono e pronta a ser nossa!

Mas, nem tudo é assim tão fácil... Há que se pedir o acesso à Caixa Postal, através de um Requerimento ao Chefe da Estação dos Correios de Pemba e ele tem de o aprovar. Então fiz o requerimento e fui hoje com o pedido, a uma outra Estação da Cidade, que, surpreendentemente, foi logo assinado e carimbado.
Aprovado: Caixa nº 314.

Voltamos ao local das caixinhas encarnadas e entregamos o papel. Aguardámos que fosse feita a conta e dada a entrada no Livro dos Registos das Caixas Postais, pagámos a conta, além dos 50 meticais pela chave que recebo, como se fosse uma coisa preciosa. Como se fosse um presente de Natal!

E assim, já temos uma caixinha em que podemos receber todas as maravilhas do mundo!
Eu sempre tive um grande fascínio por cartas e postais, sempre adorei escrever cartas e então recebê-las é como abrir um chocolate, desembrulhando-o do seu papel de prata.

Para quem quiser nos enviar esses "chocolates" o nosso endereço é:
Rita Saldanha
Caixa Postal nº 314
Pemba - Cabo Delgado
Moçambique

Será mais um prazer tão simples mas tão grande, ir à nossa Caixa e ver o que lá estará dentro!

14.12.10

Feliz Dia da Família






Espreito os calendários em Pemba, daqueles tipo cabaninha que estão em cima das secretárias das repartições, bancos, finanças, etc e confirmo que no dia 25 de Dezembro vem sempre escrito: "Dia da Família".
Em Moçambique, e especialmente no Norte, onde estamos, a grande maioria da população é muçulmana ou hindu. E assim, com a Família, encontra-se a celebração perfeita. Em Família e por uma Família, que estava no Presépio.
A árvore de Natal foi comprada hoje a um miúdo em Pemba, na Praia - é feita a partir de uma lata de tomate e com papeis de rebuçados, chupa-chupas e até de um maço de tabaco! Pode ser uma jarra com flores, um embondeiro carnavalesco ou uma Árvore de Natal, claro. Cheia de cores e de luz.
O Presépio já o tínhamos comprado em Setembro, no Ibo, ao nosso amigo Emanuel, o artista do pau preto, que tem a sua Oficina na Fortaleza de São João Baptista. Está na nossa casa do Ibo, e do jardim fui buscar as folhas e a flor, feita uma estrela de Belém. Eu gostei tanto deste Presépio em que cada figura é um pedaço de pau preto esculpido a partir de uma única peça, ficando nas costas de cada um a casca da árvore que é cor da madeira, como qualquer outra.
Iremos celebrar o nosso Dia da Família no Ibo, entre amigos, entre histórias e entre memórias de uma noite e de um dia carregados de afecto.
Será sem dúvida um Natal diferente, que já o está a ser, desde estes dias que já em Lisboa antecipavam a azafama das Festas.
Aqui não há lojas cheias de gente, nem supermercados, ou carrinhos carregados de coisas; não há iluminação nas ruas, montras, decorações; não há papel de embrulho, nem sacos, nem fitas; não há cartazes publicitários, autocarros e electricos onde viaja o Pai Natal; não há Pai Natal, nem cartas.
Aqui, no dia 25 de Dezembro, há o que cada um quiser.


12.12.10

África é Poema









































































África é Mãe e Criança. África é sempre Mulher.

É doce e suave para quem a ama, mas é cruel e dura para quem não a compreende.

É uma feiticeira de olhos negros, é uma doença que entra na pele.

Ingénua e pobre.

Sonhadora nas noites estreladas, cansada e pesada nos dias escaldantes.

Carrega água, madeira e terra. Os filhos nascem-lhe nos pés e crescem-lhe nas costas.

Brinca na inocência e corre com ilusões e fantasias antigas.

É casada com a terra e com o céu, com o mar e com a lua. O sol é o seu eterno amante.

Chora sofrimento e suor. E aceita.

África, a mim, parece-me assim.







10.12.10

As primeiras chuvas

Esta noite, já na cidade de Pemba, caiu a primeira grande chuvada que veio “inaugurar” a época das chuvas na nossa Província.

A força da chuva era tão forte que fazia vento, e de um calor insuportável que já se fazia sentir há uns dias, veio uma brisa muito fresca e limpa que entrou em nossa casa e também no meu espírito.

Hoje acordei (sempre cedo) com vontade de olhar lá para fora, e tentar sentir o cheiro da terra molhada e que aquela brisa novamente me tocasse, como se não tivesse sido um sonho. O vento fresco anda pela casa, e o pó acabou. A chuva desta noite, que foi contínua durante horas, quase parecendo que alguém se tinha esquecido do duche ligado, lá em cima, fez com que tudo mudasse - o ar seco, o sol escaldante, o pó denso. O céu está de um suave acinzentado e o verde das árvores mais lustroso.

Ontem voltamos a Pemba, ao final do dia, e trazíamos no carro toda a nossa desilusão, sentada lá atrás, cabisbaixa, pensativa e melancólica – cheia de memórias e de recordações.
Quando perto da meia-noite começou a cair aquela chuva, senti que também era sobre nós que ela descia – lavando o pó, limpando a melancolia, renovando a terra e o ar.

São dias difíceis, são dias em África, mas que o Universo sempre encontra um equilíbrio para tudo. Tal como a chuva veio para começar um novo momento.

7.12.10

A beleza das pequenas coisas.

De ter um frigorifico que finalmente funciona (a gás) e que demorou dias a fio a chegar ao Ibo, dois dos quais dentro de um barco pelo meio do oceano; de conseguir encontrar um pacote de guardanapos à venda; de sentir uma brisa, que é tão refrescante como o ar condicionado; de um banho ao final da tarde carregado de sabonete; de rir com vontade e voltar a rir; de ter um jardim cheio de pássaros coloridos; de apanhar papaias do jardim; de saber ligada sozinha um gerador e uma bomba de água; de apanhar o barco a tempo de chegar ao outro lado; de chegar ao outro lado; de conhecer pessoas maravilhosamente únicas e especiais; de sair de barco às 6 da manhã para um passeio no mar; de passear no mar e ver tantas tartarugas como se lhes perdesse a conta; de acordar com o nascer do sol; da sombra de uma amendoeiras gigante; de estar sempre apaixonada por ele e cada vez mais; de os dois tentarmos fazer pão num forno de lenha e de ter saudades das pessoas e de um cão, e não de coisas.

3.12.10

Diarios II

IBO

Tenho chegado à conclusão de que todo o homem é ansioso de rotina. Até mesmo os bichos. Pelo Ibo vamos encontrando a pouco e pouco a nossa rotina – o nosso ritual do dia-a-dia, que de alguma forma nos define, nos identifica.

Antes de começar a escrever essa nova vida que nos trouxe até aqui, em Julho, numa primeira fase em Pemba, explico que pelo meu computador e por mim viajam tantos curiosos seres, também eles a caminho das suas rotinas. Uma aranha minúscula instala-se na minha mão direita e vai teclando as letras comigo, bicharocos atravessam o computador num ritmo apressado, as lagartixas cumprem auto-estradas na relva à minha frente; quando tiver oportunidade ponho aqui uma foto de “onde é que eu escrevo”.

Aqui o dia começa às 4h00. Está a Vénus firme no céu lilás líquido, há as sombras dos coqueiros e das papaieiras do nosso jardim, e o Sahid, o nosso guarda muçulmano, de cócoras, a rezar. Começam os barulhos do costume – mas aqui os pássaros são muito mais criativos. Dizem que o Ibo tem uma variedade de pássaros muito acima da média e é possivelmente um dos melhores locais de observação nas Quirimbas. No nosso jardim, o coração desta casa, há ninhos de tecelões, que fazem uns novelos de palha perfeitos, e cantam maravilhosamente bem, de penas amarelas muito inchadas.

O sol surge como se fosse um interruptor e começa o calor. O calor preenche tudo e o quarto começa a ficar quente. As pessoas passam na nossa rua, falam, falam, sempre em kimani – o dialecto da ilha – as crianças choram e continuam a chorar durante todo o dia. Muito choram estas crianças – mas também, é porque há muitas crianças. Mais de metade da população do Ibo tem menos de 14 anos, e a esperança de vida é 38 anos… Mas o Ibo é um lugar mágico, em que de noite as estrelas preenchem os nossos olhos e de dia há uma agitação sentida, como se a terra fervilhasse.

Há barcos-chapa a sair para o continente, há outros a chegar, carregados de mandioca, carvão, motas, sacas de açúcar e de farinha, galinhas, mangas, e até um pudim numa forma dentro de um saco de plástico.

No Ibo há tanta vida, que é difícil de imaginar que numa ilha com 4 mil habitantes exista tanto movimento: mulheres que fazem colares e flores a partir da folha seca de mangueira, num processo trabalhoso e elaborado (já tenho uma lição marcada com a D. Manassa para aprender como se faz); um atelier de costura com camisas, calções, saias e vestidos feitos a partir de capulanas, em cores magnificas e com um acabamento muito bem feito, com um cunho muito personalizado (já encomendei uns calções ao alfaiate); ourives e artistas do pau preto; oficina de carpintaria; associações de mulheres pescadoras de polvo …

A nossa rotina ainda não se instalou totalmente, por culpa de um miserável frigorífico a gás. Demorou 2 dias a chegar aqui, por barco, desde Pemba, em que o Xano também embarcou nessa aventura, entre pescadores e marinheiros, visitas de golfinhos, mar azul-turquesa, frio, fome, sede e cansaço, discussões entre brancos e pretos e duas noites de céu negro, sem sinal de lua. Já o ligamos durante toda a noite e está lá tanto frio como está aqui fora.

