27.7.09

Luz


Sempre gostei da forma como a luz brinca com tudo.
Com as pessoas, com as árvores, com os bichos, com as folhas... a luz é matreira!

Aqui estava eu sentada num jardim e a luz brincava com a árvore. Aparecendo, desaparecendo.

Foi difícil... um segundo e clic! apanhei-te!

Neste jardim perdido no meio da cidade e de milhares de carros que passavam ao fundo na Auto-Estrada, a luz brincava sozinha.

Fiquei com ela uns minutos enquanto me aquecia as costas e o pescoço. Deixei que uma formiga andasse entretida no meu braço e despedi-me da luz, por enquanto.

Há dias em que o ar é muito suave e macio. Respira-se bem e o vento é leve. Ontem foi um desses dias de luz.

26.7.09

Um desabafo - II

Desta vez é uma conclusão a que já tinha chegado há algum tempo... mas serviu a confirmação da última vez que se passou (esta semana).
Se há coisa que faz muita confusão na cabeça das pessoas, numas mais do que em outras, pois claro, mas confusão faz, é uma mulher não ter filhos. Pior ainda, não casar. Péssimo e horrendo: estar casada há uns largos anos e não ter filhos.
Há que tirar esse mistério rapidamente a limpo! Qual quê? Casada e sem filhos? Como? Disse que não era casada e vive sozinha? Desculpe? E não quer ter filhos? Mas quer e não tem ou não quer e podia ter?

Como sou casada e não tenho filhos posso falar desse sector ostracizado da sociedade; já as mulheres solteiras não posso falar por elas, mas sinto que devem sofrer o mesmo tipo de radio-x à míngua da razão humana de estar na terra: viver em família e fazer filhos.
A cabeça começa em ebulição e as palavras são mais rápidas do que a razoabilidade.
Primeiro é o olhar compulsivo para a barriga: se estou de vestido, de t-shirt, de calções, de sobretudo ou de bikini, é igual. Um segundo na barriga, dois segundos nos meus olhos e mais um segundo na barriga.
Depois começam as perguntas cheias de segundas intenções (mas julgam que eu cheguei aqui ontem, não?): que idade temos? estamos casados há muito tempo, quanto? tanto? os Pais já são reformados? agora é que calham bem os netinhos, não é? eles gostavam, não? onde são as próximas férias? agora com o cão é que arranjamos uma companhia, não é? não é verdade que estes cães gostam muito de crianças?

Já quando as cabeçinhas estão prestes a rebentar, tipo panela de pressão sem pipo, não aguentam e deitam cá para fora o pavor que lhes enrola a língua, não sem antes começarem a corar ligeiramente: "Não leva a mal se lhe fizer uma pergunta....?"

Pronto.

É aqui que começa a minha diversão no massacre daquelas cabeçinhas. Elas acham que termina o sufoco que sentem de semanas, meses e até mesmo anos a fio sem ver uma melancia que crescesse na minha barriga.

"Ainda não temos filhos..." deixo o "ainda" no ar como quem atira uma moeda. Ficam para elas as conclusões. Mas agora o "ainda" não me tem servido e já há quem aprofunde a questão e lance um sapiente conselho: mas se pensa muito nisso é pior!o melhor é não pensar muito nisso...

Não pensar muito nisso...

Este desabafo é meu. E como é meu, escrito no meu Blog, eu aproveito para enviar uma enorme abóbora a cada uma destas pessoas que me inundou e me irá inundar com esta sabedoria popular-pré-natal. E vou pô-la em cima da cabeçinha de cada uma.
É pesada? Muito?
Não pensem muito nisso...

21.7.09

Um desabafo - I

Apenas mais uma confirmação daquilo de vinha a suspeitar há algum tempo.
Há algum tempo, desde que tenho um cão - o flash.
A pior raça de cão que existe é a: dono-de-cão português!

Graças à sua audácia e sentido de educação e civismo, temos um País onde os cães são tratados como gado vivo, ou seja, não se leva um porco ou uma vaca para dentro de um café, certo?
Claro que não! Assim como não se leva uma ovelha para uma praia ou uma cabra para um centro comercial.

Prova da destreza e da agilidade do dono-de-cão português, são os testemunhos que tenho vindo a recolher dessa gente abonada em verdades absolutas e fantásticas sobre o que é realmente um cão de companhia.

A saber:

- O Boss é um espectáculo! Só eu e a minha esposa é que nos podemos chegar a ele, outra pessoa eu não sei. Se deixar a mão assim solta ele vem logo cheirar e se for preciso morde! ai, morde, pois!

- O meu cão tinha uma personalidade como eu nunca vi! Ele se fosse preciso brincava consigo, mas não lhe dava muita confiança, e às vezes, vai não vai, lá ia uma rosnadela... pois ele só comigo é que ficava bem!

