4.5.14

dia de não-mãe

 
Quando a 19 de Março se festejou o dia do Pai, automaticamente pensei em quem não tinha Pai.
Pensei que apesar de tudo, o M. tem Pai. E tem um Pai que é o melhor possível.
Existe e está lá para ele, a 100%.
Hoje, no dia da Mãe, já penso em quem não consegue ser Mãe.
O não ter Mãe, é de si, uma triste dor, mas eventualmente, numa ou outra fase da vida, é uma própria questão da natureza. É assim que funciona. Ficam os filhos, vão os Pais.
Muita atenção, que aqui não menciono quem não tem Mãe por abandono ou negligência. Isso já é todo um outro Universo, do qual não posso, nem quero falar.
Do que hoje quero, posso e sei falar, é de quem não é Mãe contra a sua vontade e desejo.
É uma crueldade, um sofrimento silencioso e morto não se conseguir ser Mãe.
Uma Mãe chora a perda de um filho, um filho chora a perda de uma Mãe, uma mulher que não consegue ser Mãe não chora, porque nem a deixam chorar. 
Ou chora. No duche, dentro do carro a ouvir música, no escuro na noite, ou fechada na casa de banho sentada numa sanita.
Hoje, para mim, é dia de não-Mãe.
Hoje é o dia de todas as mulheres que querem ser Mãe e não conseguem.
É o dia de encarar e aceitar essa dor, atroz e desumana que ninguém conhece, ninguém fala, mas que faz todos dar tapadinhas nas costas: "ainda és nova", "não penses nisso que acontece, vais ver!", "isso passa", "pensa noutras coisas", "o casamento é o mais importante", "um dia acontece, vais ver", "tens tanto tempo para isso", "tens de ter paciência"... e todos os disparates e teorias que se dizem.
Quando hoje conheço uma "mulher não-mãe", fico calada ao lado dela, para que o meu silêncio confirme aquele vazio faminto.
É uma crueladade estúpida. É como se a natureza, durante todos os ciclos do mês, nos enviasse uma mensagem de erro - não estamos capazes de concretizar aquilo para que a própria natureza nos chama, sucessivamente. É como se o nosso corpo fosse de menos, e inferior aos outros.
Tantas que são, e eu não.
É de um significado destruidor e quase sempre culpabilizante.
Já muito pensei e escrevi sobre este tema - foram oito anos da minha existência.
Foram noventa e seis ciclos a chorar para dentro. À minha volta, enquanto tudo se compunha, eu desfazia-me. 
Mas refiz-me. Sempre. Nunca perdi a esperança, nunca aceitei qualquer derrota - sabia que o tempo de ser Mãe havia de  me chegar.
Nunca desisti, nunca deixei de fazer tudo o que estivesse ao meu alcance. Tudo.
Até que o tempo chegou.
Esse momento já tem quase 14 meses e cresce com uma força e vitalidade que me enchem de orgulho e amor. É ele que me dá vida, todos os dias.
Não sou Mãe-galinha, sou Mãe-leoa. A 100%.
Além de ser leoa de signo, faço anos no dia mundial dos leões (10 de Agosto).
Não escondo o meu filho debaixo da asa, prendendo-o a mim, colocando-o numa redoma de vidro - mas levo-o comigo, dando-lhe a curiosidade e a vontade de querer atravessar rios, enfrentar o medo, arriscar e saber respeitar as fronteiras.  
Quero que o meu filho seja independente, curioso, seguro de si e tranquilo.
Sempre digo que só tenho medo de o ver sofrer, mas mesmo que um dia esse momento possa chegar, é da minha força e da minha resiliência que o vou alimentar - darei tudo por ele, como se por aqueles oito anos, tivesse sido ele a atestar-me desta resistência que me preenche os ossos.
O tempo chega, sempre. Mais cedo ou mais tarde chega. Para coisas boas e más.
A cada mulher não-mãe garanto que das fraquezas se fazem forças, e que sempre o dia nos dá razões para continuar a acreditar.
Nunca desistam de ser Mães, assim como não se desiste de ser mulher -  cheia de inquietações, dúvidas, palpitações e inseguranças, amores e ódios, sentimentos de culpa e emoções confusas.
 
 
 
 
 
 

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