Introduzo vários temas ao mesmo tempo, mas o calor é tanto que o simples facto de me ter posto cheia de iniciativa a passar cera líquida na mesa e no armário (louceiro) do nosso alpendre, fez descer desde o pescoço até à cintura uma película de mil gotas de suor que me encharcou em minutos o corpo todo. Ainda aqui sentadinha, só a mexer os dedinhos e pouco mais, sinto-me a derreter aos bocadinhos.

Tenho sempre as unhas sujas. Isso é outra coisa que aqui se passa constantemente, apesar de as ter sempre curtas e arranjadas, ficam logo cheias de sujidade. Parece que ando com as mãos dentro de baldes de terra.

Além do frigorífico morno, ainda faltam algumas pequenas coisas cá em casa, mas já está tudo mais ou menos. O menos talvez sejam os outros bichos (ratos) que cá andam com renda vitalícia e não há meio de acabar com eles – já devemos ter posto 1 quilo de granulado/ veneno, mas mesmo assim ouvimo-los durante a noite. Vamos mudar de quarto, passando de uma sauna nível 3 para uma de nível 1, onde mesmo assim o Xano dorme como se estivesse dentro do tal frigorifico que não existe. Dizem que a Ilha tem bastantes e nós já estamos em lista de espera para ter uma gata – os gatos dormem e comem o dia todo, as gatas caçam. Será uma coisa inédita nesta família, começamos pelo gato antes do cão. Sendo que, obviamente, temos de retirar todo o veneno quando a “caçadora” entrar no lar. Ela já nasceu, mas ainda é muito pequenina (1 mês). Não sei que nome lhe dou…

Também já temos a Rabina, uma rapariga de 27 anos que é a nossa empregada – fala bem português, sendo que o “bem” é um articular de duas ou três palavras. Faz tudo o que as máquinas no mundo ocidental fazem: lava roupa, loiça e aspira, além das limpezas.

Ontem resolvi fazer o nosso presépio, já que árvore de Natal é qualquer coisa muito longe disto. São as três figuras em pau-preto, pus umas folhas verdes em baixo e uma flor em cima, como se fosse a estrela de Belém. Fiquei toda contente a ver o nosso “Natal” no Ibo. Quando tiver uma ligação à internet em Pemba, vou tentar pôr fotos.

Quis fazer o presépio para me lembrar dessa rotina em Lisboa, fazendo um contraste tão grande com a memória do frio lá fora, as roupas quentes e o aquecimento ligado, as ruas cheias de gente e de carros, chuva, as famosas compras de Natal, a correria do Dezembro até ao final do ano.
A Rabina, sempre descalça, estende a roupa na corda, hoje reguei o jardim e acho que vou pôr uma flor fresca no nosso presépio.

29.11.10



Os quatro dias que passamos no Ibo foram intensos!
Ainda não consigo abstrair-me de toda esta agitação e por isso gosto e preciso de partilhar todos estes sentimentos.


Fizemos como que a 1ªfase de mudança para a Ilha - para uma casa alugada, mantendo a casa em Pemba, enquanto não temos casa definitiva no Ibo e lá procuramos ainda o nosso "poiso".

O nosso projecto ainda está numa névoa, entre a miragem e a realidade, e para torná-lo verdadeiro seria fundamental esta nova mudança. Estar lá, viver na Ilha, senti-la.
E assim estamos a fazê-lo. Sendo que mudar de casa para uma Ilha que fica a duas horas e meia de carro da cidade, por uma estrada de terra batida, e depois ainda há uma travessia de barco de uma hora em que só podemos fazê-la quando a maré deixa, não é propriamente simples.


Mas faz-se! É aqui que eu peço licença à Sra. Natureza, por quem eu tenho um imenso respeito, e admiro a força do Homem. A vontade e a ambição (da boa, não é ganância) movem montanhas – neste caso barcos!


No nosso carro, seguiu uma bagagem pesada, que depois a braços foi toda posta dentro de um barco. E em hora e meia estávamos no Ibo e lá, novos braços carregaram tudo até casa. E tudo chegou, nem um copo de partiu.

Tudo se consegue – é preciso alguma organização e bom senso, mas tudo se consegue. Ainda conseguimos reparar um furo no pneu e trazer connosco o nosso amigo Gonçalo, que deixou a sua mota em Pemba, acompanhando-nos nesta viagem, neste dia zero como habitantes do Ibo.


Abrir uma casa que esteve fechada mais de um ano, numa Ilha, cheia de pó e de vento, junto ao mar, foi o desafio seguinte. Ligar uma bomba de água e um gerador, devolver a água aos canos, fazer a limpeza da casa, em cada divisão, duas e três vezes pois as camadas de pó eram espessas como cimento, recuperar móveis partidos e ainda fazer a nossa cama com lençóis lavados.


Em dois dias conseguimos, com a boa ajuda do nosso amigo Elder, um “anjo” que está no Ibo com um projecto de turismo fantástico, o Miti Miwiri, e os quatro trabalhadores que tivemos ao nosso lado. Duas mulheres, a Rabina e a Kari (que trazia a sua bebé no lenço às costas e enquanto varria dava de mamar ao mesmo tempo!) e dois homens, o Sahid e o seu companheiro, que trataram da limpeza do poço e do jardim, queimando todo o lixo e o capim.


E tudo começou a ganhar vida naquela casa. Ela foi respirando e até os seus anteriores “habitantes” tiveram de fazer as malas rapidamente e fugir – era a fuga das aranhas, das osgas, dos lagartos, das baratas e dos ratinhos do campo!

A tudo isto acrescentamos um calor abrasador e uma humidade muito alta. Foi exaustivo e cansativo, mas a casa lá ficou, a cheirar a limpo e pronta para nos receber e a quem nos quiser visitar.


Ainda conseguimos no último dia fazer um passeio de barco, uns mergulhos no Índico, no meio dos peixes hiper coloridos, ir ao banco de areia e conversar sob as estrelas. O céu no Ibo é tão estrelado que podia ser feito um papel de parede! E depois há os pássaros, os que se ouvem de noite e os do dia. E ainda houve um grilo que dormiu no nosso quarto durante estes dias – deve ter sido dos tais que não apanhou o chapa a tempo da fuga, com os outros!


Ao fim do último dia apanhamos o barco de regresso a Pemba, precisávamos de voltar pois ainda falta a arca frigorífica e algumas coisas para a casa. Tratar de alguns assuntos, e ver o Benfica ontem!


Todos estávamos cansados, tínhamos estado a trabalhar sob um imenso calor, apanhamos sol, andamos de barco, dormimos pouco, não havia café… a entrada para o barco era uma espécie de tréguas que a Ilha nos estava a dar. “Vão ao vosso descanso, mas voltem”.


Caminhamos lentamente, entre a água, com o sol já baixo e o calor mais manso. Ao nosso lado percebemos que também viriam outras pessoas no barco, locais da Ilha. Traziam um grande embrulho, com um ar muito cuidado. Era um bolo de noiva que seguia para a Quissanga, um bolo de noiva branco com três andares! Tinha sido feito pelo pasteleiro no Ibo e ele próprio (na foto é o da esquerda, chama-se Sahid) acompanhava a sua obra.


Nós os quatro e o Sahid regressamos a terra. O barco deslizava pela água cheia, o mar reflectia uma imensa calma, e um carreirinho de formigas viajava no barco, à volta de um bolo de noiva branco.


Partimos com um sonho, regressamos com a promessa do amor eterno.

24.11.10

estamos aqui!

chegamos!
conseguimos chegar com: fogao, gerador, bomda de agua, duas bilhas de gas, dois bidoes de agua, uma caixa gigante de comida, 4 caixotes de mudancas, 2 mochilas, baldes e esfregonas, 2 almofadas e 2 alguidares!
foi o primeiro passo - amanha vamos limpar a casa e por tudo a funcionar.
Ibo here we are!

Apertos do Coração

Hoje saimos de casa às 6 da manhã para ir deixar o Xano ao barco.
Tinhamos decidido que ele iria de barco com toda a carga até ao Ibo e eu seguiria de carro pelo caminho do costume - o encontro seria no Ibo. Eu primeiro, ele depois.
Disseram que a viagem iria demorar um dia, 12 horas.
O Xano iria no barco com o Gonçalo, o nosso amigo português da mota, que a deixava ficar em terra.
Carregamos o carro com tudo ontem à noite e hoje levantei-me para preparar um mata bicho bem forte para o meu "marinheiro". Combinamos no sítio onde fomos buscar a arca congeladora,
na Praia do Murrébue, perto do Pirata. O carro seguiu até à praia e o barco lá estava no mar.

