4.6.12

Conversas do Divã #4


O que nos move.

Nada me parece ser mais complicado, do que falar sobre a motivação. Por que é coisa tão simples. Será?
Quando me questiono sobre o que me move, parece-me fácil responder. Mas não é.
É um clichézinho da vida, pois a todos assiste a capacidade de se ser motivado, ou motivador, mas depois não sabemos o que fazer com isso, nem para que serve.
É o que se passa comigo.

Se me move a escrita, se gosto de escrever, por que não termino de uma vez por todas com a malograda-sempre-a-última-que-depois-acaba-mesmo-revisão-do-meu-primeiro-Romance? por que não começo de uma vez por todas com o meu novo-sempre-com-vontade-de-o-escrever-mas-nunca-é-aquela-altura-e-quando-é-tenho-de-ir-fazer-uma-sopa-segundo-Romance?
Eu sei que há coisas que me motivam, que me movem. Sei e digo afirmativamente que o que me move é a minha própria existência no mundo e sentir-me parte dele. Ouvir as andorinhas ao final do dia, ver a roupa estendida nas varandas e os canários nas gaiolas, a melancolia do Tejo em dias cinzentos de chuva miudinha, o cheiro de uma memória africana, o meu amor pelo meu marido, haja o que houver, aconteça o que acontecer, conhecer a amizade verdadeira que não cobra, não julga, não se intromete. O meu cão a correr pela praia com uma bola de ténis na boca, um tacho de panela de zinco com colher ao lume, o bailarico do Arraial, o cheiro das sardinhas, os sinos da Igreja, as escadinhas e os becos calcetados de povo e de vida. A sala ampla no final da tarde, de janelas abertas e arejadas, o chão de linóleo branco, as paredes forradas de espelho, as barras pregadas em madeira escura pregadas, a música e o exercício, as minhas sapatilhas a empurrar o chão.
Mas será que chega?
Entra uma joaninha pela janela e aterra na minha secretária. Isto move-me. E deixa-me tranquila, a passo com o mundo, com o sentido que a vida me tem – seja ele qual for.
E se um dia já não servir?
Quando chegar a essa altura, logo vejo o que faço com aquilo que sinto.

Há uma frase linda, perfeita que ouvi da boca de uma personagem do Downton Abbey:  "I'll cross that bridge when I get to it"

Talvez a motivação chegue enquanto aguardamos pela travessia.
Acho sempre mais sensato ouvir no silêncio, do que falar no barulho.


Nota: foto de escultura da exposição "ZITMAN em Lisboa", até 28 de Junho no Palácio Quintela (Rua do Alecrim, 70 www.iade.pt)

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