8.6.12

Começar e Acabar

É importante como os dias começam e acabam.

Dão-me a forma e o feitio do meu corpo, pela maneira como inicio e termino os meus dias. Servem de balança para sentir o peso dos ossos e dos sentimentos.
Se começamos bem, se acabamos mal.

Todos os meus dias começam da mesma maneira: com um passeio canino matinal. Eu faço o passeio da manhã, o meu marido o da noite. Sempre. A tarde divide-se, no passeio do Flash.
O passeio do xixi, cocó. Nada de especial, todos os dias são iguais. Dois sacos pretos de plástico, a trela, a chave de casa, eu e ele rua acima, rua abaixo.
Nos entretantos há outros donos de cães, que se chamam " o dono do/a..." , a dona do Mickey, o dono da Google, o da Alice, o do Kiko, a da Dark, a da Skin, e por aí fora.
Eu, na rua, e para o mundo dos cães, não sou a Rita, eu sou a dona do Flash.
Dizia eu, que uma destas manhãs, encontrei-me com a dona da Jade. Uma cadela boxer. Cumprimento geral ao dono e ao cão, pequena pausa para eles (os cães) brincarem um bocado.
A dona da Jade fala-me da dona do Mac, um labrador preto, muito parecido com o Flash, que chegam mesmo a ser confundidos um com o outro.
"Já sabe?" - disse-me ela.
Não! - respondi eu
A dona do Mac, nossa vizinha da rua do lado, tinha tentado o suicídio na noite anterior. Isto não é conversa, tipo o "Casos de Polícia", é mesmo a sério.
O marido tinha saído de casa, separaram-se, ela ficou com uma depressão. Certa noite encheu-se de remédios, mas depois, não se sabe como, foi a tempo de pedir ajuda. Veio o INEM, alvoroço na rua, partiram a janela da sala, num 1º andar, entraram em casa e deram com ela insconsciente e o Mac deitado ao seu lado.
Pronto, até logo.
Despedimo-nos.
Dou meia volta e sem ter qualquer controlo sobre mim, vão-me rolando lágrimas pela cara abaixo. Pensei no sofrimento daquela mulher, tão perto de toda a gente e tão sozinha, sentindo uma tamanha dor que a fez querer acabar com a sua vida. E o Mac, o seu cão, labrador preto, sempre ao seu lado.
A dona do Mac foi para casa de uns familiares e está bem. As janelas de casa estão fechadas, o vidro continua partido. Ela chama-se Maria.

E assim começou o meu dia.

Nessas mesmas 24 horas, saio na Estação de Metro do Chiado, onde acabam muitos dos meus dias, num regresso a casa pelo final da tarde.
Determinada, subo as escadas, as mesmas de sempre. Aquelas que têm sempre o mesmo velho a pedir esmola, o mesmo a quem eu sempre olho. Mas ele nunca me olha, nunca estende a mão. (já escrevi sobre ele aqui).
Foi quando estava a preparar-me para vê-lo no mesmo degrau, com a mesma cara, que me deparo com a sua ausência. Afinal, não estava lá sentado. Estava de pé. E estava a conversar. E ria-se, ria-se sem dentes na boca como uma guitarra sem cordas, mas que ainda se lembra das notas.
Estava a conversar com o segurança da Estação do Metro e parecia contente.
Vi-o pela primeira vez em pé, um homem que eu achava que toda a vida tinha estado sentado e calado a pedir esmola e que nem saberia usar a boca para nada. Afinal sorria. E falava. E tê-lo visto no final da tarde, fez-me sorrir automaticamente. Assim como lembrar-me de como tinha começado o meu dia.
E assim, diz o povo e digo eu:

Tudo fica bem quando acaba bem  - All's well that ends well - Tout est bien qui finit bien

2 comentários:

Anónimo disse...

E dizem que o melhor que se pode arranjar é viver num país onde o sol brilha.Viva o sol.

Anónimo disse...

Adorei a imagem da boca sem dentes como uma guitarra sem cordas!

G E N I A L