Confesso que estava de coração apertado, e mesmo antes de chegar ao sítio sentia um nó na garganta. Seria a primeira vez que nos iriamos separar ao fim de já muitos meses juntos, seria a primeira vez que iria fazer uma estrada de 120km em terra batida sozinha, no meio de África, e com um carro gigante em que mudar uma roda deve ser uma batalha dura, seria a primeira vez que ele iria fazer uma viagem de barco durante tantas horas pelo mar, de dia e de noite, longe da terra e com nenhum meio de comunicação comigo.

A viagem de barco parecia-me relativamente pacífica, mas não conseguia deixar de me sentir ansiosa por ele ir pelo mar fora até uma Ilha no meio do Pacífico. E por isso tudo dormi mal, acordei muito antes da hora e tive sonhos esquisitos.

Quando lá chegamos a tripulação dava tudo menos um ar credível, eram todos moçambicanos e começaram logo por pedir mais dinheiro, o dobro do que julgamos estar acordado. Aceitamos. Depois disseram que chegavam lá daqui a dois dias, e depois que talvez demorasse um.
Rapidamente todos sentimos um mau feeling naquela conversa, naquele ambiente em que eu queria tudo menos que o Xano embarcasse naquele barco.

Desistimos do plano, mas partimos hoje os três, daqui a pouco de carro, sendo que amanhã o Xano regressa a Pemba para vir buscar a arca congeladora. Mesmo assim irá fazer uma viagem sem mim, estaremos separados por algumas horas - o que continua a apertar-me o peito que fica sempre pequenino - mas tudo é melhor perante aquela viagem cinzenta.

Foi a primeira vez que senti todas estas coisas, pois nunca imaginamos o que tranquiliza quando temos ao pé de nós quem mais amamos e quando sabemos que à distância de um telefone chamamos um amigo ou um familiar para nos ajudar. E aqui não se passa bem assim...
É tudo uma questão de garantir a nossa protecção e de algum tacto. Fazer opções certas, saber interpretar os sinais tal como se fossemos zebras no meio da savana sempre em alerta aos predadores.

Estou mais tranquila, mas sei que amanhã, quando ele voltar sozinho a Pemba de carro vou ficar novamente com o coração pequenino...
Até lá.

Nota: como vamos para o Ibo as ligaçãos á internet são muito limitadas.

22.11.10

O Mundo todo por um Passeio...





















O passeio que fizemos até ao Rio Lúrio, a cerca de 150 km de Pemba, a partir de uma terra chamada Chiure, começou em Vilankulos, há mais ou menos 15 dias atrás.

Quando ficamos no Zombie Cucumber, na viagem de Maputo até Pemba, conhecemos o Gonçalo (já aqui falei no seu Blog) que viaja por África de mota, desde Angola a caminho de Lisboa. A sua passagem por Moçambique incluia uma viagem até Pemba, onde tinha um amigo português a trabalhar. Naturalmente conversámos sobre Pemba e sobre o Ibo e ficou a promessa de nos voltarmos a encontrar uns dias mais tarde.

Assim aconteceu.


Então conhecemos o André, que é geógrafo e trabalha aqui em Pemba, e depois dele conhecemos a Luz Maria e o Michael, a Marta, a Maria João, a Barbara e o Marcus, a Mariane, a Rebeca, a Romina... Peru, Suíça, Espanha, Portugal, Áustria, França, Paraguai...

A Luz Maria e o Michael são um casal tão exótico, que é difícil acompanhar a sua originalidade: ela é peruana, ele é suíço, conheceram-se no Chile onde estavam a filmar um documentário, ela como produtora ele como actor. Hoje ele trabalha numa ONG Suíça em Moçambique, moram no Chiure há 3 anos numa casa sem água canalizada, têm dois filhos e fazem anos no mesmo dia - que foi no sábado passado. A propósito dessa celebração convidaram todos estes amigos, incluindo o Gonçalo e o André, e nós fomos lá ter no Domingo para fazer o passeio até às Cascatas do Rio do Lúrio.

Assim que chegamos a casa da Luz e do Michael fomos logo recebidos com tanta amizade e um óptimo espírito, que logo sentimos estar a fazer novos amigos. Algo que até agora nunca tinha acontecido desde a nossa chegada em Julho - parecia que andávamos a viver dentro de uma autêntica bolha.
Partimos em caravana até à Aldeia do Lúrio tendo antes feito uma paragem para ver um artista, um homem com alma de espéctaculo de Circo, do mais puro que pode haver, que nos apresentou o seu número. José colecciona cobras, vive com elas em casa, tira-lhes o veneno que guarda em frascos, deixa-as à solta para irem caçar e diz que elas voltam ao final do dia.
"Mas por que fazes isso, José?!" - perguntamos nós.
"Porque quero ser um artista!" - responde o homem em frente a um grupo de brancos, com crianças incluídas, com toda a aldeia a assistir ao momento.

O José tem 48 cobras e pediu-nos para voltar na próxima semana, para fazer o número com as cobras todas. Agradecemos muito e achamos melhor não prometer nada... Seguimos caminho até às Cascatas e lá tivemos a maior recepção possível!
TODA a Aldeia do Lúrio veio receber os brancos - eram dezenas de pessoas, eu acho que eram umas 100. Homens, mulheres, crianças, bebés e até um macaco.
O próximo momento foi a descida, a caminhada até ao Rio para tomar um banho já muito apetecido. Fomos todos. Todos os do grupo multi-mix-branco e mais os da Aldeia, os que nos seguiam pelas pegadas, os que ficaram lá em cima a dizer adeus, os que iam e vinham, subiam e desciam três vezes enquanto nós, desajeitados, andavamos aos tropeções entre as rochas gigantes.

No meio daquela procissão, qual Rossio em Sevilha, em que só faltavam mesmo os cavalos, começou a chover! Então foi aí que o meu coração acelerou... a lama que cobria as pedras começou a servir de manteiga debaixo dos pés e nós já descalços iamos fugindo da chuva, atrás dos nossos guias, abrigando-nos nas rochas. Escorreguei umas quantas vezes, uma nódoa negra e um arranhão no pé, o Xano caiu mesmo á minha frente, mas apenas tudo ligeiro.
O Gabriel - o nosso guia - diz que é assim mesmo: escorrega!
A meio da chuva houve alguma desistências, pois havia uma grávida e algumas crianças pequenas, a certa altura reparei que apenas 5 pessoas seguiam o caminho das pedras lamacentas - eram os portugueses! Vá lá, ao menos alguma prova de valentia dos tempos idos... que agora não se vê em lado nenhum.
Entre os que começaram e chegaram à Cascata já não sei quantos eram, mas o número era sempre grande, tendo em conta novos que apareciam, outros que pareciam vir de debaixo do chão. O grande grupo tomou um grande e merecido banho!
Chego à conclusão que onde há um Rio e uma Cascata há meninos e criança que brincam como se as pedras fossem feitas de algodão doce e a água uma enorme panela de chocolate derretido - atiram-se para dentro de água sem medo, saltam lá do alto de braços abertos. Os Pais deles não estão ali. Andam soltos como pardalitos. Até levam um quadradinho de sabão para lavarem a roupa e deixarem secar ao sol - são tão pequeninos e vê-los a lavar a sua roupa é qualquer coisa de ternurento... se é isso que se pode chamar.
Regressamos, subindo pela escarpa (por onde as crianças descem em 2 minutos) e tudo terminou bem! Novamente reunimos o grupo debaixo de uma mangueira e fizemos uma grande despedida da Aldeia.
Já de noite, regressamos a Pemba, e demos boleia a quatro amigos. A lua cheia foi iluminando todo o percurso até casa, e Portugal, Paraguai e França viajavam no mesmo carro, falando português, partilhando conversas.
Foi um banho de amizade profundo que nos soube muito bem.

















Diários - I

Pemba

Mesmo depois de já ter regressado a Moçambique há um mês, não consigo acordar um bocadinho mais tarde... eram 6 da manhã quando olhei para o despertador pela primeira vez. O calor começa a crescer a partir dessa hora e normalmente não consigo ficar na cama para além das 7. Hoje cometi a loucura de me levantar às 7h35!
Como por aqui é noite cerrada às 6 da tarde e às 9 e meia estou na cama de livro nos braços, acordar às 6 da manhã é como se fossem umas 10 em Portugal. Julgo eu. Às 4 e meia já há luz do nascer do dia, os galos cantam a meio da noite pelas 3 da manhã, e às 8 todas as lojas na cidade estão abertas.

Acordo sempre eu primeiro e fica o Xano a dormir, a quem eu todas as manhãs invejo essa capacidade de se abstrair dos galos, dos pássaros que moram no telhado por cima do nosso quarto, e que todas as manhã fazem autênticos concertos, dos empregados das casas ao lado que falam em macua uns com os outros, como se estivessem todos a discutir mas afinal estão p'raí a falar do tempo, das crianças que brincam e que também gritam, da música da vizinha do lado que mais parece um rádio partido com o volume no máximo e altamente estridente, do calor que penetra dentro das quarto paredes, da luz que invade tudo, de toda a vida que começa cedo demais para mim que sempre vivi num outro mundo.

Adiante.

