um dia

Acordou.
São seis da manhã.
Mais cedo, mas o costume: em modo "controlo remoto" vou até á cozinha, encho os 300ml, 10 colheres de pó, tetina, rosca, tampa, agitar, agitar.
Entro no quarto, ponho-lhe o biberão nas mãos e ele em menos de 5 minutos despacha a coisa, enquanto mudo a fralda.
Meto-o na cama.
Não quis adormecer.
Irrita-se, chama-me, chora.
São sete da manhã.
Não quer dormir.
Meto-o na minha cama, pode ser que resulte.
Nada disso. Queremos festa e estamos rabugentos.
Tomo banho com ele dentro da casa de banho, a olhar para mim, por baixo da cortina do duche. Sem querer espeto-lhe com o duche na cara, entre tentar lavar os pés e evitar escorregar nas embalagens de shampoo, amaciador e gel de banho que ele entretanto despejou para dentro da banheira.
Vou secá-lo e visto-o, de roupão e descalça.
Não sei o que visto, não sei que horas são. Meto-o no carrinho e vou até à creche.
Regresso a casa.
Começa a outra parte: passear o Flash e arrumar o caos da faixa de gaza num corredor com pouco mais de 8 metros de comprimento.
Feito.
Saio para Lisboa. Esqueço-me de metade das coisas, volto a subir as escadas.
Apanho o comboio. Apanho o metro.
A meio do metro, começo a chorar - o livro que estou a ler, para o book club, deixa-me completamente furiosa, revoltada, triste de uma tristeza profunda, "então matam-no?!?!?, mas como?!?!".
Entretanto recebo um telefonema da creche, o M. entrou!
Há meses que estou à espera desta notícia, tudo o que queria era passar um verão tranquila com o assunto, e consegui onde queria: ao lado de casa (para ir a pé), Santa Casa, óptimas referências.
Muito feliz afinal, mas ainda a pensar no outro que morreu.
Almoço e tarde de trabalho Lifestories com a minha sócia - telefonemas, fornecedores, designers, artes finais, e ainda uma proposta para um novo cliente.
Ligam da creche. Da outra, onde o M. está agora.
Acordou da sesta com febre.
Tenho de sair, apanhar metro e comboio.
A minha Mãe/Avó avança para o local.
Chego a casa, começa logo a chorar mal me vê e cola-se às minhas pernas.
Passamos o resto da tarde a desarrumar tudo o que tinha arrumado de manhã e ainda mais, incluindo escritório (ele já sabe abrir gavetas e usar blocos e post-its).
Preparo o jantar. Dou-lhe o jantar.
Há um cão no meio disto que precisa de ir à rua. (Há um Pai/Avô que me vale)
Há um frigorífico vazio, também.
Há a hora do banho.
A versão mais recente é atirar com tudo o que está dentro da banheira, ensopado portanto, para fora da banheira. No final, parece que estive a dar banho ao Flash.
Deito-o.
Ao M.
O Flash evita estes cenários, até para ele é muito.
Aproveito o M. estar a dormir e vou ao Jumbo. São nove da noite.
Volto a casa e janto.
Arrumo as compras.
Vejo um olho de televisão, guardo o outro para a leitura à hora da cama e antes disso ainda aqui venho escrever este dia que me pareceu o mais longo do ano.
Mas mesmo assim, no meio dos corredores do Jumbo, aquela hora, vejo uma outra Mãe a empurrar um carrinho de gémeos e penso: "Vá, não te queixes que podia ser bem pior... mas e o outro que morreu, raios."
 
 
 
 

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