28.5.14

visita-te





 
Certo dia, véspera da Primavera, resolvi dar uma "fuga" de Lisboa.
Por três noites.
O objectivo era escrever e terminar os meus contos infantis - que entretanto acabei por não estar legível para participar no Concurso, pois já tenho contos publicados.
E agora, por estar a escrever este texto, sinto-me culpada por ter "dado à luz" personagens tão giros que ficaram literalmente fechados numa tabela de "ficha de personagens": uma tartaruga que está sempre a fazer xixi, um tubarão cheio de sono, um elefante jardineiro, os meninos que fazem pão, o caranguejo que está sempre mal disposto, um atum com a mania das doenças... Já tinham tiques e maneiras de falar, e a história estava mesmo a começar. E eu, irritada, frustrada e parva, meti-os na gaveta.
Bom, mas o objectivo deste post não era falar dos meus personagens infantis e imaginários.
Era para recordar a minha fuga, que agora, uns meses depois, preparo-me para outra, mas além fronteiras!
Nesse dia almocei com os meus Pais e fiz-me à estrada. Antes de chegar ao destino final quis revisitar o Palácio de Mafra. E que maravilhosa surpresa!
Devo lá ter ido em 1989, p'rai, e agora pareceu-me tudo muito diferente.
Logo na bilheteira a senhora alerta-me para o facto de isto de se visitar o Convento à "vontade do freguês", é uma novidade. Ou seja, antes só se podia entrar com visitas guiadas - nada de iniciativa privada. Mas eu, qual sortuda, já o podia fazer e por uns 4€ o colosso das 4.500 janelas e portas era todo meu.
Cruzei-me com centenas de estudantes em visitas de estudo, e lá andei eu a "brincar" aos reis e às rainhas, mas com um objectivo: visitar a biblioteca.
E quando lá cheguei, e fiquei especada a olhar para aquilo, repeti dentro de mim: "o silêncio dos livros".
É belíssimo.
E acho que devemos visitar aos 12 e depois aos 36,  e por aí fora - para confirmar que efectivamente nós mudamos, enquanto as coisas permanecem desde 1700.
Acabada a visita meti-me no carro e fui para junto do mar.
É verdade.
Tive a sorte de conseguir um preço obscenamente baixo (conheço a Directora de Vendas, vá), um quarto em frente ao mar e uma cama king size!
Foram três noites de vidinha minha, só eu comigo.
Porque também convém "visitar-nos" de vez em quando, perceber como estamos diferentes ou quanto queremos mudar.


27.5.14

diários de moçambique** #10


Diário de Moçambique. volume 2. "as raízes do princípio"
 
 
14 de Março de 2011. (2ªfeira)
 