Deixo o meu Príncipe no seu sono profundo e começo o meu dia que já tem um ritual muito próprio, só alterado ligeiramente quando falta a água e a luz.
Começo por aquecer a água para fazer chá e café, encho a panelinha e ligo o único bico do fogão eléctrico - só tenho um bico para cozinhar, e assim tem sido estes meses - e deixo o alguidar com a roupa suja, o OMO e as molas à porta de casa para o Yassine assim que chegar comece logo por lavar a roupa.
Depois venho para o computador, ligo a internet e todas as manhãs fico de olhos muito abertos a presenciar esse momento: "vamos ver se hoje há ou não...". Há. Muito bem. Vou ver emails, o blog, outros blogs e outras notícias.
Se tenho fotos que tenha tirado no dia anterior descarrego e organizo-as nas suas pastas. Hoje tenho, e muitas, mas a máquina ficou sem bateria e por isso tenho primeiro de a recarregar.
Passado um pouco não se aguenta o calor na sala e eu ligo a ventoinha - o Xano continua a dormir como um anjinho. Pouco tempo depois ele aparece - sempre muito ensonado e já a reclamar o barulho da ventoinha. Tomamos o pequeno almoço os dois.

Saimos ainda antes de almoço para ir beber um café e fazer algumas compras que faltem, sendo que eu de manhã já estive a pensar no almoço. Vamos ao Banco, ou tratar de alguma coisa mais urgente - hoje, por exemplo, temos de ir reclamar a nossa box da tv que avariou!
Regressamos a casa pelas 12h30 e preparamos o almoço. O Yassine vem à tarde limpar a casa, lavar a loiça e passar a ferro e nós voltamos a sair para mais algumas coisas com ir às Finanças ou ir à Praia. São dois universos muito próximos!
Pelas 17h00 fecha tudo, as pessoas recolhem-se tal como o sol e nós regressamos a casa.
Preparamos o jantar ou até vamos comer qualquer coisa fora e o dia termina.

Estes foram mais ou menos os nossos dias por esta cidade, sendo que a partir desta semana tudo irá mudar um pouco. Devemos partir para o Ibo dentro de poucos dias, ainda não sabemos quando. Estamos a aguardar a vinda de um barco (dhow) que vem carregado com 10 mil molhos de macotim (folhas de palmeira que servem para fazer os telhados) e que no regresso a casa, em Pangane, leva-nos a nós e a mais uma arca congeladora, um gerador, um fogão, caixas de ferramentas, bidons de gasolina, bilhas de gás, caixotes de comida, loiça e roupa até ao Ibo - que fica a caminho.

Resolvemos fazer desta forma pois é mais prático e sempre mais aventureiro, uma vez que nós vamos no barco fazer essa viagem que dura 12 horas! É metade feita de dia e outra metade durante e noite- sempre à vela. Hoje está lua cheia e se partirmos nestes dias será uma viagem inesquecível - já falamos com várias pessoas que a fizeram e dizem que muitas vezes vê-se o fundo do mar com o luar e os golfinhos aproximam-se do barco (e na época das baleias também elas).

Assim, iremos estar entre o Ibo e Pemba a resolver todas as nossas coisas e a ver se finalmente começamos a nossa nova vida aqui. Primeiro há que organizar todas as coisas à nossa volta para depois, finalmente, a cabeça, o corpo e o espírito serenarem. E será nessa altura que o nosso sonho irá começar a tomar forma, movendo-nos na sua concretização.
São precisos muitos movimentos, fazer coisas, ir, buscar, levar, comprar, meter, pensar, falar, discutir, conversar e muita ginástica de ideias que no final irão tomar a forma de um projecto a dois.

Estes dias por Pemba também foram diferentes pois finalmente começamos a conhecer outras pessoas, da nossa idade, que vivem por aqui e trabalham em projectos com ONG's e outras Instituições. Portugueses, finlandeses, austríacos, suíços, espanhóis, sul americanos, alemães, californianos, franceses - uma mistura de gente e de culturas, num grupo muito original e peculiar!
Ontem fomos com um grupo assim, tipo "salada russa", fazer um passeio às Cascatas do Rio Lúrio (que fica próximo de Chiure a caminho de Nampula) e ainda fomos para o meio de uma aldeia conhecer o José, um homem que colecciona cobras, tira-lhes o veneno, guarda-as em casa e quer ser um artista.
Brevemente sai um Bolo "benenoso"!

19.11.10

Outras Áfricas

Há novos blogs a seguir, de pessoas que andam por aqui, falam português, entendem a nossa cultura e isso de certa forma é uma companhia que se ganha e uma força que se encontra.
Estão ali em baixo, onde diz: "Outros pasteleiros".

O do Gonçalo (África do meu coração), um português que anda de mota por África, com o destino de Portugal tendo saido de Angola. Conhecemo-lo em Vilanculos e está agora por Pemba, sendo que irá connosco ao Ibo.
E o da Rebecca (Bex in Moz), uma inglesa que mora há 9 anos em Pemba, com o marido, o Paulo, que é português, e mais 3 filhos! A Rebecca chegou a viver em Portugal com o Paulo, em Algés e hoje trabalha no Parque Nacional das Quirimbas e tem com o marido um negócio de castanha de caju.

Cada vez mais tenho a sensação de que África é de todos! É uma terra que aceita que cada um a reclame - não é de ninguém, mas no fundo é de todos.
Não nos deixa sentir a mais, nem a menos, recebe-nos de braços abertos, sabendo que ainda muito está para acontecer, do bom e do mau.
África é tão intensa que até a mota do Gonçalo se chama "África" - ela comanda, com vontade própria.

É uma terra boa, feita de natureza pura, onde julgo que nunca irá o homem se impor. Por isso não é fácil por aqui, às vezes é mais duro, mas com isso crescemos por dentro e por fora.

Por aqui, e agora que já vou conhecendo mais pessoas, longe das suas terras de origem, nunca ouvi a palavra "arrependimento". E até agora também nunca o senti.

Mudanças



Pela 4ªvez este ano vamos mudar de casa. A primeira mudança aconteceu em Fevereiro (saímos da Pascoal de Melo e fomos para Santa Catarina), a segunda em Junho (passamos do R/ch para o 3º andar, no mesmo prédio), a terceira em Julho (para a casa de Pemba) e agora a quarta para a casa no Ibo.

Eu que sempre fui avessa às mudanças, que sempre reclamei o meu direito ao meu canto, que detestei quando mudámos a primeira vez de casa (dos Olivais para a Pascoal de Melo) porque me senti completamente perdida, fora da minha zona de conforto, só este ano faço quatro mudanças.

Claro que vamos ganhando experiência, as listas de coisas são mais automáticas, os sacos são mais pequenos, andamos com menos coisas às costas, a tralha é reduzida ao essencial. A minha zona de conforto começa a instalar-se dentro de mim, tenho exigências mínimas de um bem-estar exterior, mas dentro de mim vou ficando cada vez mais inflexível. Só quero estar no meu melhor, nunca no mediano.

E o mais curioso é que desejo o mais simples deste mundo: ter uma família, numa casa. Não há dúvida que o tentei e fizemos tudo para que isso se proporcionasse, mas não quis o destino que assim fosse. “Por enquanto não, ainda terás outras coisas a fazer primeiro” – terá alguém ditado. Então fomos construindo casas à nossa volta, habitando-as, vivendo dentro delas, ocupando-as, elas recebem-nos e nós aconchegamo-nos lá dentro. Com os tais mínimos de bem-estar – sendo que agora pelo facto de não haver frio aqui, o calor é mais uma divisão que se ganha. O frio torna tudo mais vazio.

Imagino a vida como uma grande velha casa, com a sua família que sempre lá viveu, de geração após geração, que vão deixando pedaços de vida: livros, álbuns de fotografia, peças e quadros, molduras e retratos, roupas e sapatos. Acho que dificilmente se encontram essas casas hoje em dia, já todos abandonam o que quer que seja que os tenha acolhido, com o pensamento rápido do futuro prometido. Pois para mim, que pela força das circunstâncias ainda não consegui apegar-me a esse chão de quatro paredes com telhado e enche-lo de vida e de memórias, faço-o dentro de mim, movimentando-me entre casas. Mudando-me de vida.

Todos esses movimento têm um significado, tudo caminha num sentido – eu sei.

Eu aguardo.

18.11.10

Feliz Ano Novo!


Ontem, segundo o calendário muçulmano, e pela mudança da lua, foi o início do novo ano. Ontem de manhã estávamos no Ibo e vieram mulheres e crianças cantar à nossa porta, numa espécie de "janeiras". No final rezaram um pouco e apertaram as nossas mãos, desejando-nos um feliz ano novo.
É uma sensação tão boa - tudo aqui existe ao seu tempo, no seu momento próprio, tudo é novo todos os dias. Até ontem foi o primeiro dia do ano, para quem não saiba. Outras pessoas, vivem outro calendário e eu vivo nesse mesmo mundo, num outro tempo.
É confuso, mas eu gosto disso!
Então decidi que hoje foi o início do meu ano novo. Pois eu percebi que cada um de nós pode ter o seu ano novo, quando entende que ele merece ser celebrado pelo dia que o marcou. Porque muito provavelmente no dia 1 de Janeiro não se irá passar nada de especial, e porque hoje passou-se tanta coisa, que supera qualquer dia 1, 2 ou 3 de Janeiro, resolvi começar hoje o meu ano.
Confuso, mas eu permito-me a essa ousadia e desafio a que cada um o faça também.
Hoje confirmei que no mundo vivem pessoas de alma pequena (eu já devia ter aprendido a lição, mas ainda dou o benefício da dúvida), de mentalidade pobre e rasteira - tão rasteira que se assemelham a seres esquivos e fracos como os parasitas, que se agarram aos outros na busca da sua sobrevivência, sempre sob o olhar da inveja.
Hoje confirmei que não sou uma dessas pessoas, que há outras que me querem cravar as garras nas costas, sugando a minha alma e que a minha alma gémea é ainda maior do que alguém poderia julgar. Tão nobre e tão sereno, tão grande e tão justo.
O mundo está cheio de parasitas, e de outros tantos, talvez menos, animais "hospitaleiros" - e eu começo a saber sei quem é quem.
Aqui fica este texto que estava na casa de banho do nosso alojamento em Chimoio - o Pink Papaya. Isto é das tais outras pessoas, que são felizes verdadeiramente pelo que são e não pelo que têm, que dão graças pelos dias que correm, que riem sem vergonha, medo ou desconfiança, que aceitam a sua vida querendo fazer nela a diferença e quem sabe, fazê-la um bocadinho no resto do mundo, também.