- Ele (o cão, um caniche por sinal) se ficasse aqui como está o seu (deitado à porta da frutaria à minha espera) desatava a ladrar. Ele não é cão de estar sossegado. Mas o seu é assim tão calminho... coitadinho se calhar está triste.

- Se fosse o meu cão aqui (numa esplanada, em que o deitei debaixo da mesa) já tinha dado cabo disto tudo! Deitava tudo ao chão, as mesas, as cadeiras... tudo!

Depois ainda há as toneladas de caca que preenchem as falhas das pedras da calçada em Lisboa, porque ninguém as apanha (cães vadios já não existem no centro da cidade), as criançinhas histéricas que desatam aos berros quando vêem um cão porque as mães ainda as incentivam com mais gritos, do estilo: "Se o seu cão toca na minha filha, você paga-me uma indemnização que vai ver!" ou então, quando mais velhas, gritam aos ouvidos do flash "auuuuuu, auuuuuu" numa bonita tentativa de contactar com o bicho.

3 em cada 5 pessoas com quem eu e o flash nos cruzamos na rua não gostam de cães: desviam caminho, atravessam a estrada, fazem caretas, esticam os braços para se afastarem...
Aceito que se tenha medo dos cães ou que não se aprecie a sua presença.
Eu adoro animais, uns menos do que outros, como os gatos, por exemplo, mas respeito-os sempre.
Daí a tratá-los como prolongamentos de micro-egos em disfuncionamento ou como micro-gente a quem se baptiza de igual modo, vai um bocado.

Cheguei foi à conclusão de que definitivamente Portugal não gosta de cães.
Isto é mau País para se ter cão...

20.7.09

Ir à Praça...



Assim que chega o calor e a atmosfera mole dos dias abafados lembro-me de ir à praça com a minha Mãe. Devia ser porque era na altura das férias e assim lá ia eu rua abaixo a empurrar o carrinho.

O cheiro dos pêssegos e dos morangos misturava-se com o sol abrasador, havia vespas a levitar sobre a fruta, folhas de alface no chão, abóboras esborrachadas e gomos de tangerinas translúcidas.

Eu tentava sempre procurar uma sombra pois não entendia como era possível alguém aguentar aquele calor (há mais de 20 anos atrás as estações do ano eram fiéis aos equinócios e por isso quando era Verão, era mesmo Verão - um calor insuportável de Junho a Agosto).

Quando finalmente a minha Mãe me levava para a sombra era um tormento... entrava-se então na peixaria! E o peixe todo gordo e luzidio mergulhado em gelo, as lulas moles e o peixe espada preto (que me fazia imenso medo).

Havia as flores e o pão e ainda a senhora dos ovos que os devia estar a cozer debaixo de um pano onde ela os escondia. Redondinhos e perfeitos.

Fui muitas vezes à praça com a minha Mãe. Muitas vezes me magoei nas rodas do carrinho e levava caneladas nas pernas (pela falta de jeito, pois), escondia-me nas sombras e fugia das vespas que se entretinham na polpa da fruta que pingava o chão preto de pedra e alcatrão.

Dias de calor, de cheiros antigos...

Foto: Mercado dos Lavradores, Funchal.

18.7.09

Mãe


O jardim que antecede a entrada da casa, unindo o portão à porta de madeira branca de quatro janelas em vidro e duas portadas compridas, é um quadrado verde perfeito.
Ao meio tem um caminho de pedra cinzenta, dos dois lados a relva, e a contornar o muro, os canteiros. Naquele tempo, havia ainda uma ameixoeira e um limoeiro. O limoeiro ainda hoje existe, o alpercheiro substituiu a ameixoeira.

De Verão enchia-se de verdes, de flores cheias de cor, de abelhas e besouros, de lagartixas e de formigas empreendedoras, e de bolas de futebol que os meninos da rua, sem querer, deixavam lá cair.
No Inverno vestia-se de gotas de água e sacudia o vento dentro de si.

Era raro o dia em que a minha Mãe não estivesse no Jardim, a maioria das vezes a cuidar dele, que a sabia de sua volta. A podar roseiras, a sulfatar o limoeiro que estava permanentemente com bicho e outras maleitas - mas que mesmo assim dava limões – a aparar as trepadeiras, a espreitar para dentro da terra a ver quando vinham de lá as flores. Quando o tempo a deixava, fazia do jardim o seu escritório, dava aulas a alunas estrangeiras, lia, dormia a sesta e até levava o cavalete e as tintas para as suas pinturas.