Começa a semana com chuva.
O que em Lisboa poderia ser mau começo, aqui é apenas a continuação do estado de espírito da natureza.
Há vários dias que não chovia, estava tudo a ficar demasiado seco, o calor estava a tomar conta de tudo. O chão estava a perder humidade e a terra a ficar em pó. E já muitas vozes se levantavam dizendo que não chovia mais - mas isso era e seria uma grande desgraça para as machambas desta gente toda que tem o milho a meio caminho.
Mas assim como a lua se ia tornando mais brilhante, e o céu ainda mais estrelado, como ontem à noite em que tudo se via, com um final de dia em tons pastel, e estrelas por todo o lado - às 5 da manhã começou a chover.
E até agora, 8h40, ainda não parou.
Ontem tivemos um dia preenchido por um grande passeio à volta do Ibo.
Fomos com o Jo à ponta Sul-este da Ilha - a que fica mais próxima da Quirimba.
Saímos de nossa casa directos à pista do "aeroporto" e atravessamos um deserto árido de bocados de rocha /coral, algumas árvores, vegetação rasteira, formigueiros gigantes. Calor e o sol bem de ponta - saimos às 11:00, que é a hora de mais calor, mas é também aquela que nos permite caminhar com a maré vazia.
No caminho, antes de virar completamente a Sul, cruzamo-nos com algumas mulheres que foram para aquele deserto buscar lenha. Lenha, pedaços de madeira, e de plástico que o mar leva até ali em alturas de grandes marés e depois, quando recua, ficam montes de lixo e madeira.
A lama, o matope, estava seco, tal tinha sido o calor dos últimos dias. Passamos por entre o mangal seco, como se fosse um enorme jardim com árvores e vegetação rasteira verde. No fim desse jardim, como se fosse o fim da terra, estava o mar vazio. Uma extensão de quilómetros de areia, com o mar ao fundo, a espuma branca da rebentação e barcos fantasmas que pareciam suspensos pelo ar quente do chão.
Havia pequenas crateras como se fossem aberturas vulcânicas num solo lunar, com restos de mar a temperaturas muito altas, com peixes lá dentro e seres diferentes.
Como sempre, havia pássaros a pescar a espetar o bico no matope misturado com a areia.
Contornamos esse lado para entrar no caminho, que já fiz para a Quirimba, mas desta vez no sentido oposto, a caminho do Ibo.
Fizemos o caminho de volta debaixo de algum calor, pelo canal muito vazio, em que a certa altura estreita à largura de uma pessoa.
Pisei uma rocha, pedaço de coral, que se partiu e sumiu-se o chão debaixo de mim.
Caí para o meu lado direito e apoiei a mão - fiquei com o dedo mindinho todo torcido e o anelar também. Isto porque do outro lado tinha a máquina, que mesmo assim, entrou totalmente dentro de água! Que susto, mas não se estragou... eu ganhei uns arranhões e um dedo todo inchado.
Chegamos ao Ibo são e salvos, quase 4 horas depois, com calor e suor de 12 km de caminhada.
Foi um dia bem passado.
 







 

23.5.14

Cascais Match

 

A revista Paris Match elegeu Cascais como os Hamptons de Portugal.
Uma espécie de refúgio chique dos citadinos e lugar cheio de gente bonita, paisagens, hoteis, cafés, lojas, praias e tudo o que se quer num destino de férias civilizado e pouco massificado.
Sim, porque isto, apesar de tudo, não é o Algarve.
Claro que como uma cascalense "regressada a casa", após 13 anos de vida lisboeta, fico muito contente com esta notícia e destaque.
 
Mas isto só vem dificultar ainda mais a minha vida, mais ainda do que quando era uma miúda e entrei para a Faculdade.
- És de onde?
- Cascais...
- Cascais?! Mas vocês lá precisam de estudar?! Cascais?! tens a certeza? a tua Mãe é uma "Tia"? o teu Pai joga golf, não!? E tens um irmão p'rai Lourenço.
 