Promise Yourself



Promise yourself to be so strong that nothing can disturb your peace of mind.

To talk health, happiness and prosperity to everyone you meet.

To make all your friends feel that there is something special in them.

To look at the sunny side of everything and make your optimism come true.

To think only the best, to work only for the best and expect only the best.

To be just as enthusiastic about the success of others as you are about your own.

To forget the mistakes of the past and press on to the greater achievements of the future.

To wear a cheerful countenance at all time and give every living creature you meet a smile.

To give so much time to the improvement of yourself the you have no time to criticize other.
To be too large for worry, too noble for anger, too strong for fear and too happy to permit the presence of trouble.

14.11.10

Uma das coisas que quase sempre me acontece quando vou de viagem e regresso a casa, é aquela sensação de que, afinal, nada mudou.
Ou por outra, mudou o meu pequenino mundo interior, pois fiz uma viagem de uma, duas ou três semanas, mas o que nos espera está na mesma.
Isso para mim, sempre foi um bocadinho frustrante.

Estivemos fora de Pemba por 1 mês e meio e quando regressamos a sensação foi diferente. Parece que afinal ainda há sítios na terra onde as coisas realmente mudam - além do nosso pequenino mundo.

Vamos aos sinais mais práticos: nas prateleiras do supermercado apareceu o leite magro e o sabonete nivea; abriu mais uma loja do chinês; já há à venda cozinhas, numa loja tipo Moviflor, com vários tipos de acabamentos e cores (um luxo!); estão a arranjar as estradas, ou antes, os buracos em forma de estrada da cidade e abriu uma nova bomba de gasolina!

Por outro lado, há também os sinais da natureza: o vento mudou, logo temos a sala a ferver todas as manhãs e o quarto fresquinho durante a noite; a praia está carregada de limos, ontem havia uma manifestação colectiva de alforrecas cor de caramelo que resolveram morrer na praia em vez de voltarem ao mar e o mar está a uma temperatura que não devo aqui referir, sob a pena de estar a provocar alguns amoques!

O povo anda mais animado, mais agitado. É Verão, à noite as pessoas juntam-se, convivem, saem de casa manhã cedo, vão todos para a rua. Há sempre coisas novas na televisão, mais chineses, mais auto-estradas, mais agricultura, mais produção, mais carros, mais bancos, mais barraquinhas a vender de tudo um pouco, mais telemóveis, blackberries e até iphones, mais computadores, mais impressoras e tinteiros.

Sabemos que ainda estamos muito longe de qualquer padrão europeu, e foi por isso mesmo que viemos para cá, mas pelo menos, isso tudo ajuda a tornar a nossa vida aqui mais fácil e confortável. Pois Pemba não tem nada a ver com Maputo - essa "Nova Iorque" para as pessoas do Norte de Moçambique.

O facto de termos agora televisão deu-nos também uma nova visão disto tudo - ao ver a televisão portuguesa, a primeira impressão vai para a malta toda de casacos e camisolas... "mas será possível estar assim tanto frio?" (pensamos nós) - e depois ao ver as notícias, ficamos com a certeza de que, afinal, lá nada mudou. Mesmo.

10.11.10
















Chegamos a Pemba! Estamos já em nossa casa! Arrumamos toda a tralha, limpámos os quilos de pó que vieram connosco no caminho, cozemos caranguejos deliciosos (já os comemos) e fomos comprar sofás!

Uma maravilha ter uma sala com sofás, uma mesinha e ... a televisão! Estamos tão emocionados, que quase me apetece tirar fotos da sala. Vamos ver o telejornal, filmes, séries e o sempre nosso Benfica!

Mas, antes.

Primeiro. "Ainda o Gurué?" Perguntam vocês. Sim. Ainda o Gurué.

Estas são as imagens da pequena cidade, do nascer do dia às 5h da manhã, da cascata, dos meninos do rio e das plantações de chá entre as acácias e as montanha. É bonito, não é? Eu acho lindo, e tudo isto é-nos oferecido a custo zero, pela natureza. Ela é tão generosa, mas tão cruel, também.

O passeio que fizemos, entre as plantações - teve de ser uma caminhada, pois não haveria outra hipótese de se conhecer o local, entrar com o carro só se pode com a autorização do director da plantação, e para se chegar à cascata tivemos de fazer um caminho longo - encheu-me a alma e o coração, como já o tinha partilhado. Fez-me ver que as coisinhas pequenas e mundanas da nossa vida valem muito pouco e que aquilo que realmente importa não tem preço, não é quantificável, calculado em tabelas de excell.

Há uma frase do Einstein que diz: "The true sign of intelligence is not knowledge but imagination."

Está tudo dentro de nós! Certo.


No final do nosso passeio ainda fomos visitar outro local especial do Gurué, a Casa dos Noivos, uma antiga Pousada, agora totalmente abandonada, no alto de uma montanha. No caminho, passamos ao lado de um pequeno santuário, com a Santinha. Estava todo ele composto, com flores e vegetação, no silêncio da montanha.


Quando saímos ontem, às 5h manhã do Gurué, peguei no meu PC morto, arrumei-o e pensei: "Logo se vê se isto funciona. Azar. Só o ligo amanhã."

Foram 900km intensos de estrada e calor: passagem por Nampula, revisitar os "meus" inselbergs magníficos, paisagens de bicicletas e mulheres de baldes na cabeça, litros e litros de água e alguns red bulls (deram-nos asas, sem dúvida!).

À chegada tomámos mais um daqueles banhos que tiram o surro aos cães da rua, jantámos e hoje acordámos para arrumar a casa e deixá-la toda pronta! Missão cumprida.
Foi quando peguei neste computador, liguei-o à corrente, fez um arranque diferente, para reparação do sistema, eu aceitei e 5 minutos depois estava vivo, ressuscitado como uma fénix. Impecável, como se nada tivesse acontecido.
Cá para mim a Santinha fez "milagre" e o Gurué é um lugar abençoado!






8.11.10

O Gurué e os Meninos do Rio

Meus caros leitores,

O texto que se segue é da minha inteira responsabilidade e é provavelmente o primeiro texto deste Blog que é em simultâneo uma lição de vida.

Uma lição de vida para os meus caros leitores e para mim, também.

Ontem, após 900km de viagem, cerca de 12horas de carro desde Chimoio, chegámos ao Gurué. Saímos de Chimoio, capital do distrito de Manica, cidade muito mais evoluída do que Pemba, cheia de artistas e de músicos, às 5 da manhã. Parámos uns poucos kms antes do Caia para um pic nic à beira da estrada, deviam ser umas 10h30. O calor começou a apertar logo pelas 9h30.
Quando parámos, parou o mundo. Não se passava nada na estrada. Só nós, umas sandes de queijo, um sumo, água, libelinhas que vinham curiosas espreitar o nosso carro, e águias que sobrevoavam aquele deserto de mato escaldante. Não passou um carro.

Atravessámos o Rio Zambeze pela segunda vez, desde que estamos em Moçambique, e seguimos viagem até Mocuba onde paramos mais uma vez para café, água e levantar dinheiro.
Na estrada sempre nos íamos cruzando com alguns chapas, camiões (muitos avariados à beira da estrada), vendedores de mel e miúdos com as galinhas viradas de pernas para o ar, e as pernas de cabrito (?) seco.

Depois de Mocuba, onde bebi um café Delta que me soube pela vida, seguimos até ao Gurué. Às montanhas.
Foram os últimos 195 km, onde já tivemos a verdadeira estrada africana - de terra batida, cor de laranja fogo, pó e mais pó.
A poucos kms da cidade começamos a ver tapetes e tapetes verdes - são as plantações de chá.
Descobrimos uma Pensão, não a Pensão Gurué que está demasiado decadente, mas a Pensão Januário que tem tv e AC. Um luxo africano!

Tomámos um banho carregado de sabonete, caindo os quilos de pó pelo ralo abaixo. Liguei o meu PC à ficha do quarto e capute. Nada. A mesma mensagem de há 1 ano atrás, quando ele se tinha ído à vida pelos picos de corrente na Zambujeira do Mar.
Boot Device Not Found: eram as 4 palavrinhas que eu menos queria ler nesta terra. Não há forma de o arranjar sem ser em Lisboa, julgo eu, se bem que ainda vou tentar com os Cd's de recuperação do sistema, que estão em Pemba. Caiu-me o mundo aos pés. É certo que fiz um backup de tudo antes de sair de Lisboa, e tenho o disco externo comigo, mas houve fotos que já as perdi, e este PC, o do Xano, não tem Word!

