23.5.14

Cascais Match

 

A revista Paris Match elegeu Cascais como os Hamptons de Portugal.
Uma espécie de refúgio chique dos citadinos e lugar cheio de gente bonita, paisagens, hoteis, cafés, lojas, praias e tudo o que se quer num destino de férias civilizado e pouco massificado.
Sim, porque isto, apesar de tudo, não é o Algarve.
Claro que como uma cascalense "regressada a casa", após 13 anos de vida lisboeta, fico muito contente com esta notícia e destaque.
 
Mas isto só vem dificultar ainda mais a minha vida, mais ainda do que quando era uma miúda e entrei para a Faculdade.
- És de onde?
- Cascais...
- Cascais?! Mas vocês lá precisam de estudar?! Cascais?! tens a certeza? a tua Mãe é uma "Tia"? o teu Pai joga golf, não!? E tens um irmão p'rai Lourenço.
 
De facto a minha Mãe pode-se considerar uma "Tia", o meu Pai realmente joga golf e tenho um irmão, mas é João. Vá.
Há quase 43 anos que os meus Pais vivem em Cascais e eu vivi com eles 23 anos.
Sempe estudei em escolas oficiais (do Estado), nunca andei em colégios. Com 10 anos passei para o Liceu para onde ia a pé, tinha as chaves de casa e no Inverno saia quando ainda era de noite.
Se chovia, azar. Voltava a casa de all-star a fazer "chlock! cholck!" ou apanhava a camioneta (autocarro era coisa de gente citadina).
As amigas da escola não eram Constanças, Madalenas ou Veras. Era a Ana Manuela, a Maria Rita, a Ana Sofia e a Ana Rita e fui apaixonada por um Ricardo Alexandre.
Faltava a luz muitas vezes e água também; havia cheias no Inverno e rapava-se um frio do catano no meu quarto. Havia a Macmoda onde iamos comprar calças de ganga e os brincos da Rua Direita. Havia efectivamente droga e sabia-se quem tinha e quem era; ainda há pouco tempo comentava com o meu irmão que os meus Pais não tiveram noção do meio onde nós andavamos, e nem eu nem ele nos drogámos, e hoje nem sequer fumamos...
Quando passei para a Faculadade, levanta-me às 6:30 todos os dias para apanhar o comboio até Alcântara e ouvir estas idiotices de quem  julga quem mora em Cascais.
Assim que pude, afundei-me em Lisboa. Talvez, de uma maneira ou de outra, Cascais fosse um meio "pequeno" para mim.
É verdade. As pessoas conheciam-se todas umas às outras, era um meio relativamente controlado. E eu queria cheirar outras coisas. E assim entreguei-me a Lisboa de alma e coração. Vivi nos Olivais, no Saldanha e em Santa Catarina, no Chiado.
Quase 13 anos depois regressei a Cascais, e precisamente à mesma morada - mas desta vez um andar acima do meu quarto.
E retiro todo o partido de viver nesta Vila, que é absolutamente lindíssima.
Mas ainda esta semana passei horas no Centro de Saúde para conseguir uma porcaria de uma receita -  que não consegui! Em Lisboa não tenho uma dúvida que conseguia.
Aqui levo multas de meia-noite porque estaciono o carro no passeio, quando não há meio de porem parqueamento com dístico na minha zona, e assim torna-se impossível estacionar durante as horas do dia. Em Lisboa, durante 13 anos, se levei 2 multas de estacionamento foi muito. Sempre tive dístico onde era conveniente ter.
Não tenho Fnac ou Bertrand sem ter de me meter no carro e ir a um Shopping (coisa que me deixa logo com vómitos), e muitas vezes a melhor coisa que tenho é meter-me no comboio e sair no Cais do Sodré, para inalar toda aquela cidade que me encanta.
Mas também tenho esta coisa de ir deixar o M. à creche, descer a rua (vou com o carrinho a pé), entrar no Paredão e por-me a caminho até ao Estoril. No regresso paro a meio para beber um café numa esplanada vazia.
Pego no Flash e estou no Guincho oito kms depois.
Ou pego em mim e tenho uma praia a 8 minutos de casa, a pé.
Tudo óptimo, sem dúvida.
Mas aqui moram pessoas normalinhas, que trabalham, têm questões sobre a vida, azares, problemas, inquietações, medos, atrasos, cenas lixadas para resolver e tudo o que existe no resto do mundo -  a única diferença é que têm vista de mar! :)
 
 
 
 



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