De facto a minha Mãe pode-se considerar uma "Tia", o meu Pai realmente joga golf e tenho um irmão, mas é João. Vá.
Há quase 43 anos que os meus Pais vivem em Cascais e eu vivi com eles 23 anos.
Sempe estudei em escolas oficiais (do Estado), nunca andei em colégios. Com 10 anos passei para o Liceu para onde ia a pé, tinha as chaves de casa e no Inverno saia quando ainda era de noite.
Se chovia, azar. Voltava a casa de all-star a fazer "chlock! cholck!" ou apanhava a camioneta (autocarro era coisa de gente citadina).
As amigas da escola não eram Constanças, Madalenas ou Veras. Era a Ana Manuela, a Maria Rita, a Ana Sofia e a Ana Rita e fui apaixonada por um Ricardo Alexandre.
Faltava a luz muitas vezes e água também; havia cheias no Inverno e rapava-se um frio do catano no meu quarto. Havia a Macmoda onde iamos comprar calças de ganga e os brincos da Rua Direita. Havia efectivamente droga e sabia-se quem tinha e quem era; ainda há pouco tempo comentava com o meu irmão que os meus Pais não tiveram noção do meio onde nós andavamos, e nem eu nem ele nos drogámos, e hoje nem sequer fumamos...
Quando passei para a Faculadade, levanta-me às 6:30 todos os dias para apanhar o comboio até Alcântara e ouvir estas idiotices de quem  julga quem mora em Cascais.
Assim que pude, afundei-me em Lisboa. Talvez, de uma maneira ou de outra, Cascais fosse um meio "pequeno" para mim.
É verdade. As pessoas conheciam-se todas umas às outras, era um meio relativamente controlado. E eu queria cheirar outras coisas. E assim entreguei-me a Lisboa de alma e coração. Vivi nos Olivais, no Saldanha e em Santa Catarina, no Chiado.
Quase 13 anos depois regressei a Cascais, e precisamente à mesma morada - mas desta vez um andar acima do meu quarto.
E retiro todo o partido de viver nesta Vila, que é absolutamente lindíssima.
Mas ainda esta semana passei horas no Centro de Saúde para conseguir uma porcaria de uma receita -  que não consegui! Em Lisboa não tenho uma dúvida que conseguia.
Aqui levo multas de meia-noite porque estaciono o carro no passeio, quando não há meio de porem parqueamento com dístico na minha zona, e assim torna-se impossível estacionar durante as horas do dia. Em Lisboa, durante 13 anos, se levei 2 multas de estacionamento foi muito. Sempre tive dístico onde era conveniente ter.
Não tenho Fnac ou Bertrand sem ter de me meter no carro e ir a um Shopping (coisa que me deixa logo com vómitos), e muitas vezes a melhor coisa que tenho é meter-me no comboio e sair no Cais do Sodré, para inalar toda aquela cidade que me encanta.
Mas também tenho esta coisa de ir deixar o M. à creche, descer a rua (vou com o carrinho a pé), entrar no Paredão e por-me a caminho até ao Estoril. No regresso paro a meio para beber um café numa esplanada vazia.
Pego no Flash e estou no Guincho oito kms depois.
Ou pego em mim e tenho uma praia a 8 minutos de casa, a pé.
Tudo óptimo, sem dúvida.
Mas aqui moram pessoas normalinhas, que trabalham, têm questões sobre a vida, azares, problemas, inquietações, medos, atrasos, cenas lixadas para resolver e tudo o que existe no resto do mundo -  a única diferença é que têm vista de mar! :)
 
 
 
 