Ou seja, caiu-me tudo aos pés, porque achei que tinha perdido a minha ferramenta de trabalho, e tudo o que me alimenta que é a escrita e a partilha.
Achei o mundo demasiado injusto e fiz uma birra, como se tivesse 10 anos. É claro que chorei baba e ranho. Era como se tivesse perdido um melhor amigo.

Mas.

Mas, quando se acorda às 7 da manhã, faz-se um caminho de 1 hora a pé entre plantações de chá, acácias, magnólias e bambu gigante e se chega a uma cascata de água que me espera como se sempre estivesse ali, há centenas de anos à minha espera, eu olho para o meu PC "morto" e penso: "como é possível eu achar o mundo injusto?!"

Como não há aqui grande margem de manobras para incluir fotos, eu tiro uma para os meus leitores e assim "mostro-vos" o Gurué. O Gurué é uma cidade no sopé de um conjunto de montanhas, uma delas com 2.492mts de altura, todas com um aspecto altamente jurássico. Qualquer coisa de muito anterior, muito primitiva. A forrar o pé das montanhas e crescendo até um pouco acima, há cerca de 12 plantações de chá, o que equivale a 12 fábricas geridas por chineses e indianos, o que equivale a trabalhadores que todos os dias carregam cestos de vime com 45 quilos de folhinhas verdes (só se tiram as 3 folhinhas do topo do arbusto). São centenas de hectares de chá a crescer no coração de Moçambique.

Entre as plantações há acácias e bambu, muito dele com mais de 15 metros de altura, e ainda há umas pedras gigantes que mais parecem do tempo do paleolítico. Há o silêncio do chá, pássaros e borboletas de todas as cores. E a nossa volta só se vêem montanhas, só se sente o vento suave, não há nada agressivo é tudo natureza pura.

1 hora e pouco depois de começar a caminhada chegamos à Cascata. Não há palavras para descrever o som da água, o nosso banho na base da Cascata, com a água a bater nas nossas costas, as libelinhas a brincar com as gotas de água que voavam a metros de distância, o verde que nascia nas paredes e escorria com a espuma branca.

Depois fizemos mais 1 hora de caminho e fomos tomar banho ao Rio Licungo. Piscinas de água autêntica que se formavam entre as pedras, e nós e o nosso guia, o Avelino que nos pediu cerca de 4 euros para fazer este passeio connosco (!) demos mais um mergulho naquelas montanhas. Havia um miudo que pescava, e tinha pescado um peixe que se chamava "peixe triste". Ele assobiava uma espécie de chamamento enquanto lançava a cana.

Quando estavamos a terminar o banho, chegaram uns 15 meninos, vindos debaixo do chão e começaram a mergulhar para as piscinas, a dar saltos, a rir às gargalhadas com as fotografias que tiravamos. E passamos a tarde com os meninos do Rio.

E eu voltei a mim. Dou Graças pela oportunidade que tive, pelo passeio que fiz, pelos meninos tão pobres (nem português falam) que sorriam como se aquele fosse o melhor momento das suas vidas, pelo meu corpo que tem a saúde que precisa para fazer aquela caminha tão forte (foram quase 4 horas a caminhar), debaixo do calor e a transpirar como uma torneira, pelos caminhos de pedras que fiz para chegar à Cascata, pelos trilhos do bambu para chegar ao Rio. Dou Graças por tê-lo feito com o meu marido, ao meu lado, por ter visto que algum Deus - Grande Arquitecto deve ter existido na terra por ter feito no meio de África uma paisagem daquelas, por a natureza ser-me sempre tão generosa e por estar aqui hoje a escrever isto para vocês.

Foi uma dia maravilhoso, nunca o esquecerei.

O que realmente importa na vida está dentro de nós.
Essa é a minha lição!

7.11.10

fiquei sem computador

fiquei sem PC. a culpa foi minha que não utilizei a ficha que o protege dos picos de energia e com estas terras com tão fraca rede de energia, os picos são constantes. e com isso o disco rígido foi à vida.
estou desolada.
estou no Gurué, talvez amanhã consiga dizer mais qualquer coisa.
até já

4.11.10

















Primeira etapa da nossa viagem concluída. Maputo – Vilanculos 715 km.

Saída de Maputo às 5 da manhã em ponto. Despedimo-nos do Johnny e partimos, deixando para trás a “cidade das acácias” que já se enchia de vida, com chapas, camiões, pessoas, cabras e crianças a circular para dentro e fora dos arredores.
Só paramos em Xai-Xai para o pequeno-almoço, na Pousada Pontinha mesmo à beira da estrada, depois da Ponte sobre o Rio Limpopo. Sandes de queijo, uma bifana, coca cola e sumo de pêssego. Dois cafés.






O caminho a seguir, cerca de 90 km, tinha sido bem doloroso há 4 meses atrás. A estrada estava carregada de buracos, havia constantes desvios à esquerda e à direita, camiões e chapas, mais as bicicletas e o movimento do costume. Hoje tivemos uma agradável surpresa, com um “tapete” de alcatrão novo, impecável!






Passamos Inhambane e a estrada até Vilanculos seria um outro martírio, que em Julho sabíamos que um dia mais tarde havia de acabar, pois as máquinas da Mota Engil trabalhavam em pleno. Mais uma óptima surpresa quando vimos que afinal a estrada estava praticamente pronta - mais 70 km de viagem sem “crateras”!






Muita polícia a patrulhar a estrada (fomos parados 3 vezes para mostrar documentos), muita estrada nova e o movimento de camiões do costume, com transporte de sacas de cimento, ferros, tractores e sempre, sempre a cabrinha lá no alto atada pela corda. Quem leva 30 toneladas de carga bem pode levar uma cabra ou duas.






A dormida em Vilanculos é no Zombie Cucumber, que é um Lodge de Backpackers em frente á praia! Ficamos a dormir na casinha cor de rosa (na ponta à esquerda), sendo que o nosso vizinho, da casinha azul, um sul africano, é um investigador de cobras e aranhas, eu repito, ele tem um jipe todo “kitado” e cheio de autocolantes que diz: “Spider and Snakes Research Unit”.






Vamos dormir bem, de certeza!






Amanhã vamos passar aqui o dia e só voltamos à estrada no sábado.

3.11.10

Maputo Connection



É daqui que fazemos a ponte até Pemba. Parámos, abastecemos e agora partimos.

Amanhã, às 5 da manhã cumprimos a 1ª etapa até Vilankulos, a 750km daqui. Depois só voltamos ao asfalto, já com algum pó e buracos, no sábado. Tomamos um dia de descanso e continuamos até Chimoio. Se em Vilankulos ficamos a dormir num sítio chamado Zombie Cucumber, já em Chimoio escolhemos um Pink Papaya. Na próxima paragem teremos um Mango Jambo?!

Por estes dias que aqui passámos, Maputo fervilha. Já temos o carro, e com a ajuda preciosa de bons amigos, conseguimos fazer praticamente todas as compras. O momento alto desta semana alucinante deu-se quando dei por mim a emocionar-me por estar a comprar uma serra profissional no Mica (o Aki cá da terra). Emocionei-me porque é assim que supostamente tudo começa. Pelo princípio. E é daqui que temos o princípio.

Partimos com uma bagagem de: rebarbadora, tico-tico, serra circular, berbequim, ferros galvanizados, tubo anelado, fios de electricidade, alicates, chaves de fendas, serrotes, martelos de 1 quilo, porcas, extensões, uma antena parabólica, uma box (tipo tv cabo) e uma televisão, conjunto de formão, dijuntores, 1 tenda e saco cama, 1 colchão de encher, 2 malas e 2 mochilas, 1 cd de música africana, ….

Partimos Moçambique acima. Estamos numa pequena pensão em Maputo ("The Base"), a casa do Johnny. O Johnny que no dia em que fez trovoada tremia de medo. Continua a não tomar banho e anda mais mal disposto. Talvez mais desconfiado.
Fomos ao Museu de História Natural – um edifício antigo conservado a naftalina. Os animais e todo o levantamento de insectos é absolutamente irreal para os padrões desta civilização, e todo esse trabalho foi feito nos anos 60 e 70. Pagamos 1 euro cada pela entrada e sozinhos percorremos salas e salas de bichos embalsamados.

Nas traseiras do Museu estava a acontecer uma festa de casamento, então estávamos os dois numa sala enorme cheia de elefantes, girafas, búfalos, leões e impalas, a ouvir rap que vinha pelas paredes do edifício. Uma mistura explosiva – Maputo é uma mistura explosiva.
Alguém me disse: "Moçambique não se gosta, aprende-se a gostar. "
Ps. Obrigada à MJ, Z. e B., os três "agentes secretos" mais espectaculares de Maputo City. Mil beijos daqui até aí.

2.11.10

Hoje o nosso Flash faz 2 anos!

