19.3.13

as pedras da calçada...


 
O Martim nasceu no dia de anos do meu querido Avô.
O meu querido Avô, a quem eu escrevi esta carta, no dia 1 de Fevereiro de 2011, poucas horas depois de ter sabido que tinha morrido em Lisboa. E eu a 9 mil kms de distância dele, em Moçambique.
Foi uma dor horrível sentir-me tão longe. E então acreditei que talvez os pássaros, que eu adorava observar no Ibo, pudessem ser a minha ligação com ele.
Mas foi o meu filho que me ligou a ele, acertando na sua data de nascimento, 93 anos depois.
É verdade que foi um parto induzido, não era suposto nascer, mas o líquido amiótico escasseava e até acabou por nascer com duas voltas do cordão umbilical no pescoço (eu nasci com uma!).
Estive quase 30 horas deitada, sozinha, numa singela Enfermaria, à espera de ter contracções... Fui visitada e observada por médicos, enfermeiras e alunos da Faculdade de Medicina. O tempo passando. A noite chegou e caíu uma chuva horrível em Lisboa. Muito trovoada. Nessa altura já estava meia sedada pelas dores ligeiras de umas primeiras contracções e lembro-me de estar muito quieta na cama, a ouvir a chuva e os trovões, e de me levar para África. Até comentei com o enfermeiro que apareceu a meio da noite: "Eu antes tinha medo da trovoada, mas agora já não tenho...".
Ele riu-se. Eu também e adormeci.
Na manhã seguinte foi tudo muito rápido, contracções, dores, epidural, águas a rebentar, mais médicos, mais estudantes, passagem à sala de partos, choros de bebés à esquerda e à direita.
Chegava a minha vez!
Ele nasceu perfeitinho e a berrar e eu logo pedi para o colocarem no meu colo, assim mesmo, sujo, cheio de coisas agarradas, besuntado numa cera branca, molhado, como um bezerrinho quando nasce no meio do campo.
Nesse mesmo segundo calou-se e eu explodi de lágrimas.
Afinal tudo é verdade. Ele existe e está aqui!
Sentir o quente da pele contra a minha e a sua respiração, foi talvez a sensação mais mágica que tive na minha vida.
À saída da Maternidade, 48 horas depois, enchi o peito de ar, fechei os olhos pelo rasgo de sol e aceitei com todas as graças este filho que me nasceu.
Chorei muito de alegria, uma alegria descontrolada, sem nexo. Nunca chorei tanto de alegria.
Nunca julguei ser possível gostar tanto de um ser com tão poucas horas e dias de vida.
Ninguém me disse que era assim tão bom, tão enorme.
E todos os dias são os dias do meu filho no mundo. Não é uma 3ªfeira, é o 11º dia do Martim.
E assim, passei as pedras da calçada. Fi-las uma por uma. Durante anos.
Agora voltei da minha viagem, em que finalmente chego ao destino.
O caminho será outro. Duro também, cheio de buracos, mas tenho sangue novo e olhos de outra vida. Tenho oxigénio que chegue por dois.
Estou plenamente no meu papel.
Ser Mãe.




2 comentários:

macaca grava-por-cima disse...

E que belo regresso às palavras Rita!!! A matemática das datas tb me pregou uma partida no nascimento do M... mas depois nós passamos a iludir os dias com uma matemática que é só nossa... e que é tão boa! bjs

Anónimo disse...

Que bem... tudo.Fico sem palavras.