21.5.14

da liberdade de espírito

 
Vejo pouquíssima ou nenhuma televisão.
Para mim a televisão e certos canais, é tipo MacDonald's.
Acho que gosto daquilo tudo, mas evito porque sei que não é do mais saudável.
Mas quando me entrego à causa, faço-o até ao fim. Como as batatas com molho, bebo litros de coca-cola e besunto os dedos de cheiro a hamburguer.
Depois de me encher do "lixo" todo, dou uns tempos de intervalo, até à próxima visita.
Com a televisão é o mesmo. No caso, com os nossos canais. 
Eu nunca vejo TVI, mas quando vejo é para me colar ao "Big Brother" ou à "Casa dos Segredos" - a coisa mais desprovida de movimento cerebral. É só abrir e fechar olhinhos.
Calha que, assim como o MacDonald's nos apresenta macarrons de framboesa, também a TVI certo dia me deu uma surpresa inesperada.  
Apanhei a reportagem a meio. Depois do Jornal da Noite, no ReporterTvi - uma peça bem escrita e profunda, tão urgente para os dias de hoje. E foi por isso que me chamou tanta atenção. Encontrar macarrons na Versailles é de se esperar, mas no Mac Donald's é que não.
Afinal, então, sobre o que era a reportagem?
Liberdade de Espírito.
tout court.
A liberdade de espírito nas suas versões: política, espiritual, intelectual, social...
Interessante também pelo jornalista ter abordado pessoas tão distintas como deputados, monges, filósofos, antropólogos...
A liberdade é, afinal, um engano.
Sempre tive esta teoria e assim a pude comprovar. Nunca uma pessoa se assume tão solitária, quanto mais livre é - de espírito.
Para mim, o ser livre é tão agonizante quanto ser escravo. (num sentido figurado, obviamente).
A liberdade de espírito é um estado, um sentir apaziguador com o mundo que dá simplicidade e tranquilidade. É absolutamente maravilhoso, como penoso. Porque quando se o atinge, existe uma solidão insular.
Comecei a pensar nesta teoria quando estava no Ibo - havia tempo e matéria para desenvolver o assunto. Vivia numa ilha, no meio do nada, em que teria tudo para ser totalmente livre, ou seja, era dependente de absolutamente nada.
E existia um homem que personificava a minha teoria - o Dimitri. Não teria 40 anos, francês, filho de Pais "bem estabelecidos", culto, interessante, vivia sozinho numa casa em frente ao mar, carregada de livros, de tinta comida pelo sol da tarde, de portadas românticas, de cães perdidos, de um jardim tropical e de um mistério intrigante. De vez em quando pegava no barco e desaparecia velejando até Pemba, ou até onde lhe desse na cabeça. Outras vezes ficava ausente por mais tempo e ía até França, Malawi, ou Tanzânia, tratar dos vistos. 
O Dimitri era totalmente livre. E totalmente sozinho. 
Do espírito livre, disse um monge da Ordem da Cartuxa (o fenómeno mais medieval do nosso tempo, cujo voto absoluto de silêncio me causa fascínio e curiosidade, pois sempre fui, e serei, um extremo de mim mesma), à reportagem da TVI: "ser livre é ser igual a si próprio e hoje somos todos cada vez mais iguais uns aos outros."
Logo aqui, "morrem" 99% dos que se acham diferentes, porque achar-se diferente é logo ser igual a todos os outros. 
Eu sofro pela consciente agonia de que sou precisamente igual a todos, nem mais, nem menos e por isso sempre me disfarcei pelo desapego. Pois também a liberdade de espírito casa com desapego. E mais uma vez, passar meses num lugar vazio de coisas, deu-me o culto do desapego. Deu-me o prazer de uma vida simples, tal como um eremita, um Dimitri, um monge da Cartuxa.
E quanto mais experimentava a vida simples, mais a compreendia e dela necessitava. 
Mas sempre, sempre me questionei por uma coisa: então e o amor?
Onde fica no meio disto tudo, o amor.
O amor pela natureza, aceito. Mas eu não me convenço dessa ideia de que o espírito se alimenta do incorpóreo, e que a natureza nos dá tudo o que precisamos.
Eu preciso de um outro, do apego das sensações, cheiros, sons, contemplações, sabores e até sonhos. 
A liberdade, como desapego, retira-nos esses sentidos. O monge garante que não precisamos de nada mais, o Dimitri também dizia que não precisava de nada mais a não ser a casa, o barco e os livros.
Mas é tudo uma mentira. É tudo um engano.
Há a carência do outro. E quem se diz livre, cala essa fome.
Como quem faz dieta, mas habitua-se a ter fome. 
A liberdade suprema traz isolamento e solidão.
Um espírito inteiramente livre é um lugar sozinho. Conquista-se um apaziguar tão certo entre o corpo e o universo, mas há uma carência absurda de com quem construir uma obra de amor. 
Porque eu não entendo como o ser livre pode viver sem amor.
Porque eu gosto do MacDonald's e da Versailles, dos hamburgueres e dos macarrons, mas o que alimenta o meu espírito é o absoluto amor.
Do que sinto pelo meu filho, que, sem perceber como, cresce todos os dias, quase a todos os minutos; e do que preciso de sentir por um outro. Livre também.
 
 
("A Lebre de Olhos de Âmbar", Edmund de Waal)


17.5.14

Até às 18h...

Em Cascais 
No centro convívio Bairro do Rosário 
Baú das Mães - venda artigos em 2a mão 
Entrada 1€ - a favor da Associação MIMAR 

13.5.14

Estados e Traços

 
Sempre tive a teoria, tantas e tantas vezes confirmada pela prática dos dias, de que somos sempre "compensados", de alguma maneira, mais cedo ou mais tarde, pelo mal que podemos passar.
Este último ano foi talvez dos mais duros e difíceis que passei. E estas últimas semanas também não têm sido nada fáceis.
Até quem me lê, e conhece, comenta, entre dentes: "tenho lido o bolo-de-arroz, as coisas não vão lá muito bem, pois não?"
Pois não.
Eu nunca soube, nem consegui, guardar as coisas cá dentro. Despejo tudo. Viro o caixote do avesso. Esvazio-me em palavras, em textos, em estados de alma melancólicos. E ando para aí a plantar tristeza em saquetas.
Mas são estados, momentos que chegam e vão. Passam.
Não são traços de mim.
São dias em que estendo os meus sentimentos ao vento, ponho-os todos tortos, presos por molas meias partidas, tudo uma confusão.
E quem me conhece já sabe, sou uma baralhada de refilar, de amar e odiar tudo ao mesmo tempo, de dar tanto amor, como estoirar uma panela de pressão de fúria- mas isto já é um traço meu.
E então percebo: foi um ciclo, um ano que terminou.
E eu, que somatizo tudo, estive num estado que reflecte a equação final deste somatório de dias menos bons, menos fáceis, menos suaves, menos tudo.
E é aqui que a minha teoria se aplica - porque, os meus traços, aqueles que me definem e me contornam, como aqueles desenhos em que temos de unir os números e vai surgindo uma figura, esses traços nunca os perdi. Estão aqui.
Sempre foram e sempre vão ser meus.
E hoje foi dia de os confirmar, de os alinhar e de os ver tão nitidamente reflectidos na minha alma.
O meu "cheque" está a chegar :)
 