Já há algum tempo que ele não anda por aqui, ao pé de mim,... e sinto muito a falta dele.
Ficou em Cascais, com os meus Pais, que da melhor maneira possível o receberam, numa espécie de acolhimento temporário, até conseguirmos trazê-lo connosco.
Não sei o que dirá ele um dia disto tudo - deste mundo tão diferente daquele a que está habituado. Ao nosso lado, ou ao lado de quem goste dele e o trate bem, ele será sempre um cão feliz.

A última coisa que fizemos com ele, antes de regressar a Moçambique, foi levá-lo ao Guincho e soltá-lo. Era uma 5ªfeira e estava um final de dia maravilhoso. Entramos os três no carro e seguimos pela estrada do Guincho - o Flash foi lá poucas vezes, mas pelos vistos foram as suficientes para não se esquecer do caminho e daquilo que significava! No banco de trás começou a ficar irrequieto e excitado, como uma criança que sabe que vai ao jardim andar de baloiços.

Há muito tempo que não via o Guincho assim: sem uma pinga de vento, o mar com ondas perfeitas e a praia quase vazia. Estava um cenário muito especial e eu achei que tinhamos sido uns privilegiados em ter aquela tarde por nossa conta.
Descalcei-me, soltei-o. Ele correu até ao mar, eu respirei o ar morno de Outono. Enchi bem os pulmões, enquanto o Flash entrava pela água dentro!
Para mim a Liberdade será sempre aquela praia - e os dois sentimo-la plenamente, cada um à sua maneira.
A diferença é que eu sabia que só daí a algum tempo voltariamos a ter aquele momento, que no dia seguinte voltava para Lisboa e depois regressava a Maputo e por isso sentia um aperto no coração.
Para o Flash, tudo estava naquele momento, ele só precisou de o gozar, nunca imaginando que no dia seguinte não nos voltariamos a ver.
Voltamos a casa, dei-lhe um banho de água doce e ainda brincou com o seu Alfa, até adormecer aos nossos pés. A vida de um cão feliz, julgo eu.
Vejo claramente os olhos dele e assim sempre nos comunicamos, talvez ele em sonhos e eu em pensamentos.

Que hoje, tão longe dele, o meu presente seja uma tarde assim, carregada de liberdade e de partilha e de um imenso amor que eu sinto pelo meu cão. Muito mais do que por tanta outra gente.

29.10.10

Chuva e Trovoada

Recomeçamos de novo.
Saída de Lisboa ao final do dia, chegada a Maputo pelas 6 da manhã. Moçambique, agora.
África, aqui.
É uma experiência que se estranha, mas depois entranha-se. Vou-me habituando às pessoas, aos sorrisos tímidos, às crianças pequenas de mais para andarem na rua a vender amendoim torrado, ao trânsito incontrolável, às crianças pequenas de mais para dormirem na rua, aos pensamentos perdidos no banco de trás de um táxi que percorre a cidade, solto, sem rumo, às crianças sem rumo, pequenas de mais para tudo o que são.

Agora começamos de novo.

Primeiro começamos pela busca de um carro. Parece uma missão cumprida. Veremos.
Sim, sim meus caros leitores. Iremos repetir essa aventura de escalar Moçambique até Pemba de carro. Mais 3.000 km de uma viagem fantástica por este País cheio de vida e de potencial.
Além dos 8.391 km que nos separam de Lisboa. É tanto, mas quando bebemos café Delta ou água do Caramulo, quando pedimos uma meia de leite ou um bacalhau à braz, parece que tudo se junta. Falamos português tão longe, que quase, quase parece a nossa casa.

Mas fica a faltar aquela última coisa - que não tem marca, sabor ou embalagem. É o afecto dos amigos e da família - eu achava que havia de me habituar a isso, pensei mesmo que ao fim destes primeiros tempos fosse criando uma "camada" que protege os sentimentos dos ataques de saudades. Mas não. Por enquanto, não.

Resta-me a escrita, onde sinto que a partilha compensa a falta do que ainda está tão longe de acontecer.
Então passo ao registo.

Mais uns dias por Maputo, é a terceira vez que estou nesta cidade.
Não me consigo libertar da ideia de uma decadência que co-habita entre as pessoas, os passeios esburacados, a venda de flores e plantas nas esquinas, os hoteis esquecidos no tempo, de chão de tacos encerados e candeeiros de um dourado gasto e amolgado (onde agora estou, mas irei relatar essa experiência mais à frente), os casamentos na marginal suja, as sestas encostadas às magnólias, as vendas de fruta e legumes no chão, de peluches de todos os tamanhos e feitios, de fichas triplas e extensões, dvd's piratas, os carros cansados e os tuc-tuc que são libelinhas apressadas, os semáforos sem cor, a chuva sem chapéus e sem galochas.

Esta decadência deixa um sabor suave no ar. Não é o sentimento de destruição, de qualquer coisa deixada ao abandono, que alguém se foi embora e nunca mais voltou - é um sentimento cheio de força, cheio de vida, carregado de sentido. Que tudo faz sentido. Tanto sentido.

É uma melancolia imensa que vem com esta decadência, que me arrasta e me faz sentir tanta vontade, tanta, que algumas pessoas aqui estejam comigo. E eu absorvo tudo isto, como se tivesse um satélite que entregasse tudo isto directamente no coração de cada uma dessas pessoas. Porque tenho sempre esta vontade de partilhar tudo - como se não fosse digna de estar a viver tanta coisa, como se não merecesse este momento.
Porque a melancolia me comove, como hoje quando ouvi um canto de mulheres quando os noivos saiam da Igreja, como ontem quando começou a chover e a trovoada me fez sentir tão pequenina. A chuva traz tanta coisa com ela. Trouxe-me memórias e a melancolia.

Sempre gostei da chuva, acho eu.

22.10.10

there's no place like...

comer gelado. e um bolo de arroz. pôr os pés na areia do guincho. correr junto ao mar. cheirar o outono. jantar à luz das velas com os pais. jantar com os melhores amigos. esquecer o tempo. ter frio na cama. chorar e fazer beicinho. andar às escuras dentro de casa sem tropeçar. ouvir as gaivotas de manhã. encontrar as mesmas pessoas, como se fosse sempre o mesmo dia do ano há 20 anos. cheirar a relva fresca. cheirar a casa. não ter vento no guincho, e por isso respirá-lo como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. comer pão como se o mundo acabasse. e manteiga. e queijo. perder as pantufas debaixo do sofá. ouvir as crianças da escola, da minha escola. ir outra vez ao guincho. abraçar a Mãe e o Pai. subir as escadas, os mesmos degraus, seguir pelo mesmo corredor e dormir no mesmo quarto.

12.10.10

Águas Contaminadas


Meus leitores, meus caros!
Queiram desculpar esta ausência de textos, o tempo tem sido complicado.
Além disso, os últimos dias têm-me dado tanto em que pensar que nem sei por onde começar...
Regressar à cidade, às meias, aos chapéus-de-chuva, aos casacos de malha, ao trânsito, aos anúncios e aos outdoors, às horas que voam, aos dias curtos.
Dou por mim a olhar para as nuvens, para as gaivotas, para as árvores e para o horizonte do mar à procura de baleias e golfinhos.

Os dias voltam a ser dominados pelas notícias, pelos meios de comunicação e houve um "acontecimento padrão" que me intrigou nestes dias e que se relacionou com a água.

O fluxo tóxico provocado por um acidente industrial na Hungria atingiu o Rio Danúbio, ameaçando todo o ecossistema do rio, numa espécie de maré de ferrugem, altamente perigosa e contaminante. Houve suspeitas de ataques terroristas a centrais nucleares espanholas ao largo do Tejo, com risco de explosão e radioactividade que se iria entranhar no Rio e contaminaria toda uma Península. E mais recentemente, um navio com produtos químicos a bordo estaria em risco de afundamento ou derrame no Canal da Mancha, entre o Reino Unido e França, por ter chocado contra um outro navio.

Este poderia ser um guião de um filme, que assim começava com o prenúncio do fim do mundo. Deve ser assim que o mundo acaba – com toda a água limpa, e fonte de vida essencial ao homem, a ser contaminada. Sem dúvida que é na água que está o início de toda a vida – e o Homem está a destruir esse princípio.

Sinto-me completamente de rastos com estas informações. Preferia estar como estava em Pemba, longe destes meios de informação e destas sequências de pensamentos. Uma mulher caminha quilómetros para ir buscar água, e trá-la na cabeça, dentro de um bidão, com o filho enrolado na capulana e outro pela mão.

Aqui, na auto estrada despistam-se carros, há incêndios, um camião TIR perde a carga (blocos de cimento, pesadíssimos) ao embater contra o separador central – este podia ser mais uma cena para o filme do fim do mundo.

Não há dinheiro, mas há discussão. Consumo, dinheiro, tudo o que sirva para esconder esta crueldade é visto como um filtro que nos alivia o sofrimento. O Homem não está preparado para o sofrimento, para este choque – então torna-o mais suave, e acrescenta o jornalismo e o dinheiro.
Na essência, a realidade é demasiado cruel. Tanto que até a mim me custa horrores ter consciência disto. Mas temos de ir acordando… eu tento fazê-lo, um pouco todos os dias.

E para terminar tudo isto, ainda se passaram duas coisas: vi e ouvi ao vivo o José Luis Peixoto na Bertrand do Chiado e foi a "queda do mito" - a voz, a boca cheia de dentes, o sotaque demasiado alentejano, as mãos... uma desilusão; e ainda há pessoas que me fazem crer que a selva, das hienas e dos leões é aqui mesmo, entre os homens, enquanto é na savana que as regras são de ouro.
Lá todos são iguais a si mesmo, do principio ao fim.

