14.6.12

Das coisinhas da vida #7

Dos irmãos e das irmãs.


Eu tenho um irmão mais velho. Somos um casalinho, é verdade.
Aqui estamos os dois, num Verão dos anos 80 em Cascais, na casa dos nossos Pais.
O meu quarto ficava numa ponta e o dele noutra, entre nós havia um corredor. Como a alcatifa do quarto (sim, nesse tempo usava-se alcatifa) era de cor diferente da do corredor, costumávamos dizer: "Se pisas a minha alcatifa estás lixado(a)!". O banco de trás do carro era um campo de batalha, as nossas brincadeiras passavam pelos muitos insultos, tinhamos discussões típicas de miúdos.
Como todos os irmãos, tanto nos insultávamos como seriamos os primeiros a ir correr a salvar o outro. Comecei a sair à noite com o meu irmão e os amigos dele, e ele vinha comigo e com as minhas amigas. Foi com ele que aprendi a gravar cassetes, a gostar de comprar discos e a ir ao cinema.
Os anos foram passando e nós fomos crescendo. 
Os irmãos continuam a ser "os irmãos", mesmo já adultos, cada um em sua casa, com a sua vida. Por muito anos que passem, não se deixa de ser o irmão com quem se fazia colecções de cromos ou se comia a mousse de chocolate às escondidas.  
Ou seja, por muito que a vida nos leve a destinos tão diferentes ou distantes, há uma ligação que fica para o resto dos nossos dias.
Há piadas com que só os irmãos se riem e o resto fica sem perceber a graça, pequenos gestos, frases, memórias da vivência em conjunto que ficam para toda a vida e só os irmãos sabem o seu significado.
Os irmãos são os primeiros a ser criticados pelos seus próprios irmãos e os últimos a quem admitimos uma crítica de alguém. Ninguém pode falar mal dos irmãos, só os irmãos!
Há literalmente um pacto de sangue entre eles, seja onde for, aconteça o que acontecer são um por todos e todos por um.
É claro que há irmãos que se odeiam de morte, e que já em idade adulta não se podem nem ver, por circunstâncias da vida ou momentos em que as pessoas agiram de forma incorrecta e se tornaram más, magoando o outro.
Eu aqui refiro-me aos irmãos que mesmo em adultos, andando às turras, são os primeiros a descodificar a nossa cabeça, a perceber o que estamos a sentir, a dizer o que mais ninguém teve a coragem de dizer, a dar uma "chapada" quando é preciso e um abraço do orgulho de irmão quando é sentido.
Daí que, e fazendo um apelo aos Pais ainda em idade jovem, dêem um irmão ao vosso filho único. Julgo ser o melhor presente que se pode dar a um filho. É uma parte de vida que não nos pertence mas que faz parte de nós, que nos confirma e completa, que nos  protege e perdoa sempre.
São os outros olhos de nós próprios, é um outro coração que partilhou o ventre da mesma Mãe, o sangue do mesmo Pai, ou o amor genuíno de uma mesma família.


3 comentários:

João disse...

E quando a batalha era no corredor, na hora de deitar, o nosso maior medo era que o pai ouvisse e viesse zangado pôr-nos em sentido!!
Essa fotografia é mitica!!! O fotógrafo residente tinha "olho"....
Obrigado mana....

Anónimo disse...

Como era? Tudo arrumado lápis por lápis...............Sempre.

Anónimo disse...

Coisinhas da vida que são muito importantes , que nos acompanham até ao fim da velhice.Isso é que é.