 

12.5.14

prenda-a-mim

 
Ultimamente, tenho dado por mim nestas situações.
Numa Loja.
Estou para pagar e perguntam:
- É para oferecer?
- Não...., quer dizer. Sim, sim é para oferecer a mim...
(sorriso parvinho)
 
Adoro surpreender-me a mim própria com um bonito embrulho.
Mas também o faço com um molho de flores, atadas com um pedaço de guita.
 
Certo dia, a querer variar de cheiro, dei com este pedaço de céu perfumado em forma de vaporizador.
Jo Malone. É um vício. Ponho várias vezes aos dia. E vou lá voltar e trazer mais, de outros cheiros, e responder à pergunta com os sorrisinhos parvos.


9.5.14

Surto Mensal de Malária - Amanhecer e Anoitecer


IBO

 
CASCAIS
 
Por mais anos que viva, e mais de repente morra, há dois momentos do dia que, por todos os dias, me levam até África.
O amanhecer e o anoitecer.
Calha mais vezes assistir ao anoitecer, naturalmente, pois não tenho por hábito levantar-se às 6 da mnhã, mas se um dia calha acordar cedo, e ainda apanhar aquele ar fresco e solto - lá estou, em África.
Ao final do dia, e por esta altura do ano em que os céus cor de rosa começam a acontecer, é sempre o mesmo movimento.
Agora, da janela do meu escritório em Cascais, vejo o mesmo, exactamente o mesmo que via da janela do meu quarto em miúda - em que o sol se põe e entorna uma tinta dourada pelas minhas paredes.
Eu, miúda, pequena, lembro-me de ir de propósito para o quarto e assistir a esse momento - deitava-me na minha cama e ficava a fazer companhia ao sol, enquanto ele se deitava também.
Tantos anos depois, e um andar acima, tenho a mesma visão.
O mesmo sol. E deixo-me ficar.
É momento de fim. Sem ser um fim.
Há sempre um afinal, um dia seguinte.
Talvez por isso goste dos princípios e finais do dia, são minutos de ponderação, o que se passou, o que vai acontecer, o que se segue, o que se espera, o que se sente e deixou de sentir.
Em África acordava sempre muito cedo. E se por um lado fiquei viciada em assistir ao nascer do dia, que acontecia em curtos minutos, depois durante o dia, atravessava o martírio do calor esticado sem sombras, ansiosa pelo seu final.
Pelo meu final de tarde. Era o momento do banho. Banho frio, com sabonete, sem esponjas ou gel de banho. Um sabonete e água fria - era tudo o que pedia.
E uma toalha bem seca, que o sol não dava tréguas a qualquer traço de humidade no algodão.
E vestir roupa lavada.
E deixar a noite chegar.
A noite que tudo acalmava, tudo fazia passar.
A manhã chega.
Vai chegar. E são os pássaros que a dão ao mundo.
Sempre os pássaros.
Sempre as saudades de África.
 