27.9.10

Johnny - o cão ladrão



Esta é a história do Johnny, um cão que vive na baixa de Maputo, já não é novo, mas também não é velho, nunca tomou banho, tem cicatrizes no focinho, de manhã é uma coisa, à noite é outra, e é ladrão.

Johnny vai à marginal, passa pelo Jardim Botânico, é amigo do vendedor de almofadas que come meias laranjas com a namorada no banco, anda de táxi com o Acácio e os dois discutem Mia Couto, faz xi-xi na rua, tropeça nos buracos do passeio, cheira os pés dos turistas, bebe Laurentina preta com amendoins torrados, assusta-se com os sacos de plástico pretos que voam como se fossem corvos e não gosta de atravessar na passadeira.

Há uma coisa a que ele não resiste – roubar. Se alguém deixa um par de óculos no jardim, o Johnny leva-os e esconde-os. Uma carteira, uma camisola, um porta-chaves. É talvez dos primeiros casos de um cão cleptomaníaco. Johnny nunca foi a um veterinário, mas ele era capaz de lhe dizer isto.

Johnny não sabe há quanto tempo vive naquela casa; ele acha que já se passou algum tempo. Gosta de estar à porta, ver quem entra, quem sai. Gosta que os hóspedes cheguem cedo. De manhã gosta das festas, à noite fica irrequieto, de mau humor, nem se deixa tocar, ladra e rosna. De dia abana o rabo, salta para as pernas dos hóspedes e deita-se de barriga para cima.

As pessoas entram e saem, atravessam a porta, levam malas e mochilas e Johnny nunca sai dali. Passa o dia meio escondido, a ver o que consegue roubar; ultimamente tem roubado os “diários” dos hóspedes.

18.9.10

Estou de volta.

Os dias aqui cheiram a começo de Verão, a noite demora mais, o vento sopra mais calmo, o mar está denso e sereno. Lá, começam as árvores a dar os sinais do Outono. Os dias vão ficando mais curtos, imagino eu, cheira a melancolia. Tal como aqui.
Aqui, as montras põem a saldo a colecção de Inverno, as camisolas e os agasalhos (nunca pensei ter tanto frio em Moçambique) ficam a metade do preço. Chegam os tecidos frescos, as sandálias.
Lá deve estar tudo cheio de lã e de botas.

Estou no Aeroporto, neste momento, a aguardar pelo avião que só irá partir às 2h00. As pessoas chegam, sentam-se, comem e bebem... cá estou eu neste espaço neutro que é um aeroporto. Grandes ou pequenos, no mundo ocidental ou africano, são sempre assim. Pedaços de tempo suspenso.

As horas passam, a cidade mergulha numa noite profunda.

Estou de volta a Lisboa, sabendo do meu regresso a África. E agora, sinto-me confusa.
Onde fica a minha casa?

14.9.10

I do...



16 de Setembro de 2010


Faço 10 anos de casamento e não consigo escrever nada, pois tudo o que escrevo parece-me pouco.

Já o escrevi, no ano passado, que não sou nenhuma “encartada” em casamento, mas sinto-me a caminho do doutoramento…

Se alguém viesse ter comigo à porta da Igreja, quando saímos os dois, marido e mulher, e me perguntasse: “como te imaginas daqui a 10 anos?”
Eu não sabia o que responder.

Se essa pessoa então dissesse: “Estarias a viver em Moçambique, numa ilha, um dia foste despedida e depois o teu marido depois despediu-se e viverias com uma ferida dentro de ti, que não tinhas conseguido sarar e que te lembrarias dela todos os dias da tua vida. E amarias o teu marido mais do que nenhuma outra pessoa na terra, e ele a ti.”
Eu não sabia se acreditava.

São 10 anos – e eu quero celebrar!
Acredito hoje que tudo é possível, que a vida é uma aventura, que o casamento é a maior empresa que duas pessoas podem criar e que é na partilha que encontramos o caminho certo.

10.9.10

Ide Mubarak



Hoje termina o Ramadão.

Hoje é dia de se dar “Boas Festas”. E hoje foi o dia em que almocei numa casa de uma família muçulmana. Chamusas de peixe papagaio, caril de cabrito e arroz de açafrão, saladas de atum e camarão. Tudo delicioso!

Foi a Mãe que cozinhou tudo, apareceu o Tio viúvo, o Pai que negoceia pedras e marfim, os filhos que se vão pondo à volta da mesa. Nós levamos as bebidas e a expectativa de entrar numa casa de uma família tão diferente, numa cidade tão diferente, num País tão diferente.

Foi um almoço de família e nós fizemos parte dessa celebração!
É bom saber que faço parte destes momentos e gozo-os cheia de satisfação.

4.9.10

O caminho do ibo

O destino foi a Ilha do Ibo, o vértice no triângulo entre o continente e as Quirimbas. Mais uma vez temos de sair pelo Porto de Tandanhangue, tal como na nossa viagem à Ilha do Matemo.

Saímos a meio da manhã e o caminho começa com uma enorme circular que contorna a Baía de Pemba, como se fossemos uma faca a descolar um bolo da forma, fazendo um enorme circulo à sua volta. Contornando a Baía chegamos à sua outra ponta, de onde avistamos a cidade e daí seguimos viagem passando por mais umas quantas aldeias e povoações.
A minha colecção de embondeiros vai aumentando (tenho tentado fotografar tantos quanto posso) e a isso juntei a minha convicção de que estou apaixonada por embondeiros e “requiems”, tendo por isso levado o ipod para juntar a banda sonora ao caminho das árvores esculpidas.
Não estava errada – é a conjugação perfeita! Requiem de Mozart em África, no meio dos embondeiros, é mágico!


A povoação principal, antes de Tandanhangue é Quissanga, um outro porto carregado de pescadores, palhotas e cabras que andam pelo meio das estradas estreitas. Chegamos finalmente ao nosso porto, cumprimento o seu gigante embondeiro e lá ao fundo já nos aguarda o barco que desta vez nos leva até ao Ibo.

Fazemos a viagem que já nos é comum: passamos a Ilha de Fiona ou Ilha dos pescadores, começamos a contornar o mangal em direcção a sul e logo as cegonhas se ajeitam nos ramos com as folhas, que parecem de brincar, e um enorme pelicano cinzento estica o seu pescoço ainda vazio.

A chegada ao Ibo é o regresso a uma outra vida. Em 1761 a coroa portuguesa fundou a vila do Ibo e até 1929 aquele foi o porto principal e capital do governo provincial de Cabo Delgado.

Pela sua situação estratégica, o Ibo é um lugar que junta influências árabes, indianas e africanas.
Hoje, o Ibo conta com pouco mais do que 3.000 habitantes e as ruas da vila são agora restos de ruínas de tempos coloniais.

Entro em casas e pequenos palacetes, imaginando os passos das senhoras até aos jardins que se estendem em cima do mar. As salas de estar de enormes tectos, as janelas maiores que as paredes por onde o cheiro das magnólias entrava pelo entardecer. E tudo isto com a brisa quente que chega pelo Índico, os retalhos de velas que deslizam pelo canal e um pôr do sol que me faz sentir num outro mundo.
Estivemos cerca de três dias no Ibo, como se lá fosse importante contar os dias, caso contrário não sabemos se aquilo são dias sequer. É uma espécie de vivência esquecida – quando ponho o pé do Ibo faço-o pela memória de outrém. De alguém que já lá viveu e que de lá nunca quereria sair; e então, eu sou essa pessoa.

O meu corpo transporta alguém e desta vez senti-me uma mulher profundamente apaixonada pelo homem que tinha saído pelo mar há muitos, muitos dias, a caminho da Índia. E todos os dias ela espera-o no porto, conta as luas, observa as estrelas, vê os peixes que chegam, mói com o pilão a farinha de mandioca assim como os seus pensamentos e a sua angústia por ele que não chega. "Porque aqui o coração bate mais devagar... meu amor."


No Ibo, vivia-se o jejum do Ramadão, o que além das marés é uma outra condicionante do ritmo na Ilha. Fomos de barco até à outra ponta da ilha, e qual não foi o espanto quando foi o Capitão Campo que nos conduziu! Também ele estava no Ramadão, então não fumava nem bebia água e só iria quebrar o jejum depois do pôr do sol. Mas continua gago como um peixe papagaio e certeiro no mar, como um lobo velho.


Saímos do Ibo ao entardecer, vendo o pôr do sol no barco a chegar a Tandanhangue. Quando chegámos, estava tudo tão deserto e tão calmo, como se continuássemos naquela vivência paralela, num cenário que se põe em frente a nós. Não havia ninguém. Só os barcos na água mole, o embondeiro gigante que lá do alto abraçava aquele pedaço de ilusão e as garças que traziam a vida em silêncio.



Deixamos o porto e partimos de regresso a Pemba, de regresso a casa. Fizemos toda a estrada de noite, com muitos mochos e corujas a riscar os faróis do carro com os seus voos irregulares e dezenas de ratinhos do campo a atravessar a estrada, na continuação do seu caminho.

Eu continuo também no meu, a caminho do Ibo.