No Inverno, conversava com ele lá de dentro, espreitando pela janela. Seguia o estado da relva, fazia o ponto de situação das flores – normalmente a roseira nunca estava no seu momento certo – discutia com o meu Pai se devia plantar um arbusto de ibisco ou mais patas de cavalo.
E namorava-o assim durante todo o ano. A minha Mãe recebia-me da Escola no Jardim, foi no Jardim que eu cresci e que nós os quatro nos juntávamos todos os verões ao jantar.

O Jardim era o mundo da minha Mãe - e eu a ela sempre a imaginei como uma borboleta branca, a gozar cada flor, a pousar em cada canto, a cheirar os limões e a levitar docemente pelo cheiro da terra molhada.

Serpa - Retiro de Escrita, Julho 2008

P.s - Parabéns, querida Mãe!

16.7.09

à espreita...


Hoje no bolo de arroz é dia de celebrar. Celebrar a vida, a família, o amor.
O meu irmão, que deve ter lido uma vez este Blog, faz hoje 35 anos e a minha mãe também está de parabéns.

Foi um primeiro filho muito desejado que nasceu no meio de um turbilhão de sentimentos e emoções. Ainda hoje, 35 anos depois, conseguimos sentir essa presença nas palavras da minha Mãe.

O Flash está à espreita, aguardando um novo momento de celebração e de vida.
Que está para breve, we hope.

Parabéns mano João, esta foto também é para ti.

14.7.09

Nós e os Animais

video

Regressarei sempre a este tema, pois sou uma crente no milagre que é a relação entre os Homem e a Natureza, neste caso os animais.

Entre os dois sempre existiu uma comunicação muito própria e tudo passa por um sonho de um dia ir para junto deles. George Adamson e Jane Goodall são duas histórias diferentes, mas com um mesmo motivo - conviver e conhecer os animais. Leões e Macacos, respectivamente.

Este filme é a prova de que o milagre acontece.
Em 1969, dois irmãos ingleses compraram uma cria de leão que estava à venda no Harrod's. O leão Christian cresceu a correr num jardim de uma Igreja em Chelsea e vivia em casa. Aos 9 meses tornou-se incomportável manter um leão em Londres e resolvem enviá-lo para o Quénia, para uma reserva de leões (de George Adamson).
O vídeo mostra o reencontro do Christian com os dois irmãos, um ano depois de estar na selva. No final vêem uma leoa que também os cumprimenta - era a companheira de Christian que vendo aquela manifestação de amizade pura, juntou-se a eles, sendo que nunca os conheceu na vida.

Eu vi o documentário completo na tv com os dois irmãos a falarem nos dias de hoje sobre aquela convivência com o Christian.
Fiquei com um nó na garganta... e quis partilhar.

11.7.09

must love dogs



Desde Janeiro que partilho praticamante todo o meu dia com um cão. O Flash.
A adaptação à vida caseira foi feita seguindo os conselhos e os livros com toda a informação sobre estes seres de quatro patas. Que são seres verdadeiramente únicos e muito curiosos.
Como nenhum outro animal, o cão vive para fazer companhia aos seus donos, para ser parte de uma família. O cão existe para viver junto de nós. É como os touros. Apenas servem para as touradas, mais nada.
O cão pode ainda servir para a caça, para resgate de pessoas, para guardar casas e rebanhos, mas tudo, tudo se resume a uma coisa: ao contacto com o Homem. Ele faz tudo isso, mas apenas porque tem uma voz de comando que o "coordena" e retira o melhor de si, dentro da sua "linha" de raça.

Quando resolvemos acrescentar este novo elemento, sabíamos que seria um passo arriscado. Só sabe isso quem realmente gosta de cães. Porque quem realmente gosta de cães, e os conhece, sabe dessa dependência total que eles têm com os humanos.
Mais do que uma criança, que cresce e se torna autónoma, um cão depende totalmente de nós.
Não vai à torneira beber água sozinho, não abre a porta para ir à rua e fecha-a à chave.
Quando não estão connosco sobrevivem, tal como vemos os cães na rua, tal como um sem-abrigo. Sobrevive daquilo que encontra e daquilo que lhe dão.

A fronteira entre entender tudo isto, porque afinal de contas é um cão, e humanizar os cães como se vê muito por aí, é ténue.
É muito fácil esquecermo-nos rapidamente de que ele é um cão e dar-lhe um nome de gente, pô-lo a dormir na nossa cama, dar-lhe comida à mesa, limpar-lhe as patas com toalhetes de bebé, enfim...

Já se passaram 7 meses de convivência com o nosso cão e ele é aquilo que nós fizemos dele. Mas é um cão. Dou por mim confusa e cheia de sentimentos por ele, ao mesmo tempo que tento racionalizar que ele é um cão.
Infelizmente, e especialmente cá em Portugal, os cães não entram me lado nenhum. Não podemos ir à praia, a um hotel, a um café, a um centro comercial, a uma repartição de finanças.
Tudo isto por culpa... dos donos dos cães. Que os deixam correr atrás de tudo, ladrar porque mostram ser muito ferozes, fazer xixi e cócó em todo o lado e não apanhar. É uma disciplina inexistente. Que, bem pensado, é a mesma que vemos numa geração de gente sem educação nenhuma.
Talvez o nível de civismo dos cães revele o nível de civismo da sociedade em que vivem... seria um bom indicador!