7.5.14

Baú das Mães

 
Confesso que faço parte do grupo de pessoas que sempre sonhou fazer uma "garage sale"! E assim nasceu o "Baú das Mães" - a acontecer no próximo dia 17 de Maio em Cascais.
Excelente oportunidade de despachar as tralhas que ficaram das limpezas de Primavera, ter uma tarde animada e ainda ajudar uma Associação!
Para mais informações: baudasmaes@gmail.com


4.5.14

dia de não-mãe

 
Quando a 19 de Março se festejou o dia do Pai, automaticamente pensei em quem não tinha Pai.
Pensei que apesar de tudo, o M. tem Pai. E tem um Pai que é o melhor possível.
Existe e está lá para ele, a 100%.
Hoje, no dia da Mãe, já penso em quem não consegue ser Mãe.
O não ter Mãe, é de si, uma triste dor, mas eventualmente, numa ou outra fase da vida, é uma própria questão da natureza. É assim que funciona. Ficam os filhos, vão os Pais.
Muita atenção, que aqui não menciono quem não tem Mãe por abandono ou negligência. Isso já é todo um outro Universo, do qual não posso, nem quero falar.
Do que hoje quero, posso e sei falar, é de quem não é Mãe contra a sua vontade e desejo.
É uma crueldade, um sofrimento silencioso e morto não se conseguir ser Mãe.
Uma Mãe chora a perda de um filho, um filho chora a perda de uma Mãe, uma mulher que não consegue ser Mãe não chora, porque nem a deixam chorar. 
Ou chora. No duche, dentro do carro a ouvir música, no escuro na noite, ou fechada na casa de banho sentada numa sanita.
Hoje, para mim, é dia de não-Mãe.
Hoje é o dia de todas as mulheres que querem ser Mãe e não conseguem.
É o dia de encarar e aceitar essa dor, atroz e desumana que ninguém conhece, ninguém fala, mas que faz todos dar tapadinhas nas costas: "ainda és nova", "não penses nisso que acontece, vais ver!", "isso passa", "pensa noutras coisas", "o casamento é o mais importante", "um dia acontece, vais ver", "tens tanto tempo para isso", "tens de ter paciência"... e todos os disparates e teorias que se dizem.
Quando hoje conheço uma "mulher não-mãe", fico calada ao lado dela, para que o meu silêncio confirme aquele vazio faminto.
É uma crueladade estúpida. É como se a natureza, durante todos os ciclos do mês, nos enviasse uma mensagem de erro - não estamos capazes de concretizar aquilo para que a própria natureza nos chama, sucessivamente. É como se o nosso corpo fosse de menos, e inferior aos outros.
Tantas que são, e eu não.
É de um significado destruidor e quase sempre culpabilizante.
Já muito pensei e escrevi sobre este tema - foram oito anos da minha existência.
Foram noventa e seis ciclos a chorar para dentro. À minha volta, enquanto tudo se compunha, eu desfazia-me. 
Mas refiz-me. Sempre. Nunca perdi a esperança, nunca aceitei qualquer derrota - sabia que o tempo de ser Mãe havia de  me chegar.
Nunca desisti, nunca deixei de fazer tudo o que estivesse ao meu alcance. Tudo.
Até que o tempo chegou.
Esse momento já tem quase 14 meses e cresce com uma força e vitalidade que me enchem de orgulho e amor. É ele que me dá vida, todos os dias.
Não sou Mãe-galinha, sou Mãe-leoa. A 100%.
Além de ser leoa de signo, faço anos no dia mundial dos leões (10 de Agosto).
Não escondo o meu filho debaixo da asa, prendendo-o a mim, colocando-o numa redoma de vidro - mas levo-o comigo, dando-lhe a curiosidade e a vontade de querer atravessar rios, enfrentar o medo, arriscar e saber respeitar as fronteiras.  
Quero que o meu filho seja independente, curioso, seguro de si e tranquilo.
Sempre digo que só tenho medo de o ver sofrer, mas mesmo que um dia esse momento possa chegar, é da minha força e da minha resiliência que o vou alimentar - darei tudo por ele, como se por aqueles oito anos, tivesse sido ele a atestar-me desta resistência que me preenche os ossos.
O tempo chega, sempre. Mais cedo ou mais tarde chega. Para coisas boas e más.
A cada mulher não-mãe garanto que das fraquezas se fazem forças, e que sempre o dia nos dá razões para continuar a acreditar.
Nunca desistam de ser Mães, assim como não se desiste de ser mulher -  cheia de inquietações, dúvidas, palpitações e inseguranças, amores e ódios, sentimentos de culpa e emoções confusas.