10.8.12

E o fim!


Parte III
Maria Amália saiu para mais uma ida semanal ao cinema. Assim que fechou a porta de casa, preparando-se para enfiar os head-phones nos ouvidos, deu um encontrão no homem que salvou o Tito.
Estava novamente de passagem pela rua. Que coincidência!
(Maria Amália lembra-se que havia uma frase num filme que dizia não haver coincidências.)
- O Tito está melhor?
- Está bem, Obrigado!
- Posso perguntar-lhe onde vai?
- Como?
- Sim. Onde vai?
- Ao cinema. Sozinha.
Não foi por acaso que Maria Amália disse que ia ao cinema sozinha. Já tinha lido num Livro de auto-ajuda, que se uma mulher se mostrar disponível para o outro, é muito mais simples conseguir um convite, um primeiro encontro. Usando a táctica do Livro Estar Sozinha Nunca é Para Sempre, esperou pelo resultado.
- Posso ir também?
- Não sei se gosta do filme.
- Não é isso que agora importa.
Não é isso que agora importa.
Podia ser uma daquelas frases. Acrescentando-se: O que importa sou eu e tu.


Parte IV
Maria Amália está em casa, sentada no sofá a comer donuts do Minipreço fabricados com produtos sucedâneos. Está a ver um daqueles Programas de televisão para mulheres que estão em casa, onde se fala em crianças com alergias, receitas de compotas, maridos ausentes, casamentos falhados, frustrações e angústias. Os donuts consolam Maria Amália. O chocolate na cobertura e o açúcar da massa têm essa capacidade. Nada a tranquilizava mais do que o chocolate. Um calmante automático muitas vezes consumido em segredo e às escondidas, assim como um dependente, um fraco dependente. A dolorosa consciência de si própria que tentava apagar com comida, afogando as vozes interiores em bolo alimentar, agora sucedâneo.
O Tito canta lá fora. Não há vento.
A sessão é às 15h45. O filme é O Sentido da Vida.  
Maria Amália interrompe o estado sedativo dos donuts e pensa sobre o sentido da vida. Para o Tito o sentido da vida era cantar numa gaiola. Não seria um pássaro feliz, nem angustiado. Para si, adivinhava que o sentido da vida talvez fosse qualquer coisa pela qual faça sentido estar vivo e ter o gosto pela vida. Mesmo que essa vida seja estar sentada 7 horas por dia à janela a fazer crochet ou dentro de uma gaiola a cantar. Descobriu que, afinal, ainda lhe faltava descobrir o sentido da vida, antes de deixar de a viver. Talvez não fosse má ideia partir nessa busca, de uma consciência tranquila sem ser afogada em comida ou em vozes estranhas. Talvez começar a ouvir as vozes estranhas. Pensou que era verdadeiramente excitante ser alguém que ainda não tinha pensado no sentido da vida e estar a descobri-lo pela primeira vez parecia-lhe um renascimento. Sempre pensou um dia em escrever os diálogos dos filmes que consumia como os donuts do Minipreço. Seria esse o primeiro passo para o sentido da sua vida: tentar começar a escrever aqueles diálogos.
A fotografia da Serrra da Estrela foi descolada do vidro e posta no lixo  
Olhou para as pontas dos dedos cheios de chocolate.
O sentido da vida não é uma fantasia, é uma vivência presente. Como o canário que canta, a vizinha que faz costura, o seu corpo que é obeso, o cinema que é confortável e escuro.
Deitou fora a caixa dos donuts. Lavou as mãos. Vestiu o casaco. Saiu.
Sabia que primeiro ele devia segurar-lhe a cara entre as mãos, afagando-lhe o cabelo enquanto a beijava serenamente, sem pressas. Seria assim o primeiro beijo do Ricardo e da Maria Amália, numa sala de cinema às 15h45 daquela tarde.

1 comentário:

Anónimo disse...

Gosto dum final feliz!