Os cães precisam de donos e por isso precisam de educação. Quando se tem um cão assume-se um compromisso para o resto da sua vida.
Serão sempre felizes, sem dúvida, porque exigem muito pouco: apenas toda a nossa atenção.

9.7.09

silêncio



Tirei esta foto em Paris, na catedral de Notre Dame. Gostei do contraste do preto e do branco, da mulher e do homem e dos tecidos que quase se tocavam no chão de pedra.
Apesar de tudo haver naquele momento, gente, barulho, agitação, encontrões..., sabia que esta fotografia haveria de me remeter para um silêncio que eu procurava.
Hoje procuro isso. A palavra pode ser sagrada, mas o silêncio é de ouro.

6.7.09

maré vazia

Há dias que são de maré vazia... Deixam a alma despida, à mercê das pegadas, sensível.
A película de água que cobre a areia é tão ténue que parece um véu delicado. Deixa no ar o aroma do sal e da saudade. Às vezes sinto-me como a maré vazia.
Ao final do dia,
a praia é senhora de si, não precisa que lhe encham e esvaziem a maré. As gaivotas surgem no seu tempo, as pegadas diluem-se no mar que as leva como quem esconde segredos.

O mar, aquela massa densa de água salgada, é a coisa mais perfeita do mundo. Enche todos os recantos do globo. Preenche todos os pedaços que a terra não ocupou. Mantém-se firme, agarrado ao seu fundo. Cheio de sal. Quente e Frio.

Quando o mar recua da terra, deixa as feridas à vista, as rochas nuas.
Às vezes sinto-me como a maré vazia. A areia lisa e fina espelha a luz do sol. Inspira-se o sal, fecham-se os olhos, expira-se um sentimento.

O sentimento da maré vazia. É a tristeza, então? Não. A maré vazia não é triste. Melancólica? Também acho que não, talvez sensível. Por que tem a energia das ondas, não pode ser triste nem melancólica. Mas tem qualquer coisa que não se explica. Que se sente, como se aquele véu de água salgada percorre-se o nosso corpo e com ele levasse o cinzento dos dias e trouxesse uma memória, um cheiro de um outro dia, de uma outra vida.

Somos feitos de marés. Uns dias cheia, outros vazia. Nada é perene.
Mas lá vêm novamente os ciclos, as coisas redondas e completas de que eu tanto gosto. Um dia a seguir ao outro.
Uma maré depois da outra.





2.7.09

Pontos Fracos. #2 Arrumações

Ora, retomando a minha lista de coisas que me deixam mais à mercê da tentação, as arrumações estão quase taco-a-taco com uma saca de amêndoas torradas ou umas nozes para partir, feita um esquilo esquizofrénico!
Adoro arrumações. Então, se incluírem deitar coisas fora, encher sacos do lixo pretos e sacudir o pó do tempo, melhor!
Costumo dizer que enquanto faço arrumações, arrumo também a minha cabeça. Gaveta abre e fecha, deita coisa fora, põe no lixo, arquiva, põe no monte dos "to dos", tira do monte.

Acho que o Kant também devia adorar arrumações, porque quem inventa uma coisa como o pensamento categórico, em que dentro da nossa mente é só arquivadores cheios de informação e de coisas, sabe que de vez em quanto temos de arrumar, eliminar e deitar fora.
Por dentro e por fora.

Isto no caso das papeladas de casa e do trabalho. Quando chegamos a roupa e afins a regra é: se não usei na última estação é porque nunca mais vou usar.
Daqui resultam horas e horas em que ando de cabeça no chão e rabo no ar, sôfrega a triturar papeis e coisas. Diz quem assiste, o meu Príncipe, que perco a noção do tempo e das horas, entrego-me à tarefa feita missão e há que ter cuidado porque o critério do "deitar fora" é curto. Pouca coisa resiste às minhas arrumações.

Pior ainda, é que eu não sei qual será a próxima vez que irei ter um "surto" de arrumar/deitar fora. É psicossomático. Aparece e desaparece. Quando vem, tem mesmo de ser. Às vezes é de manhã, outras à noite. À tarde. Entrego-me ao surto sem resistência nenhuma.
É sem dúvida uma fraqueza minha, mas sou orgulhosa das minhas arrumações e depois de feitas sinto um prazer enorme.

Como se tivesse comido uma bela fatia de pão de ló!
... e fico toda arrumadinha, dentro e fora.