6.6.14

o poder do gesto

 
 
Estive uns dias por Berlim.
Visitei um amigo, o meu mestre. O meu poeta.
Ele vive em Berlim há tempo suficiente para falar alemão e confundir-se entre os berlinenses. Eu apenas o segui durante quatro dias, deixando-o que me conduzisse numa dança muito descontraída e serena, sob uma cidade que ainda se me tornou mais fascinante.
É toda ela o resultado de imensas crises, batalhas, conflitos, guerras... Por isso não é uma cidade fácil. E por isso é, para quem a souber ouvir, uma cidade que desbloqueia tudo o que estiver bloqueado.
O Pedro avisou-me: vai pensando e falando alto, enquanto andas de bicicleta ou vais no metro. Conversa com ela.
Eu, que sou uma boca sem fecho e um coração mais aberto do que uma janela com corrente de ar, usei e abusei desse conselho.
Não só não tive um minuto de descanso, como ainda, nos meus silêncios, conversava com Berlim.
E tudo se confirmou e se me apresentou no último dia de passeio.
Fomos ao Memorial do Muro, construído no local por onde passava, e que por isso dividiu casas ao meio. O muro passava pela cozinha de uma casa, suponhamos.
Dividiu casas, famílias, casais, amantes, pais e filhos, irmãos, primos e amigos que tinham de tomar a opção: de que lado queriam ficar.
A imagem do muro, agora em jeito de uma linha sobre o chão, ou em estacas de ferro (como se vê), está sempre presente, atravessa estradas, passadeiras, passeios; desde que saí do metro, até chegar ao local, vou passando pelas linhas (1961-1989) que me dão noção de uma fronteira invisível, mas tão real e angustiante.
Houve casamentos de um lado, e os convidados do outro, nascimentos de bebés de um lado, e a família do outro, irmãos separados, festas de anos cortadas ao meio, Natal a metade, enterros incompletos.
O que o muro cortou, foi para mim numa metáfora tão evidente, muito mais do que uma cidade ou uma ideologia política. Cortou vidas ao meio. As pessoas viveram em metade.
E isso fez-me doer o coração.
E tudo se desfez em lágrimas quando me apercebi do poder que um gesto pode ter, quando já nada ou quase nada existe, quando tudo se separou, quando não há telefones, quando as cartas são interceptadas, quando não há forma de se comunicar com quem se ama: dizer adeus era tudo o que restava. Subir a um escadote e acenar.
No limite, era o que ainda lhes era permitido: passar pelo muro e dizer adeus.
Partilhar um gesto tão simples e tão cheio de significado.
Só pensei que hoje, com tantas ferramentas que temos e que nos facilitam a vida ao máximo para comunicar uns com os outros, sentados numa cadeira e para qualquer parte do mundo, muitos esquecem do poder de um gesto.
Que fazê-lo, nem que seja dizer adeus, vale 20 mil facebooks e 10 mil instagrans.
É por isso que cada vez mais acredito no poder do amor e de que nada nos é impedido - basta querer, ter vontade de subir ao escadote e não ter medo.



1 comentário:

macaca grava-por-cima disse...

e o poder das palavras? das tuas palavraS? agora fiquei com vontade de conhecer Berlim! bjs